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Publicado em 10 de março de 2008


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Farmacore Pesquisa & Desenvolvimento em Biotecnologia Ltda.

Composto 227 é aposta para entrar no mercado de medicamentos
para tuberculose; pedido de patente, com USP, está em preparação

Lívia Komar

Uma empresa pequena com potencial gigante. Assim o farmacêutico Fábio Cícero de Sá Galetti define a Farmacore Pesquisa & Desenvolvimento em Biotecnologia, de Ribeirão Preto (SP), fundada por ele e pela administradora de empresas Helena Faccioli Lopes em 2005. A declaração do jovem empresário, de 30 anos, não é ilusória. Com a ajuda do PIPE, o programa da Fapesp que apóia as pequenas inovadoras, a Farmacore descobriu uma substância que poderá revolucionar o tratamento da tuberculose: o composto 227, que já demonstrou alto potencial terapêutico em testes com camundongos. Embora a comercialização do composto dependa da realização de testes em seres humanos — o que pode levar anos para acontecer —, Galetti se diz esperançoso. "Trata-se de uma droga com boa eficácia, de fácil síntese, muito barata e de pouca toxicidade", afirma. "Então, realmente é um produto em potencial."

Se tudo der certo, a Farmacore terá um grande mercado diante de si. Reconhecida como emergência global em 1993 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a tuberculose ainda mata muita gente em todo o mundo — só no Brasil, que oscila da 13ª à 15ª colocação entre os países com maior incidência da doença, são pelo menos 6 mil pessoas por ano, a maior parte delas carentes e desnutridas — e seu tratamento é demorado. De acordo com Galetti, o paciente precisa tomar um coquetel de fortíssimos antibióticos, que não pode ser interrompido em hipótese alguma, durante seis meses no mínimo. "Uma das drogas no mercado atualmente foi descoberta em 1952", conta. "Há mais de meio século se utiliza esse composto para o combate à doença. Existia a necessidade mais que urgente da descoberta de novas classes de compostos que pudessem auxiliar no processo de cura da doença com mais rapidez."

A Farmacore já está se preparando para pedir a patente da ação antimicobacteriana do composto 227. O pedido será depositado juntamente com a Universidade de São Paulo (USP), que também participou da descoberta da substância. "A concorrência nesse setor existe com muita força", enfatiza Galetti, justificando a necessidade do patenteamento. "Várias frentes de trabalho de grandes indústrias farmacêuticas também estão buscando novas moléculas para o mercado da tuberculose."

Nascimento

A Farmacore nasceu a partir dos trabalhos do Instituto do Milênio de Pesquisas em Tuberculose (IMPT), criado pelo professor Célio Lopes Silva dentro da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. Os pesquisadores desse grupo perceberam que o os programas de P&D&I em biotecnologia no Brasil estavam limitados às universidades e aos centros de pesquisa — os quais, por sua própria natureza institucional, não são habituados a realizar desenvolvimento de processos em escala nem a promover a transferência de tecnologia.

"Em contrapartida, os representantes do setor na área industrial, que se encontra em expansão, ainda sofrem com a falta de recursos humanos qualificados e não possuem uma política interna consolidada de investimentos maciços em P&D&I", observa ela. Na Farmacore, no entanto, não falta gente capacitada. A empresa tem ao todo oito colaboradores: os dois sócios — formado pela Universidade Metodista de Piracicaba, Galetti defenderá em abril sua tese de doutorado em biotecnologia na USP de Ribeirão —, o professor Célio, que é o consultor de todos os projetos, um pós-doutor, um doutor, dois mestres e três graduandos na área farmacêutica. A equipe é reforçada pela colaboração de pesquisadores da área de P&D&I de produtos e processos biotecnológicos e por parcerias com instituições científicas e tecnológicas (ICTs).

Os três QGs

A Farmacore está sediada até hoje no campus da USP em Ribeirão Preto e dispõe de três espaços para conduzir suas atividades. O mais antigo é o laboratório do professor Célio, onde foram realizadas as primeiras pesquisas sobre compostos contra tuberculose. Os outros dois entraram em operação no começo de 2008: um laboratório recém-construído no prédio da FMRP, obtido por meio de um convênio com a faculdade, e duas salas conjugadas na incubadora de empresas Supera, da qual a Farmacore faz parte há um ano. Todos os espaços estão sendo adequados aos Requisitos Gerais para Competência de Laboratórios de Ensaio e Calibração e Boas Práticas de Laboratório, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), e também às normas do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro).

A empresa já usa o novo laboratório da FMRP para testar o composto 227 e outras substâncias em pequenos roedores, que ficam distribuídos em uma parede cheia de pequenas gaiolas. Os pesquisadores chamam as gaiolas de microisoladores — estruturas que garantem ar puro, limpo e isolado para cada caixa de animais. As duas salas na Supera, que somam 48 metros quadrados — o dobro da área geralmente oferecida pela incubadora às suas hóspedes —, foram reservadas para preparo de reagentes, esterilização, escalonamento e engenharia molecular. Elas têm cantos arredondados — chamados tecnicamente de "cantos sanitários" — para evitar o acúmulo de impurezas e contam com o chamado sistema pass-through em todas as suas microssalas. Esse sistema isola os ambientes, evitando a contaminação do ar e de materiais e produtos.

Um dos equipamentos de tecnologia de ponta da Farmacore é o Bioflo 415, um fermentador importado com capacidade para 20 litros, comprado com recursos da própria empresa. "Posso dizer com certeza que este modelo é o único da América do Sul", diz Galetti, orgulhoso, mostrando a máquina, que já está em funcionamento. Ela é importante para a empresa porque faz fermentação em larga escala e oferece exatidão no fluxo de oxigênio, na temperatura e na velocidade da agitação.

O PIPE

A Farmacore submeteu seu pedido de financiamento ao PIPE da Fapesp em julho de 2006. Como Galetti já havia detectado resultados animadores no laboratório do professor Célio, o projeto, intitulado "Avaliação da Atividade Antimicobacteriana e Segurança Terapêutica do Composto 227", foi aprovado em dezembro do mesmo ano diretamente para a Fase II do programa. "Não precisamos provar a viabilidade técnica do nosso projeto", explica o farmacêutico. A empresa recebeu R$ 307 mil da Fapesp e está usando esse dinheiro para adquirir equipamentos nacionais e importados, comprar material de consumo e contratar serviços de terceiros para calibração, manutenção e validação dos equipamentos necessários ao projeto. "O valor foi importante para a obtenção da infra-estrutura mínima necessária para o desenvolvimento das pesquisas", salienta Helena.

Futuro

Somente em 2007, a Farmacore testou mais de 2 mil compostos da biodiversidade nacional vindos de fungos, algas, bactérias e plantas, além de compostos de síntese química, buscando encontrar novas drogas em potencial contra a tuberculose. Conseguiu extrair 46 compostos que combatem o bacilo da tuberculose e, dentre eles, encontrou duas novas moléculas com grande potencial contra a tuberculose — uma delas é justamente o composto 227.

Por enquanto, o foco da empresa continuará sendo o desenvolvimento de pesquisas como essa. Mas, no curto prazo, seu objetivo é trabalhar com prestação de serviços em estudos pré-clínicos e clínicos de vacinas, fármacos e biofármacos, e também desenvolver compostos para vacinas a partir de DNA, terapia celular e imunoterapia de doenças como câncer, aids e tuberculose.

Outro plano da empresa para o futuro é se consolidar dentro do projeto do Parque Tecnológico de Ribeirão Preto (PTRP). O projeto é uma iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), da prefeitura de Ribeirão Preto e da USP para fazer do município um grande pólo tecnológico em saúde humana, animal e vegetal, biotecnologia, agronegócio, tecnologias da informação e comunicação e no setor médico-hospitalar. Ribeirão Preto já ocupa o quarto lugar no Estado na área de desenvolvimento de saúde e tecnologia hospitalar.

 

 

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