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Alluvium Tecnologia em Metais Preciosos
Processo
para produzir ouro colorido em pó é capital
de pequena
empresa que ainda não tem receitas, mas
já quer o mercado externo
Evanildo
da Silveira
Criada em
meados de 2006, a Alluvium Tecnologia em
Metais Preciosos Ltda. pretende dar um salto
neste 2008: conquistar mercado externo para
os seus produtos feitos com ligas de ouro
coloridas, que podem ser usadas na fabricação
de jóias, cerâmicas e até
roupas. Para isso, a empresa participou
de um edital
lançado pela Fapesp em conjunto com
a firma de capital de risco Imprimatur,
e que usa dinheiro do governo federal, para
projetos de R$ 500 mil. O resultado está
para ser divulgado; se a Alluvium estiver
entre as empresas contempladas, vai usar
o dinheiro para se lançar no mercado
externo. Além disso, os recursos
serão empregados para melhorar a
infra-estrutura da empresa, para aumentar
sua produção; e em novos desenvolvimentos
e aperfeiçoamento dos produtos já
existentes, cujos detalhes a empresa não
revela para "não favorecer a
concorrência".
A base de todos os produtos que empresa pretende comercializar são ligas de ouro coloridas, obtidas pelo método da moagem de alta energia. Com elas, a Alluvium produz revestimento total ou parcial, compósitos de resina e "gemas" (pequenas peças metálicas), todos para ser usados na confecção de jóias. O ouro colorido também é usado na produção de tintas especiais para cerâmicas e serigrafia, para aplicações em tecido. A grande inovação da empresa está em se aproveitar de tecnologias já existentes e dar um novo emprego a elas. "As ligas de ouro coloridas não são inéditas, assim como também não é a elaboração mecânica de ligas metálicas por moagem de alta energia", diz Ricardo Mendes Leal Neto, um dos fundadores da Alluvium. "O que é inovador é a utilização deste processo na obtenção de ligas de ouro coloridas. Pelo menos, não temos notícias de que seja usado para esse fim."
Embora associado à cor amarela, o ouro pode ser vermelho, verde, púrpura e azul. Hoje, a tecnologia mais empregada para a obtenção de ligas de ouro 18 quilates nessas cores ainda é a metalurgia de fundição, um processo antigo e caro, mais indicado para grandes quantidades. Nesse método, os metais são fundidos a altas temperaturas e misturados quando ainda estão no estado líquido. A alternativa em desenvolvimento na Alluvium é mais barata. Essa tecnologia (obtenção de liga de ouro colorido por moagem de alta energia) surgiu em 2003, quando Leal Neto aceitou o convite de outro pesquisador para fundar uma empresa com o objetivo de desenvolvê-la.
Nascia assim a Regulus Ars, que mais tarde,
devido a um desentendimento entre os sócios,
seria extinta, dando origem à Alluvium
e à Jackie-O.
"A Regulus foi criada a partir da nossa
experiência com a moagem de alta energia",
conta Leal Neto. Na época, ele já
trabalhava havia 13 anos com materiais intermetálicos
— as ligas de ouro coloridas se enquadram
nesta categoria de material. Ele também
já conhecia o chamado ouro púrpura
(purple gold), na verdade um composto
intermetálico formado por ouro e
alumínio (AuAl2). No entanto, não
havia pensado em explorar isso comercial
ou tecnologicamente até encontrar
seu ex-sócio na Regulus, que ficou
sabendo da existência de ligas de
ouro com outras cores que não as
tradicionais. "A opção
pela moagem de alta energia para a elaboração
das ligas surgiu naturalmente para nós
dois", diz Leal Neto.
Forte ligação entre os átomos
Compostos ou materiais intermetálicos caracterizam-se pela forte ligação entre os átomos dos elementos que os compõem, como ouro e alumínio, por exemplo. Juntos, eles têm maior resistência mecânica do que separados; também resistem melhor à oxidação e à corrosão do que os metais puros. O maior impulso no desenvolvimento desses materiais ocorreu no final dos anos 1980, devido à possibilidade de sua utilização nas indústrias aeronáutica e aeroespacial. Para a Alluvium, no entanto, o que interessa é um tipo específico de intermetálicos — as ligas de ouro coloridas.
A moagem de alta energia foi a tecnologia escolhida por ser, de acordo com Leal, a mais eficiente para a fabricação de intermetálicos. Uma de suas vantagens em relação a outras técnicas é o fato de usar os metais em estado sólido, o que evita problemas associados à fusão e à solidificação — por exemplo, as grandes diferenças do ponto de fusão entre os componentes dos metais da liga. Outra vantagem da moagem é que, com ela, consegue-se uma mistura muito fina entre constituintes iniciais. Quando esse pó é aquecido, o composto resultante é homogêneo e de granulometria muito fina — mais apropriada à fabricação de jóias. A moagem de alta energia chama-se, em inglês, mechanical alloying; epode ser empregada para fazer liga não só de ouro, mas de qualquer metal.
Ouro puro — 24 quilates — é amarelo, mas não serve para fazer jóias ou outros objetos, por ser mole demais, flexível demais. Na fabricação de jóias é empregado o de 18 quilates, que tem 75% de ouro e 25% de outro metal. De acordo com o outro metal, a cor da liga vai mudando. Se for prata ou cobre, a cor será amarela ou vermelha. Dependendo da proporção de cada um deles, a tonalidade será amarelada (mais prata) ou avermelhada (mais cobre). A cor verde se obtém misturando apenas ouro e prata; e a púrpura, ligando-se o metal nobre com alumínio. O ouro branco se consegue com níquel ou platina; o azul, com ferro ou índio; o verde-oliva, com cromo; e o preto, com cobalto. A vantagem da moagem de alta energia para obtenção dessas ligas é que ela permite controlar com muita precisão a composição química do produto, o que propicia um ajuste sensível da obtenção das cores.
Na tecnologia utilizada para produzir as ligas, é empregado um pequeno moinho de alta energia para moer e ligar os metais. Trata-se de um equipamento composto por um pequeno cilindro, de cerca de dez centímetros de altura por cinco centímetros de diâmetro, no interior do qual há pequenas bolas de aço. O ouro a ser moído é jogado aí dentro, em forma de finas lâminas, com 0,15 milímetro de espessura. Junto, vai um polímero — uma espécie de plástico. O chacoalhar do moinho, na freqüência de 30 hertz (30 ciclos por segundo), mói o ouro, transformando-o em pó. O polímero serve para impedir que as partículas do ouro em pó se agreguem em bolotas. Em seguida, ao ouro moído mistura-se o pó, comprado pronto, dos outros metais com os quais se quer fazer a liga.
Resultados aprovados
A designer de jóias Ivete Cattani aprova os resultados das pesquisas da Alluvium. "A beleza encontrada nas cores das ligas pesquisadas pela empresa e a diversidade de aplicações comprovam o sucesso do projeto", diz ela, que é proprietária de uma marca de jóias. "Conheço a Alluvium e sua pesquisa com ligas de ouro colorido desde 2005, quando comecei a desenhar peças em que a cor do ouro era determinante para a estética. É um fato hoje a crescente utilização de ligas de ouro coloridas pelo mercado joalheiro, o que assegura o espaço para esse material."
O trabalho de Ivete com o material desenvolvido pela Alluvium é reconhecido internacionalmente. No ano passado, por exemplo, ela usou ligas de ouro coloridas na confecção de um bracelete em pele, aparas de aço inox e topázio imperial, que foi indicado para a seleção final no iF Product Design Award 2007, em Hannover, Alemanha, o mais importante prêmio de design do mundo. "A pesquisa de novos materiais e tecnologias é característica preponderante nos meus produtos", garante.
O apoio do PIPE
Para desenvolver e colocar em prática essa tecnologia, a Regulus Ars submeteu o projeto "Obtenção de ligas de ouro colorido por moagem de alta energia" à Fase I do PIPE, em 2003, para o qual foram liberados R$ 70,6 mil. Esse dinheiro foi usado basicamente para a compra de matéria-prima (ouro e elementos de liga), materiais de consumo laboratorial e pagamento de análises de caracterização física e química de materiais, de acordo com Leal Neto. "Essa primeira fase do PIPE também serviu para comprovar a viabilidade do projeto." Com esse aval, a empresa solicitou a entrada na Fase II do programa da Fapesp. O novo projeto de pesquisa também foi aprovado. A Regulus recebeu, a partir de 2005, R$ 180 mil e US$ 47 mil.
Segundo Leal Neto, durante essa fase, o processo de fabricação das ligas de ouro em pó coloridas foi consolidado. O projeto ainda está em andamento, hoje na Alluvium, que o "herdou" depois do fim da Regulus. "Nosso objetivo agora é desenvolver aplicações das ligas, sempre com o foco em jóias", diz. "Uma das primeiras aplicações que pesquisamos foi a de revestir superfícies metálicas, como a de jóias, principalmente. Para isso, uma das técnicas de revestimento que estamos tentando desenvolver é a aspersão térmica (metalização)."
Por essa técnica, certa quantidade de pó da liga colorida de ouro é direcionada sobre uma superfície metálica por meio de um jato de gás quente. As partículas aquecidas da liga aderem à superfície. O processo ainda enfrenta dificuldades, no entanto, e precisa ser aperfeiçoado. O principal problema é a oxidação dos elementos de liga, que prejudica a aderência. Como alternativa, a Alluvium está testando a utilização dos pós das ligas coloridas em jóias resinadas: o pó é misturado a uma resina e depois aplicado em partes de uma jóia.
Ainda enquanto existiu, a Regulus teve um segundo projeto aprovado. Intitulado "Processo de manufatura de ligas de ouro colorido", foi apresentado ao PIPE em 2004; a Fase I foi aprovada e executada entre 2005 e 2006. O objetivo era desenvolver peças sinterizadas a partir do pó de ouro colorido. Sinterização é o nome de um processo que solidifica pós a altas temperaturas, para que adquiram a cor e as propriedades físicas e mecânicas desejadas. A viabilidade foi comprovada na primeira fase. Com o fim da Regulus, em 2006, esse projeto ficou com a Jackie-O.
Leal Neto conta que o nome Alluvium foi escolhido para batizar a empresa devido à preferência dele e de seus sócios por uma palavra de origem latina que tivesse relação com ouro. "Alluvium em latim significa aluvião, um depósito sedimentar freqüentemente de origem fluvial", explica. "No Brasil colônia predominou a extração do ouro de aluvião, depositado no fundo dos rios, por ser fácil e de menor custo."
Sem funcionários
Hoje, a empresa está abrigada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) da Universidade de São Paulo (USP). Todas as atividades são realizadas por seus sócios e colaboradores. "Não temos funcionários", diz Leal Neto, que é sócio-cotista da empresa. "A Alluvium ainda não está comercializando seus produtos, pois eles ainda estão sendo desenvolvidos, alguns em fase final, outros em estágio intermediário."
Apesar disso, a empresa está elaborando um primeiro pedido de patente. "A dificuldade é que numa patente os detalhes do processo devem ser apresentados, mas ao mesmo tempo ela não pode servir de receita, ou seja, algum segredo deve ser mantido", diz Leal Neto. "No caso da moagem de alta energia, por se tratar de um processo bastante conhecido, está difícil encontrar este equilíbrio entre o que deve ser dito e o que não pode ser dito."
Apesar desses pequenos contratempos, a empresa pretende colocar seus produtos no mercado ainda em 2008. Trata-se de um mercado e tanto. Segundo dados da Associação dos Joalheiros do Estado de São Paulo (Ajesp), que reúne fabricantes, comerciantes, designers e fornecedores de insumos, o setor joalheiro nacional movimentou R$ 4,5 bilhões em 2006, um crescimento de 5% em relação a 2005. No ano passado, as exportações brasileiras atingiram R$ 1,3 bilhão, 15% a mais que em 2006. Só em jóias prontas, produto que agrega maior valor à balança comercial, foram exportados cerca de US$ 130 milhões.
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