Inovamat
Inovação em Materiais
Processo desenvolvido
por empresa de São Carlos dá resistência
de concreto ao gesso e permite construir
prédios de até oito andares
Lívia
Komar
Fugir completamente do
processo convencional de construção
civil existente no Brasil desde a época
do Império, que utiliza cimento,
argamassa, vigas de madeira, tijolos e
telhas de barro: este é o desafio
que uma pequena do PIPE recém-chegada
ao mercado — a Inovamat Inovações
em Materiais, de São Carlos (SP)
— decidiu se colocar. A empresa
é um spin-off do Instituto
de Física da Universidade de São
Paulo (USP) e nasceu para comercializar
um produto inovador — o Novogesso.
Inovador no Brasil e no mundo: a
empresa depositou em 2005 o pedido de
uma patente no Instituto Nacional da Propriedade
Industrial (INPI). Após um ano,
requereu patente no exterior por meio
do Tratado de Cooperações
em Patentes (PCT, sigla em inglês).
Milton
Ferreira de Souza, no auge de seus 75
anos, preside a empresa. Para o professor
doutor da USP, criar empresas não
é novidade: ele esteve entre os
fundadores de outras três, inclusive
de uma ex-pequena do PIPE: a Opto,
hoje uma empresa global de óptica.
O entusiasmo de Milton com o novo material
deriva de seis anos de pesquisa; e contagiou
três jovens, que dirigem a Inovamat
desde sua constituição,
em 2004. Os diretores têm, todos,
menos de 30 anos: Hebert Luís Rosseto,
engenheiro civil e doutor pela USP em
ciência e engenharia de materiais;
Wellington Kanno, também engenheiro
civil e doutorando no mesmo segmento;
e Milton Pinatti Ferreira de Souza, advogado,
que é filho do professor Milton.
"Eu me considero um empreendedor.
Meu papel é ficar aqui tempo suficiente
para que eles consigam voar sozinhos",
brinca o professor, que, em seus 49 anos
de USP, já se acostumou a lidar
com o contraste entre as gerações.
A casa de gesso
Um grande galpão
de dois andares situado em um bairro residencial
de São Carlos é a sede da
empresa. O local abriga misturadores,
compressores, fornos e prensas de gesso;
em meio a elas, trabalham três funcionários.
A poucos metros do galpão, uma
casa de sete cômodos é a
prova de que o Novogesso existe e funciona:
foi construída com o sistema pré-fabricado
de placas e tijolos de gesso, da estrutura
até o teto. "O PIPE foi fundamental
para a construção da casa",
esclarece o engenheiro Hebert. O financiamento
para a segunda fase do projeto, de R$
400 mil, saiu em 2006 e foi utilizado
também na compra dos equipamentos
que fabricam as peças de gesso.
Na primeira fase, o investimento para
as pesquisas foi de R$ 75 mil.
No lugar da argamassa,
a empresa usou uma cola especial para
montar a casa. Segundo Hebert, com isso
há economia de cimento, de material
de acabamento; fora outra vantagem. "É
reciclável", conta, enquanto
bate nas paredes para mostrar, com orgulho,
a solidez do empreendimento. As paredes
da casa são leves, de rápida
montagem, têm isolamento térmico
e acústico; o engenheiro destaca
também que as estacas podem ser
rasas, que há um sistema interno
de ventilação. Como a casa
foi construída para demonstração,
há nela diferentes tipos de acabamento:
placas de polipropileno, pintura sobre
textura, filme de PVC e papel de parede.
Hebert afirma que também é
possível utilizar azulejos.
"A construção
de casa é um bem muito importante
para a sociedade. Ela demonstra que é
possível haver a industrialização
da habitação. Nossa intenção
sempre foi contribuir para a melhoria
do nível tecnológico da
engenharia civil", enfatiza o pesquisador
Milton.
O Novogesso
Placas de gesso não
são inovação na construção
civil. O sistema conhecido como "dry
wall", centenário nos
EUA, é feito de placas de gesso
acartonadas, fixadas sobre estruturas
metálicas. Desde a abertura comercial,
está em uso no Brasil. Casas e
edifícios já utilizam o
recurso, que proporciona agilidade na
construção. No entanto,
esse material só pode ser utilizado
em paredes internas, por ser pouco resistente.
A novidade do Novogesso
é o método UCOS (sigla para
umidificação, compactação
e secagem), desenvolvido pela Inovamat.
O gesso preparado por meio do processo
possibilita seu uso dentro ou fora da
casa; a resistência é suficiente
para a construção de um
edifício de até oito andares.
De acordo com o dono da empresa, o método
faz o Novogesso ser "mais forte"
do que o concreto — desmentindo
todas as teorias de que gesso é
sinônimo de fragilidade e útil
apenas para empreendimentos simples, como
divisórias, forros e sancas (uma
espécie de moldura entre a parede
e o teto, que também pode servir
para a fixação de lâmpadas).
"O gesso é
um aglomerado de cristais. Com o método
desenvolvido pela Inovamat, esses cristais
crescem muito, agindo como fibras, deixando-o
com uma resistência altíssima,
enquanto que a do cimento é zero",
explica o pesquisador Milton, apontando
para um protótipo de tijolo. O
método UCOS elimina moléculas
de água do gesso. Com elas, a porosidade
do gesso diminui muito, o que garante
a resistência. O processo é
único no mundo e base do Novogesso.
Outra vantagem do Novogesso em relação
ao processo convencional é a rapidez.
A construção de uma casa
de sete cômodos, como a de demonstração,
leva apenas um mês. A redução
no preço, segundo Hebert, é
de 30%: "O metro quadrado de uma
construção convencional
oscila em torno de R$ 60. O metro quadrado
pelo processo da Inovamat custa R$ 42",
garante.
Esse valor ainda pode
ser reduzido se for criada uma logística
eficiente no transporte do gesso mineral
que chega ao Estado de São Paulo
vindo do interior de Pernambuco. A cidade
de Arapirina é responsável
por abastecer 95% da demanda nacional;
lá está uma das maiores
reservas do planeta de gipsita, mineral
do qual se extrai o gesso. O Ceará
e o Tocantins também são
produtores. Em 2006, o País produziu
1,7 milhão de toneladas de gesso.
O gesso e o fosfogesso
O gesso é a principal
matéria-prima da Inovamat. No entanto,
a empresa conseguiu encontrar no fosfogesso,
substância que deriva de uma rocha
que passou por alguma reação
química, um importante aliado em
suas pesquisas.
A fonte, derivada, por
exemplo, da produção de
fosfato de amônio para a agricultura
ou de fosfato bicálcico para a
alimentação animal, tem
produção de 5,4 milhões
de toneladas ao ano no Brasil e também
consegue ser convertida no Novogesso,
ganhando utilidade no mercado da construção
civil.
O cimento e o
Novogesso
O cimento é utilizado
há séculos na construção
civil, para assentar tijolos. Mas a produção
de cimento gera gás carbônico
em excesso, o que a torna uma grande responsável
pelo aquecimento da superfície
da Terra. O professor Milton explica:
"Para cada tonelada de cimento, gera-se
outra tonelada de CO2. Esse número
só é ultrapassado por todos
os automóveis do mundo, então
temos de arrumar uma maneira ou de melhorar
o cimento ou de não haver a necessidade
de sua utilização".
Já o gesso, diz
o físico da USP, é abundante
em diversas regiões do mundo e,
por sua própria natureza, pode
ser convertido em material ecológico,
reciclável e não poluente.
Além dessas vantagens, ainda é
incombustível e de altíssima
produtividade.
A Inovamat quer desenvolver
uma técnica de construção
completa, em que mesmo as vigas de madeira
do telhado sejam substituídas pelo
seu produto. "Isso evitará
o desmatamento das florestas", imagina
o pesquisador.
Após o PIPE: patentes e
PITE
O professor Milton pensa
que sua invenção poderá
ajudar a solucionar problemas como o déficit
das habitações no Brasil,
devido à rapidez com que as casas
são erguidas e o baixo custo em
todas as etapas da construção.
"Mão de obra é um problema
para a indústria da construção
civil. As construtoras desejam uma peça
que funcione como em um 'Lego' [o
brinquedo infantil de montar, Nota do
E.]. É o que vamos fazer.
Temos potenciais clientes grandes, contatos
com grandes construtoras de todo o País",
completa o professor.
A empresa sobrevive atualmente
por meio da prestação de
consultorias com pesquisas em engenharia
de materiais como sílica, celulose,
adubo, cimento, gesso e o fosfogesso,
contando com a credibilidade das patentes
no Brasil e exterior que já estão
depositadas por conta da inovação
do Novogesso. De acordo com os proprietários,
a Inovamat só não obteve
ainda destaque no mercado da engenharia
civil com o Novogesso por não possuir
equipamentos que façam as peças
em larga escala. "Não podemos
vender cinco ou dez tijolos para uma construção.
Têm de ser milhares", destaca
Hebert. "Temos a tecnologia, mas
não temos o recurso", completa.
O financiamento da segunda fase do PIPE
termina em dezembro. Para continuar o
desenvolvimento, a empresa decidiu pedir
outro financiamento na Fapesp, desta vez
dentro do Programa de Parceria para Inovações
Tecnológicas (PITE). A intenção
da Inovamat é conseguir recursos
para o equipamento de produção
em larga escala, que também está
desenvolvendo. Essa máquina vai
fazer as placas para serem aplicadas em
paredes, pisos e forros; e os tijolos
de Novogesso. O pedido já está
sendo julgado pela Fapesp.
Apesar do sucesso científico
do produto, a empresa busca conquistar
o mercado e lucrar com sua inovação.
"A Inovamat quer vender a tecnologia
do Novogesso para quem quiser. Mas, para
isso, vamos precisar do apoio da Fapesp,
senão podemos morrer", salienta
Milton.