Versis Tecnologia
Sistema
patenteado de testes eletrônicos mostra
eficiência; agora,
empresa busca investimento para crescer
e comercializar o produto
Evanildo
da Silveira
O ano
de 2007 vai ficar na história da
Versis Tecnologia: faltou pouco para as
vendas do produto que levou à formação
da empresa aumentarem dez vezes em relação
a 2006. É só fazer as contas:
o faturamento com o Smart, o sistema para
testes de circuitos eletrônicos
desenvolvido pela empresa, passou de R$
25 mil para R$ 233 mil — um crescimento
de 932%. Aumentou também a importância
do produto para a vida da empresa: em
2006, os R$ 25 mil representavam quase
15% do faturamento total, de R$ 170 mil;
em 2007, do total de R$ 400 mil, a receita
com o Smart chegou perto dos 60%. "Pretendemos
manter o crescimento nos próximos
anos", informa o sócio-fundador
da Versis, Gilberto Antonio Possa. A empresa,
fundada em 2003, está incubada
na Companhia de Desenvolvimento do Pólo
de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec),
no interior de São Paulo.
Os números,
até aqui, justificam a confiança
revelada nas palavras do experimentado
engenheiro elétrico Possa —
que, em 1982, se graduou no Instituto
Nacional de Tecnologia, o famoso Inatel
de Santa Rita do Sapucaí, Minas
Gerais. Em busca de aumentar os recursos
disponíveis para a fase de implementação
do produto no mercado, o engenheiro dono
da Versis aproveitou o fato de já
ser cliente do PIPE e apresentou seu projeto
para comercialização do
Smart no edital conjunto lançado
pela Fapesp e pela empresa Imprimatur,
de capital de risco. O PIPE é o
programa que apóia projetos de
pesquisa apresentados por pequenas empresas
à agência que financia atividades
científicas e tecnológicas
no Estado de São Paulo. A Versis
chegou à reta final da seleção
— esteve entre as 20 empresas chamadas
para entrevistas em novembro de 2007 —,
mas ainda não sabe se receberá
ou não os recursos que pediu, pois
o resultado ainda não foi divulgado.
Consiga ou não os recursos adicionais
— que podem chegar até à
injeção de capital de risco
pela Imprimatur —, os planos não
mudam: "A meta é que as vendas
do Smart cheguem a R$ 400 mil em 2008
e, em 2011, a R$ 3,3 milhões",
avisa o engenheiro.
Uma
história na eletrônica brasileira
e no PIPE
A Versis
nasceu do sucesso do projeto de pesquisa
"Sistema Automático Reconfigurável
de Teste de Módulos Eletrônicos",
apresentado por Possa ao PIPE. Em 1999,
o engenheiro (que iniciou um mestrado
na Unicamp, mas não o concluiu)
teve a idéia de desenvolver um
equipamento capaz de testar placas eletrônicas
instaladas em diferentes dispositivos.
A Fapesp aprovou um financiamento inicial
de R$ 50 mil para o estudo de viabilidade;
no ano seguinte, destinou ao projeto mais
R$ 278 mil — para conclusão
em 2003.
A empresa
que recebeu os financiamentos foi a Qualibrás
Eletrônica, fundada por Possa especialmente
para atuar no reparo de placas eletrônicas
das centrais telefônicas Trópico.
Essas centrais, do tipo CPA (Central de
Programa Armazenado), eram de tecnologia
nacional; serviram à telefonia
fixa pública e chegaram a atender
um terço da demanda do setor no
País — resultado de sua qualidade
e de uma reserva de mercado. Foram desenvolvidas
no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento
da Telebrás, antes da privatização
das telecomunicações (o
CPqD se tornou uma fundação
e continua funcionando, em Campinas),
em conjunto, principalmente, com as empresas
Elebra (absorvida pela Alcatel) e Promon.
Da experiência
com o reparo das placas Trópico,
nasceu a idéia do sistema Smart.
O objetivo inicial era dominar uma tecnologia
de testes para desenvolver novos serviços
de reparo. "Para isso, concebemos
uma solução inédita:
uma plataforma de testes flexível,
que pudesse ser programada para diferentes
funções de testes aplicadas
a diferentes tipos e modelos de placas",
explica o engenheiro. Os trabalhos de
pesquisa e desenvolvimento foram tão
bem que, em 2002, dois protótipos
já haviam sido construídos,
usando o financiamento do PIPE. Com eles,
o engenheiro e sua equipe fizeram vários
testes em linha de produção
e em reparos nas placas que fazem a interface
entre o assinante e a central. Um único
equipamento aplicava testes a oito modelos
diferentes de placas terminais; e substituiu
vários outros. Entre eles, um de
alto custo, que utilizava instrumentos
importados. Os resultados foram altamente
promissores. "O tempo gasto para
realizar os testes diminuiu 85%, caindo
de 20 para três minutos", conta
Possa. Esses protótipos ainda estão
em uso — o que, para ele, comprova
a eficiência da tecnologia da empresa.
Diante
desse sucesso, em 2003 a equipe do projeto
decidiu sair da Qualibrás e abrir
a Versis, para se concentrar no desenvolvimento
do Smart. "Apresentamos um plano
à Ciatec com a cara e a coragem",
lembra Possa. "Com dinheiro do próprio
bolso e trazendo equipamentos e a tecnologia
que desenvolvemos na Qualibrás,
nos instalamos na incubadora em fevereiro
de 2004." A partir de então,
apesar das dificuldades, os negócios
começaram a se firmar. Em 2005,
o equipamento chegou ao mercado; em dois
anos, dez unidades foram vendidas e estão
em operação.
O
que é, afinal, o Smart
Na versão
mais recente do Smart, os módulos
eletrônicos que o compõem
estão abrigados numa caixa metálica
de 56 centímetros de comprimento
por 26 de largura e 22 de altura, com
alguns conectores dispostos no painel
dianteiro, que ligam o equipamento às
placas que se quer testar. Feita a conexão,
o software simula o funcionamento
do aparelho ou sistema que a placa vai
equipar e comandar.
Como uma
cadeira de dentista, por exemplo: o Smart
envia comandos para a placa como se eles
fossem enviados por quem usa a cadeira.
Se na cadeira há um botão
para reclinar, o aparelho envia um comando
à placa e verifica se aquele circuito
está funcionando. E assim para
todos os comandos e seus correspondentes
circuitos. "Ele é recomendado
para linhas de montagem de produtos eletrônicos
onde convivem muitos modelos de placas
com baixos volumes de produção",
diz Possa. "O Smart substitui com
grande vantagem os testadores dedicados,
isto é, aqueles feitos especificamente
para testar um só modelo de placa",
completa.
Outra
vantagem do Smart, sempre segundo seu
criador, é que ele contribui para
a diminuição do estoque
dos testadores dedicados na indústria
de montagem de placas, otimizando a utilização
do espaço da produção.
"Além disso, diminui o erro
humano, pois em muitas fases do teste
ele dispensa a ação de operadores,
geralmente necessária nos testadores
dedicados para ler displays,
mudar chaves e outras operações",
diz. Para ele, outra vantagem de seu produto
está no tempo curto necessário
para reconfigurar o equipamento. Além
disso, lembra, o suporte é todo
feito no Brasil.
Pilotos
A Fapesp
não foi a única apoiadora
da Versis e do sistema Smart. Para chegar
até aqui, a empresa contou também
com bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico
(CNPq), de dois anos, no valor total de
R$ 120 mil, obtidas no âmbito do
Programa de Recursos Humanos para Atividades
Estratégicas em Apoio à
Inovação Tecnológica
(RHAE). A contratação dos
engenheiros bolsistas permitiu melhorias
tecnológicas. "Produzimos
uma versão comercial do Smart,
com um novo hardware e linguagem
de programação mais simples
e de fácil compreensão",
explica Possa.
Para aperfeiçoar
o produto, a Versis usa a estratégia
de implementar 'pilotos'. Um deles está
na indústria Cadservice, de Campinas,
que monta placas de circuitos eletrônicos.
O Smart também foi utilizado para
testar uma placa controladora de um ventilador
pulmonar (equipamento usado em UTI hospitalar)
produzido pela Intermed, o que permitiu
resolver falhas de produção.
Além disso, foi testada uma placa
de controle de motores de elevador Semikron,
e o cliente foi treinado para programar
o testador com sua equipe interna.
A Conduvox,
empresa de São Paulo especializada
principalmente em centrais telefônicas
para condomínios, também
usou o Smart, entre 2005 e 2006, para
testes em três modelos de placas
de ramais telefônicos. "O teste
se revelou bem completo, garantindo a
funcionalidade das placas", disse
Vladimir Eidi Mori, diretor técnico
da empresa, a PIPE —
Pequenas que Inovam. "Sem
ele, as placas teriam de ser testadas
manualmente; e não poderíamos
executar todos os testes que o Smart executa:
teríamos de construir testadores
específicos. Não há
nenhum equipamento como esse no mercado.
O Smart tem agilidade e confiabilidade
nos testes das placas."
Para garantir
a exploração do Smart e
o seu futuro, a empresa deu entrada, em
2007, num pedido de patente no Brasil
sobre a tecnologia e as bibliotecas de
macrocomandos de testes. O engenheiro
Possa explica que um comando é
uma instrução de programação
de computador. Um macrocomando reúne
vários comandos, ou seja, varias
instruções pré-programadas.
"Além do produto já
pronto, vamos patentear suas evoluções
e alterações", diz.
"No futuro, nossa intenção
é comercializar o uso da tecnologia
do Smart e da biblioteca de macrocomandos",
planeja. "Por isso, pedimos também
apoio ao BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social]", conta.
Ele se refere ao fundo Criatec, criado
pelo banco para apoiar empresas nascentes.
"Se nossos pedidos forem aprovados,
a empresa poderá dar um salto."