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Genomic Engenharia Molecular
Software
aplica fórmula matemática ao cálculo dos
testes de DNA;
resultados saem em cinco minutos e os
custos são 8.000% menores
Evanildo
da Silveira
A Genomic
Engenharia Molecular, uma das pioneiras
em exames de DNA no Brasil, desenvolveu
um software próprio que
dá mais precisão ao resultado
na determinação da paternidade.
O produto baseia-se na tese de doutorado
do engenheiro Fábio Nakano, defendida
no Instituto de Matemática e Estatística
da Universidade de São Paulo (IME-USP),
e propõe novos modelos de cálculos
para os testes. Até então,
as contas complexas eram feitas manualmente.
O projeto
foi financiado pelo programa Pesquisa Inovativa
na Pequena e Micro Empresa (PIPE), da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp), e aperfeiçoou
o software para colocá-lo
à disposição dos interessados
em resolver os cálculos na Internet.
Para que isso fosse possível, a Lampada
Global Services foi contratada. "Criamos
o portal GenomiCalc, com interface para
a Internet, a parte de e-commerce
e a integração com o software
de cálculos", explica o diretor
da Lampada, David O'Keefe.
Hoje, o
serviço pela Internet é vendido
pela Genomic. "Cobramos uma assinatura
mensal, cujo valor varia de acordo com o
número de cálculos que o cliente
quer fazer", explica Martin Whittle,
médico e fundador da empresa. A assinatura
mais barata, por exemplo, custa R$ 350 e
dá direito a cinco cálculos
(R$ 70 por cálculo) por mês,
não acumulativos. A mais cara custa
R$ 8 mil e permite a realização
de cem cálculos mensais, não
acumulativos, ou de 1,2 mil cálculos
ao longo do ano — neste último
caso, cada um sai por R$ 6,6. "Também
é possível pagar por cálculos
avulsos, para um exame", acrescenta
Whittle. O cálculo avulso custa R$
200, metade do preço de um cálculo
manual. O tempo de resolução
também diminuiu muito, de uma manhã
inteira para cinco minutos, incluindo-se
a preparação e inserção
dos dados no sistema.
"Fazemos
os cálculos até quando não
é possível coletar material
do suposto pai", diz Nakano. "A
análise é feita com o material
genético de outro parente próximo
(os irmãos ou o pai do suposto pai,
por exemplo). O programa também pode
servir para casos em que há outros
vínculos discutíveis, como
na hipótese de um dos irmãos
do suposto pai não ser legítimo,
ou se houver casamento entre primos (consangüinidade).
O modelo utiliza melhor todos os dados disponíveis,
o que gera rapidamente resultados precisos."
Caminho das pedras, até o DNA
Martin Whittle
explica que o DNA é uma molécula
que está presente nos cromossomos,
no núcleo das células de qualquer
ser vivo. Cada pessoa tem 46 deles (23 pares),
metade recebida do pai e metade da mãe.
Eles contêm as informações
genéticas, a maioria em forma de
genes, onde estão inscritas todas
as características fundamentais de
plantas, animais, bactérias ou gente.
A maioria dessas informações
é idêntica para todos os indivíduos
de uma determinada espécie, e é
por isso que todas as pessoas têm
dez dedos, dois braços, a forma do
corpo comum e todas as demais peculiaridades
que nos distinguem de outras espécies.
Mas há,
no entanto, outras características
genéticas que são semelhantes,
mas não idênticas. Ainda usando
o exemplo do ser humano, entre essas características
estão a cor dos olhos, dos cabelos,
a altura ou a propensão para determinadas
doenças, que variam de pessoa a pessoa,
com exceção dos gêmeos
univitelinos ou idênticos, que possuem
as mesmas informações genéticas.
"Essas variações na população
chamam-se polimorfismos", explica Whittle.
"É por meio da análise
deles que se torna possível determinar
as relações de vínculo
genético entre duas pessoas. Como
metade das informações genéticas
de qualquer indivíduo veio de seu
pai biológico e metade da mãe,
a comparação entre as informações
dos três permite afirmar com certeza
se existe ou não o vínculo
genético."
Ele diz
que essas informações estão
dispostas linearmente, lado a lado, ao longo
dos cromossomos, em lócus. Cada lócus
tem uma cópia de informações
do pai e uma da mãe, denominada alelo.
O teste de paternidade consiste na análise
de alguns lócus selecionados. "O
kit comercial que existe no mercado,
usado por outros laboratórios, verifica
de 12 a 15 lócus. Nós desenvolvemos
nosso próprio kit e analisamos
de 17 a 19, aumentando a confiabilidade
do resultado", garante Whittle.
Normalmente,
o teste de paternidade é feito retirando-se
o DNA das células presentes nas amostras
de sangue dos supostos pai e filho. Mas
também podem ser feito a partir de
qualquer outro material biológico
deles, como saliva ou um fio de cabelo.
Algumas gotas de sangue são depositadas
em um papel absorvente especial, que faz
parte do kit paternidade. Depois,
é extraído o DNA, no qual
são analisados os lócus pré-determinados.
Para isso, é preciso amplificá-los
com a técnica chamada polymerase
chain reaction (PCR) ou reação
em cadeia de polimerase.
Em seguida,
de cada lócus são isoladas
as duas metades (alelos). "Para a identificação
de paternidade, o ponto de partida são
os alelos presentes no filho", diz
o médico. "Baseando-se na premissa
de que a mãe indicada é de
fato mãe biológica do filho,
um dos alelos de cada par deste último
precisa, necessariamente, coincidir com
os dela. Quanto aos outros alelos, eles
devem coincidir com os do pai. Se isso não
ocorrer, a paternidade é, então,
excluída, com certeza de 100%."
"A
outra possibilidade é que em todos
os lócus estudados, os alelos presentes
no filho e não provenientes da mãe
sejam encontrados no suposto pai. Isso leva
à conclusão de que o suposto
pai é, de fato, o pai biológico
do examinado. Como a Genomic realiza a análise
sobre lócus altamente polimórficos,
o grau de certeza, quando o exame se faz
no trio suposto pai/mãe/filho, é
superior a 99,99%."
Esses casos,
quando mãe, filho e suposto pai são
vivos e fornecem o material para o exame,
são os mais fáceis de resolver.
Mas isso nem sempre ocorre. São comuns
as situações em que o suposto
pai já morreu. Nesses casos, há
duas alternativas para determinar a paternidade.
A primeira é tentar extrair o DNA
da ossada, o que é caro e pode fracassar,
por causa da má qualidade do DNA,
já exposto ao ambiente. A outra solução
é compor características genéticas
do falecido por meio de material colhido
de parentes próximos, como filhos
biológicos reconhecidos ou registrados,
pais ou irmãos. "Os resultados
dessa perícia dependem do sucesso
na reconstituição dos genótipos
da pessoa morta", avalia Whittle. "O
grau de confiança do resultado dependerá
do número de indivíduos analisados,
dos vínculos genéticos que
mantêm entre si e em relação
à pessoa falecida, e da quantidade
de lócus analisados."
Solução
do crime
Todos os meses, pelo menos 600 pessoas saem
do prédio da Genomic, na Rua Itapeva,
bairro da Bela Vista, São Paulo,
com dúvidas dirimidas sobre seus
pais biológicos. A empresa, criada
em 1991, ocupa 460 metros quadrados em dois
andares, tem cinco laboratórios,
17 funcionários e também realiza
análises de DNA que podem servir
para solucionar casos policiais ou detectar
precocemente a propensão ao desenvolvimento
de doenças geneticamente transmitidas.
Em 2007, a Genomic faturou R$ 2,1 milhões.
Em seus
laboratórios foram identificadas
algumas das ossadas de ativistas políticos
desaparecidos durante a ditadura militar
(1964-1985), encontradas, em 1990, numa
vala clandestina do cemitério Dom
Bosco, em Perus, Zona Norte de São
Paulo. Uma delas era de Flávio de
Carvalho Molina, militante do Movimento
de Libertação Popular (Molipo),
morto em 1971 aos 24 anos. A empresa também
atestou ser Pelé o pai de Sandra
Regina Machado, como ela alegava. Esse caso
trouxe notoriedade à empresa e deu
início a seu crescimento.
Além
desses, a Genomic apurou casos de dúvida
sobre paternidade envolvendo Paulo Maluf,
ex-governador e ex-prefeito de São
Paulo, e o tricampeão mundial de
Fórmula 1 Ayrton Senna. Em ambos
os casos, os testes provaram que eles não
eram pais das alegadas filhas. A empresa
também comprovou que um pedaço
de orelha enviado à família
de Zezé di Camargo e Luciano era
mesmo do irmão deles, Wellington
Carvalho, que estava em poder de seqüestradores.
História
viva
Do DNA,
pouca gente ainda não ouviu falar.
Notícias sobre seu uso para resolver
pendengas familiares, em investigações
de crimes ou previsão de doenças
estão quase todo dia nos jornais
ou no rádio e na televisão.
A história sobre o conhecimento científico
que o homem tem dessa molécula é
mais antiga, no entanto. Ela começou
com o monge austríaco Gregor Mendel
(1822-1884), cujas pesquisas sobre hereditariedade
ficaram esquecidas por 35 anos, até
serem redescobertas, em 1900.
Antes disso,
em 1869, o bioquímico suíço
Friedrich Mieschner descobriu várias
substâncias no núcleo celular,
que classificou como proteínas e
moléculas ácidas. Daí
surgiu a expressão ácidos
nucléicos, que levou à sigla
DNA (ácido desoxirribonucléico).
Outro avanço significativo ocorreu
em 1944, quando o bacteriologista inglês
Oswald Averry demonstrou que era mesmo o
DNA o responsável pela transmissão
dos caracteres hereditários.
Seis anos
depois, em 1950, o bioquímico austríaco
Erwin Chargaff descreveu a composição
química dos ácidos nucléicos
e determinou as proporções
das bases do DNA. Em 28 de fevereiro de
1953, finalmente, o inglês Francis
Crick e o americano James Dewey Watson descobriram
a estrutura da molécula de DNA, o
que lhes rendeu o Prêmio Nobel de
1962, juntamente com o britânico nascido
na Nova Zelândia Maurice Wilkins,
que teve papel importante na descoberta
— uma pesquisadora de seu laboratório,
Rosalind Franklin, fez as imagens de difração
de raios X que foram a principal evidência
para a comprovação da estrutura
em hélice. O artigo que deu a notícia
da descoberta foi publicado em 25 de abril
de 1953 na revista inglesa Nature,
em um texto de 900 palavras, acompanhado
de um esboço simples da famosa dupla
hélice.
Em 1991,
o estudo do DNA fazia parte da área
de pesquisa do médico Martin Whittle
e do biólogo Fernando Reinach. Junto
com mais dois sócios administradores,
eles resolveram criar uma empresa para realizar
exames de paternidade por meio do DNA. Nascia
a Genomic, no mesmo prédio onde se
encontra hoje. "Mas na época
a gente ocupava apenas um quarto da área
atual", lembra Whittle, que, na ocasião
da abertura da empresa, era orientando de
doutorado de Reinach. "Desde então,
a emprese cresceu e se modernizou. Também
mudou o quadro de sócios. Dos quatro
fundadores, apenas eu continuo na empresa",
lembra.
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