Holovision Equipamentos Ópticos Ltda.
Lente
que não deixa sensor disparar com bicho
de estimação é
produto inovador desenvolvido por empresa
de São Carlos, SP
Evanildo
da Silveira
Novas
lentes para sensores de sistemas de segurança
monitorada e iluminação
prometem não mais atrapalhar o
sono — ou melhor, a vigília
— dos porteiros durante a noite,
quando o gato do vizinho decidir cruzar
a entrada do condomínio.
Para isso,
uma tecnologia específica vai diferenciar
seres em movimento — pelo tamanho
deles — com maior precisão.
"Nosso objetivo é não
permitir que animais de até 36
quilos disparem alarmes falsos",
conta Giuseppe Cirino, diretor de pesquisa
e desenvolvimento da Holovision Equipamentos
Ópticos, empresa de São
Carlos (SP).
"No
estágio atual da nossa tecnologia,
o sensor não dispara quando animais
de até 30 quilos passam por ele,
mas a empresa quer que sua próxima
lente deixe passar bichos de 36 quilos
ou mais."
O novo
equipamento, com previsão de lançamento
breve, mas sem data marcada, poderá
ser usado em condomínios, lojas,
museus ou em qualquer edificação
onde o uso de sensores seja necessário.
Será comercializado no varejo de
equipamentos de segurança e instalações
elétricas.
Denominada
pet immune — imune a animais de
estimação —, a lente
para sensores deverá se tornar
líder de vendas até 2010,
já que os únicos produtos
comercializados no Brasil de desempenho
semelhante são importados da Ásia
e dos Estados Unidos (a US$ 120 cada,
em média). A Holovision pretende,
assim, conquistar 65% do mercado potencial
nessa categoria (o equivalente a 150 mil
unidades por ano, nos cálculos
da empresa).
Para funcionar,
um filtro óptico foi embutido nas
lentes. Ele diferencia silhuetas de pequenos
animais das de seres humanos. Os sensores
convencionais importados operam eletronicamente
— quer dizer, distinguem o grande
do pequeno por meio de circuitos para
processamento de sinais, como microcontroladores
e microprocessadores.
"Em
nosso sensor a informação
não precisa ser processada eletronicamente;
a própria lente faz grande parte
do trabalho, ainda no domínio da
óptica, entregando a informação
já 'bem mastigada' ao circuito
eletrônico. Desta forma, a complexidade
do circuito se torna consideravelmente
reduzida."
Cirino
afirma ainda que os custos de produção
da lente especial são os mesmos
da convencional, já que a tecnologia
óptica trata apenas de mudanças
na geometria do produto.
Todo o
desenvolvimento da lente foi financiado
pelo PIPE, o programa da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) que apóia
as pequenas inovadoras. O bem-sucedido
projeto, iniciado em 2003, resultou em
uma patente depositada pela Holovision
em maio de 2007. Agora, a empresa quer
mais apoio do PIPE para seu sensor: inscreveu-se
na chamada
para projetos em Fase III do programa,
que financia a comercialização
de produtos ou protótipos desenvolvidos
com recursos da fundação.
O resultado ainda não foi divulgado.
Bom
negócio?
Dado não
muito motivador aos que abominam a violência
urbana, o mercado de segurança
eletrônica movimenta mais de R$
1 bilhão no País, crescendo
em média 12% ao ano.
Segundo
dados da Associação Brasileira
das Empresas de Sistemas Eletrônicos
de Segurança (Abese), existem no
Brasil cerca de 8 mil firmas atuantes
nesse segmento, que geram 80 mil empregos
diretos e cerca de 800 mil indiretos.
"É um mercado muito amplo
para os fabricantes de sensores",
diz Selma Migliori, presidente da Abese.
"E pelas tendências observadas,
deve continuar crescendo. Ainda mais se
for considerado que apenas 7% dos domicílios
brasileiros são equipados com algum
sistema de proteção eletrônica."
Segundo
a presidente, estima-se que existam no
País 430 mil imóveis protegidos
por sistemas de alarmes monitorados. "Dependendo
do tamanho do imóvel, das áreas
protegidas, se ele conta ou não
com sistema de proteção
perimetral (barreiras de infravermelho
que protegem o perímetro da área
monitorada), cada sistema desses pode
utilizar de 10 a 100 sensores de detecção
de presença", explica.
"Entre
os sistemas de proteção,
incluem-se alarmes, circuitos fechados
de TV, sistemas de controle de acesso,
portas e portões automáticos,
equipamentos de combate a incêndio,
detecção de metais e explosivos,
portas giratórias e eclusas, dispositivos
de identificação por biometria
e rastreamento de veículos e seres
vivos."
Nesse
cenário horrendo, os sensores pet
immune desenvolvidos pela Holovision são
uma inovação muito importante.
"O alarme falso, acionado acidentalmente
por animais de estimação,
causa muitos problemas e não é
desejado", diz Selma. "Além
do mais, lentes especiais garantem maior
precisão ao sistema de detecção
de invasões e diminuem a possibilidade
de falhas técnicas ou burlas ao
sistema", completa.
O material
As lentes
captam o calor que os corpos emitem e
o concentram, aumentando sua intensidade
— até o ponto de ser perceptível
por um sensor interno ao dispositivo,
que transforma a radiação
em sinal elétrico. É esse
sinal elétrico que dispara o alarme.
Outras
empresas tentaram desenvolver um produto
semelhante ao pet immune, mas sem sucesso.
Cirino explica que a maior dificuldade
está em chegar ao material de que
é feita a lente do sensor, pois
ela precisa ter a propriedade de captar
apenas as radiações com
comprimento de onda compatível
com o calor emitido por uma pessoa —
e não por pequenos animais.
As lentes
usadas pela empresa, chamadas de lentes
de Fresnel, são conhecidas desde
o início do século XIX.
Hoje, para fabricá-las, é
preciso criar um modelo em computador.
Em seguida, esse modelo é usado
para fazer um molde em aço, que
servirá para a produção
das lentes em larga escala.
História
de um sensor
A história
que culminou no sensor pet immune começou
em 2002, quando Cirino concluiu seu doutorado
em óptica na Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Nesse
mesmo ano, ele solicitou um financiamento
do PIPE para desenvolver um projeto na
área de segurança eletrônica
na empresa PPA (fabricante de sensores),
situada em Garça, no interior de
São Paulo. O projeto "Desenvolvimento
de novos sensores infravermelhos de detecção
de movimento para aplicações
em segurança doméstica e
corporativa", no valor de R$ 154
mil, foi aprovado em janeiro de 2003.
A Fase
I foi realizada na PPA, e demonstrou —
como é o objetivo dessa etapa do
programa — a viabilidade técnica
do projeto. "O trabalho foi feito
com o apoio do Laboratório de Sistemas
Integráveis da Poli e da terceirização
para outras empresas de base tecnológica,
sendo a LaserTools a principal delas",
conta Cirino. "Na transição
para a Fase II, surgiu a oportunidade
de abrir minha própria empresa,
prestando serviços à PPA."
Atualmente, a Holovision desenvolve as
lentes que serão usadas pela PPA
na fabricação dos sensores.
De acordo
com Cirino, a experiência de coordenar
a Fase I do projeto lhe mostrou a viabilidade
de abrir seu próprio negócio,
fazer tecnologia no Brasil e viver disso.
"Foi assim que nasceu a Holophotonics,
em abril de 2005, e que, mais tarde, se
tornaria Holovision", explica. "Eu
e mais um sócio, o engenheiro Robson
Barcellos, fundamos a empresa, sediada
na incubadora ParqTec, em São Carlos.
Logo depois recebemos aporte de capital
de novos sócios e deixamos a incubadora
apenas quatro meses depois de a empresa
ter sido fundada."
O PIPE
foi fundamental para o nascimento da empresa,
pois financiou o projeto que deu início
a tudo. "Toda a estruturação
da Holophotonics e as possibilidades de
novos negócios só foram
possíveis por causa das receitas
geradas pelo projeto do sensor pet immune",
reconhece Cirino. "Sem o PIPE, ele
não existiria e a empresa não
teria nascido."
Outra
linha de pesquisa e desenvolvimento
O projeto
do sensor não é o único
da empresa financiado pelo PIPE. Há
outro, já na Fase II, no valor
de R$ 120 mil, para o desenvolvimento
de um produto denominado correlator óptico.
Esse produto serve para checar se determinadas
características de uma imagem —
a imagem de uma linha de produção
de comprimidos embalados em cartelas,
por exemplo — estão alteradas
ou não em relação
a uma imagem padrão.
"Com
o correlator monitorando a esteira em
que as cartelas passam, é possível
detectar uma com um ou mais comprimidos
ausentes", explica Cirino. "Uma
vez detectada a cartela fora da especificação,
o correlator envia um comando eletrônico
(para um braço de robô, por
exemplo) que toma uma decisão (que
pode ser remover a cartela da esteira)."
O aspecto
inovador desse produto é seu baixo
custo. Existem produtos análogos
no mercado, mas baseados na chamada "visão
de máquina". Eles capturam
a imagem com uma câmera de vídeo
e a processam eletronicamente com um computador.
"Em
geral, esse processo é custoso
no que diz respeito aos equipamentos e
também ao esforço computacional",
diz Cirino. "O produto por nós
proposto processa a imagem no âmbito
puramente óptico, o que proporciona
baixo custo e velocidade, já que
tudo funciona na velocidade da luz."
Sede
modesta
A Holovision
está instalada em uma sede ainda
modesta. A empresa ocupa um prédio
alugado de 350 metros quadrados, onde
trabalham oito pessoas — quatro
sócios e quatro estagiários.
"Nossa
empresa consiste basicamente em um departamento
de pesquisa e desenvolvimento (P&D),
no qual são realizados os projetos
dos produtos", explica Cirino. "A
produção propriamente dita
é terceirizada, já que não
temos tamanho suficiente para abrigar
uma unidade fabril."
O faturamento
também é modesto: em 2007,
girou em torno de R$ 48 mil. Para 2008,
a estimativa é de que esse valor
cresça mais de 100%.