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Publicado em 27 de junho de 2008






Holovision Equipamentos Ópticos Ltda.

Lente que não deixa sensor disparar com bicho de estimação é
produto inovador desenvolvido por empresa de São Carlos, SP

Evanildo da Silveira

Novas lentes para sensores de sistemas de segurança monitorada e iluminação prometem não mais atrapalhar o sono — ou melhor, a vigília — dos porteiros durante a noite, quando o gato do vizinho decidir cruzar a entrada do condomínio.

Para isso, uma tecnologia específica vai diferenciar seres em movimento — pelo tamanho deles — com maior precisão. "Nosso objetivo é não permitir que animais de até 36 quilos disparem alarmes falsos", conta Giuseppe Cirino, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Holovision Equipamentos Ópticos, empresa de São Carlos (SP).

"No estágio atual da nossa tecnologia, o sensor não dispara quando animais de até 30 quilos passam por ele, mas a empresa quer que sua próxima lente deixe passar bichos de 36 quilos ou mais."

O novo equipamento, com previsão de lançamento breve, mas sem data marcada, poderá ser usado em condomínios, lojas, museus ou em qualquer edificação onde o uso de sensores seja necessário. Será comercializado no varejo de equipamentos de segurança e instalações elétricas.

Denominada pet immune — imune a animais de estimação —, a lente para sensores deverá se tornar líder de vendas até 2010, já que os únicos produtos comercializados no Brasil de desempenho semelhante são importados da Ásia e dos Estados Unidos (a US$ 120 cada, em média). A Holovision pretende, assim, conquistar 65% do mercado potencial nessa categoria (o equivalente a 150 mil unidades por ano, nos cálculos da empresa).

Para funcionar, um filtro óptico foi embutido nas lentes. Ele diferencia silhuetas de pequenos animais das de seres humanos. Os sensores convencionais importados operam eletronicamente — quer dizer, distinguem o grande do pequeno por meio de circuitos para processamento de sinais, como microcontroladores e microprocessadores.

"Em nosso sensor a informação não precisa ser processada eletronicamente; a própria lente faz grande parte do trabalho, ainda no domínio da óptica, entregando a informação já 'bem mastigada' ao circuito eletrônico. Desta forma, a complexidade do circuito se torna consideravelmente reduzida."

Cirino afirma ainda que os custos de produção da lente especial são os mesmos da convencional, já que a tecnologia óptica trata apenas de mudanças na geometria do produto.

Todo o desenvolvimento da lente foi financiado pelo PIPE, o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas inovadoras. O bem-sucedido projeto, iniciado em 2003, resultou em uma patente depositada pela Holovision em maio de 2007. Agora, a empresa quer mais apoio do PIPE para seu sensor: inscreveu-se na chamada para projetos em Fase III do programa, que financia a comercialização de produtos ou protótipos desenvolvidos com recursos da fundação. O resultado ainda não foi divulgado.

Bom negócio?

Dado não muito motivador aos que abominam a violência urbana, o mercado de segurança eletrônica movimenta mais de R$ 1 bilhão no País, crescendo em média 12% ao ano.

Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese), existem no Brasil cerca de 8 mil firmas atuantes nesse segmento, que geram 80 mil empregos diretos e cerca de 800 mil indiretos. "É um mercado muito amplo para os fabricantes de sensores", diz Selma Migliori, presidente da Abese. "E pelas tendências observadas, deve continuar crescendo. Ainda mais se for considerado que apenas 7% dos domicílios brasileiros são equipados com algum sistema de proteção eletrônica."

Segundo a presidente, estima-se que existam no País 430 mil imóveis protegidos por sistemas de alarmes monitorados. "Dependendo do tamanho do imóvel, das áreas protegidas, se ele conta ou não com sistema de proteção perimetral (barreiras de infravermelho que protegem o perímetro da área monitorada), cada sistema desses pode utilizar de 10 a 100 sensores de detecção de presença", explica.

"Entre os sistemas de proteção, incluem-se alarmes, circuitos fechados de TV, sistemas de controle de acesso, portas e portões automáticos, equipamentos de combate a incêndio, detecção de metais e explosivos, portas giratórias e eclusas, dispositivos de identificação por biometria e rastreamento de veículos e seres vivos."

Nesse cenário horrendo, os sensores pet immune desenvolvidos pela Holovision são uma inovação muito importante. "O alarme falso, acionado acidentalmente por animais de estimação, causa muitos problemas e não é desejado", diz Selma. "Além do mais, lentes especiais garantem maior precisão ao sistema de detecção de invasões e diminuem a possibilidade de falhas técnicas ou burlas ao sistema", completa.

O material

As lentes captam o calor que os corpos emitem e o concentram, aumentando sua intensidade — até o ponto de ser perceptível por um sensor interno ao dispositivo, que transforma a radiação em sinal elétrico. É esse sinal elétrico que dispara o alarme.

Outras empresas tentaram desenvolver um produto semelhante ao pet immune, mas sem sucesso. Cirino explica que a maior dificuldade está em chegar ao material de que é feita a lente do sensor, pois ela precisa ter a propriedade de captar apenas as radiações com comprimento de onda compatível com o calor emitido por uma pessoa — e não por pequenos animais.

As lentes usadas pela empresa, chamadas de lentes de Fresnel, são conhecidas desde o início do século XIX. Hoje, para fabricá-las, é preciso criar um modelo em computador. Em seguida, esse modelo é usado para fazer um molde em aço, que servirá para a produção das lentes em larga escala.

História de um sensor

A história que culminou no sensor pet immune começou em 2002, quando Cirino concluiu seu doutorado em óptica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

Nesse mesmo ano, ele solicitou um financiamento do PIPE para desenvolver um projeto na área de segurança eletrônica na empresa PPA (fabricante de sensores), situada em Garça, no interior de São Paulo. O projeto "Desenvolvimento de novos sensores infravermelhos de detecção de movimento para aplicações em segurança doméstica e corporativa", no valor de R$ 154 mil, foi aprovado em janeiro de 2003.

A Fase I foi realizada na PPA, e demonstrou — como é o objetivo dessa etapa do programa — a viabilidade técnica do projeto. "O trabalho foi feito com o apoio do Laboratório de Sistemas Integráveis da Poli e da terceirização para outras empresas de base tecnológica, sendo a LaserTools a principal delas", conta Cirino. "Na transição para a Fase II, surgiu a oportunidade de abrir minha própria empresa, prestando serviços à PPA." Atualmente, a Holovision desenvolve as lentes que serão usadas pela PPA na fabricação dos sensores.

De acordo com Cirino, a experiência de coordenar a Fase I do projeto lhe mostrou a viabilidade de abrir seu próprio negócio, fazer tecnologia no Brasil e viver disso. "Foi assim que nasceu a Holophotonics, em abril de 2005, e que, mais tarde, se tornaria Holovision", explica. "Eu e mais um sócio, o engenheiro Robson Barcellos, fundamos a empresa, sediada na incubadora ParqTec, em São Carlos. Logo depois recebemos aporte de capital de novos sócios e deixamos a incubadora apenas quatro meses depois de a empresa ter sido fundada."

O PIPE foi fundamental para o nascimento da empresa, pois financiou o projeto que deu início a tudo. "Toda a estruturação da Holophotonics e as possibilidades de novos negócios só foram possíveis por causa das receitas geradas pelo projeto do sensor pet immune", reconhece Cirino. "Sem o PIPE, ele não existiria e a empresa não teria nascido."

Outra linha de pesquisa e desenvolvimento

O projeto do sensor não é o único da empresa financiado pelo PIPE. Há outro, já na Fase II, no valor de R$ 120 mil, para o desenvolvimento de um produto denominado correlator óptico. Esse produto serve para checar se determinadas características de uma imagem — a imagem de uma linha de produção de comprimidos embalados em cartelas, por exemplo — estão alteradas ou não em relação a uma imagem padrão.

"Com o correlator monitorando a esteira em que as cartelas passam, é possível detectar uma com um ou mais comprimidos ausentes", explica Cirino. "Uma vez detectada a cartela fora da especificação, o correlator envia um comando eletrônico (para um braço de robô, por exemplo) que toma uma decisão (que pode ser remover a cartela da esteira)."

O aspecto inovador desse produto é seu baixo custo. Existem produtos análogos no mercado, mas baseados na chamada "visão de máquina". Eles capturam a imagem com uma câmera de vídeo e a processam eletronicamente com um computador.

"Em geral, esse processo é custoso no que diz respeito aos equipamentos e também ao esforço computacional", diz Cirino. "O produto por nós proposto processa a imagem no âmbito puramente óptico, o que proporciona baixo custo e velocidade, já que tudo funciona na velocidade da luz."

Sede modesta

A Holovision está instalada em uma sede ainda modesta. A empresa ocupa um prédio alugado de 350 metros quadrados, onde trabalham oito pessoas — quatro sócios e quatro estagiários.

"Nossa empresa consiste basicamente em um departamento de pesquisa e desenvolvimento (P&D), no qual são realizados os projetos dos produtos", explica Cirino. "A produção propriamente dita é terceirizada, já que não temos tamanho suficiente para abrigar uma unidade fabril."

O faturamento também é modesto: em 2007, girou em torno de R$ 48 mil. Para 2008, a estimativa é de que esse valor cresça mais de 100%.

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