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Publicado em 25 de julho de 2008









Bug Agentes Biológicos

Empresa que surgiu dentro da USP conquista os mercados interno
e externo com vespinhas e traças para controle biológico de pragas

Evanildo da Silveira

Já são vários imóveis distribuídos pelo Estado de São Paulo, de aparência bem comum. Nem se sabe que em dois deles, num bairro residencial de Piracicaba, 129 mil larvas da mariposa Diatraea saccharalis são condenadas à morte todos os dias. Uma a uma, elas são expostas, sem dó, à sua maior inimiga natural — a vespinha Cotesia flavipes — por 72 funcionárias da Bug Agentes Biológicos, empresa especializada em produzir insetos para combater pragas em lavouras de cana-de-açúcar, milho, tomate e outras culturas.

Conhecidas como broca-da-cana-de-açúcar, as larvas da D. saccharalis são responsáveis pela podridão vermelha, doença que atinge os canaviais e traz grandes prejuízos aos produtores de açúcar e álcool. Ao expô-las à C. flavipes, a Bug consegue obter milhares de novas vespinhas, que são então vendidas aos plantadores de cana.

Em outras duas unidades, uma na zona rural de Piracicaba e outra em Saltinho, a empresa produz diariamente, por método semelhante, dez quilos de ovos da traça Anagasta kuehniella. Por quilo desses ovos obtêm-se 360 milhões de vespinhas Trichogramma spp, outra inimiga das pragas que atacam plantações de diversas culturas: elas combatem a própria broca-da-cana, a lagarta-do-cartucho ou a lagarta-da-espiga. Trinta por cento dessa produção é exportada para sete países da Europa: Suíça, Espanha, França, Dinamarca, Grã-Bretanha, Itália e Bélgica. Com 120 funcionários ao todo, a Bug faturou R$ 1,5 milhões em 2007.

O começo

A Bug nasceu em 1999, em Piracicaba, dentro da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). A iniciativa de criá-la foi dos engenheiros agrônomos Danilo Scacalossi Pedrazzoli e Diogo Rodrigues Carvalho, na época alunos de mestrado sob orientação do professor José Roberto Postali Parra. A empresa recebeu o nome de CP2 Ltda-ME, de Carvalho e Pedrazzoli, que é razão social da Bug. "Escolhemos o nome fantasia Bug porque essa palavra em inglês significa inseto", conta Carvalho. "Também porque era um nome mundialmente conhecido na época, por causa do famoso 'bug do milênio', que atingiria todos os computadores do planeta. Outra razão foi para nos diferenciar das empresas 'bio' do Brasil, como Biocontrole, Biocontrol, Biocana, Bioagri, Bioagro, Bioresult; e do exterior, como Biocont! rol, Biotop, Bio Bee."

A empresa surgiu para aproveitar uma oportunidade de negócio gerada por um trabalho da Esalq em parceria com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), que é uma associação de citricultores e indústrias processadoras de frutas cítricas, a Cooperativa dos Cafeicultores e Citricultores de São Paulo (Coopercitrus) e a Universidade da Califórnia em Davis (UCDavis), dos Estados Unidos. Durante a pesquisa, essas instituições conseguiram sintetizar o feromônio (uma substância química que os insetos liberam para se comunicar ou para a fêmea atrair o macho) do bicho-furão-dos-citros (Ecdytolopha aurantiana), praga cuja lagarta ataca os frutos de plantas cítricas, como os laranjais.

Quando uma empresa do Japão industrializou o produto em forma de pastilha, os dois agrônomos enxergaram uma chance de ganhar dinheiro e fundaram a Bug. O primeiro objetivo da empresa foi produzir armadilhas para o bicho-furão-dos-citros usando as pastilhas japonesas como isca. Essas armadilhas são pequenas caixas vazadas — como se fossem tubos, só que no formato triangular — com as paredes internas untadas de cola, onde o inseto fica grudado. Várias dessas armadilhas são espalhadas pela plantação, cada uma com uma pastilha em seu interior. "Mas elas não servem para controlar a praga", explica Carvalho. "Sua função é apenas monitorar o nível de infestação do bicho-furão-dos-citros. Se o número médio de insetos por armadilha chega a oito, o produtor sabe que está na hora de usar! inseticida. Esse método racionaliza o uso do veneno."

O PIPE

Em 2001, os dois sócios resolveram ampliar a atuação da empresa e solicitaram um financiamento ao PIPE — o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas inovadoras. O projeto "Criação massal e comercialização de Trichogramma spp e Cotesia flavipes para o controle de pragas agrícolas" foi aprovado para a Fase I do programa, desenvolvida durante o primeiro semestre de 2001. Os R$ 72.147,44 liberados pela Fapesp foram fundamentais para a Bug se firmar. "Com esse dinheiro compramos equipamentos permanentes, como estufa, câmara climatizada, autoclaves, geladeira, frízer e liquidificador industrial", conta Carvalho. "Além disso, serviu para que adquiríssemos material de consumo para seis meses, como dieta para as lagartas ! e frasquinhos."

Demonstrada a viabilidade econômica do projeto durante a Fase I, a empresa solicitou financiamento para a Fase II. De novo o pedido foi aprovado, dessa vez no valor de R$ 243.951,01. Essa fase durou dois anos, entre o segundo semestre de 2001 e o primeiro de 2003, e objetivou colocar o produto no mercado. "Na verdade, já vendíamos as Cotesias e Trichogrammas, mas queríamos expandir o negócio", diz Carvalho. Depois, a empresa recebeu ainda financiamento da Fase III do PIPE, no valor de R$ 468.674,60. Essa fase também durou dois anos, entre 2004 e 2005. O dinheiro serviu para aumentar a produção e expandir a empresa.

Em agosto de 2006, a Bug pediu financiamento para um segundo projeto, intitulado "Criação massal e comercialização dos parasitóides de ovos Trissolcus basalis e Telenomus podisi para o controle de percevejos da soja". Aprovado no início de 2007 diretamente para a Fase II do programa, o projeto deverá estender-se até o final de 2008. A Fapesp liberou R$ 399.660,00, dinheiro que está sendo utilizado para pesquisa e aumento de escala na produção desses inimigos naturais dos percevejos da soja. "Ainda não produzimos esses parasitóides comercialmente", diz Pedrazzoli. "Estamos acabando de adaptar a tecnologia que desenvolvemos em escala laboratorial para um processo industrial."

Estratégia de sucesso

A Bug repete assim a estratégia de sucesso que a transformou em uma das maiores produtoras brasileiras de insetos para controle biológico de pragas. Para chegar a essa posição, a empresa não precisou inventar nenhuma tecnologia — apenas se aproveitou de um conhecimento milenar. Apesar de só agora estar ganhando importância no Brasil, o controle biológico de pragas é mais antigo do que se imagina. Esse método era conhecido dos chineses, que já usavam formigas para controlar pragas de citros no século III a.C.

Na Idade Moderna, o uso de inimigos naturais teve seu marco em 1888, quando os norte-americanos adotaram a joaninha-australiana (Rodolia cardinalis) para combater o pulgão-branco-dos-citros (Icerya purchasi). "Foi o primeiro grande sucesso do controle biológico, que se tornou um exemplo clássico na literatura sobre o assunto", diz o engenheiro agrônomo Wilson Carlos Pazini, da Faculdade de Ciências Agrárias do campus de Jaboticabal da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "Dois anos após a liberação da joaninha, o pulgão estava controlado." No caso da Bug, o que a empresa fez foi aperfeiçoar técnicas e equipamentos de criação e a dieta para os insetos. "No geral geramos apenas processos produtivos, que são de uso interno e por isso não precisam ser patenteados, pois não v! ão ser comercializados", explica Pedrazzoli.

Um dos insetos que a Bug produz, a Cotesia flavipes, é originário de Trinidad e Tobago e foi introduzido no Brasil na década de 70 do século passado. Desde então, vem combatendo com sucesso seu inimigo natural, a broca-da-cana. Até a década de 1980, o prejuízo causado por essa lagarta aos produtores de açúcar e álcool chegava a US$ 100 milhões por ano só em São Paulo. "Com a introdução e liberação da Cotesia flavipes no Estado, a intensidade de infestação da broca-da-cana, que era de 8% a 10%, passou para 2%", diz Pazini, da Unesp. "Isso resultou numa economia aproximada de US$ 80 milhões por ano, com a redução das perdas anuais de US$ 100 milhões para US$ 20 milhões."

O principal motivo desse prejuízo é a podridão vermelha. A lagarta em si não origina a doença, mas, ao furar o caule da cana para se alojar em seu interior e completar seu ciclo de vida, ou seja, transformar-se em mariposa, ela abre caminho para os fungos, os verdadeiros causadores da podridão vermelha. Essa doença provoca alterações químicas na planta, o que reduz a produção de açúcar e álcool. "Para uma produtividade de 80 toneladas de cana-de-açúcar por hectare, as perdas para cada 1% de infestação da broca são de 616 quilos de cana, 28 quilos de açúcar e 16 litros de álcool", informa Mauro Sampaio Benedini, gerente regional de produtos do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), associação civil de direito privado, sem fins lucrativos, voltada ao desenvo! lvimento tecnológico dos setores de cana, açúcar, álcool e bioenergia.

Por isso, afirma Bendini, o setor já se conscientizou de que o controle racional das pragas por meio de insetos ajuda a reduzir os custos de produção. Enquanto o combate às pragas dos canaviais com o uso de inseticida custa R$ 45 por hectare, o controle por meio da Cotesia flavipes custa R$ 15 e por meio da Trichogramma spp, R$ 36. Levando-se em conta que no Brasil são cultivados 5 milhões de hectares com uma produção de 387 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, a economia é considerável.

Mas as vantagens do controle biológico não estão apenas no menor custo. Em geral, os produtos químicos diminuem a infestação de pragas rapidamente só no início. É um controle emergencial, indicado para quando há níveis alarmantes de pragas ou para quando se quer um rápido extermínio delas. O problema é que os inseticidas provocam desequilíbrios ambientais, pois matam tanto a praga como seu inimigo natural. Após algum tempo, o inseto daninho volta em quantidade suficiente para afetar a plantação — e sem a presença de seu inimigo. O controle biológico, ao contrário, mantém a praga em nível de equilíbrio, sem causar danos.

Linhas de produção

As diversas unidades da Bug funcionam como fábricas de insetos, com verdadeiras linhas de produção. A de Piracicaba produz a Cotesia flavipes, que é a agente do bem, e a praga, que é a broca-da-cana. As outras duas unidades produzem a vespinha Trichogramma. Além disso, graças ao PIPE, a empresa mantém uma parceria com a Esalq, o que lhe permite realizar pesquisas e controle de qualidade da produção dos insetos nos laboratórios da escola.

A fábrica de Cotesias ocupa dois prédios de 800 metros quadrados cada. Tudo começa na Sala de Adultos, com temperatura de 22 °C, onde pupas da mariposa Diatraea saccharalis prestes a se tornar adultas são colocadas em várias gaiolas. De quatro a sete dias depois, os insetos adultos —uma mariposa de cor amarela-palha e hábitos noturnos — são retirados das gaiolas, juntados em casais e colocados em tubos de PVC de 20 centímetros de altura por 10 centímetros de diâmetro, forrados com um papel tipo cartolina. Cada tubo recebe de 30 a 50 casais, dependendo da época do ano. Em quatro dias, cada fêmea é capaz de colocar até 450 ovos.

Depois desses quatro dias, o papel é retirado e recortado em pedacinhos que contêm em média 250 ovos — mais ou menos o equivalente à postura de uma fêmea. Cada pedacinho vai para um tubo ou frasco de vidro desenvolvido pela própria empresa (no caso tubo, vão apenas 25 ovos), onde há uma dieta especial para as lagartas que eclodirão dos ovos, à base de proteína de soja, germe de trigo, açúcar e vitaminas. Esses frascos e tubos — centenas deles — são armazenados, em prateleiras semelhantes às de uma adega, na Sala de Desenvolvimento, onde a temperatura é de 30 ºC e a umidade relativa do ar fica em torno de 80%. Depois de eclodirem, 5% das lagartas são retiradas dos vidros no 15° dia. São as felizardas que completarão seu ciclo de vida, para virarem matrizes e darem continuidade à ! criação. As demais lagartas permanecem nos vidros por 30 dias, de onde saem, com cerca de um centímetro de comprimento, para ser parasitadas pela vespinha Cotesia.

As mãos hábeis das funcionárias treinadas retiram as lagartas dos vidros e as encostam em um minúsculo furinho no centro de pequenos frascos transparentes, semelhantes a embalagens de pastilhas. Em cada um desses frascos, cerca de 50 vespinhas voam agitadas. Quando entram em contato com as lagartas por meio do furinho, as vespinhas depositam seus ovos dentro delas. Dizendo assim, parece um processo demorado. No entanto, a Cotesia só precisa de uma fração de segundo para chegar até o furinho e introduzir seu ovopositor na lagarta, deixando dentro dela cerca de 50 ovos. É tão rápido que cada funcionária consegue expor de 3 mil a 5 mil lagartas por dia.

Depois disso, as brocas-da-cana vão para a Sala de Massa, onde a temperatura é de 25 ºC. Lá, ficam em placas de acrílico dentro de pequenos frascos achatados e transparentes. Nas placas há uma dieta de realimentação, que sustenta as lagartas enquanto os ovos das vespinhas se desenvolvem dentro delas até eclodir. Quando isso acontece, as pequenas larvas comem por dentro sua hospedeira. Dez ou 11 dias após o parasitismo, as larvas saem da lagarta já morta e se juntam numa massa de pupas, formando pequenos casulos que, juntos, parecem uma espuma branca.

Esses casulos são um dos produtos da Bug. A empresa os vende em copos de plástico cujo tamanho fica entre o de um copinho descartável de café e o de um copinho de água. Cada copo contém 30 casulos com cerca de 50 pupas de Cotesia flavipes — ou seja, dá origem a 1,5 mil vespinhas. O comprador recebe os copos e espera as pupas se transformarem no inseto. Então, vai até a lavoura, abre o frasco e caminha com ele por uns 25 metros, para que as vespinhas saiam e se espalhem pela plantação. Aí, por conta própria, elas vão fazer o que fazem na fábrica: colocar seus ovos no interior da broca-da-cana. E tudo se repete. "São necessárias 6 mil vespinhas para controlar a praga em um hectare", explica Pedrazzoli. "Hoje nós produzimos 250 milhões de Cotesias por mês, o que &eacut! e; suficiente para tratar 40 mil hectares de cana-de-açúcar."

Ovos de traça

O outro produto do portfolio da Bug é uma cartela com ovos da traça Anagasta kuehniella já parasitados pela vespinha Trichogramma. O poder de fogo dessa vespinha é maior do que o da Cotesia. Ela ataca e controla um número maior de pragas, como a própria broca-da-cana, a lagarta-do-cartucho, a lagarta-da-espiga e pragas de hortaliças, como o tomate. Sua produção também é mais fácil, pois ela pode ser criada em hospedeiros alternativos. "É diferente do que ocorre com a Cotesia, que só pode ser multiplicada em seu hospedeiro natural, isto é, a própria praga que ela combate, a broca-da-cana", explica Carvalho. "No caso da Trichogramma, nós usamos a Anagasta, que vive em grãos armazenados e se contenta com uma dieta mais simples, seca, composta ! apenas por farinha de trigo integral e levedura."

O processo de produção, no entanto, é semelhante. Primeiro, casais adultos da traça Anagasta são colocados em gaiolas para acasalar. Lá, as fêmeas põem os ovos, que em seguida são recolhidos. Uma parte deles é misturada à dieta à base de farinha e levedura, para manutenção da colônia. A outra parte — 95% — é esterilizada com raios ultravioletas e, depois, exposta em bandejas à vespinha Trichogramma, que, por sua vez, põe seus ovos dentro dos da traça.
 
Em outra sala, os ovos já parasitados são colocados em embalagens perfuradas que permitem a saída dos parasitóides no campo. As embalagens nada mais são do que cartelas biodegradáveis constituídas por três camadas de papelão. Mas há um segredo: a camada do meio possui pequenos "túneis" de dois milímetros de diâmetro. Quando as outras camadas são sobrepostas a ela, esses "túneis" formam pequenos recipientes ou cápsulas — cada um com capacidade para armazenar 2 mil ovos. Desenvolvida pela própria Bug, essa embalagem inovadora já está protegida por patente — a única que a empresa detém.

A empresa chegou à embalagem que usa hoje depois de várias tentativas que não deram certo. As versões anteriores eram vulneráveis a formigas, que comiam os ovos, impedindo a eclosão das vespinhas. Além de proteger os ovos desses predadores, a cápsula proporciona maior segurança quanto às possíveis mudanças de temperatura ou ocorrência de chuvas. Essas cartelas são vendidas aos produtores, que as colocam na própria planta ou em suportes. Quando as vespinhas eclodem, elas saem pelos furinhos e vão parasitar os ovos das pragas na lavoura.

A satisfação dos clientes pode ser medida pelos planos de expansão da Bug. "Estamos aumentando a produção e contratamos muitas pessoas nos últimos dias", diz Pedrazzoli. “Pretendemos, em um curto espaço de tempo, ser uma das maiores empresas de controle biológico de pragas do mundo. Temos como mercados-alvo o Brasil, a Argentina e o Uruguai, além do europeu no fornecimento de insumos."

 

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