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Farmacore Pesquisa & Desenvolvimento em
Biotecnologia Ltda.
Composto
227 é aposta para entrar no mercado de
medicamentos
para tuberculose; pedido de patente, com
USP, está em preparação
Lívia
Komar
Uma empresa
pequena com potencial gigante. Assim o farmacêutico
Fábio Cícero de Sá
Galetti define a Farmacore Pesquisa &
Desenvolvimento em Biotecnologia, de Ribeirão
Preto (SP), fundada por ele e pela administradora
de empresas Helena Faccioli Lopes em 2005.
A declaração do jovem empresário,
de 30 anos, não é ilusória.
Com a ajuda do PIPE, o programa da Fapesp
que apóia as pequenas inovadoras,
a Farmacore descobriu uma substância
que poderá revolucionar o tratamento
da tuberculose: o composto 227, que já
demonstrou alto potencial terapêutico
em testes com camundongos. Embora a comercialização
do composto dependa da realização
de testes em seres humanos — o que
pode levar anos para acontecer —,
Galetti se diz esperançoso. "Trata-se
de uma droga com boa eficácia, de
fácil síntese, muito barata
e de pouca toxicidade", afirma. "Então,
realmente é um produto em potencial."
Se tudo
der certo, a Farmacore terá um grande
mercado diante de si. Reconhecida como emergência
global em 1993 pela Organização
Mundial de Saúde (OMS), a tuberculose
ainda mata muita gente em todo o mundo —
só no Brasil, que oscila da 13ª
à 15ª colocação
entre os países com maior incidência
da doença, são pelo menos
6 mil pessoas por ano, a maior parte delas
carentes e desnutridas — e seu tratamento
é demorado. De acordo com Galetti,
o paciente precisa tomar um coquetel de
fortíssimos antibióticos,
que não pode ser interrompido em
hipótese alguma, durante seis meses
no mínimo. "Uma das drogas no
mercado atualmente foi descoberta em 1952",
conta. "Há mais de meio século
se utiliza esse composto para o combate
à doença. Existia a necessidade
mais que urgente da descoberta de novas
classes de compostos que pudessem auxiliar
no processo de cura da doença com
mais rapidez."
A Farmacore
já está se preparando para
pedir a patente da ação antimicobacteriana
do composto 227. O pedido será depositado
juntamente com a Universidade de São
Paulo (USP), que também participou
da descoberta da substância. "A
concorrência nesse setor existe com
muita força", enfatiza Galetti,
justificando a necessidade do patenteamento.
"Várias frentes de trabalho
de grandes indústrias farmacêuticas
também estão buscando novas
moléculas para o mercado da tuberculose."
Nascimento
A Farmacore
nasceu a partir dos trabalhos do Instituto
do Milênio de Pesquisas em Tuberculose
(IMPT), criado pelo professor Célio
Lopes Silva dentro da Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
Os pesquisadores desse grupo perceberam
que o os programas de P&D&I em biotecnologia
no Brasil estavam limitados às universidades
e aos centros de pesquisa — os quais,
por sua própria natureza institucional,
não são habituados a realizar
desenvolvimento de processos em escala nem
a promover a transferência de tecnologia.
"Em
contrapartida, os representantes do setor
na área industrial, que se encontra
em expansão, ainda sofrem com a falta
de recursos humanos qualificados e não
possuem uma política interna consolidada
de investimentos maciços em P&D&I",
observa ela. Na Farmacore, no entanto, não
falta gente capacitada. A empresa tem ao
todo oito colaboradores: os dois sócios
— formado pela Universidade Metodista
de Piracicaba, Galetti defenderá
em abril sua tese de doutorado em biotecnologia
na USP de Ribeirão —, o professor
Célio, que é o consultor de
todos os projetos, um pós-doutor,
um doutor, dois mestres e três graduandos
na área farmacêutica. A equipe
é reforçada pela colaboração
de pesquisadores da área de P&D&I
de produtos e processos biotecnológicos
e por parcerias com instituições
científicas e tecnológicas
(ICTs).
Os
três QGs
A Farmacore
está sediada até hoje no campus
da USP em Ribeirão Preto e dispõe
de três espaços para conduzir
suas atividades. O mais antigo é
o laboratório do professor Célio,
onde foram realizadas as primeiras pesquisas
sobre compostos contra tuberculose. Os outros
dois entraram em operação
no começo de 2008: um laboratório
recém-construído no prédio
da FMRP, obtido por meio de um convênio
com a faculdade, e duas salas conjugadas
na incubadora de empresas Supera, da qual
a Farmacore faz parte há um ano.
Todos os espaços estão sendo
adequados aos Requisitos Gerais para Competência
de Laboratórios de Ensaio e Calibração
e Boas Práticas de Laboratório,
da Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT), e também
às normas do Instituto Nacional de
Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial (Inmetro).
A empresa
já usa o novo laboratório
da FMRP para testar o composto 227 e outras
substâncias em pequenos roedores,
que ficam distribuídos em uma parede
cheia de pequenas gaiolas. Os pesquisadores
chamam as gaiolas de microisoladores —
estruturas que garantem ar puro, limpo e
isolado para cada caixa de animais. As duas
salas na Supera, que somam 48 metros quadrados
— o dobro da área geralmente
oferecida pela incubadora às suas
hóspedes —, foram reservadas
para preparo de reagentes, esterilização,
escalonamento e engenharia molecular. Elas
têm cantos arredondados — chamados
tecnicamente de "cantos sanitários"
— para evitar o acúmulo de
impurezas e contam com o chamado sistema
pass-through em todas as suas microssalas.
Esse sistema isola os ambientes, evitando
a contaminação do ar e de
materiais e produtos.
Um dos equipamentos
de tecnologia de ponta da Farmacore é
o Bioflo 415, um fermentador importado com
capacidade para 20 litros, comprado com
recursos da própria empresa. "Posso
dizer com certeza que este modelo é
o único da América do Sul",
diz Galetti, orgulhoso, mostrando a máquina,
que já está em funcionamento.
Ela é importante para a empresa porque
faz fermentação em larga escala
e oferece exatidão no fluxo de oxigênio,
na temperatura e na velocidade da agitação.
O
PIPE
A Farmacore
submeteu seu pedido de financiamento ao
PIPE da Fapesp em julho de 2006. Como Galetti
já havia detectado resultados animadores
no laboratório do professor Célio,
o projeto, intitulado "Avaliação
da Atividade Antimicobacteriana e Segurança
Terapêutica do Composto 227",
foi aprovado em dezembro do mesmo ano diretamente
para a Fase II do programa. "Não
precisamos provar a viabilidade técnica
do nosso projeto", explica o farmacêutico.
A empresa recebeu R$ 307 mil da Fapesp e
está usando esse dinheiro para adquirir
equipamentos nacionais e importados, comprar
material de consumo e contratar serviços
de terceiros para calibração,
manutenção e validação
dos equipamentos necessários ao projeto.
"O valor foi importante para a obtenção
da infra-estrutura mínima necessária
para o desenvolvimento das pesquisas",
salienta Helena.
Futuro
Somente
em 2007, a Farmacore testou mais de 2 mil
compostos da biodiversidade nacional vindos
de fungos, algas, bactérias e plantas,
além de compostos de síntese
química, buscando encontrar novas
drogas em potencial contra a tuberculose.
Conseguiu extrair 46 compostos que combatem
o bacilo da tuberculose e, dentre eles,
encontrou duas novas moléculas com
grande potencial contra a tuberculose —
uma delas é justamente o composto
227.
Por enquanto,
o foco da empresa continuará sendo
o desenvolvimento de pesquisas como essa.
Mas, no curto prazo, seu objetivo é
trabalhar com prestação de
serviços em estudos pré-clínicos
e clínicos de vacinas, fármacos
e biofármacos, e também desenvolver
compostos para vacinas a partir de DNA,
terapia celular e imunoterapia de doenças
como câncer, aids e tuberculose.
Outro plano
da empresa para o futuro é se consolidar
dentro do projeto do Parque
Tecnológico de Ribeirão Preto
(PTRP). O projeto é
uma iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento
do Estado de São Paulo, do Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT), da
prefeitura de Ribeirão Preto e da
USP para fazer do município um grande
pólo tecnológico em saúde
humana, animal e vegetal, biotecnologia,
agronegócio, tecnologias da informação
e comunicação e no setor médico-hospitalar.
Ribeirão Preto já ocupa o
quarto lugar no Estado na área de
desenvolvimento de saúde e tecnologia
hospitalar.
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