BCS Tecnologia
Válvula
de pressão para UTI é aposta de empresa,
que quer 10% do
mercado no primeiro ano; lançamento será
no segundo semestre
Rachel
Bueno
A BCS
Tecnologia possui duas características
que nem sempre são vistas juntas:
ao mesmo tempo, é uma empresa familiar
e inovadora. Seus sócios, Flávio,
Rogério e Cristiane, compartilham
o sobrenome Ulbrich — Flávio
é irmão de Rogério
e marido de Cristiane — e o espírito
empreendedor. Entre janeiro e agosto de
2005, eles identificaram um nicho a ser
explorado no mercado de equipamentos médicos,
desenvolveram uma válvula reguladora
de pressão para hospitais com características
inovadoras, depositaram um pedido de patente
para o produto no Instituto Nacional da
Propriedade Industrial (INPI), abriram
a BCS e inscreveram-na no processo seletivo
da Incubadora de Empresas da Unicamp (Incamp).
A entrada
da BCS na Incamp aconteceu em setembro
de 2005. De lá para cá,
a empresa concluiu um projeto da Fase
II do PIPE — o programa da Fapesp
que apóia a pesquisa na pequena
empresa — e conquistou o quarto
lugar na competição "Empreender
é Show", conduzida pela Associação
Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos
Inovadores (Anprotec) no decorrer de 2007.
Para 2008, a previsão é
de muito trabalho: a BCS já tem
dois projetos de pesquisa aprovados por
agências de fomento e aguarda a
aprovação de outros três
— dois deles dentro do PIPE.
Um dos
dois projetos ainda não aprovados
do PIPE se enquadra no edital
que a Fapesp lançou em julho de
2007 junto com a firma de capital de risco
Imprimatur para financiar a Fase III do
programa. O objetivo desse projeto é
a realização de testes com
a válvula reguladora de pressão
diretamente em hospitais. Se ele for aceito
pela Fapesp, a BCS poderá até
receber a Imprimatur como sócia.
O outro projeto, apresentado no último
mês de outubro, diz respeito à
Fase I do programa. Com ele, a empresa
quer investigar a viabilidade de um equipamento
médico para "situações
de emergência", sobre o qual
a sócia Cristiane não dá
mais detalhes. A única coisa que
ela revela por enquanto é que a
parte de microeletrônica desse equipamento
será custeada pelo Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq). No projeto
aprovado pelo CNPq está prevista
a vinda de um pesquisador visitante para
a empresa.
Competências
complementares
A oportunidade
de ter o próprio negócio
apareceu para Flávio, Rogério
e Cristiane em janeiro de 2005. Foi nesse
mês que Rogério, engenheiro
mecânico formado pela Universidade
de Mogi das Cruzes (UMC), relatou ao irmão
e à cunhada um fato que lhe chamara
a atenção em seu trabalho
na área comercial de uma distribuidora
de equipamentos médicos: sempre
que visitava hospitais e clínicas,
encontrava caixas cheias de válvulas
reguladoras de pressão estragadas.
Muito usadas em unidades de tratamento
intensivo para controlar o fluxo de gases
puros ou misturas de gases que entram
em contato direto com o corpo dos pacientes
para fins de diagnóstico, tratamento
ou profilaxia — os chamados gases
medicinais, caso do oxigênio, do
dióxido de carbono e do hélio,
por exemplo —, essas válvulas
eram frágeis e se quebravam facilmente;
além disso, a equipe de saúde
costumava ter dificuldade para lidar com
o mecanismo de regulagem de pressão.
"Propusemos-nos
a sentar uma vez por semana para discutir
o problema e começar a resolvê-lo
tecnicamente", conta Cristiane. "Em
junho, já havíamos feito
todo o desenvolvimento e tínhamos
um protótipo do produto",
acrescenta. Formada em tecnologia mecânica
pela Faculdade de Tecnologia de São
Paulo (Fatec-SP), ela tem um MBA executivo
pelo Ibmec São Paulo e é
mestre e doutora em engenharia mecânica
pela Unicamp, onde faz agora seu pós-doutorado.
Cristiane é responsável
pelas atividades de pesquisa e desenvolvimento
da BCS. Faz questão, no entanto,
de ressaltar a importância do trabalho
do cunhado e do marido. Flávio
é administrador de empresas, mas
se especializou em engenharia clínica
na Faculdade de Engenharia Elétrica
e de Computação (FEEC) da
Unicamp. O engenheiro clínico é
aquele que gerencia o uso de equipamentos
médicos dentro de um hospital.
"Temos competências complementares",
aponta ela. Por enquanto, os três
sócios são os únicos
funcionários da empresa.
A
válvula
A válvula
criada pelos sócios da BCS tem
dois diferenciais: sua proteção
contra quedas e seu sistema de fechamento
rápido. "Quando o usuário
soltava uma válvula da parede,
ele a segurava pela mangueira [que transporta
os gases medicinais até o paciente];
era quando a válvula caía
no chão e se quebrava", diz
Cristiane, explicando o motivo das inúmeras
caixas de válvulas estragadas encontradas
por Rogério nos hospitais. A solução
foi o desenvolvimento de uma proteção
de borracha para diminuir o impacto das
quedas sobre o equipamento. Já
o sistema de fechamento tem a vantagem
de funcionar automaticamente. De acordo
com Cristiane, nos modelos encontrados
hoje no mercado, quem fecha a válvula
é o funcionário do hospital.
A patente depositada pela empresa no INPI
protege justamente o sistema de fechamento
rápido e a proteção
contra quedas.
O
PIPE
Flávio,
Rogério e Cristiane conseguiram
uma vaga na Incamp graças ao projeto
da válvula, mas não tinham
recursos para transformar a idéia
em produto. A saída apareceu dentro
da incubadora, onde ficaram sabendo como
funciona o PIPE. "Já havíamos
tido contato com uma empresa financiada
pelo PIPE, mas achávamos que isso
não era coisa para nós",
comenta a pesquisadora. Depois de tirar
suas dúvidas sobre o programa,
eles encaminharam um projeto à
Fapesp. Aprovado diretamente para a Fase
II do PIPE, o projeto foi executado entre
maio de 2006 e maio de 2007.
"O
objetivo da Fase II foi fazer ensaios
com o equipamento para ver se ele funcionava",
resume Cristiane. Ela lembra que o primeiro
protótipo da válvula, montado
antes da criação da BCS,
continha toda a engenharia do projeto,
mas não chegou a ser testado com
gases medicinais. A empresa não
quer divulgar quanto recebeu da Fapesp
até agora. No resumo do projeto
apresentado à agência de
fomento, a BCS pediu financiamento para
construção e testes de 150
válvulas de pressão.
Os
testes
A BCS
contratou a Mecatron, empresa júnior
do curso de engenharia de controle e automação
da Faculdade de Engenharia Mecânica
(FEM) da Unicamp, para fazer os testes
com a válvula. O aluno de graduação
David de Jesus Santos, responsável
pela gestão do projeto na Mecatron,
conta que o objetivo dos testes era verificar
se a válvula obedecia às
normas da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) para utilização
em hospitais. Ele chamou um doutorando
da FEM orientado pelo professor Kamal
Abdel Radi Ismail para cuidar da parte
técnica. Em quatro dias, esse doutorando
realizou três tipos de testes no
Laboratório de Térmica e
Fluidos da FEM: o de resistência
ao impacto, para avaliar a proteção
da válvula contra quedas; o de
desempenho e funcionalidade, para analisar
a durabilidade do produto; e o de características
de fluxo, para conferir os níveis
de pressão na entrada e na saída
dos gases. Segundo David, que hoje não
está mais na Mecatron, a válvula
se saiu muito bem na maior parte dos quesitos,
mas não passou em alguns deles
— o que, diz, já era esperado
por Cristiane. Mesmo assim, ele acredita
que a avaliação foi positiva,
pois "deu um feedback para a empresa
melhorar o produto".
Mercado
e comercialização
De acordo
com o estudo de mercado feito pela BCS,
no Brasil são vendidas cerca de
8 mil válvulas reguladoras de pressão
por mês, com preços que variam
de R$ 50 a R$ 400 — alguns modelos
importados, entretanto, chegam a custar
até R$ 800. A empresa pretende
lançar seu equipamento no início
do segundo semestre de 2008 e quer conquistar
10% do mercado logo nos primeiros 12 meses.
Cristiane acredita que o produto poderá
competir em qualidade com os importados
e ainda sair mais barato. A definição
do preço, contudo, depende da escolha
do fabricante. Como não possui
o registro da Anvisa para produção
de equipamentos médicos, a BCS
precisa se aliar a alguma fábrica
já autorizada.
"Demorou
mais de um ano e meio para entendermos
por que este prédio não
pode ser aprovado pela Anvisa", diz
a pesquisadora, referindo-se ao fato de
a incubadora não possuir a infra-estrutura
que a agência exige para conceder
o registro. A BCS já conversou
com um possível fabricante e, junto
com ele e com a empresa na qual Rogério
trabalha (os dois nomes são mantidos
em segredo), enviou um projeto para o
programa de formação de
arranjos produtivos locais (APLs) da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep) e do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas (Sebrae). "Se o
projeto não sair, teremos de procurar
uma alternativa", adianta Cristiane.
"A BCS é uma empresa nascente
e esse será o primeiro produto
a ser comercializado; portanto, não
temos como fugir de uma parceria para
colocá-lo no mercado."
Embora
a questão da fabricação
ainda não esteja resolvida, a BCS
já sabe que terá de vender
muitas válvulas para lucrar com
o produto. "É por isso que
queremos exportar", continua a pesquisadora.
"Se só olharmos para o mercado
nacional, não conseguiremos o volume
de que precisamos." Os planos de
exportação também
já estão traçados:
a idéia é começar
por Argentina, Portugal e Espanha, países
nos quais os sócios da BCS conhecem
pessoas que podem fazer o primeiro contato
com os canais de distribuição.
Antes disso, no entanto, eles precisão
pedir uma patente internacional para o
equipamento e conseguir a chamada Marcação
CE, que indica a conformidade de um produto
com os requisitos legais da União
Européia.
De acordo
com o diretor-executivo da Associação
Brasileira da Indústria de Artigos
e Equipamentos Médicos, Odontológicos,
Hospitalares e de Laboratórios
(Abimo), Hely Maestrello, a Marcação
CE "é o passaporte para exportar".
Para obtê-la, explica ele, as empresas
têm de se adequar à norma
ISO 13.485, voltada para equipamentos
médicos, e depois ser aprovadas
por um instituto estrangeiro de certificação.
Hely conhece a BCS, que é associada
da Abimo, e também sua válvula
reguladora de pressão. Na opinião
dele, as inovações presentes
na válvula são "diferenciais
bastante importantes tanto aqui como no
mercado externo". Por isso, ele acredita
que a empresa tem grandes chances de participar
do programa de exportação
que a entidade mantém em parceria
com a Agência de Promoção
de Exportações do Brasil
(Apex).
Prototipagem
rápida
A BCS
não se limita a desenvolver equipamentos
médicos. A empresa também
tem dois projetos de pesquisa em andamento
na área de prototipagem rápida,
na qual Cristiane é especialista
— ela estudou o assunto durante
o mestrado e o doutorado. Como o próprio
nome indica, prototipagem rápida
é a fabricação de
protótipos em poucas horas. A técnica,
que alia softwares a máquinas de
prototipagem especiais, foi criada para
permitir a fabricação de
protótipos detalhados de peças
industriais. Há alguns anos, ganhou
uma nova aplicação: a confecção
de modelos customizados de ossos do corpo
humano e de próteses ósseas,
usados por médicos e dentistas
no planejamento de cirurgias complexas.
Os dois
projetos da BCS sobre prototipagem rápida
envolvem o Departamento de Biomateriais
da FEM e investigam a possibilidade de
a técnica servir também
para a fabricação das próprias
próteses ósseas. Um é
financiado pela Fapesp e pelo CNPq; o
outro, só pelo CNPq. "Estamos
na fase de entender que características
um material precisa ter para ser, ao mesmo
tempo, biocompatível e aplicável
à prototipagem rápida",
diz a pesquisadora. "Mais para frente,
vamos desenvolver um material que possa
ser utilizado em próteses implantáveis."
Segundo ela, os resultados dessa linha
de pesquisa devem começar a aparecer
a partir de 2010.
Aprendizado
e futuro
Hoje,
perto de completar dois anos e meio de
vida, a BCS tem como lema a palavra planejamento.
"Aprendemos a planejar a gestão
da empresa e a gestão do desenvolvimento
de produto", conta Cristiane. Ela
destaca o papel do PIPE nesse aprendizado:
"Foi o PIPE que deu toda a energia
para conseguirmos entender o que é
desenvolver um produto de tecnologia.
Sem ele, estaríamos só na
idéia." Durante o andamento
do projeto financiado pelo programa, a
BCS criou um protocolo com dez itens a
ser analisados antes do início
do desenvolvimento de um produto —
entre outras coisas, a empresa verifica
se o produto seria economicamente viável
e se solucionaria algum problema. "Já
aconteceu de pensarmos em desenvolver
um produto e desistirmos depois de fazer
uma busca de patentes, pois já
havia coisas parecidas no mercado. Ou
o contrário: vermos que o produto
é bom, tem inovação,
mas o mercado não vai comprar mais
do que mil unidades."
Em
relação à possibilidade
de ter uma firma de capital de risco com
sócia, caso seja aprovada no edital
da Fapesp com a Imprimatur, a BCS ainda
não tem uma posição
definida. "Escrevemos dois projetos
prevendo a fabricação da
válvula [o outro é o da
Finep com o Sebrae] e ambos vão
nos levar para o mesmo lugar. Queremos
ter opção de escolha",
afirma Cristiane. Contudo, ela não
esconde a satisfação de
ter chegado à etapa final de seleção.
"Se uma empresa renomada [a Imprimatur]
se interessou por nós, já
valeu a pena o investimento de tempo que
fizemos."