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Publicado em 17 de Dezembro de 2007






Informação, Tecnologia e Desenvolvimento (IT&D)
Sistema que transmite ao vivo imagens de nadador debaixo d'água
nem saiu ainda da fábrica e já interessa multi, conta seu inventor

Evanildo da Silveira

O Izzy Car segue por um trilho instalado em uma bancada de laboratório. O trilho simula a borda de uma piscina. Acoplada a um braço ajustável, o robô carrega uma câmera de vídeo, que pode ficar em diferentes posições e profundidades. O maquinário do robô está montado dentro de uma caixa de metal em forma de trapézio; a câmera vai dentro de um tubo de vidro com pontas cônicas — que diminuem a resistência à água. Quando o nadador mergulha, e dispara na raia, Izzy captura as imagens do percurso. Do sistema, faz parte ainda o computador, que processa dados e comanda ações. Para transmitir os dados sem fio, opera um transmissor de vídeo via VHF.

O sistema ainda é um protótipo, mas já tem nome comercial — chama-se Velaqua — e um pedido de patente registrado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O equipamento pretende atender à necessidade de aperfeiçoamento continuado dos nadadores profissionais, de elite. As imagens transmitidas ao vivo pelo Velaqua dão aos treinadores a possibilidade de "ver" os movimentos do atleta debaixo d'água; e de corrigi-los imediatamente.

Quem inventou o Velaqua, e trabalha em seu desenvolvimento, foi uma pequena do PIPE: a Informação, Tecnologia e Desenvolvimento (IT&D), nome fantasia da H.R. de Souza Informática ME. Mas qual é a invenção aqui? O engenheiro de computação Humberto Ribeiro de Souza, jovem fundador da empresa — tem 28 anos —, é o primeiro a observar que a invenção do sistema está em a equipe ter juntado partes já existentes e dado a elas um novo uso. Não há inovação em fazer um veículo de translação, que se movimente como Izzy Car; nem na transmissão de vídeo a curta distância sem fio; nem no controle sem fio do próprio veículo — a sacada está na junção dessas técnicas. O pedido de patente do sistema, encontrado no site do INPI pelo código PI0504538-0, foi depositado em setembro de 2005.

Interesse multinacional e mercado chileno

De acordo com seu criador, embora ainda esteja na fase de protótipo, o Velaqua já despertou interesse de uma multinacional européia, que fabrica relógios. Ele não conta o nome da empresa, mas diz que representantes dela já foram a Santos (SP), onde se localiza a IT&D, para conhecer o Velaqua. "A idéia deles é colocar o produto no mercado europeu, via Inglaterra. Será para fazer uma experiência prévia, antes de tentar levar o sistema para o mercado norte-americano", detalha. A empresa já procurou o Centro São Paulo Design, um braço do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), para preparar ajustes que atendam a normas internacionais. O centro já está trabalhando no design, apresentação e embalagem. Um problema importante é o peso dos trilhos — quanto menor ele puder ser, melhor para a exportação. Para custear a adaptação, a empresa obteve financiamento da linha Sebraetec, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).  

No Chile, onde esteve recentemente, Souza examinou a possibilidade de fornecer seu sistema para aplicação em tanques de criação de salmões. O sistema de câmera submersa poderia acompanhar o comportamento e o crescimento dos peixes nos tanques. Voltou trazendo na bagagem propostas de desenvolvimento técnico-científico, intercâmbio profissional e atuação em uma região emergente daquele país — que região é essa é outro segredo de Souza. À Europa, ele viaja este mês, em busca de novos negócios enfocados em nichos como o do salmão, no Chile.

Não há estimativas do mercado específico para esse produto. O que se sabe é que o setor de equipamentos para piscina e natação movimentou R$ 3 bilhões no Brasil em 2006. Souza acredita que o modelo de negócio para o equipamento no País não será a venda direta, mas a prestação de serviços. A empresa vai alugar o Velaqua para centros de natação, clubes e academias. No mercado internacional, a IT&D pretende adotar estratégia diferente: vender o equipamento.

A voz do mercado

Quem entende de natação aposta nas chances do Velaqua. Marcio Latuf, por exemplo, um dos três técnicos da seleção brasileira de natação, conhece o produto da IT&D. "O uso do sistema vai facilitar a análise subaquática, que é o ponto fundamental na aplicação de força na natação", explica o especialista, que também é supervisor técnico e técnico das equipes principal, masculina e feminina da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos, onde o engenheiro Humberto se formou. "Existem equipamentos semelhantes, mas não com sinal de robô para a movimentação das câmeras e dados precisos passados em tempo real para o computador. A análise dos dados é direta, e pode ser feita imediatamente após a captação", entusiasma-se.

De acordo com Humberto, o produto deverá chegar ao mercado em três versões: A50, B50 e B25. A primeira, voltada para piscinas de 50 metros, é a mais completa — o sistema acompanha sozinho o nadador. As linhas B50 e B25 são mais simples e necessitam de operador para controlar o robô e fazer com ele ande, acompanhando o atleta. "Ambas são dirigidas a grandes academias e atendem piscinas de 50 metros (B50) e 25 metros (B25)", explica o engenheiro. "Futuramente estão previstas outras formas e ramos de aplicações. Por exemplo, em fisioterapia."

IT&D, filha da Infotech — que nasceu em um apartamento dividido

A IT&D veio ao mundo como spin-off de outra empresa, a Mateus Rodrigues & Ribeiro de Souza Ltda, mais conhecida por Infotech, também fundada por Humberto, com seu amigo Carlos Alexandre Rodrigues, em 1998. "Nessa época, a Infotech ocupava um quarto do apartamento onde nós dois morávamos", lembra. "Em 1999, passou a ocupar a garagem. Em 2000, abriu a primeira loja e o laboratório de manutenção. A empresa tinha duas divisões; uma delas era manutenção preventiva de computadores e impressoras, e a outra era o desenvolvimento de softwares personalizados para empresas de pequeno porte."

A Infotech cresceu rápido. Em 2002, já atendia clientes da área industrial de Cubatão (SP), especialmente do setor de transportes rodoviários. Para tanto, montou uma estrutura com dois carros, uma moto e cinco funcionários. Mas foi também em 2002 que o "Sistema de Medição de Velocidade em Tempo Real para Nadadores" — o nome do projeto que resultou no Velaqua — ganhou o prêmio de melhor trabalho no Concurso de Trabalhos Nacionais de Iniciação Científica da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Na época, o sistema, para funcionar, ainda precisava ligar um fio ao nadador. O prêmio incentivou os dois amigos a criar o spin-off — para intensificar as pesquisas e a capacitação e preparar a entrada definitiva no mercado de automação, com foco na tecnologia esportiva. Enquanto isso, a Infotech continuou a trabalhar em manutenção para atender os clientes que tinha naquele momento, que incluíam CPFL, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Prefeitura de Santos, Unisanta, Páginas Amarelas, IC Transportes, Carvan e Pebru.

Souza passou os dois anos seguintes procurando uma forma de desenvolver ou transferir a tecnologia do produto premiado cientificamente. Após ter problemas com a falta de experiência de maneira geral e nas negociações com grandes empresas, a IT&D encontrou o ambiente adequado na Incubadora de Empresas de Santos. A diferença de interesses dos dois negócios acabou fazendo com que a Infotech e a IT&D se tornassem completamente independentes em 2004.  

O PIPE entra em cena

Foi nessa época, em novembro de 2004, que o projeto de pesquisa do Velaqua foi aprovado pelo PIPE, direto na Fase II. Em março de 2005, o dinheiro saiu. "Recebemos R$ 62.034,00, fora as bolsas de pesquisa do coordenador e de dois auxiliares. Em junho de 2007, recebemos um aporte adicional de R$ 32.070,00", conta Humberto.

O dinheiro foi utilizado para a montagem básica do laboratório. A IT&D adquiriu estação de trabalho com sistema operacional e licenças de software e também equipamentos eletrônicos; construiu protótipos; participou de congressos. Até mesmo parte do trabalho de normatização internacional que o IPT está fazendo foi pago com os recursos do PIPE. Por isso, o engenheiro diz que o financiamento foi fundamental para a tomada de decisão que permitiu o efetivo início do desenvolvimento do projeto. "Nós nos deparamos com uma série de novas situações comuns a esse tipo de financiamento, o que aumentou nossa capacidade de gestão e planejamento", explica.

No meio de 2005, já com o dinheiro do PIPE, a IT&D tomou a difícil decisão de transferir os clientes então conquistados na área de transportes e energia para a Infotech — mesmo separadas, as empresas continuaram se relacionando. A partir desse momento, a empresa, incubada e com o laboratório equipado, passou a dedicar-se totalmente à capacitação técnica-comercial e ao desenvolvimento do Velaqua.

Percalço

Foi um período difícil: com pouca experiência com fundos e gestão, a IT&D sofreu alguns revezes. Não vinculou o cronograma de desembolso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) com as atividades do projeto. Para piorar a situação, em fevereiro de 2007 houve um furto na Incubadora de Santos — quando faltavam quatro meses para a empresa entregar o protótipo final do Velaqua. Equipamentos de medição, montagem, testes e os protótipos desenvolvidos até então — os ladrões levaram tudo. A empresa reagiu depressa, mas houve atraso de pelo menos um ano no projeto. "Ainda em março, de acordo com conselhos de pesquisadores mais experientes, mudamos rapidamente a estratégia de como obter os dados para o produto, para o mantermos viável e conseguirmos entregá-lo até dezembro de 2007", diz Souza. Mas não vai ser possível. O produto deve ficar pronto para comercialização em fevereiro de 2008. A IT&D pediu a recompra dos equipamentos furtados à Fapesp — mas não sabe se será atendida.

Apesar dos percalços, aos poucos a empresa se consolida. Hoje a IT&D ocupa duas salas na incubadora, onde trabalham três bolsistas do programa PIPE — um graduado em educação física e dois técnicos em informática. Dois consultores técnicos na área de eletrônica e automação, contratados sob demanda do projeto ou para o atendimento de serviços especiais, são outros colaboradores. "Nosso faturamento ainda é irrelevante", explica Souza. "De acordo com o plano de negócios, somente teremos faturamento significativo a partir do meio do ano que vem."

Enquanto o dia não chega, a empresa sobrevive de produtos e serviços na área de automação industrial. A IT&D é uma "integradora de sistemas". O criador do Velaqua faz o "comercial" da empresa: "Dominamos o projeto e a criação de softwares de alto nível, drivers e programação de microcontroladores, principalmente os voltados para a área de automação e transportes", garante. "Podemos também atuar na otimização e manutenção de sistemas automáticos da área de transportes modal e industrial, além do esporte. Certamente isso ocorre porque a empresa está localizada no maior pólo de exportação da América do Sul." Além disso, no dia 1º de novembro, a empresa se qualificou como prestadora de serviços regionais para a Petrobras, para automação industrial e manutenção de automação, especialmente no que diz respeito aos modais rodoviário e marítimo.

 

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