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Publicado em 25 de fevereiro de 2008






BCS Tecnologia

Válvula de pressão para UTI é aposta de empresa, que quer 10% do
mercado no primeiro ano; lançamento será no segundo semestre

Rachel Bueno

A BCS Tecnologia possui duas características que nem sempre são vistas juntas: ao mesmo tempo, é uma empresa familiar e inovadora. Seus sócios, Flávio, Rogério e Cristiane, compartilham o sobrenome Ulbrich — Flávio é irmão de Rogério e marido de Cristiane — e o espírito empreendedor. Entre janeiro e agosto de 2005, eles identificaram um nicho a ser explorado no mercado de equipamentos médicos, desenvolveram uma válvula reguladora de pressão para hospitais com características inovadoras, depositaram um pedido de patente para o produto no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), abriram a BCS e inscreveram-na no processo seletivo da Incubadora de Empresas da Unicamp (Incamp).

A entrada da BCS na Incamp aconteceu em setembro de 2005. De lá para cá, a empresa concluiu um projeto da Fase II do PIPE — o programa da Fapesp que apóia a pesquisa na pequena empresa — e conquistou o quarto lugar na competição "Empreender é Show", conduzida pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) no decorrer de 2007. Para 2008, a previsão é de muito trabalho: a BCS já tem dois projetos de pesquisa aprovados por agências de fomento e aguarda a aprovação de outros três — dois deles dentro do PIPE.

Um dos dois projetos ainda não aprovados do PIPE se enquadra no edital que a Fapesp lançou em julho de 2007 junto com a firma de capital de risco Imprimatur para financiar a Fase III do programa. O objetivo desse projeto é a realização de testes com a válvula reguladora de pressão diretamente em hospitais. Se ele for aceito pela Fapesp, a BCS poderá até receber a Imprimatur como sócia. O outro projeto, apresentado no último mês de outubro, diz respeito à Fase I do programa. Com ele, a empresa quer investigar a viabilidade de um equipamento médico para "situações de emergência", sobre o qual a sócia Cristiane não dá mais detalhes. A única coisa que ela revela por enquanto é que a parte de microeletrônica desse equipamento será custeada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No projeto aprovado pelo CNPq está prevista a vinda de um pesquisador visitante para a empresa.

Competências complementares

A oportunidade de ter o próprio negócio apareceu para Flávio, Rogério e Cristiane em janeiro de 2005. Foi nesse mês que Rogério, engenheiro mecânico formado pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), relatou ao irmão e à cunhada um fato que lhe chamara a atenção em seu trabalho na área comercial de uma distribuidora de equipamentos médicos: sempre que visitava hospitais e clínicas, encontrava caixas cheias de válvulas reguladoras de pressão estragadas. Muito usadas em unidades de tratamento intensivo para controlar o fluxo de gases puros ou misturas de gases que entram em contato direto com o corpo dos pacientes para fins de diagnóstico, tratamento ou profilaxia — os chamados gases medicinais, caso do oxigênio, do dióxido de carbono e do hélio, por exemplo —, essas válvulas eram frágeis e se quebravam facilmente; além disso, a equipe de saúde costumava ter dificuldade para lidar com o mecanismo de regulagem de pressão.

"Propusemos-nos a sentar uma vez por semana para discutir o problema e começar a resolvê-lo tecnicamente", conta Cristiane. "Em junho, já havíamos feito todo o desenvolvimento e tínhamos um protótipo do produto", acrescenta. Formada em tecnologia mecânica pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP), ela tem um MBA executivo pelo Ibmec São Paulo e é mestre e doutora em engenharia mecânica pela Unicamp, onde faz agora seu pós-doutorado. Cristiane é responsável pelas atividades de pesquisa e desenvolvimento da BCS. Faz questão, no entanto, de ressaltar a importância do trabalho do cunhado e do marido. Flávio é administrador de empresas, mas se especializou em engenharia clínica na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp. O engenheiro clínico é aquele que gerencia o uso de equipamentos médicos dentro de um hospital. "Temos competências complementares", aponta ela. Por enquanto, os três sócios são os únicos funcionários da empresa.

A válvula

A válvula criada pelos sócios da BCS tem dois diferenciais: sua proteção contra quedas e seu sistema de fechamento rápido. "Quando o usuário soltava uma válvula da parede, ele a segurava pela mangueira [que transporta os gases medicinais até o paciente]; era quando a válvula caía no chão e se quebrava", diz Cristiane, explicando o motivo das inúmeras caixas de válvulas estragadas encontradas por Rogério nos hospitais. A solução foi o desenvolvimento de uma proteção de borracha para diminuir o impacto das quedas sobre o equipamento. Já o sistema de fechamento tem a vantagem de funcionar automaticamente. De acordo com Cristiane, nos modelos encontrados hoje no mercado, quem fecha a válvula é o funcionário do hospital. A patente depositada pela empresa no INPI protege justamente o sistema de fechamento rápido e a proteção contra quedas.

O PIPE

Flávio, Rogério e Cristiane conseguiram uma vaga na Incamp graças ao projeto da válvula, mas não tinham recursos para transformar a idéia em produto. A saída apareceu dentro da incubadora, onde ficaram sabendo como funciona o PIPE. "Já havíamos tido contato com uma empresa financiada pelo PIPE, mas achávamos que isso não era coisa para nós", comenta a pesquisadora. Depois de tirar suas dúvidas sobre o programa, eles encaminharam um projeto à Fapesp. Aprovado diretamente para a Fase II do PIPE, o projeto foi executado entre maio de 2006 e maio de 2007.

"O objetivo da Fase II foi fazer ensaios com o equipamento para ver se ele funcionava", resume Cristiane. Ela lembra que o primeiro protótipo da válvula, montado antes da criação da BCS, continha toda a engenharia do projeto, mas não chegou a ser testado com gases medicinais. A empresa não quer divulgar quanto recebeu da Fapesp até agora. No resumo do projeto apresentado à agência de fomento, a BCS pediu financiamento para construção e testes de 150 válvulas de pressão.

Os testes

A BCS contratou a Mecatron, empresa júnior do curso de engenharia de controle e automação da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp, para fazer os testes com a válvula. O aluno de graduação David de Jesus Santos, responsável pela gestão do projeto na Mecatron, conta que o objetivo dos testes era verificar se a válvula obedecia às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para utilização em hospitais. Ele chamou um doutorando da FEM orientado pelo professor Kamal Abdel Radi Ismail para cuidar da parte técnica. Em quatro dias, esse doutorando realizou três tipos de testes no Laboratório de Térmica e Fluidos da FEM: o de resistência ao impacto, para avaliar a proteção da válvula contra quedas; o de desempenho e funcionalidade, para analisar a durabilidade do produto; e o de características de fluxo, para conferir os níveis de pressão na entrada e na saída dos gases. Segundo David, que hoje não está mais na Mecatron, a válvula se saiu muito bem na maior parte dos quesitos, mas não passou em alguns deles — o que, diz, já era esperado por Cristiane. Mesmo assim, ele acredita que a avaliação foi positiva, pois "deu um feedback para a empresa melhorar o produto".

Mercado e comercialização

De acordo com o estudo de mercado feito pela BCS, no Brasil são vendidas cerca de 8 mil válvulas reguladoras de pressão por mês, com preços que variam de R$ 50 a R$ 400 — alguns modelos importados, entretanto, chegam a custar até R$ 800. A empresa pretende lançar seu equipamento no início do segundo semestre de 2008 e quer conquistar 10% do mercado logo nos primeiros 12 meses. Cristiane acredita que o produto poderá competir em qualidade com os importados e ainda sair mais barato. A definição do preço, contudo, depende da escolha do fabricante. Como não possui o registro da Anvisa para produção de equipamentos médicos, a BCS precisa se aliar a alguma fábrica já autorizada.

"Demorou mais de um ano e meio para entendermos por que este prédio não pode ser aprovado pela Anvisa", diz a pesquisadora, referindo-se ao fato de a incubadora não possuir a infra-estrutura que a agência exige para conceder o registro. A BCS já conversou com um possível fabricante e, junto com ele e com a empresa na qual Rogério trabalha (os dois nomes são mantidos em segredo), enviou um projeto para o programa de formação de arranjos produtivos locais (APLs) da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). "Se o projeto não sair, teremos de procurar uma alternativa", adianta Cristiane. "A BCS é uma empresa nascente e esse será o primeiro produto a ser comercializado; portanto, não temos como fugir de uma parceria para colocá-lo no mercado."

Embora a questão da fabricação ainda não esteja resolvida, a BCS já sabe que terá de vender muitas válvulas para lucrar com o produto. "É por isso que queremos exportar", continua a pesquisadora. "Se só olharmos para o mercado nacional, não conseguiremos o volume de que precisamos." Os planos de exportação também já estão traçados: a idéia é começar por Argentina, Portugal e Espanha, países nos quais os sócios da BCS conhecem pessoas que podem fazer o primeiro contato com os canais de distribuição. Antes disso, no entanto, eles precisão pedir uma patente internacional para o equipamento e conseguir a chamada Marcação CE, que indica a conformidade de um produto com os requisitos legais da União Européia.

De acordo com o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (Abimo), Hely Maestrello, a Marcação CE "é o passaporte para exportar". Para obtê-la, explica ele, as empresas têm de se adequar à norma ISO 13.485, voltada para equipamentos médicos, e depois ser aprovadas por um instituto estrangeiro de certificação. Hely conhece a BCS, que é associada da Abimo, e também sua válvula reguladora de pressão. Na opinião dele, as inovações presentes na válvula são "diferenciais bastante importantes tanto aqui como no mercado externo". Por isso, ele acredita que a empresa tem grandes chances de participar do programa de exportação que a entidade mantém em parceria com a Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex).

Prototipagem rápida

A BCS não se limita a desenvolver equipamentos médicos. A empresa também tem dois projetos de pesquisa em andamento na área de prototipagem rápida, na qual Cristiane é especialista — ela estudou o assunto durante o mestrado e o doutorado. Como o próprio nome indica, prototipagem rápida é a fabricação de protótipos em poucas horas. A técnica, que alia softwares a máquinas de prototipagem especiais, foi criada para permitir a fabricação de protótipos detalhados de peças industriais. Há alguns anos, ganhou uma nova aplicação: a confecção de modelos customizados de ossos do corpo humano e de próteses ósseas, usados por médicos e dentistas no planejamento de cirurgias complexas.

Os dois projetos da BCS sobre prototipagem rápida envolvem o Departamento de Biomateriais da FEM e investigam a possibilidade de a técnica servir também para a fabricação das próprias próteses ósseas. Um é financiado pela Fapesp e pelo CNPq; o outro, só pelo CNPq. "Estamos na fase de entender que características um material precisa ter para ser, ao mesmo tempo, biocompatível e aplicável à prototipagem rápida", diz a pesquisadora. "Mais para frente, vamos desenvolver um material que possa ser utilizado em próteses implantáveis." Segundo ela, os resultados dessa linha de pesquisa devem começar a aparecer a partir de 2010.

Aprendizado e futuro

Hoje, perto de completar dois anos e meio de vida, a BCS tem como lema a palavra planejamento. "Aprendemos a planejar a gestão da empresa e a gestão do desenvolvimento de produto", conta Cristiane. Ela destaca o papel do PIPE nesse aprendizado: "Foi o PIPE que deu toda a energia para conseguirmos entender o que é desenvolver um produto de tecnologia. Sem ele, estaríamos só na idéia." Durante o andamento do projeto financiado pelo programa, a BCS criou um protocolo com dez itens a ser analisados antes do início do desenvolvimento de um produto — entre outras coisas, a empresa verifica se o produto seria economicamente viável e se solucionaria algum problema. "Já aconteceu de pensarmos em desenvolver um produto e desistirmos depois de fazer uma busca de patentes, pois já havia coisas parecidas no mercado. Ou o contrário: vermos que o produto é bom, tem inovação, mas o mercado não vai comprar mais do que mil unidades."

Em relação à possibilidade de ter uma firma de capital de risco com sócia, caso seja aprovada no edital da Fapesp com a Imprimatur, a BCS ainda não tem uma posição definida. "Escrevemos dois projetos prevendo a fabricação da válvula [o outro é o da Finep com o Sebrae] e ambos vão nos levar para o mesmo lugar. Queremos ter opção de escolha", afirma Cristiane. Contudo, ela não esconde a satisfação de ter chegado à etapa final de seleção. "Se uma empresa renomada [a Imprimatur] se interessou por nós, já valeu a pena o investimento de tempo que fizemos."

 

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