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Publicado em 28 de dezembro de 2007






Khemia Equipamentos Tecnológicos de Efluentes Ltda.

Empresa aposta em atualização tecnológica demorada no mercado
e desenvolve recuperador da prata usada em processo fotográfico

Evanildo da Silveira

O técnico em desenho industrial Jonny Francisco Ros de Almeida decidiu ir contra a tendência do mercado. Em 2003, ele fundou a Khemia Equipamentos Tecnológicos de Efluentes Ltda. para desenvolver um recuperador de prata de filmes revelados, fotolitos e chapas de raio-X — sendo que a opinião corrente diz que a tecnologia fotográfica deixou a película e já migrou para o mundo digital. É o que leva alguém como Cláudio Gomma, por exemplo, a duvidar francamente da viabilidade do negócio da pequena do PIPE que é sua concorrente. No ramo desde 1972 — há 25 anos —, Cláudio criou a Reciclage Plásticos e Metais, que fabrica equipamentos para recuperar prata e outros subprodutos da revelação de películas. "O mercado de recuperação de prata está definhando na mesma velocidade em que cresce o mercado da imagem digital", afirma. "A Kodak, por exemplo, já vendeu seu departamento de fabricação de filmes para dedicar-se exclusivamente ao digital."

O dono da Khemia diz estar ciente da tendência. Mas, por enquanto, não a teme. Na opinião dele, antes do fim da década o País não terá dinheiro para modernizar a área de produção de imagem e revelação de material fotossensível. "Já ouvi falar há mais de dez anos que terminaria o sistema de filmes; porém, quando se trata de segurança, como na microfilmagem, ainda não há nada que substitua a película", afirma. "Isso significa que teremos muitos anos ainda antes de a digitalização dominar completamente o setor", argumenta.

O que motivou Jonny Francisco a fundar a Khemia foi sua atividade à frente da Rec Rent Serviços, empresa que abriu em 1997, especializada no conserto de equipamentos de raio-X. Por causa da empresa, ele passou a freqüentar hospitais e clínicas radiológicas e tomou conhecimento do negócio de recuperação de prata. Percebeu também que jogar fora os subprodutos da revelação era — e continua sendo — um problema para quem trabalha com raio-X. "Eles não encontravam equipamentos para fazer o tratamento de seus efluentes conforme estabelece a legislação ambiental", disse ao site PIPE — Pequenas que Inovam. Cláudio Gomma, da Reciclage, discorda do concorrente também nesse ponto. "Além dos nossos, existem no mercado diversos equipamentos de excelente qualidade", assegura. "Desde a invenção do filme fotossensível por grãos de prata, há quase cem anos, existe também a recuperação dos resíduos desse metal."

Jonny, no entanto, tem motivos para acreditar que há lugar para a Khemia prosperar no mercado brasileiro. Seus argumentos convenceram os examinadores do programa da Fapesp que apóia a inovação na pequena empresa a financiar a pesquisa para o aperfeiçoamento de seu recuperador. Ele garante que o aparelho — "extrator eletrolítico automático de metais pesados em efluentes", como diz o nome técnico — tem condições de recuperar 100% da prata contida nos resíduos de soluções reveladoras, algo que os demais modelos não fazem. "Há outros equipamentos semelhantes no mercado, mas eles não são tão eficientes quanto o nosso extrator", destaca. O técnico em desenho industrial acredita que foi esse diferencial que assegurou o financiamento do PIPE. A Khemia ainda está hospedada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas da Universidade de São Paulo (Cietec-USP); mas já contratou um escritório especializado para requerer a patente da invenção.

A prata na revelação

Para entender o que faz o extrator eletrolítico, é preciso conhecer um pouco do processo de revelação do filme branco e preto. Todo filme ou película fotossensível, como as das chapas de raio-X e dos fotolitos, é recoberto por uma fina camada de grãos de prata sensíveis à luz. "Bater uma foto" significa expor a camada de grãos de prata à luz. Mas como os objetos refletem a luz cada um à sua maneira, os grãos de prata sofrem diferentes graus de exposição — uns são expostos a mais luz, outros a menos. Acontece também que áreas da camada de grãos de prata não sejam sensibilizadas. Nesse caso, aparecem escuras ou pretas nas fotografias.

Depois que o filme é exposto à luz, a imagem fica gravada nele, mas não visível — diz-se que está latente. Para que possa ser vista, o filme precisa ser "revelado". Os reveladores mais comuns são o metol, a hidroquinona e a fenidona. Em determinado momento, o processo de revelação precisa ser interrompido, para evitar que sua continuação comprometa a qualidade da imagem. Para isso, é usado o "interruptor" — um composto de ácido acético diluído em água, que neutraliza a ação do revelador.

A eliminação de parte da prata contida no filme acontece na fase seguinte, de fixação — o último banho químico, que age nas áreas escuras e retira do filme o metal ainda sensível à luz. Esse banho é necessário porque o revelador torna a imagem latente visível somente nas áreas já sensibilizadas. Todos os grãos de prata que não sofreram a ação da luz continuam na emulsão mantendo suas capacidades fotossensíveis — ou seja, se forem novamente expostos à luz, como certamente serão, eles ainda poderão se alterar. O fixador mais usado é o tiossulfato de sódio, que desempenha basicamente duas funções: retira os grãos não atingidos pela luz e estabiliza a imagem revelada.

Nesse processo, o fixador reduz os grãos do metal não sensibilizados a uma suspensão de átomos, que é eliminada na lavagem — a última etapa —, feita com água. A emulsão composta pela água e pelo fixador contém a prata não sensibilizada, que sobrou no processo de formação da imagem. No caso da revelação da chapa de raio-X, por exemplo, esse líquido pode conter até quatro gramas de prata por litro. No caso do filme fotográfico, cada rolo libera em média 0,65 grama do metal. Esse material é descartado e pode ter dois destinos: ser jogado no esgoto ou passar por um processo para recuperação da prata.

Recuperar para jogar fora; ou recuperar

Jogar fora os líquidos da revelação é a alternativa menos utilizada: a prata é um metal pesado altamente poluidor e sua liberação no ambiente é proibida por normas estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). As Resoluções da Diretoria Colegiada (RDC) 306/04, da Anvisa, e 358/05, do Conama, dispõem sobre o gerenciamento dos resíduos de serviços de saúde (RSS). A resolução 04 determina que os reveladores utilizados em radiologia sejam submetidos a processo de neutralização (por profissionais qualificados) para alcançarem pH entre sete e nove — o índice de pH mede a acidez do produto químico. Só depois disso podem ser descartados no sistema local coletor de esgotos, desde que atendam às diretrizes dos órgãos de meio ambiente e saneamento. Já os fixadores devem ser submetidos a processo de recuperação da prata e também de retirada de outros metais pesados, caso estejam presentes. Mesmo se decidir jogar os líquidos no esgoto, o utilizador vai precisar retirar a prata. Por isso, a recuperação é a alternativa mais usada.  

Totalmente automatizado

O mercado do extrator eletrolítico da Khemia é, então, esse criado pela regulamentação para descarte dos líquidos. O fundador da empresa garante que o aparelho é capaz de recuperar 100% do metal precioso contido nos resíduos de soluções reveladoras. Ele é totalmente automatizado, reconhece a presença dos produtos químicos nos fixadores e fica o tempo todo conectado às máquinas processadoras (ou reveladoras) de filmes. A emulsão contendo a prata que sobra do processo de revelação é levada para um pequeno tonel dentro do extrator. Dentro do tonel, os grãos de prata imersos na solução são submetidos a uma corrente elétrica; a corrente elétrica dá ao metal recuperado a forma de pequenas escamas. Essa fase do processo, de eletrodeposição, recupera 97% da prata.

Os restantes 3% são recuperados por meio de um filtro de resinas iônicas. Essas resinas são feitas de poliéster e desenvolvidas especificamente para reter determinados produtos. No caso do extrator da Khemia, íons de prata. "Nenhum dos equipamentos existentes no mercado tem dois sistemas de recuperação da prata acoplados, um eletrolítico e outro por troca iônica", afirma Jonny Francisco. "A inovação do nosso sistema é a integração e também o uso de microprocessadores que monitoram e controlam o processo, transmitindo em tempo real todas as informações para uma central de controle."

Além de recuperar a prata, o extrator eletrolítico desenvolvido pela Khemia trata os efluentes, para que eles possam ser jogados no ambiente. Esse tratamento inclui a neutralização dos resíduos — levando o pH para sete, o que quer dizer que a mistura não é acida nem alcalina. Além disso, há o tratamento da água dos processadores. Para comprovar que o aparelho faz tudo o que Jonny diz que faz, o empresário vai tentar certificá-lo no Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro).

Mercado em declínio

O plano de negócios da Khemia não prevê a fabricação do extrator eletrolítico para venda. "Nossa idéia é atuar na prestação de serviço", explica Jonny. "Vamos terceirizar a produção do equipamento e alugá-lo para os hospitais, gráficas e jornais, por exemplo. Em vez de receber pagamento em dinheiro, poderemos fazer contratos para a prata recuperada em troca do nosso trabalho. Nossa máquina tem capacidade recuperar um quilo de prata por mês."

Outro conhecedor do mercado, o médico radiologista Henrique Carrete Jr., do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) — que também pensa que pode faltar prata, em pouco tempo, para a Khemia recuperar —, aponta, no entanto, um possível nicho para a empresa. De acordo com ele, as clínicas radiológicas tratam os resíduos no próprio estabelecimento ou em algum local de tratamento com licenciamento ambiental e passível de fiscalização e controle pelos órgãos da vigilância sanitária e de meio ambiente — como a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), no caso do Estado de São Paulo. "Clínicas de pequeno e médio porte podem optar por enviar os resíduos para empresas especialidades ao invés de ter mais este custo fixo", observa.

O projeto apresentado ao PIPE

Khemia é palavra grega; de acordo com uma definição encontrada na rede mundial de computadores, dela deriva a palavra alquimia. Seu significado está associado a transformar em coisa útil o que não serviria para nada. O mercado mais amplo no qual a empresa se insere — o do saneamento ambiental — é novo e está em expansão, não em declínio. Antes de a empresa pedir financiamento ao PIPE, seu plano de negócios foi aprovado pelo Cietec — o centro de incubação que funciona na Cidade Universitária, em São Paulo, onde a Khemia se instalou logo que foi fundada. No ano seguinte, 2004, a Fapesp aprovou o projeto de pesquisa "Desenvolvimento de Extratores Eletrolíticos Automáticos de Metais Pesados em Efluentes" em Fase I — quer dizer, para que a empresa demonstrasse a viabilidade de sua idéia. A Khemia recebeu R$ 150 mil nessa fase; comprou reagentes e vários equipamentos — um deles, o forno para a fundição de prata. Um ano e dois meses depois foi aprovada a Fase II, que começou em agosto de 2006 e deverá terminar no mesmo mês de 2008. Dessa vez, foram liberados R$ 280 mil, para o desenvolvimento do projeto.

Quem chega à sala da empresa no Cietec pode ver um dos três protótipos já construídos do extrator. O extrator parece um pequeno barril de chope, com 60 centímetros de altura e 40 de diâmetro, assentado sobre uma plataforma quadrangular com 60 centímetros de lado e 12 de altura. Outros dois protótipos já operam em caráter experimental, um em uma firma de microfilmagem e outro em um hospital.

Para chegar aos protótipos, e convencer a Fapesp a financiar o projeto, a Khemia buscou conhecimento no Instituto Nacional de Pesquisas Nucleares (Ipen), em cujo campus está o Cietec. Desde o início, o pesquisador principal do projeto é o químico aposentado Alcídio Abraão, que, de 1957 até 1992, foi professor do Departamento de Mineralogia do Instituto de Energia Atômica (IEA), que hoje é o Ipen. Além dele, a Khemia tem hoje como consultor outro pesquisador, o engenheiro eletricista Carlos Cugnasca, professor da Escola Politécnica da USP, e dois bolsistas, um deles técnico em eletrônica e o outro em fundição.

Com essa equipe enxuta, a empresa está desenvolvendo outros projetos, além do extrator eletrolítico de prata. "Participamos no ano passado de um projeto junto à Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] com equipamentos para a recuperação do cromo", conta Jonny. "Além disso, estamos trabalhando no desenvolvimento de um bactericida feito com nanopartículas de prata e, juntamente com pesquisadores do Ipen, de um absorvedor para recuperação da amônia de galinheiros e sua transformação em energia."

 

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