Camelback Comércio de Pneus de Santos Ltda.
Máquina
e software para controle do processo de
vulcanização de
pneus tornarão empresa competitiva no 2º
maior mercado do mundo
Evanildo
da Silveira
José
Pedro Souza, hoje sócio da Camelback
Comércio de Pneus de Santos Ltda.,
nem sonhava em se tornar dono de empresa
— muito menos de uma especializada
em pneus — quando se aposentou,
em 1996, pela Companhia Siderúrgica
Paulista (Cosipa). Ele estava completamente
afastado do trabalho desde 1990 pelo fato
de a exposição ao benzeno,
durante o trabalho, ter causado uma diminuição
na sua contagem de glóbulos brancos.
Disposição, no entanto,
não lhe faltava: com apenas 40
anos de idade (a aposentadoria precoce
resultou do trabalho em área insalubre),
José Pedro queria encontrar uma
firma que aproveitasse sua experiência
em controle de qualidade — na Cosipa,
onde ingressara em 1975 como ajudante
industrial, ele passara também
pelos cargos de controlador metalúrgico,
chefe de turno na área de qualidade
do carvão e técnico de metalurgia
e qualidade. Quem o contratou foi uma
reformadora de pneus de Santos, no litoral
paulista. "Entrei como gerente, sem
conhecer nada de pneus", diverte-se.
"Mas entendia de administração
e processos operacionais."
No novo
emprego, José Pedro começou
a colocar em prática sua expertise
na área de controle de qualidade
e, ao mesmo tempo, a estudar tudo que
podia sobre pneus. Essa formação
autodidata transformou-o em um especialista
capaz de identificar as dificuldades do
mercado de pneus recauchutados e levou-o
a fundar a Camelback, em 2002. Modestamente
instalada na casa de José Pedro
no Guarujá, cidade vizinha de Santos,
a empresa reúne só quatro
pessoas, mas já é cliente
do PIPE, o programa da Fapesp que apóia
as pequenas inovadoras. Com uma máquina
recauchutadora de pneus e um software
em desenvolvimento, a Camelback espera
a divulgação do resultado
de um edital
lançado pela Fapesp em conjunto
com a firma de capital de risco Imprimatur.
Se for aprovada, a empresa poderá
ganhar a Imprimatur como sócia.
Vulcanização:
a etapa mais importante da fabricação
de pneus
Para entender
quais são as inovações
dos produtos da Camelback é preciso
saber um pouco sobre a fabricação
de pneus. Nesse setor, o processo mais
importante é o de vulcanização:
é por meio dele que um polímero
conhecido como elastômero borracha,
borracha crua ou camelback —
daí o nome da empresa — transforma-se
em matéria-prima para pneus. O
camelback é composto por
borracha natural ou sintética,
negro de fumo (material resultante da
queima incompleta de derivados de petróleo,
normalmente usado como pigmento e reforço
em borrachas e produtos plásticos),
enxofre, ceras, óleos emolientes
e outros ingredientes.
Segundo
Eduardo Pinheiro, engenheiro do Departamento
de Qualidade da Pirelli e autor da dissertação
de mestrado "Modelos Numéricos
Aplicados à Vulcanização
de Pneus", apresentada na Escola
Politécnica da Universidade de
São Paulo (Poli-USP), o processo
de vulcanização mais usado
hoje em dia é o termoquímico.
Ele explica que o aquecimento do camelback
somado à mistura de produtos químicos
permite a formação de ligações
cruzadas entre as moléculas do
composto. "Isso faz com que o polímero,
que inicialmente tinha comportamento plástico
e baixa dureza, passe a ter comportamento
elástico e alta dureza, o que o
torna adequado a diversas aplicações
mecânicas, como, por exemplo, os
pneus", informa.
Contudo,
o processo de vulcanização
só dá bons resultados quando
suas condições — tempo,
temperatura e pressão — são
determinadas com exatidão. Ou seja,
para não errar é necessário
levar em conta a composição
do camelback, as dimensões
do objeto que será fabricado e
qual vai ser sua aplicação.
É aí que surge um grande
problema: por enquanto não existe
nenhuma tecnologia que controle com precisão
todas essas variáveis.
De acordo
com o químico José Eugênio
Ganade, pesquisador da Camelback com 52
anos de experiência no desenvolvimento
da tecnologia da borracha — entre
outras ocupações, foi superintendente
da Dunlop do Brasil por 16 anos e chefe
do Centro Tecnológico da Pirelli
durante outros três —, o processo
de vulcanização empregado
hoje é empírico. "Para
uma temperatura X, estima-se um tempo
de vulcanização Y",
explica. "Normalmente, esse tempo
é de duas horas e meia, a uma temperatura
ascendente que pode chegar a 160°
C", acrescenta. No entanto, como
não há um controle preciso
da temperatura e da pressão, a
vulcanização pode ocorrer
antes ou nem se completar no período
pré-determinado. "Quando isso
acontece, a qualidade do produto final
é ruim", aponta o pesquisador.
"No caso dos pneus, sua resistência
ao desgaste fica comprometida e, conseqüentemente,
sua durabilidade é menor."
O
nascimento da Camelback
O dono
da Camelback conheceu as limitações
do processo de vulcanização
logo que entrou na reformadora de pneus
de Santos. O primeiro problema que encontrou
no dia a dia da empresa foi o fato de
30% de seus pneus recauchutados apresentarem
defeitos quando começavam a rodar
no carro dos clientes — um índice
alto demais. "Fizemos uma lista das
possíveis causas e fomos eliminando
uma a uma", lembra. "Só
não conseguimos resolver o problema
da temperatura [de vulcanização]."
Depois
de algum tempo na reformadora, José
Pedro resolveu sair de lá para
montar seu próprio negócio
na Incubadora de Empresas de Santos. Primeiro,
elaborou um projeto de destinação
ambientalmente correta de pneus usados.
"Era um projeto grande e por isso
não pôde ser instalado na
incubadora", conta. "Então,
os próprios dirigentes da instituição
sugeriram um projeto na área de
vulcanização. Depois de
vários dias pensando, me surgiu
a idéia de melhorar o processo
de vulcanização dentro das
reformadoras de pneus." Seu plano
de construir uma máquina capaz
de recauchutar dez pneus de uma só
vez foi aprovado pelo conselho da incubadora,
o que permitiu a abertura da Camelback.
De
olho no PIPE
Para levar
adiante o projeto, a nova empresa teria
de conseguir um financiamento. José
Pedro voltou seus olhos para PIPE, mas,
ao ler o edital do programa, percebeu
que a Fapesp não aprovaria um projeto
só sobre a máquina. "Eu
precisava de algo mais científico,
que envolvesse pesquisa e inovação",
afirma. "Por causa da minha experiência
em recapagem de pneus, sabia que não
existia nenhuma forma de controlar a vulcanização,
a não ser com tempo pré-determinado
pelo fabricante do camelback.
Como isso não era garantia de qualidade,
fui buscar na literatura os meios para
controlar esse mecanismo — a chamada
curva de vulcanização."
Em suas
pesquisas, José Pedro encontrou
estudos teóricos sobre o comportamento
da vulcanização —
entre eles, a dissertação de mestrado
de Eduardo Pinheiro. No entanto, ele afirma
que o ponto de partida para o entendimento
do processo foi seu trabalho na Cosipa
com carvão metalúrgico,
mineral formado por florestas soterradas
há milhões de anos e extraído
de minas a céu aberto ou subterrâneas.
"Esse material é semelhante
à borracha, pois também
é composto de moléculas
de carbono", observa. Por causa disso,
o comportamento da curva de vulcanização
da borracha é parecido com o da
curva de coqueificação —
nome pelo qual se conhece o processo de
transformação do carvão
metalúrgico em coque, o combustível
dos altos-fornos das siderúrgicas.
Em uma
feira do setor de borracha, José
Pedro conheceu o químico José
Eugênio Ganade e lhe falou de sua
experiência na Cosipa. "Começamos
a trocar idéias e ali mesmo acertamos
que trabalharíamos juntos no projeto",
recorda. "Mais tarde, viramos sócios."
Hoje, a Camelback conta com duas pessoas
além dos sócios: um graduado
em gestão e comércio exterior,
que também é técnico
de laboratório e em administração
de empresas, e uma estagiária.
Em 2003,
José Pedro e Ganade encaminharam
à Fapesp o projeto que previa o
desenvolvimento da máquina recauchutadora
e do software para controlar
com precisão o processo de vulcanização
da borracha — equipamentos que podem
ou não trabalhar juntos. O projeto
foi aprovado em setembro de 2004, teve
início em 2005 e deve terminar
em novembro deste ano. A agência
cedeu ao todo R$ 410 mil para a Camelback.
"Com esse dinheiro, compramos equipamentos
de laboratório e material de consumo",
conta o fundador da empresa. "Ele
também serviu para que desenvolvêssemos
protótipos da máquina recauchutadora
e do software." Como outros
donos de pequenas inovadoras beneficiadas
pelo PIPE, José Pedro afirma que
o apoio do programa foi fundamental para
o negócio. "Sem o dinheiro
do PIPE não existiria o projeto."
O
software
O software
que a empresa está desenvolvendo
indica o momento certo em que o camelback
atinge o chamado ponto de cura —
ou seja, quando ele é vulcanizado.
"Essa é a grande inovação
do nosso projeto: um produto que controla
o ponto exato da vulcanização,
não deixando que o material saia
do molde antes ou depois do tempo",
diz José Pedro. "Independentemente
da formulação e da aceleração
da vulcanização, o software
absorve todas as interferências
que ocorrem no processo, como oscilação
de temperatura e de pressão, por
exemplo."
Para encontrar
o ponto de cura, Ganade passou dois anos
observando o que ocorria durante o processo
de vulcanização conduzido
com várias temperaturas diferentes.
Finalmente, chegou a uma fórmula
que emprega cálculos matemáticos
complexos e determina o momento exato
da vulcanização para qualquer
composto. Depois que os dados de temperatura
chegam ao programa por meio de sensores
instalados no molde que abriga o polímero,
ele passa a monitorar a velocidade e o
andamento da vulcanização.
Com isso, o software "sabe"
exatamente quando o processo termina e
desliga o equipamento. Outra vantagem
é que ele pode ser aplicado na
fabricação de qualquer produto
que utilize borracha vulcanizável
como matéria-prima, como peças
de automóveis, calçados
e correias. Seu lançamento vai
acontecer durante a 8ª Convenção
Internacional de Pneus e Equipamentos
(Recaufair Pneushow 2008), a ser realizada
no Expo Center Norte, em São Paulo,
de 5 a 8 de maio.
A
máquina
A máquina
de recauchutagem da Camelback é
uma caixa de aço vazada, com 4,10
metros de comprimento por 1,80 de largura
e 2,33 de altura. Em sua parte superior
há um trilho com suportes para
sustentar lado a lado os pneus a ser prensados.
Ela possui também um conjunto hidráulico
para movimentar a prensa, dentro da qual
ocorre a vulcanização, e
um sistema de alimentação
de vapor e ar comprimido, que fornece
o calor e a pressão necessários
para o processo. "A união
dos pneus lado a lado forma uma única
câmara de pressão com controle
da curva de vulcanização,
estável durante todo o processo,
o que garante a uniformidade do produto",
explica José Pedro. "A máquina
é automatizada e não requer
adaptações nas instalações
já existentes nas recauchutadoras.
Além disso, ela ocupa menos espaço.
Hoje, os pneus são recauchutados
individualmente, deitados lado a lado."
O presidente
da Associação Brasileira
do Segmento de Reforma de Pneus (ABR),
Orfilo Henrique Pena, diz não conhecer
nem a Camelback nem seus produtos, mas
acredita que, a princípio, eles
podem interessar a algumas empresas do
setor. "Hoje, o sistema de vulcanização
na reforma a quente [que usa como matéria-prima
o camelback] é realizado
por meio de um molde para cada pneu",
explica. "Esse mesmo sistema também
é utilizado na vulcanização
e produção de pneus novos.
Há, no entanto, outro método,
a reforma a frio, que usa bandas de rodagem
pré-curadas, no qual são
vulcanizados vários pneus ao mesmo
tempo, por meio de uma autoclave."
Segundo
Orfilo, o Brasil tem o segundo mercado
de reforma de pneus do mundo, atrás
apenas dos Estados Unidos, com um faturamento
anual de R$ 4 bilhões. São
1.557 reformadoras e 18 fornecedores de
matéria-prima (15 nacionais e três
multinacionais), que geram 205 mil postos
de trabalho, sendo 45 mil diretos. Todos
os anos, as reformadoras colocam para
rodar 8,5 milhões de pneus recauchutados
de caminhão e ônibus; 8 milhões
de pneus de automóveis; 1 milhão
de pneus de motocicletas; e 240 mil pneus
de veículos fora-de-estrada e agrícolas.
"A reforma de pneus é uma
prática mundial, que surgiu como
forma de evitar o desperdício",
explica. "Cada pneu reformado utiliza
apenas 25% do material consumido para
produzir um novo e tem a mesma durabilidade."
A Camelback
ainda não fixou uma data para colocar
sua máquina no mercado. A empresa
desenvolveu um protótipo, mas não
tem condições de produzi-la
em larga escala. Por isso, o lançamento
vai depender do andamento das negociações
já em curso com uma empresa interessada
em fabricá-la.
Futuro
José
Pedro concluiu a faculdade de tecnologia
e gestão ambiental na Universidade
Monte Serrat (Unimonte), de Santos, em
2006, e hoje vai tocando sua empresa com
algumas dificuldades. Ela está
instalada na casa dele, no Guarujá,
em uma área de 90 metros quadrados,
onde também funciona o laboratório
onde são realizadas todas as pesquisas.
"Além dessas instalações,
temos em Santos uma empresa parceira que
nos fornece estrutura para fazermos os
ensaios industriais do processo",
conta. "Também temos uma área
própria de 250 metros quadrados,
no Guarujá, onde pretendemos construir
uma fábrica." Apesar das dificuldades
e limitações, ele é
otimista. "Nossos planos são
lançar o produto em feiras, como
a Recaufair, e iniciar as vendas",
diz, referindo-se ao software.
"Pretendemos nos expandir ao menos
20% ao ano nos próximos cinco anos."