Óptica
de Precisão
Capacidade de pesquisa e desenvolvimento
da Opto se amplia para superar restrição à compra
de componentes do programa espacial Janaína
Simões
Duas câmeras
do novo satélite da série CBERS,
que Brasil e China constroem juntos; dois novos
equipamentos oftalmológicos para tratamento
de doenças da retina e da córnea,
que esperam autorização da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) para comercialização; uma
nova linha de produção de lentes;
e a captação de recursos junto a
fundos de capital de risco na Austrália
e nos Estados Unidos. De 2006 até agora,
muita coisa aconteceu na vida da Opto Eletrônica,
a ex-pequena que inova de São Carlos (SP)
que escolheu a óptica de precisão
como nicho de mercado. A valorização
do real e a concorrência dos chineses fizeram
a Opto perder a liderança mundial e brasileira
em refletores odontológicos, produto que
criou as bases do crescimento da empresa. Mas
isso não abalou a Opto, que tem 50 produtos,
várias novidades em seu portfolio
e novos projetos de P&D — custeados
com recursos próprios e com recursos da
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência
de fomento do Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT). No programa PIPE, uma subsidiária
da empresa submeteu um projeto para desenvolvimento
de mais um tipo de laser e espera pela
resposta da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
As câmeras
Em 2004, a Opto
ganhou a concorrência feita pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para o
desenvolvimento de câmeras que vão
equipar os próximos satélites sino-brasileiros
de sensoriamento remoto — o CBERS-3, atualmente
em construção, e o CBERS-4. A China
fabricou as câmeras do CBERS-1 e do CBERS-2.
Mas das quatro que vão equipar o terceiro
e o quarto satélites, duas ficaram a cargo
do Brasil. A Opto está desenvolvendo sozinha
— e depois vai fabricar — a câmera
chamada "MUX", ou multiespectral. Com
outra empresa fornecedora do projeto do satélite
— a Equatorial —, participa do desenvolvimento
da segunda câmera, chamada "WFI"
(sigla em inglês para wide field imager,
ou imageador de amplo campo de visada). Nesta
última, a Opto responde pelas partes óptica,
eletrônica e mecânica. A resolução
espacial da primeira é de 20 metros —
quer dizer, ela mostrará com definição
quadrados com 20 metros de aresta. Com ela, o
INPE poderá dizer, quando o CBERS-3 estiver
em órbita, em que terreno está ocorrendo
desmatamento na Amazônia; ou o lugar de
um loteamento clandestino em São Paulo.
A outra câmera tem o objetivo de ver áreas
maiores: quadrados do solo de 82 metros de lado.
Os primeiros modelos de ambas devem ser embarcados
hoje
(22 de setembro) para a China.
Construir câmeras
que devem funcionar por muito tempo no espaço
é tarefa difícil. Elas devem ser
capazes, por exemplo, de suportar temperaturas
muito altas e muito baixas. Também a luz
solar incidindo nas lentes é um problema.
Além desses desafios, a Opto — e
o projeto CBERS — enfrentou outro: as restrições
de importação impostas pelos EUA.
Quando se trata de tecnologias que considera sensíveis
— como são muitas das necessárias
para a área espacial —, o governo
norte-americano classifica os países em
graus de proibição de exportação
e enumera quais componentes devem ter a exportação
restringida ou impedida. De acordo com uma norma
interna, a ITAR — International Traffic
in Arms Regulations —, as empresas dos EUA
que atuam em setores sensíveis devem pedir
a seus compradores no exterior para assinar a
"bomb letter", em que eles
se comprometem a não dar a esses produtos
nenhuma destinação que os EUA não
aprovariam, como a fabricação de
bombas. A suspeição sobre a China,
principalmente, obriga as fornecedoras de tecnologias
cobertas pela ITAR a não vender componentes
para o CBERS. Isso atrasou a construção
e o lançamento do CBERS-3, que estava previsto
para 2008.
"Tivemos
de mudar o projeto para poder usar componentes
europeus", conta Mario Stefani, diretor de
P&D da Opto. As dificuldades, contudo, acabaram
levando a empresa para outro patamar. "Estamos
indo mais a fundo nos problemas e ficando mais
independentes. Quando fazemos desenvolvimentos
complexos como esses, há um ganho importante
de conhecimento para nossa equipe, e são
essas as pessoas que desenvolverão produtos
de nossas outras linhas, como para a divisão
médico-oftalmológica", acrescenta.
A Opto busca, agora, um modelo de produto que
chama de "ITAR-free", ou seja,
que não está sujeito às restrições
impostas pelos norte-americanos, pois pode ser
montado com componentes desenvolvidos aqui ou
importados de outros países que não
os EUA.
As restrições
também fizeram a Opto adquirir equipamentos
que sofisticaram sua estrutura física para
P&D. "Essa é uma grande sacada
dos norte-americanos. A participação
das empresas em projetos do setor espacial nos
EUA permite o acesso a equipamentos que a indústria
não teria em circunstâncias normais",
afirma Stefani. Como recebem financiamento do
governo norte-americano, as empresas conseguem
adquirir os sofisticados equipamentos de que necessitam
para atender às exigências de inovação
dos produtos a ser enviados para o espaço.
Alguns concorrentes da Opto no mundo dão
saltos de competitividade muito rapidamente por
participar dos programas espaciais de seus países.
O modelo da câmera
MUX enviado recentemente para a China é
o chamado modelo de engenharia, no qual se testa
a integração e o funcionamento dos
subsistemas. O modelo de qualificação
do satélite, para testes em situações
semelhantes às do ambiente espacial, deve
ser enviado em 2009. Nesse modelo, a preocupação
será verificar o funcionamento dos materiais
em condições de calor excessivo,
aumento de pressão, vibração,
transporte por foguete etc. A entrega do modelo
de vôo, que será embarcado no CBERS-3
e enviado ao espaço, deverá ocorrer
em março de 2010, um mês antes da
data prevista para o lançamento do satélite.
Ele também passará por testes, mas
já estará pronto para o vôo.
Novos
produtos, projetos concluídos e em andamento
O desenvolvimento
de um tomógrafo de coerência óptica,
subvencionado pela Finep, é uma das grandes
novas apostas da Opto. Esse equipamento é
inovador porque utiliza um laser especial
para que os médicos enxerguem o fundo do
olho, levantando todas as camadas existentes na
retina. Há apenas cinco fabricantes desse
equipamento no mundo: três nos EUA, um na
Alemanha e um no Japão. Cada equipamento
custa, em média, US$ 120 mil. "É
um produto que abrirá uma nova família
de equipamentos da Opto, pois envolve tecnologias
com grande leque de aplicações,
como tratamento de câncer de pele, doenças
da córnea e outros", destaca Stefani.
Outro produto
novo é o XLink. Com ele, diz a empresa,
os médicos poderão recuperar a córnea
de pessoas que sofrem de ceracotone. Essa doença
caracteriza-se por um afinamento progressivo da
porção central da córnea,
o que reduz a acuidade visual do paciente; em
alguns casos, é preciso fazer transplante
de córnea. Apesar de ter lançado
o XLink há cinco meses, a Opto ainda não
o colocou no mercado, pois aguarda a autorização
da Anvisa para a comercialização.
A empresa fez o pedido à agência
em fevereiro deste ano.
Um laser
verde para tratamento de retina também
aguarda a liberação da Anvisa, solicitada
em abril passado. A cor do laser está
relacionada ao comprimento de onda dele. A maioria
dos equipamentos existentes no mercado trabalha
com o infravermelho, comprimento de onda que obriga
o médico a usar mais potência para
conseguir tratar a retina, causando maior desconforto
para o paciente. O laser verde provoca
menos dor e auxilia na recuperação
do tratamento. O projeto foi tocado com empréstimo
da Finep.
Outra tecnologia
promissora, mas ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento,
é o sistema infravermelho de visão
noturna para a área de defesa. No final
de 2007, a Opto recebeu aprovação
no segundo edital do programa Subvenção
Econômica para esse trabalho, que está
sendo feito em parceria com o Exército
brasileiro. A tecnologia também poderá
ter aplicação civil, como em dermatologia
e oftalmologia. O primeiro protótipo deve
ser entregue em abril de 2009.
A empresa já
concluiu outro projeto com subvenção
da Finep, relacionado ao satélite Amazônia-1,
a ser construído no Brasil para monitorar
o meio ambiente e apoiar as políticas de
planejamento de gestão de recursos naturais.
A Opto fez o projeto preliminar de uma das câmeras
a ser embarcadas no satélite.
Além disso,
a empresa está produzindo desde julho de
2007 as chamadas lentes anesféricas, que
dão mais precisão e melhor preço
para os retinógrafos — usados para
o exame da retina por oftalmologistas —
fabricados pela Opto. Para essa inovação,
a empresa obteve R$ 6,7 milhões junto ao
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES). Segundo Stefani, esse financiamento
já começou a ser pago pela Opto.
A equipe de produção recebeu treinamento
na Alemanha, e uma nova área de produção
foi construída dentro da companhia para
produzir as lentes.
Para dar todos
esses saltos, a empresa se internacionalizou.
Além de montar um escritório nos
Estados Unidos e de possuir uma divisão
em São Paulo para cuidar do mercado latino-americano,
ela fundou a Opto-Global, resultado de uma parceria
com a empresa australiana EyeP Pty Ltd, para distribuir
os produtos da Divisão Médica Oftamológica
da Opto nos mercados dos Estados Unidos, Europa
e Ásia.
Em 2006,
a empresa falou a Inovação
sobre o plano de lançar ações
em bolsa na Austrália para captar US$ 100
milhões. Contudo, a Opto acabou captando
recursos por outra via: recebeu investimento de
dois fundos de venture capital, um norte-americano
e um australiano.