Informação,
Tecnologia e Desenvolvimento (IT&D)
Sistema que transmite
ao vivo imagens de nadador debaixo d'água
nem saiu ainda da fábrica e já interessa
multi, conta seu inventor
Evanildo
da Silveira
O Izzy Car segue por
um trilho instalado em uma bancada de
laboratório. O trilho simula a
borda de uma piscina. Acoplada a um braço
ajustável, o robô carrega
uma câmera de vídeo, que
pode ficar em diferentes posições
e profundidades. O maquinário do
robô está montado dentro
de uma caixa de metal em forma de trapézio;
a câmera vai dentro de um tubo de
vidro com pontas cônicas —
que diminuem a resistência à
água. Quando o nadador mergulha,
e dispara na raia, Izzy captura as imagens
do percurso. Do sistema, faz parte ainda
o computador, que processa dados e comanda
ações. Para transmitir os
dados sem fio, opera um transmissor de
vídeo via VHF.
O sistema ainda é
um protótipo, mas já tem
nome comercial — chama-se Velaqua
— e um pedido de patente registrado
no Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI). O equipamento pretende atender
à necessidade de aperfeiçoamento
continuado dos nadadores profissionais,
de elite. As imagens transmitidas ao vivo
pelo Velaqua dão aos treinadores
a possibilidade de "ver" os
movimentos do atleta debaixo d'água;
e de corrigi-los imediatamente.
Quem inventou o Velaqua,
e trabalha em seu desenvolvimento, foi
uma pequena do PIPE: a Informação,
Tecnologia e Desenvolvimento (IT&D),
nome fantasia da H.R. de Souza Informática
ME. Mas qual é a invenção
aqui? O engenheiro de computação
Humberto Ribeiro de Souza, jovem fundador
da empresa — tem 28 anos —,
é o primeiro a observar que a invenção
do sistema está em a equipe ter
juntado partes já existentes e
dado a elas um novo uso. Não há
inovação em fazer um veículo
de translação, que se movimente
como Izzy Car; nem na transmissão
de vídeo a curta distância
sem fio; nem no controle sem fio do próprio
veículo — a sacada está
na junção dessas técnicas.
O pedido de patente do sistema, encontrado
no site do INPI pelo código
PI0504538-0, foi depositado em setembro
de 2005.
Interesse
multinacional e mercado chileno
De acordo com seu criador,
embora ainda esteja na fase de protótipo,
o Velaqua já despertou interesse
de uma multinacional européia,
que fabrica relógios. Ele não
conta o nome da empresa, mas diz que representantes
dela já foram a Santos (SP), onde
se localiza a IT&D, para conhecer
o Velaqua. "A idéia deles
é colocar o produto no mercado
europeu, via Inglaterra. Será para
fazer uma experiência prévia,
antes de tentar levar o sistema para o
mercado norte-americano", detalha.
A empresa já procurou o Centro
São Paulo Design, um braço
do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
do Estado de São Paulo (IPT), para
preparar ajustes que atendam a normas
internacionais. O centro já está
trabalhando no design, apresentação
e embalagem. Um problema importante é
o peso dos trilhos — quanto menor
ele puder ser, melhor para a exportação.
Para custear a adaptação,
a empresa obteve financiamento da linha
Sebraetec, do Serviço Brasileiro
de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
(Sebrae).
No Chile, onde esteve
recentemente, Souza examinou a possibilidade
de fornecer seu sistema para aplicação
em tanques de criação de
salmões. O sistema de câmera
submersa poderia acompanhar o comportamento
e o crescimento dos peixes nos tanques.
Voltou trazendo na bagagem propostas de
desenvolvimento técnico-científico,
intercâmbio profissional e atuação em
uma região emergente daquele país
— que região é essa
é outro segredo de Souza. À
Europa, ele viaja este mês, em busca
de novos negócios enfocados em
nichos como o do salmão, no Chile.
Não há
estimativas do mercado específico
para esse produto. O que se sabe é
que o setor de equipamentos para piscina
e natação movimentou R$
3 bilhões no Brasil em 2006. Souza
acredita que o modelo de negócio
para o equipamento no País não
será a venda direta, mas a prestação
de serviços. A empresa vai alugar
o Velaqua para centros de natação,
clubes e academias. No mercado internacional,
a IT&D pretende adotar estratégia
diferente: vender o equipamento.
A
voz do mercado
Quem entende de natação
aposta nas chances do Velaqua. Marcio
Latuf, por exemplo, um dos três
técnicos da seleção
brasileira de natação, conhece
o produto da IT&D. "O uso do
sistema vai facilitar a análise
subaquática, que é o ponto
fundamental na aplicação
de força na natação",
explica o especialista, que também
é supervisor técnico e técnico
das equipes principal, masculina e feminina
da Universidade Santa Cecília (Unisanta),
de Santos, onde o engenheiro Humberto
se formou. "Existem equipamentos
semelhantes, mas não com sinal
de robô para a movimentação
das câmeras e dados precisos passados
em tempo real para o computador. A análise
dos dados é direta, e pode ser
feita imediatamente após a captação",
entusiasma-se.
De acordo com Humberto,
o produto deverá chegar ao mercado
em três versões: A50, B50
e B25. A primeira, voltada para piscinas
de 50 metros, é a mais completa
— o sistema acompanha sozinho o
nadador. As linhas B50 e B25 são
mais simples e necessitam de operador
para controlar o robô e fazer com
ele ande, acompanhando o atleta. "Ambas
são dirigidas a grandes academias
e atendem piscinas de 50 metros (B50)
e 25 metros (B25)", explica o engenheiro.
"Futuramente estão previstas
outras formas e ramos de aplicações.
Por exemplo, em fisioterapia."
IT&D,
filha da Infotech — que nasceu em
um apartamento dividido
A IT&D veio ao mundo
como spin-off de outra empresa,
a Mateus Rodrigues & Ribeiro de Souza
Ltda, mais conhecida por Infotech, também
fundada por Humberto, com seu amigo Carlos
Alexandre Rodrigues, em 1998. "Nessa
época, a Infotech ocupava um quarto
do apartamento onde nós dois morávamos",
lembra. "Em 1999, passou a ocupar
a garagem. Em 2000, abriu a primeira loja e
o laboratório de manutenção.
A empresa tinha duas divisões; uma
delas era manutenção
preventiva de computadores e impressoras,
e a outra era o desenvolvimento de softwares
personalizados para empresas de pequeno
porte."
A Infotech
cresceu rápido. Em 2002, já
atendia clientes da área industrial
de Cubatão (SP), especialmente
do setor de transportes rodoviários.
Para tanto, montou uma estrutura com dois
carros, uma moto e cinco funcionários.
Mas foi também em 2002 que o "Sistema
de Medição de Velocidade
em Tempo Real para Nadadores" —
o nome do projeto que resultou no Velaqua
— ganhou o prêmio de melhor
trabalho no Concurso de Trabalhos
Nacionais de Iniciação Científica
da Sociedade Brasileira de Computação
(SBC). Na época, o sistema, para
funcionar, ainda precisava ligar um fio
ao nadador. O prêmio incentivou
os dois amigos a criar o spin-off
— para intensificar as pesquisas
e a capacitação e preparar
a entrada definitiva no mercado de automação,
com foco na tecnologia esportiva. Enquanto
isso, a Infotech continuou a trabalhar
em manutenção para atender
os clientes que tinha naquele momento,
que incluíam CPFL, Federação
das Indústrias do Estado de São
Paulo (Fiesp), Prefeitura de Santos, Unisanta,
Páginas Amarelas, IC Transportes,
Carvan e Pebru.
Souza passou os dois
anos seguintes procurando uma forma de
desenvolver ou transferir a tecnologia
do produto premiado cientificamente. Após
ter problemas com a falta de experiência
de maneira geral e nas negociações
com grandes empresas, a IT&D encontrou
o ambiente adequado na Incubadora
de Empresas de Santos. A diferença
de interesses dos dois negócios
acabou fazendo com que a Infotech e a
IT&D se tornassem completamente independentes
em 2004.
O
PIPE entra em cena
Foi nessa época,
em novembro de 2004, que o projeto de
pesquisa do Velaqua foi aprovado pelo
PIPE, direto na Fase II. Em março
de 2005, o dinheiro saiu. "Recebemos
R$ 62.034,00, fora as bolsas de pesquisa
do coordenador e de dois auxiliares. Em
junho de 2007, recebemos um aporte adicional
de R$ 32.070,00", conta Humberto.
O dinheiro foi utilizado
para a montagem básica do laboratório.
A IT&D adquiriu estação
de trabalho com sistema operacional e
licenças de software e
também equipamentos eletrônicos;
construiu protótipos; participou
de congressos. Até mesmo parte
do trabalho de normatização
internacional que o IPT está fazendo
foi pago com os recursos do PIPE. Por
isso, o engenheiro diz que o financiamento
foi fundamental para a tomada de decisão
que permitiu o efetivo início do
desenvolvimento do projeto. "Nós
nos deparamos com uma série de
novas situações comuns a
esse tipo de financiamento, o que aumentou
nossa capacidade de gestão e planejamento",
explica.
No meio de 2005, já
com o dinheiro do PIPE, a IT&D tomou
a difícil decisão de transferir
os clientes então conquistados
na área de transportes e energia
para a Infotech — mesmo separadas,
as empresas continuaram se relacionando.
A partir desse momento, a empresa, incubada
e com o laboratório equipado, passou
a dedicar-se totalmente à capacitação
técnica-comercial e ao desenvolvimento
do Velaqua.
Percalço
Foi um período
difícil: com pouca experiência
com fundos e gestão, a IT&D
sofreu alguns revezes. Não vinculou
o cronograma de desembolso da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) com as atividades
do projeto. Para piorar a situação,
em fevereiro de 2007 houve um furto na
Incubadora de Santos — quando faltavam
quatro meses para a empresa entregar o
protótipo final do Velaqua. Equipamentos
de medição, montagem, testes
e os protótipos desenvolvidos até
então — os ladrões
levaram tudo. A empresa reagiu depressa,
mas houve atraso de pelo menos um ano
no projeto. "Ainda em março,
de acordo com conselhos de pesquisadores
mais experientes, mudamos rapidamente
a estratégia de como obter os dados
para o produto, para o mantermos viável
e conseguirmos entregá-lo até
dezembro de 2007", diz Souza. Mas
não vai ser possível. O
produto deve ficar pronto para comercialização
em fevereiro de 2008. A IT&D pediu
a recompra dos equipamentos furtados à
Fapesp — mas não sabe se
será atendida.
Apesar dos percalços,
aos poucos a empresa se consolida. Hoje
a IT&D ocupa duas salas na incubadora,
onde trabalham três bolsistas do
programa PIPE — um graduado em educação
física e dois técnicos em
informática. Dois consultores técnicos
na área de eletrônica e automação,
contratados sob demanda do projeto ou
para o atendimento de serviços
especiais, são outros colaboradores.
"Nosso faturamento ainda é
irrelevante", explica Souza. "De
acordo com o plano de negócios,
somente teremos faturamento significativo
a partir do meio do ano que vem."
Enquanto o dia não
chega, a empresa sobrevive de produtos
e serviços na área de automação
industrial. A IT&D é uma "integradora
de sistemas". O criador do Velaqua
faz o "comercial" da empresa:
"Dominamos o projeto e a criação
de softwares de alto nível,
drivers e programação
de microcontroladores, principalmente
os voltados para a área de automação
e transportes", garante. "Podemos
também atuar na otimização
e manutenção de sistemas
automáticos da área de transportes
modal e industrial, além do esporte.
Certamente isso ocorre porque a empresa
está localizada no maior pólo
de exportação da América
do Sul." Além disso, no dia
1º de novembro, a empresa se qualificou
como prestadora de serviços regionais
para a Petrobras, para automação
industrial e manutenção
de automação, especialmente
no que diz respeito aos modais rodoviário
e marítimo.