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Publicado em 24 de junho de 2008






Central Brasileira de Comercialização e Distribuição de Rã

Sócios investigam saber popular e comprovam efeito benéfico
do óleo de rã; remédio cicatrizante também é antiinflamatório

Richard Pfister

Uns contavam histórias do poder cicatrizante do óleo de rã, outros diziam que era antiinflamatório. Havia até quem o tivesse usado no tratamento de doenças respiratórias, como asma e bronquite, ou ainda sobre a pele, para amenizar os efeitos das queimaduras do sol.

O óleo de rã já é conhecido da cultura popular, e os sócios da Central Brasileira de Comercialização e Distribuição de Rã decidiram testar, cientificamente, se o remédio era bom mesmo. E conseguiram.

A empresa, que tinha a venda da carne de rã como seu carro-chefe (por R$ 32 o quilo, em média), investigou as propriedades farmacológicas do óleo retirado de bolsas de gordura encontradas no intestino dos anfíbios Rana catesbeiana.

Com um projeto de pesquisa financiado pelo PIPE, o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas empresas inovadoras, as respostas vieram: o óleo de rã realmente trata as feridas e inflamações.

Animados com os resultados, Francisco Hikichi e Onessi Rolim de Freitas requisitaram a patente da técnica de extração do óleo, e começaram a vendê-lo como matéria-prima para a produção de medicamentos e cosméticos.

Em uma das vendas, para um fabricante de produtos capilares de Campinas (SP), receberam R$ 500 por dois litros do óleo. Quase 220 rãs são necessárias para obter um litro de óleo, enquanto oito animais fazem um quilo de carne. Apesar de todo o trabalho, o que seria simplesmente descartado, acaba se tornando um bom negócio.

Mas as vantagens do óleo de rã não terminam aí: a pesquisa também mostrou que a substância não é tóxica e pode ser extraída de maneira fácil e barata. Essas características levaram Hikichi e Rolim a encaminhar mais um projeto à Fapesp — desta vez, para a Fase III do PIPE, a ser financiada pela fundação em parceria com a firma de capital de risco Imprimatur.

Se o projeto for aprovado, a Central Rã vai usar os recursos do programa para desenvolver seus próprios produtos a partir do óleo, como protetores solares, além de pesquisar o uso tópico do óleo em humanos. Até agora, ensaios foram feitos com ratos e coelhos.

O começo

Rolim começou a criar rãs em seu sítio, em 1999, quando se aposentou pela Telefônica. Formado em ciência da computação pela Unicamp, ele trabalhava na área de informática da companhia. "Um belo dia, tinha 8 mil rãs", brinca.

Embora conhecesse as dificuldades para vender carne de rã no Brasil — a iguaria até hoje não é muito apreciada por aqui —, ele fundou uma empresa junto com dois sócios para comercializar sua produção. A batizada Max Rã fixou sua sede em Campinas e instalou o abatedouro na vizinha Atibaia, de onde a carne saía congelada para a revenda.

O negócio começou a prosperar e logo atraiu grandes produtores do Estado de São Paulo — entre eles, Hikichi, que era dono de um ranário em Ubatuba (SP) havia mais de 30 anos.

Em 2001, esses produtores uniram-se a Rolim para formar a Central Rã. Com o passar do tempo, contudo, os associados foram deixando a nova empresa — uns migraram para diferentes tipos de produção, como cogumelos; outro saiu devido a problemas com a vigilância sanitária —, até que restaram apenas Hikichi e Rolim.

A Central Rã funciona hoje na própria casa de Hikichi, na capital paulista. A empresa fica no bairro do Butantã, perto do campus da Universidade de São Paulo (USP), e resume-se a uma secretária e três grandes freezers para estocar a carne, vendida por profissionais autônomos.

O abatedouro de Atibaia já não funciona mais. Quando precisam renovar seus estoques de óleo de rã, os sócios pedem a seus fornecedores — um deles situado na cidade de Tucunduva, no Rio Grande do Sul — para separar a gordura do animal em pacotes de aproximadamente dois quilos. "Temos também fornecimento de gordura em Brasília e no Rio de Janeiro", afirma Hikichi.

A descoberta do PIPE

Em 2003, Rolim e Hikichi foram até a USP para verificar as possibilidades do uso artesanal da pele de rã. "A moça que nos atendeu estava com o dedo machucado", lembra Rolim. Ao ver a ferida, Hikichi prontamente lhe recomendou o tratamento com óleo de rã. "Pega o óleo e passa", foi o que disse na ocasião.

Uma semana depois, quando os dois voltaram ao local, a mesma moça mostrou-lhes que seu dedo estava curado. Ela sugeriu que eles pesquisassem a fundo as propriedades farmacológicas do óleo e indicou-lhes para isso o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), instalado no campus da universidade.

Até então, ambos nunca tinham pensado em comercializar o óleo, e não conheciam nenhuma literatura científica a respeito. Mesmo assim, foram ao local indicado — e lá descobriram como funcionava o PIPE. A estrutura bem-delineada do programa e o espaço físico do Cietec serviram de incentivo para que eles elaborassem seu primeiro projeto de pesquisa e desenvolvimento.

Fases I e II

Por meio dos arquivos do Cietec, os planos de pesquisa da Central Rã chegaram ao conhecimento do professor Jayme Antônio Sertié, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, que já investigava propriedades cicatrizantes e antiinflamatórias em diferentes fontes, como plantas. Sertié entrou em contato com os sócios e acabou sendo convidado por eles para comandar o projeto que a empresa encaminharia ao PIPE.

A Fapesp aprovou o projeto e liberou R$ 44 mil para a primeira fase, de estudo da viabilidade. Com esse dinheiro, a Central Rã conseguiu atestar cientificamente a eficiência do óleo de rã na cicatrização de ferimentos e no tratamento de inflamações. Essa constatação garantiu aprovação da segunda fase do projeto e a liberação de mais R$ 240 mil, aproximadamente. A empresa fez testes mais aprofundados com o óleo e voltou a obter resultados positivos.

As duas etapas contaram com a participação de alunos de mestrado e doutorado da USP e de profissionais terceirizados. A sala do Cietec em que as pesquisas foram feitas está hoje vazia, mas Rolim desenha no ar a posição que cada equipamento ocupava: ao lado da bancada existente no centro do laboratório ficava a chapa onde a gordura de rã era aquecida até que liberasse o óleo; os dois freezers usados para armazenar o material ficavam encostados em uma das paredes; do outro lado, esterilizador, centrífuga e balança de precisão completavam o cenário, em meio a diversos outros equipamentos menores.

Se aprovada, a terceira fase do projeto não terá a coordenação de Sertié. Segundo Rolim, a empresa tinha interesse em prolongar a parceria com o professor — tanto que chegou a investir recursos próprios para contratar os auxiliares que ele havia solicitado —, mas não houve entendimento entre as partes. O professor ficou com os equipamentos adquiridos com os recursos das duas primeiras fases, de modo que a empresa terá de remontar seu laboratório para dar seqüência ao projeto.

A nova coordenadora

Hikichi e Rolim chamaram a pesquisadora Fabiana Medeiros da Silva, que é sócia do laboratório de análises clínicas Biosíntesis, para substituir Sertié na Fase III do PIPE. "Fui aluna do professor Jayme no ICB e conhecia seu trabalho", diz ela, justificando sua escolha para a coordenação do projeto. Outro ponto que pesou a seu favor foi o fato de a Central Rã ter sido vizinha da Biosíntesis, no Cietec, onde o laboratório de análises ainda está hospedado.

Uma das áreas de atuação da pesquisadora na Biosíntesis é o desenvolvimento de métodos eficientes de análise que permitem o uso cada vez menor de animais em ensaios clínicos — e, se possível, a eliminação completa dos testes in vivo, como já ocorreu na indústria de cosméticos da União Européia. Esse conhecimento também poderá ser útil à Central Rã, visto que as pesquisas feitas até agora pela empresa foram baseadas em culturas de células in vitro e em ensaios com ratos e coelhos.

Perspectivas

Nas duas primeiras fases do PIPE, explica Fabiana, a Central Rã investigou o poder cicatrizante do óleo e sua atividade contra inflamações e úlceras gástricas. A empresa também analisou a toxicidade da substância nos usos tópico e oral — isto é, se houve irritação na pele da cobaia ou lesão de células, de acordo com a quantidade aplicada e a resposta obtida, estabelecendo-se assim uma dose eficaz.

"Pelos parâmetros avaliados, a toxicidade foi praticamente ausente", conta a pesquisadora. "Isso quer dizer que os efeitos colaterais — se existirem — são muito baixos", completa. No entanto, ela faz questão de conter qualquer otimismo exagerado. "As duas primeiras fases são de pesquisa básica e é agora que vamos pensar como o óleo será transformado em produto."

Uma coisa, pelo menos, já está certa: como medicamentos e cosméticos têm de atravessar um longo e complicado processo de testes determinados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) antes de chegarem ao mercado, a Central Rã vai dedicar-se por hora somente aos produtos de uso tópico.

A empresa preparou o plano de negócios exigido para a aprovação da terceira fase do PIPE, mas afirma que ainda não tem como avaliar as perspectivas de lucro. A tendência é que os produtos finais tenham boa aceitação e preço baixo, visto que o óleo demonstrou causar poucos efeitos colaterais e é uma matéria-prima barata.

Como o foco da terceira fase do PIPE será o desenvolvimento de bioprodutos, e não somente a pesquisa, os sócios da Central Rã já encaminharam a papelada necessária para a criação de uma nova empresa. Enquanto esperam a aprovação do projeto pela Fapesp, um consultor está trabalhando para costurar possíveis alianças com grandes empresas farmacêuticas e investidores de capital, na tentativa de viabilizar o desenvolvimento de um produto e, mais ainda, de colocá-lo no mercado.

 

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