Fungibras
Indústria e Comércio em Fungicultura Ltda.
Processo de produção
baseado em equipamento desenvolvido com
apoio do PIPE amplia mercado de empresa
de cultivo de cogumelos
Lívia
Komar
Quem vai ao restaurante
japonês e experimenta os deliciosos
fungos mergulhados no molho de soja, não
imagina de onde eles possam ter vindo.
E como não se trata mais dos tempos
em que o homem se alimentava do que acabara
de coletar — pelo menos nos restaurantes
—, a Fungibras Indústria
e Comércio em Fungicultura, empresa
produtora, é uma das possíveis
origens.
Quem adentra a empresa,
vê sua equipe rodeada por sacos
de serragens em uma sala climatizada,
a organizar o lote de matrizes de cogumelos
que serão entregues no dia seguinte.
Descalço, para não contaminar
o ambiente, um dos sócios, o engenheiro
agrônomo Guilherme Castilho Da Eira,
orienta dois funcionários do laboratório
sobre como será a armazenagem do
principal produto: o substrato com micélios
para cultivo esterilizado de diversas
espécies de cogumelos.
Micélio é
o nome do talo retirado do "chapéu"
do cogumelo, a partir do qual o fungo
se multiplica; o substrato, uma mistura
de serragem, farelos, calcário
e água, que forma o ambiente propício
para sua proliferação. Dependendo
da encomenda, varia a espécie dos
micélios que o laboratório
da Fungibras implanta no substrato. Os
mais procurados são os alimentares,
como shimeji, shiitake
ou champignon. Mas há
quem queira cultivar cogumelos medicinais
— que a Fungibras também
oferece.
A indústria atua
desde 2003 no mercado e está localizada
às margens da rodovia Marechal
Rondon, no Distrito Industrial de Botucatu,
a 235 quilômetros de São
Paulo. A região de Botucatu é
das mais prósperas do Brasil na
produção de cogumelos. O
Estado de São Paulo responde por
70% do volume desse cultivo. Mogi das
Cruzes, a 270 quilômetros de Botucatu,
é a maior produtora do País.
Botucatu não tem tanto destaque
nesse mercado, mas a empresa quer justamente
pegar o rastro das grandes da região,
como Mogi, Jaú e Sorocaba, fabricando
aquilo que pode ser chamado de berço
para a produção dos fungos
— sementes e substratos de cultivo.
O engenheiro agrônomo
Augusto Ferreira Da Eira, doutor em agrobiologia
agrícola, foi quem teve a idéia
de fundar a Fungibras. A empresa é
como uma extensão de seu trabalho
na área de microbiologia na Universidade
Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu,
onde militou como pesquisador no segmento
de fungicultura por 35 anos. Augusto uniu
sua longa experiência com os fungos
à carência em Botucatu de
uma empresa que produzisse os substratos.
A Fungibras vende o composto aos produtores
da região já com os micélios
introduzidos — que o engenheiro
agrônomo produz em laboratório
"sem nada de agrotóxico, podendo
ser considerado um produto orgânico",
diz. Para o produtor, o trabalho é
colocar a massa dentro de uma câmara
climatizada e esperar que brotem os cogumelos.
Guilherme e Frederico
Castilho Da Eira, filhos de Augusto, também
engenheiros agrônomos, assumiram
os trabalhos da empresa e colocam, literalmente,
a mão na massa. O processo de produção
de fungos na Fungibras é "axênico"
— quer dizer, livre de outros organismos,
por haver um processo de esterilização
do substrato, necessário para impedir
o aparecimento de pragas e doenças
no produto final. Essa metodologia difere
da técnica chamada in natura,
em que os micélios são "inoculados"
diretamente em troncos de madeira, ainda
muito comum em algumas regiões
do Brasil, inclusive na líder Mogi
das Cruzes. "Nas toras, a produção
do cogumelo pode demorar de seis meses
a um ano. Aqui, o processo é mais
controlado. Quando chega à idade
certa de maturação, o cogumelo
brota", explica Augusto.. Ele mostra
um saco do substrato amarronzado dentro
da sala de incubação. A
cor é sinal da maturação,
apenas 30 dias depois de iniciado o processo.
"Isso é importante para manter
o mercado. O comerciante quer receber
toda semana certa quantidade de quilos
do cogumelo. Se a produção
for 'quando Deus quiser', não se
pode manter o cliente. Nosso processo
é mais seguro", garante o
engenheiro agrônomo.
O fungo não
reina no Brasil
Os cogumelos chegaram
ao Brasil vindos de um dos maiores produtores,
a China. A iguaria chegou na década
de 1950, e os primeiros cultivos aconteceram
em Mogi das Cruzes. Mesmo rico em vitaminas,
proteínas e sais minerais, o produto
ainda não é tão apreciado
no Brasil.
No Reino Fungi, existem
catalogadas mais de 250 mil espécies;
delas, cerca de 2 mil são comestíveis.
A produção mundial de cogumelos
alcançou crescimento de 60% nos
últimos dez anos, segundo dados
da Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(Faostat, na sigla em inglês). Apesar
do aumento da produção mundial,
estimada em 3,19 milhões de toneladas
anuais, o Brasil continua na retaguarda
no consumo de cogumelos. Em 2004, estima-se
que o País tenha consumido 8 mil
toneladas. Há o fato de o cogumelo
ser considerado exótico; o estigma
de conter substâncias venenosas;
e, além de tudo, o preço.
"O cogumelo é caro porque
a produção é cara.
Investimento e custo de produção
são muito altos. Para se manter
no mercado, é preciso ter uma estrutura
razoável", elucida Guilherme;
ele acrescenta que o cultivo exige cuidados
peculiares relacionados ao clima. O preço
do quilo varia de R$ 8, no caso do champignon,
o mais difundido no País, até
R$ 17, no caso do shiitake e
do shimeji, muito utilizados
na culinária japonesa.
Na Companhia de Entrepostos
e Armazéns Gerais de São
Paulo (Ceagesp), no universo de centenas
de módulos e boxes para comercialização
de alimentos, não existe um único
exclusivo para a venda de cogumelos. Segundo
Alessandro França Paula, proprietário
do Granada Hortifruti, um dos distribuidores
do produto em São Paulo, a iguaria
representa cerca de 30% de suas vendas.
"Os maiores clientes são a
rede hoteleira e os restaurantes. A classe
média é a grande consumidora
de cogumelos no Brasil", afirma.
Em 2004, o PIPE
A Fungibras é
a única empresa a produzir o substrato
em Botucatu, mas enfrenta concorrência
de outras brasileiras. Todas as que utilizam
a metodologia do substrato trabalham com
autoclaves para esterilizar a massa onde
será injetado o micélio.
O processo é custoso e trabalhoso.
O substrato é colocado em pequenos
pacotes plásticos dentro da máquina
e submetido a altas temperaturas.
A empresa de Botucatu
também começou a produzir
seus substratos com autoclaves. No entanto,
os resultados das pesquisas de Augusto
apontaram um caminho mais fácil.
Ele projetou e criou o Esterilizador Homogeneizador,
uma máquina em formato de betoneira
— essas que a construção
civil usa para misturar cimento —
com aproximadamente 2,5 metros de altura.
O engenheiro mostra o Esterilizador Homogeneizador
no pátio da indústria, enquanto
enumera com orgulho todos os recursos
que desenvolveu e que aumentaram em dez
vezes a produção. A principal
vantagem em relação à
autoclave é a esterilização
dinâmica — não há
necessidade de ensacar o substrato. O
inventor explica: "Quando se fecha
a escotilha, entra água muito quente
para esquentar a máquina e o material.
O vapor utilizado para esterilizar é
gerado lá dentro. No dia seguinte,
é feita a inoculação.
Nenhuma outra empresa do Brasil possui
isso. Em outros países, existem
processos similares, mas não tão
eficientes", orgulha-se.
Segundo ele, a máquina,
que tem capacidade para 1,5 tonelada,
faz num dia o que a autoclave faria em
dez. "Ganhamos eficiência com
economia de tempo e pessoal", enfatiza.
O substrato sai do esterilizador por uma
porta ligada internamente a um dos três
laboratórios do prédio,
ambiente totalmente estéril que,
por causa da produção axênica,
tem de dispor de paredes isoladas, insuflador
de ar e sistema de refrigeração.
Para a concretização
do projeto do equipamento inovador, Augusto
solicitou financiamento à Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) em 2004,
um ano após a abertura da empresa.
Na primeira fase, com financiamento de
R$ 70 mil, tirou do papel o protótipo
do equipamento, a fim de testá-lo.
Os resultados positivos e promissores
levaram à apresentação
de um segundo projeto de pesquisa ao programa
que apóia as pequenas inovadoras.
A Fapesp aprovou a segunda fase do projeto,
que começou em 2005. Com R$ 280
mil, a Fungibras construiu a máquina
em escala plena, de 5,7 mil litros. O
financiamento custeou também materiais
de laboratório e cinco bolsistas,
e o projeto foi encerrado, com sucesso,
em setembro de 2007.
Repercussão
com patente
De uma indústria
que ficou incubada até setembro
de 2006 no Núcleo de Desenvolvimento
Empresarial de Botucatu, a Fungibras começa
a ganhar notoriedade no mercado. Dona
de uma área de 3 mil
metros quadrados, a empresa, que tem sete
funcionários (e terá nove,
em breve), inicia agora uma nova etapa,
a do patenteamento do Esterilizador Homogeneizador.
"A papelada já está
pronta para ser entregue ao Núcleo
de Patentes e Licenciamento de Tecnologia
(Nuplitec) da Fapesp. O que atrasou foram
adaptações após a
Fase II. Agora, a Fungibras poderá
patentear a máquina testada",
explica o pesquisador. Como argumento
para a concessão da patente, será
descrito o processo de esterilização
dinâmica, além da forma de
aquecimento do substrato, entre outros
diferenciais.
A Fungibras passa assim
a colher os frutos de seu trabalho de
pesquisa. Com a máquina em funcionamento
desde novembro de 2006, a indústria
ganhou mais dez clientes, de seu rol de
40. "São duas toneladas por
mês de shiitake e shimeji",
calcula Augusto.
"Mudamos atualmente
o foco para produção própria
de cogumelos, pois a rentabilidade é
bem maior que a do substrato. Nossas câmaras
novas de cultivo já absorvem 16
toneladas de substrato axênico por
mês, o que significa que atingimos
a metade da capacidade da máquina desenvolvida
no projeto do PIPE. Somente após
consolidarmos essas novas câmaras
de cultivo é que começaremos
o marketing para maximizar o
uso do equipamento."
Até agora, a família
Da Eira atribui suas conquistas ao boca
a boca — que tem disseminado sua
qualidade entre os produtores. O preço
está ajudando também. A
Fungibras cobra R$ 1,30 pelo
quilo do substrato axênico,
enquanto os grandes fabricantes o vendem
a R$ 1,40.