Central Brasileira de Comercialização e
Distribuição de Rã
Sócios
investigam saber popular e comprovam efeito
benéfico
do óleo de rã; remédio cicatrizante também
é antiinflamatório
Richard
Pfister
Uns contavam
histórias do poder cicatrizante
do óleo de rã, outros diziam
que era antiinflamatório. Havia
até quem o tivesse usado no tratamento
de doenças respiratórias,
como asma e bronquite, ou ainda sobre
a pele, para amenizar os efeitos das queimaduras
do sol.
O óleo
de rã já é conhecido
da cultura popular, e os sócios
da Central Brasileira de Comercialização
e Distribuição de Rã
decidiram testar, cientificamente, se
o remédio era bom mesmo. E conseguiram.
A empresa,
que tinha a venda da carne de rã
como seu carro-chefe (por R$ 32 o quilo,
em média), investigou as propriedades
farmacológicas do óleo retirado
de bolsas de gordura encontradas no intestino
dos anfíbios Rana catesbeiana.
Com um
projeto de pesquisa financiado pelo PIPE,
o programa da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp) que apóia
as pequenas empresas inovadoras, as respostas
vieram: o óleo de rã realmente
trata as feridas e inflamações.
Animados
com os resultados, Francisco Hikichi e
Onessi Rolim de Freitas requisitaram a
patente da técnica de extração
do óleo, e começaram a vendê-lo
como matéria-prima para a produção
de medicamentos e cosméticos.
Em uma
das vendas, para um fabricante de produtos
capilares de Campinas (SP), receberam
R$ 500 por dois litros do óleo.
Quase 220 rãs são necessárias
para obter um litro de óleo, enquanto
oito animais fazem um quilo de carne.
Apesar de todo o trabalho, o que seria
simplesmente descartado, acaba se tornando
um bom negócio.
Mas as
vantagens do óleo de rã
não terminam aí: a pesquisa
também mostrou que a substância
não é tóxica e pode
ser extraída de maneira fácil
e barata. Essas características
levaram Hikichi e Rolim a encaminhar mais
um projeto à Fapesp — desta
vez, para a Fase III do PIPE, a ser financiada
pela fundação em parceria
com a firma de capital de risco Imprimatur.
Se o
projeto for aprovado, a Central Rã
vai usar os recursos do programa para
desenvolver seus próprios produtos
a partir do óleo, como protetores
solares, além de pesquisar o uso
tópico do óleo em humanos.
Até agora, ensaios foram feitos
com ratos e coelhos.
O
começo
Rolim
começou a criar rãs em seu
sítio, em 1999, quando se aposentou
pela Telefônica. Formado em ciência
da computação pela Unicamp,
ele trabalhava na área de informática
da companhia. "Um belo dia, tinha
8 mil rãs", brinca.
Embora
conhecesse as dificuldades para vender
carne de rã no Brasil — a
iguaria até hoje não é
muito apreciada por aqui —, ele
fundou uma empresa junto com dois sócios
para comercializar sua produção.
A batizada Max Rã fixou sua sede
em Campinas e instalou o abatedouro na
vizinha Atibaia, de onde a carne saía
congelada para a revenda.
O negócio
começou a prosperar e logo atraiu
grandes produtores do Estado de São
Paulo — entre eles, Hikichi, que
era dono de um ranário em Ubatuba
(SP) havia mais de 30 anos.
Em 2001,
esses produtores uniram-se a Rolim para
formar a Central Rã. Com o passar
do tempo, contudo, os associados foram
deixando a nova empresa — uns migraram
para diferentes tipos de produção,
como cogumelos; outro saiu devido a problemas
com a vigilância sanitária
—, até que restaram apenas
Hikichi e Rolim.
A Central
Rã funciona hoje na própria
casa de Hikichi, na capital paulista.
A empresa fica no bairro do Butantã,
perto do campus da Universidade de São
Paulo (USP), e resume-se a uma secretária
e três grandes freezers para estocar
a carne, vendida por profissionais autônomos.
O abatedouro
de Atibaia já não funciona
mais. Quando precisam renovar seus estoques
de óleo de rã, os sócios
pedem a seus fornecedores — um deles
situado na cidade de Tucunduva, no Rio
Grande do Sul — para separar a gordura
do animal em pacotes de aproximadamente
dois quilos. "Temos também
fornecimento de gordura em Brasília
e no Rio de Janeiro", afirma Hikichi.
A
descoberta do PIPE
Em 2003,
Rolim e Hikichi foram até a USP
para verificar as possibilidades do uso
artesanal da pele de rã. "A
moça que nos atendeu estava com
o dedo machucado", lembra Rolim.
Ao ver a ferida, Hikichi prontamente lhe
recomendou o tratamento com óleo
de rã. "Pega o óleo
e passa", foi o que disse na ocasião.
Uma semana
depois, quando os dois voltaram ao local,
a mesma moça mostrou-lhes que seu
dedo estava curado. Ela sugeriu que eles
pesquisassem a fundo as propriedades farmacológicas
do óleo e indicou-lhes para isso
o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas
(Cietec), instalado no campus da universidade.
Até
então, ambos nunca tinham pensado
em comercializar o óleo, e não
conheciam nenhuma literatura científica
a respeito. Mesmo assim, foram ao local
indicado — e lá descobriram
como funcionava o PIPE. A estrutura bem-delineada
do programa e o espaço físico
do Cietec serviram de incentivo para que
eles elaborassem seu primeiro projeto
de pesquisa e desenvolvimento.
Fases
I e II
Por meio
dos arquivos do Cietec, os planos de pesquisa
da Central Rã chegaram ao conhecimento
do professor Jayme Antônio Sertié,
do Instituto de Ciências Biomédicas
(ICB) da USP, que já investigava
propriedades cicatrizantes e antiinflamatórias
em diferentes fontes, como plantas. Sertié
entrou em contato com os sócios
e acabou sendo convidado por eles para
comandar o projeto que a empresa encaminharia
ao PIPE.
A Fapesp
aprovou o projeto e liberou R$ 44 mil
para a primeira fase, de estudo da viabilidade.
Com esse dinheiro, a Central Rã
conseguiu atestar cientificamente a eficiência
do óleo de rã na cicatrização
de ferimentos e no tratamento de inflamações.
Essa constatação garantiu
aprovação da segunda fase
do projeto e a liberação
de mais R$ 240 mil, aproximadamente. A
empresa fez testes mais aprofundados com
o óleo e voltou a obter resultados
positivos.
As duas
etapas contaram com a participação
de alunos de mestrado e doutorado da USP
e de profissionais terceirizados. A sala
do Cietec em que as pesquisas foram feitas
está hoje vazia, mas Rolim desenha
no ar a posição que cada
equipamento ocupava: ao lado da bancada
existente no centro do laboratório
ficava a chapa onde a gordura de rã
era aquecida até que liberasse
o óleo; os dois freezers usados
para armazenar o material ficavam encostados
em uma das paredes; do outro lado, esterilizador,
centrífuga e balança de
precisão completavam o cenário,
em meio a diversos outros equipamentos
menores.
Se aprovada,
a terceira fase do projeto não
terá a coordenação
de Sertié. Segundo Rolim, a empresa
tinha interesse em prolongar a parceria
com o professor — tanto que chegou
a investir recursos próprios para
contratar os auxiliares que ele havia
solicitado —, mas não houve
entendimento entre as partes. O professor
ficou com os equipamentos adquiridos com
os recursos das duas primeiras fases,
de modo que a empresa terá de remontar
seu laboratório para dar seqüência
ao projeto.
A
nova coordenadora
Hikichi
e Rolim chamaram a pesquisadora Fabiana
Medeiros da Silva, que é sócia
do laboratório de análises
clínicas Biosíntesis, para
substituir Sertié na Fase III do
PIPE. "Fui aluna do professor Jayme
no ICB e conhecia seu trabalho",
diz ela, justificando sua escolha para
a coordenação do projeto.
Outro ponto que pesou a seu favor foi
o fato de a Central Rã ter sido
vizinha da Biosíntesis, no Cietec,
onde o laboratório de análises
ainda está hospedado.
Uma das
áreas de atuação
da pesquisadora na Biosíntesis
é o desenvolvimento de métodos
eficientes de análise que permitem
o uso cada vez menor de animais em ensaios
clínicos — e, se possível,
a eliminação completa dos
testes in vivo, como já ocorreu
na indústria de cosméticos
da União Européia. Esse
conhecimento também poderá
ser útil à Central Rã,
visto que as pesquisas feitas até
agora pela empresa foram baseadas em culturas
de células in vitro e em ensaios
com ratos e coelhos.
Perspectivas
Nas duas
primeiras fases do PIPE, explica Fabiana,
a Central Rã investigou o poder
cicatrizante do óleo e sua atividade
contra inflamações e úlceras
gástricas. A empresa também
analisou a toxicidade da substância
nos usos tópico e oral —
isto é, se houve irritação
na pele da cobaia ou lesão de células,
de acordo com a quantidade aplicada e
a resposta obtida, estabelecendo-se assim
uma dose eficaz.
"Pelos
parâmetros avaliados, a toxicidade
foi praticamente ausente", conta
a pesquisadora. "Isso quer dizer
que os efeitos colaterais — se existirem
— são muito baixos",
completa. No entanto, ela faz questão
de conter qualquer otimismo exagerado.
"As duas primeiras fases são
de pesquisa básica e é agora
que vamos pensar como o óleo será
transformado em produto."
Uma coisa,
pelo menos, já está certa:
como medicamentos e cosméticos
têm de atravessar um longo e complicado
processo de testes determinados pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) antes de chegarem ao mercado,
a Central Rã vai dedicar-se por
hora somente aos produtos de uso tópico.
A empresa
preparou o plano de negócios exigido
para a aprovação da terceira
fase do PIPE, mas afirma que ainda não
tem como avaliar as perspectivas de lucro.
A tendência é que os produtos
finais tenham boa aceitação
e preço baixo, visto que o óleo
demonstrou causar poucos efeitos colaterais
e é uma matéria-prima barata.
Como o
foco da terceira fase do PIPE será
o desenvolvimento de bioprodutos, e não
somente a pesquisa, os sócios da
Central Rã já encaminharam
a papelada necessária para a criação
de uma nova empresa. Enquanto esperam
a aprovação do projeto pela
Fapesp, um consultor está trabalhando
para costurar possíveis alianças
com grandes empresas farmacêuticas
e investidores de capital, na tentativa
de viabilizar o desenvolvimento de um
produto e, mais ainda, de colocá-lo
no mercado.