Publicado em 13 de setembro 2006
Atualizado em 22 de dezembro 2008





Óptica de Precisão
Capacidade de pesquisa e desenvolvimento da Opto se amplia para superar restrição à compra de componentes do programa espacial

Janaína Simões

Duas câmeras do novo satélite da série CBERS, que Brasil e China constroem juntos; dois novos equipamentos oftalmológicos para tratamento de doenças da retina e da córnea, que esperam autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercialização; uma nova linha de produção de lentes; e a captação de recursos junto a fundos de capital de risco na Austrália e nos Estados Unidos. De 2006 até agora, muita coisa aconteceu na vida da Opto Eletrônica, a ex-pequena que inova de São Carlos (SP) que escolheu a óptica de precisão como nicho de mercado. A valorização do real e a concorrência dos chineses fizeram a Opto perder a liderança mundial e brasileira em refletores odontológicos, produto que criou as bases do crescimento da empresa. Mas isso não abalou a Opto, que tem 50 produtos, várias novidades em seu portfolio e novos projetos de P&D — custeados com recursos próprios e com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). No programa PIPE, uma subsidiária da empresa submeteu um projeto para desenvolvimento de mais um tipo de laser e espera pela resposta da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

As câmeras

Em 2004, a Opto ganhou a concorrência feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para o desenvolvimento de câmeras que vão equipar os próximos satélites sino-brasileiros de sensoriamento remoto — o CBERS-3, atualmente em construção, e o CBERS-4. A China fabricou as câmeras do CBERS-1 e do CBERS-2. Mas das quatro que vão equipar o terceiro e o quarto satélites, duas ficaram a cargo do Brasil. A Opto está desenvolvendo sozinha — e depois vai fabricar — a câmera chamada "MUX", ou multiespectral. Com outra empresa fornecedora do projeto do satélite — a Equatorial —, participa do desenvolvimento da segunda câmera, chamada "WFI" (sigla em inglês para wide field imager, ou imageador de amplo campo de visada). Nesta última, a Opto responde pelas partes óptica, eletrônica e mecânica. A resolução espacial da primeira é de 20 metros — quer dizer, ela mostrará com definição quadrados com 20 metros de aresta. Com ela, o INPE poderá dizer, quando o CBERS-3 estiver em órbita, em que terreno está ocorrendo desmatamento na Amazônia; ou o lugar de um loteamento clandestino em São Paulo. A outra câmera tem o objetivo de ver áreas maiores: quadrados do solo de 82 metros de lado. Os primeiros modelos de ambas devem ser embarcados hoje (22 de setembro) para a China.

Construir câmeras que devem funcionar por muito tempo no espaço é tarefa difícil. Elas devem ser capazes, por exemplo, de suportar temperaturas muito altas e muito baixas. Também a luz solar incidindo nas lentes é um problema. Além desses desafios, a Opto — e o projeto CBERS — enfrentou outro: as restrições de importação impostas pelos EUA. Quando se trata de tecnologias que considera sensíveis — como são muitas das necessárias para a área espacial —, o governo norte-americano classifica os países em graus de proibição de exportação e enumera quais componentes devem ter a exportação restringida ou impedida. De acordo com uma norma interna, a ITAR — International Traffic in Arms Regulations —, as empresas dos EUA que atuam em setores sensíveis devem pedir a seus compradores no exterior para assinar a "bomb letter", em que eles se comprometem a não dar a esses produtos nenhuma destinação que os EUA não aprovariam, como a fabricação de bombas. A suspeição sobre a China, principalmente, obriga as fornecedoras de tecnologias cobertas pela ITAR a não vender componentes para o CBERS. Isso atrasou a construção e o lançamento do CBERS-3, que estava previsto para 2008.

"Tivemos de mudar o projeto para poder usar componentes europeus", conta Mario Stefani, diretor de P&D da Opto. As dificuldades, contudo, acabaram levando a empresa para outro patamar. "Estamos indo mais a fundo nos problemas e ficando mais independentes. Quando fazemos desenvolvimentos complexos como esses, há um ganho importante de conhecimento para nossa equipe, e são essas as pessoas que desenvolverão produtos de nossas outras linhas, como para a divisão médico-oftalmológica", acrescenta. A Opto busca, agora, um modelo de produto que chama de "ITAR-free", ou seja, que não está sujeito às restrições impostas pelos norte-americanos, pois pode ser montado com componentes desenvolvidos aqui ou importados de outros países que não os EUA.

As restrições também fizeram a Opto adquirir equipamentos que sofisticaram sua estrutura física para P&D. "Essa é uma grande sacada dos norte-americanos. A participação das empresas em projetos do setor espacial nos EUA permite o acesso a equipamentos que a indústria não teria em circunstâncias normais", afirma Stefani. Como recebem financiamento do governo norte-americano, as empresas conseguem adquirir os sofisticados equipamentos de que necessitam para atender às exigências de inovação dos produtos a ser enviados para o espaço. Alguns concorrentes da Opto no mundo dão saltos de competitividade muito rapidamente por participar dos programas espaciais de seus países.

O modelo da câmera MUX enviado recentemente para a China é o chamado modelo de engenharia, no qual se testa a integração e o funcionamento dos subsistemas. O modelo de qualificação do satélite, para testes em situações semelhantes às do ambiente espacial, deve ser enviado em 2009. Nesse modelo, a preocupação será verificar o funcionamento dos materiais em condições de calor excessivo, aumento de pressão, vibração, transporte por foguete etc. A entrega do modelo de vôo, que será embarcado no CBERS-3 e enviado ao espaço, deverá ocorrer em março de 2010, um mês antes da data prevista para o lançamento do satélite. Ele também passará por testes, mas já estará pronto para o vôo.

Novos produtos, projetos concluídos e em andamento

O desenvolvimento de um tomógrafo de coerência óptica, subvencionado pela Finep, é uma das grandes novas apostas da Opto. Esse equipamento é inovador porque utiliza um laser especial para que os médicos enxerguem o fundo do olho, levantando todas as camadas existentes na retina. Há apenas cinco fabricantes desse equipamento no mundo: três nos EUA, um na Alemanha e um no Japão. Cada equipamento custa, em média, US$ 120 mil. "É um produto que abrirá uma nova família de equipamentos da Opto, pois envolve tecnologias com grande leque de aplicações, como tratamento de câncer de pele, doenças da córnea e outros", destaca Stefani.

Outro produto novo é o XLink. Com ele, diz a empresa, os médicos poderão recuperar a córnea de pessoas que sofrem de ceracotone. Essa doença caracteriza-se por um afinamento progressivo da porção central da córnea, o que reduz a acuidade visual do paciente; em alguns casos, é preciso fazer transplante de córnea. Apesar de ter lançado o XLink há cinco meses, a Opto ainda não o colocou no mercado, pois aguarda a autorização da Anvisa para a comercialização. A empresa fez o pedido à agência em fevereiro deste ano.

Um laser verde para tratamento de retina também aguarda a liberação da Anvisa, solicitada em abril passado. A cor do laser está relacionada ao comprimento de onda dele. A maioria dos equipamentos existentes no mercado trabalha com o infravermelho, comprimento de onda que obriga o médico a usar mais potência para conseguir tratar a retina, causando maior desconforto para o paciente. O laser verde provoca menos dor e auxilia na recuperação do tratamento. O projeto foi tocado com empréstimo da Finep.

Outra tecnologia promissora, mas ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento, é o sistema infravermelho de visão noturna para a área de defesa. No final de 2007, a Opto recebeu aprovação no segundo edital do programa Subvenção Econômica para esse trabalho, que está sendo feito em parceria com o Exército brasileiro. A tecnologia também poderá ter aplicação civil, como em dermatologia e oftalmologia. O primeiro protótipo deve ser entregue em abril de 2009.

A empresa já concluiu outro projeto com subvenção da Finep, relacionado ao satélite Amazônia-1, a ser construído no Brasil para monitorar o meio ambiente e apoiar as políticas de planejamento de gestão de recursos naturais. A Opto fez o projeto preliminar de uma das câmeras a ser embarcadas no satélite.

Além disso, a empresa está produzindo desde julho de 2007 as chamadas lentes anesféricas, que dão mais precisão e melhor preço para os retinógrafos — usados para o exame da retina por oftalmologistas — fabricados pela Opto. Para essa inovação, a empresa obteve R$ 6,7 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo Stefani, esse financiamento já começou a ser pago pela Opto. A equipe de produção recebeu treinamento na Alemanha, e uma nova área de produção foi construída dentro da companhia para produzir as lentes.

Para dar todos esses saltos, a empresa se internacionalizou. Além de montar um escritório nos Estados Unidos e de possuir uma divisão em São Paulo para cuidar do mercado latino-americano, ela fundou a Opto-Global, resultado de uma parceria com a empresa australiana EyeP Pty Ltd, para distribuir os produtos da Divisão Médica Oftamológica da Opto nos mercados dos Estados Unidos, Europa e Ásia.

Em 2006, a empresa falou a Inovação sobre o plano de lançar ações em bolsa na Austrália para captar US$ 100 milhões. Contudo, a Opto acabou captando recursos por outra via: recebeu investimento de dois fundos de venture capital, um norte-americano e um australiano.