Khemia Equipamentos Tecnológicos de Efluentes
Ltda.
Empresa
aposta em atualização tecnológica demorada
no mercado
e desenvolve recuperador da prata usada
em processo fotográfico
Evanildo
da Silveira
O técnico
em desenho industrial Jonny Francisco
Ros de Almeida decidiu ir contra a tendência
do mercado. Em 2003, ele fundou a Khemia
Equipamentos Tecnológicos de Efluentes
Ltda. para desenvolver um recuperador
de prata de filmes revelados, fotolitos
e chapas de raio-X — sendo que a
opinião corrente diz que a tecnologia
fotográfica deixou a película
e já migrou para o mundo digital.
É o que leva alguém como
Cláudio Gomma, por exemplo, a duvidar
francamente da viabilidade do negócio
da pequena do PIPE que é sua concorrente.
No ramo desde 1972 — há 25
anos —, Cláudio criou a Reciclage
Plásticos e Metais, que fabrica
equipamentos para recuperar prata e outros
subprodutos da revelação
de películas. "O mercado de
recuperação de prata está
definhando na mesma velocidade em que
cresce o mercado da imagem digital",
afirma. "A Kodak, por exemplo, já
vendeu seu departamento de fabricação
de filmes para dedicar-se exclusivamente
ao digital."
O dono
da Khemia diz estar ciente da tendência.
Mas, por enquanto, não a teme.
Na opinião dele, antes do fim da
década o País não
terá dinheiro para modernizar a
área de produção
de imagem e revelação de
material fotossensível. "Já
ouvi falar há mais de dez anos
que terminaria o sistema de filmes; porém,
quando se trata de segurança, como
na microfilmagem, ainda não há
nada que substitua a película",
afirma. "Isso significa que teremos
muitos anos ainda antes de a digitalização
dominar completamente o setor", argumenta.
O que
motivou Jonny Francisco a fundar a Khemia
foi sua atividade à frente da Rec
Rent Serviços, empresa que abriu
em 1997, especializada no conserto de
equipamentos de raio-X. Por causa da empresa,
ele passou a freqüentar hospitais
e clínicas radiológicas
e tomou conhecimento do negócio
de recuperação de prata.
Percebeu também que jogar fora
os subprodutos da revelação
era — e continua sendo — um
problema para quem trabalha com raio-X.
"Eles não encontravam equipamentos
para fazer o tratamento de seus efluentes
conforme estabelece a legislação
ambiental", disse ao site
PIPE — Pequenas que
Inovam. Cláudio Gomma,
da Reciclage, discorda do concorrente
também nesse ponto. "Além
dos nossos, existem no mercado diversos
equipamentos de excelente qualidade",
assegura. "Desde a invenção
do filme fotossensível por
grãos de prata, há quase
cem anos, existe também a recuperação
dos resíduos desse metal."
Jonny,
no entanto, tem motivos para acreditar
que há lugar para a Khemia prosperar
no mercado brasileiro. Seus argumentos
convenceram os examinadores do programa
da Fapesp que apóia a inovação
na pequena empresa a financiar a pesquisa
para o aperfeiçoamento de seu recuperador.
Ele garante que o aparelho — "extrator
eletrolítico automático
de metais pesados em efluentes",
como diz o nome técnico —
tem condições de recuperar
100% da prata contida nos resíduos
de soluções reveladoras,
algo que os demais modelos não
fazem. "Há outros equipamentos
semelhantes no mercado, mas eles não
são tão eficientes quanto
o nosso extrator", destaca. O técnico
em desenho industrial acredita que foi
esse diferencial que assegurou o financiamento
do PIPE. A Khemia ainda está hospedada
no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas
da Universidade de São Paulo (Cietec-USP);
mas já contratou um escritório
especializado para requerer a patente
da invenção.
A
prata na revelação
Para entender
o que faz o extrator eletrolítico,
é preciso conhecer um pouco do
processo de revelação do
filme branco e preto. Todo filme ou película
fotossensível, como as das chapas
de raio-X e dos fotolitos, é recoberto
por uma fina camada de grãos de
prata sensíveis à luz. "Bater
uma foto" significa expor a camada
de grãos de prata à luz.
Mas como os objetos refletem a luz cada
um à sua maneira, os grãos
de prata sofrem diferentes graus de exposição
— uns são expostos a mais
luz, outros a menos. Acontece também
que áreas da camada de grãos
de prata não sejam sensibilizadas.
Nesse caso, aparecem escuras ou pretas
nas fotografias.
Depois
que o filme é exposto à
luz, a imagem fica gravada nele, mas não
visível — diz-se que está
latente. Para que possa ser vista, o filme
precisa ser "revelado". Os reveladores
mais comuns são o metol, a hidroquinona
e a fenidona. Em determinado momento,
o processo de revelação
precisa ser interrompido, para evitar
que sua continuação comprometa
a qualidade da imagem. Para isso, é
usado o "interruptor" —
um composto de ácido acético
diluído em água, que neutraliza
a ação do revelador.
A eliminação
de parte da prata contida no filme acontece
na fase seguinte, de fixação
— o último banho químico,
que age nas áreas escuras e retira
do filme o metal ainda sensível
à luz. Esse banho é necessário
porque o revelador torna a imagem latente
visível somente nas áreas
já sensibilizadas. Todos os grãos
de prata que não sofreram a ação
da luz continuam na emulsão mantendo
suas capacidades fotossensíveis
— ou seja, se forem novamente expostos
à luz, como certamente serão,
eles ainda poderão se alterar.
O fixador mais usado é o tiossulfato
de sódio, que desempenha basicamente
duas funções: retira os
grãos não atingidos pela
luz e estabiliza a imagem revelada.
Nesse
processo, o fixador reduz os grãos
do metal não sensibilizados a uma
suspensão de átomos, que
é eliminada na lavagem —
a última etapa —, feita com
água. A emulsão composta
pela água e pelo fixador contém
a prata não sensibilizada, que
sobrou no processo de formação
da imagem. No caso da revelação
da chapa de raio-X, por exemplo, esse
líquido pode conter até
quatro gramas de prata por litro. No caso
do filme fotográfico, cada rolo
libera em média 0,65 grama do metal.
Esse material é descartado e pode
ter dois destinos: ser jogado no esgoto
ou passar por um processo para recuperação
da prata.
Recuperar
para jogar fora; ou recuperar
Jogar
fora os líquidos da revelação
é a alternativa menos utilizada:
a prata é um metal pesado altamente
poluidor e sua liberação
no ambiente é proibida por normas
estabelecidas pela Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa)
e pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente
(Conama). As Resoluções
da Diretoria Colegiada (RDC) 306/04, da
Anvisa, e 358/05, do Conama, dispõem
sobre o gerenciamento dos resíduos
de serviços de saúde (RSS).
A resolução 04 determina
que os reveladores utilizados em radiologia
sejam submetidos a processo de neutralização
(por profissionais qualificados) para
alcançarem pH entre sete e nove
— o índice de pH mede a acidez
do produto químico. Só depois
disso podem ser descartados no sistema
local coletor de esgotos, desde que atendam
às diretrizes dos órgãos
de meio ambiente e saneamento. Já
os fixadores devem ser submetidos a processo
de recuperação da prata
e também de retirada de outros
metais pesados, caso estejam presentes.
Mesmo se decidir jogar os líquidos
no esgoto, o utilizador vai precisar retirar
a prata. Por isso, a recuperação
é a alternativa mais usada.
Totalmente
automatizado
O mercado
do extrator eletrolítico da Khemia
é, então, esse criado pela
regulamentação para descarte
dos líquidos. O fundador da empresa
garante que o aparelho é capaz
de recuperar 100% do metal precioso contido
nos resíduos de soluções
reveladoras. Ele é totalmente automatizado,
reconhece a presença dos produtos
químicos nos fixadores e fica o
tempo todo conectado às máquinas
processadoras (ou reveladoras) de filmes.
A emulsão contendo a prata que
sobra do processo de revelação
é levada para um pequeno tonel
dentro do extrator. Dentro do tonel, os
grãos de prata imersos na solução
são submetidos a uma corrente elétrica;
a corrente elétrica dá ao
metal recuperado a forma de pequenas escamas.
Essa fase do processo, de eletrodeposição,
recupera 97% da prata.
Os restantes
3% são recuperados por meio de
um filtro de resinas iônicas. Essas
resinas são feitas de poliéster
e desenvolvidas especificamente para reter
determinados produtos. No caso do extrator
da Khemia, íons de prata. "Nenhum
dos equipamentos existentes no mercado
tem dois sistemas de recuperação
da prata acoplados, um eletrolítico
e outro por troca iônica",
afirma Jonny Francisco. "A inovação
do nosso sistema é a integração
e também o uso de microprocessadores
que monitoram e controlam o processo,
transmitindo em tempo real todas as informações
para uma central de controle."
Além
de recuperar a prata, o extrator eletrolítico
desenvolvido pela Khemia trata os efluentes,
para que eles possam ser jogados no ambiente.
Esse tratamento inclui a neutralização
dos resíduos — levando o
pH para sete, o que quer dizer que a mistura
não é acida nem alcalina.
Além disso, há o tratamento
da água dos processadores. Para
comprovar que o aparelho faz tudo o que
Jonny diz que faz, o empresário
vai tentar certificá-lo no Instituto
Nacional de Metrologia, Normalização
e Qualidade Industrial (Inmetro).
Mercado
em declínio
O plano
de negócios da Khemia não
prevê a fabricação
do extrator eletrolítico para venda.
"Nossa idéia é atuar
na prestação de serviço",
explica Jonny. "Vamos terceirizar
a produção do equipamento
e alugá-lo para os hospitais, gráficas
e jornais, por exemplo. Em vez de receber
pagamento em dinheiro, poderemos fazer
contratos para a prata recuperada em troca
do nosso trabalho. Nossa máquina
tem capacidade recuperar um quilo de prata
por mês."
Outro
conhecedor do mercado, o médico
radiologista Henrique Carrete Jr., do
Colégio Brasileiro de Radiologia
e Diagnóstico por Imagem (CBR)
— que também pensa que pode
faltar prata, em pouco tempo, para a Khemia
recuperar —, aponta, no entanto,
um possível nicho para a empresa.
De acordo com ele, as clínicas
radiológicas tratam os resíduos
no próprio estabelecimento ou em
algum local de tratamento com licenciamento
ambiental e passível de fiscalização
e controle pelos órgãos
da vigilância sanitária e
de meio ambiente — como a Companhia
de Tecnologia de Saneamento Ambiental
(Cetesb), no caso do Estado de São
Paulo. "Clínicas de pequeno
e médio porte podem optar por enviar
os resíduos para empresas especialidades
ao invés de ter mais este custo
fixo", observa.
O
projeto apresentado ao PIPE
Khemia
é palavra grega; de acordo com
uma definição encontrada
na rede mundial de computadores, dela
deriva a palavra alquimia. Seu significado
está associado a transformar em
coisa útil o que não serviria
para nada. O mercado mais amplo no qual
a empresa se insere — o do saneamento
ambiental — é novo e está
em expansão, não em declínio.
Antes de a empresa pedir financiamento
ao PIPE, seu plano de negócios
foi aprovado pelo Cietec — o centro
de incubação que funciona
na Cidade Universitária, em São
Paulo, onde a Khemia se instalou logo
que foi fundada. No ano seguinte, 2004,
a Fapesp aprovou o projeto de pesquisa
"Desenvolvimento de Extratores Eletrolíticos
Automáticos de Metais Pesados em
Efluentes" em Fase I — quer
dizer, para que a empresa demonstrasse
a viabilidade de sua idéia. A Khemia
recebeu R$ 150 mil nessa fase; comprou
reagentes e vários equipamentos
— um deles, o forno para a fundição
de prata. Um ano e dois meses depois foi
aprovada a Fase II, que começou
em agosto de 2006 e deverá terminar
no mesmo mês de 2008. Dessa vez,
foram liberados R$ 280 mil, para o desenvolvimento
do projeto.
Quem chega
à sala da empresa no Cietec pode
ver um dos três protótipos
já construídos do extrator.
O extrator parece um pequeno barril de
chope, com 60 centímetros de altura
e 40 de diâmetro, assentado sobre
uma plataforma quadrangular com 60 centímetros
de lado e 12 de altura. Outros dois protótipos
já operam em caráter experimental,
um em uma firma de microfilmagem e outro
em um hospital.
Para chegar
aos protótipos, e convencer a Fapesp
a financiar o projeto, a Khemia buscou
conhecimento no Instituto Nacional de
Pesquisas Nucleares (Ipen), em cujo campus
está o Cietec. Desde o início,
o pesquisador principal do projeto é
o químico aposentado Alcídio
Abraão, que, de 1957 até
1992, foi professor do Departamento de
Mineralogia do Instituto de Energia Atômica
(IEA), que hoje é o Ipen. Além
dele, a Khemia tem hoje como consultor
outro pesquisador, o engenheiro eletricista
Carlos Cugnasca, professor da Escola Politécnica
da USP, e dois bolsistas, um deles técnico
em eletrônica e o outro em fundição.
Com essa
equipe enxuta, a empresa está desenvolvendo
outros projetos, além do extrator
eletrolítico de prata. "Participamos
no ano passado de um projeto junto à
Finep [Financiadora de Estudos e Projetos]
com equipamentos para a recuperação
do cromo", conta Jonny. "Além
disso, estamos trabalhando no desenvolvimento
de um bactericida feito com nanopartículas
de prata e, juntamente com pesquisadores
do Ipen, de um absorvedor para recuperação
da amônia de galinheiros e sua transformação
em energia."