Powered by Inovação Unicamp
Home Contato
CADASTRE-SE AQUI
Receba em seu e-mail as
novas reportagens sobre
o programa Pipe/Fapesp.
Nome:
e-mail:
Cidade:
Publicado em 17 de Dezembro de 2007






Inovamat Inovação em Materiais
Processo desenvolvido por empresa de São Carlos dá resistência
de concreto ao gesso e permite construir prédios de até oito andares

Lívia Komar

Fugir completamente do processo convencional de construção civil existente no Brasil desde a época do Império, que utiliza cimento, argamassa, vigas de madeira, tijolos e telhas de barro: este é o desafio que uma pequena do PIPE recém-chegada ao mercado — a Inovamat Inovações em Materiais, de São Carlos (SP) — decidiu se colocar. A empresa é um spin-off do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e nasceu para comercializar um produto inovador — o Novogesso.  Inovador no Brasil e no mundo: a empresa depositou em 2005 o pedido de uma patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Após um ano, requereu patente no exterior por meio do Tratado de Cooperações em Patentes (PCT, sigla em inglês).

Milton Ferreira de Souza, no auge de seus 75 anos, preside a empresa. Para o professor doutor da USP, criar empresas não é novidade: ele esteve entre os fundadores de outras três, inclusive de uma ex-pequena do PIPE: a Opto, hoje uma empresa global de óptica. O entusiasmo de Milton com o novo material deriva de seis anos de pesquisa; e contagiou três jovens, que dirigem a Inovamat desde sua constituição, em 2004. Os diretores têm, todos, menos de 30 anos: Hebert Luís Rosseto, engenheiro civil e doutor pela USP em ciência e engenharia de materiais; Wellington Kanno, também engenheiro civil e doutorando no mesmo segmento; e Milton Pinatti Ferreira de Souza, advogado, que é filho do professor Milton. "Eu me considero um empreendedor. Meu papel é ficar aqui tempo suficiente para que eles consigam voar sozinhos", brinca o professor, que, em seus 49 anos de USP, já se acostumou a lidar com o contraste entre as gerações.

A casa de gesso

Um grande galpão de dois andares situado em um bairro residencial de São Carlos é a sede da empresa. O local abriga misturadores, compressores, fornos e prensas de gesso; em meio a elas, trabalham três funcionários. A poucos metros do galpão, uma casa de sete cômodos é a prova de que o Novogesso existe e funciona: foi construída com o sistema pré-fabricado de placas e tijolos de gesso, da estrutura até o teto. "O PIPE foi fundamental para a construção da casa", esclarece o engenheiro Hebert. O financiamento para a segunda fase do projeto, de R$ 400 mil, saiu em 2006 e foi utilizado também na compra dos equipamentos que fabricam as peças de gesso. Na primeira fase, o investimento para as pesquisas foi de R$ 75 mil.

No lugar da argamassa, a empresa usou uma cola especial para montar a casa. Segundo Hebert, com isso há economia de cimento, de material de acabamento; fora outra vantagem. "É reciclável", conta, enquanto bate nas paredes para mostrar, com orgulho, a solidez do empreendimento. As paredes da casa são leves, de rápida montagem, têm isolamento térmico e acústico; o engenheiro destaca também que as estacas podem ser rasas, que há um sistema interno de ventilação. Como a casa foi construída para demonstração, há nela diferentes tipos de acabamento: placas de polipropileno, pintura sobre textura, filme de PVC e papel de parede. Hebert afirma que também é possível utilizar azulejos.

"A construção de casa é um bem muito importante para a sociedade. Ela demonstra que é possível haver a industrialização da habitação. Nossa intenção sempre foi contribuir para a melhoria do nível tecnológico da engenharia civil", enfatiza o pesquisador Milton.

O Novogesso

Placas de gesso não são inovação na construção civil. O sistema conhecido como "dry wall", centenário nos EUA, é feito de placas de gesso acartonadas, fixadas sobre estruturas metálicas. Desde a abertura comercial, está em uso no Brasil. Casas e edifícios já utilizam o recurso, que proporciona agilidade na construção. No entanto, esse material só pode ser utilizado em paredes internas, por ser pouco resistente.

A novidade do Novogesso é o método UCOS (sigla para umidificação, compactação e secagem), desenvolvido pela Inovamat. O gesso preparado por meio do processo possibilita seu uso dentro ou fora da casa; a resistência é suficiente para a construção de um edifício de até oito andares. De acordo com o dono da empresa, o método faz o Novogesso ser "mais forte" do que o concreto — desmentindo todas as teorias de que gesso é sinônimo de fragilidade e útil apenas para empreendimentos simples, como divisórias, forros e sancas (uma espécie de moldura entre a parede e o teto, que também pode servir para a fixação de lâmpadas).

"O gesso é um aglomerado de cristais. Com o método desenvolvido pela Inovamat, esses cristais crescem muito, agindo como fibras, deixando-o com uma resistência altíssima, enquanto que a do cimento é zero", explica o pesquisador Milton, apontando para um protótipo de tijolo. O método UCOS elimina moléculas de água do gesso. Com elas, a porosidade do gesso diminui muito, o que garante a resistência. O processo é único no mundo e base do Novogesso.
 
Outra vantagem do Novogesso em relação ao processo convencional é a rapidez. A construção de uma casa de sete cômodos, como a de demonstração, leva apenas um mês. A redução no preço, segundo Hebert, é de 30%: "O metro quadrado de uma construção convencional oscila em torno de R$ 60. O metro quadrado pelo processo da Inovamat custa R$ 42", garante.

Esse valor ainda pode ser reduzido se for criada uma logística eficiente no transporte do gesso mineral que chega ao Estado de São Paulo vindo do interior de Pernambuco. A cidade de Arapirina é responsável por abastecer 95% da demanda nacional; lá está uma das maiores reservas do planeta de gipsita, mineral do qual se extrai o gesso. O Ceará e o Tocantins também são produtores. Em 2006, o País produziu 1,7 milhão de toneladas de gesso.

O gesso e o fosfogesso

O gesso é a principal matéria-prima da Inovamat. No entanto, a empresa conseguiu encontrar no fosfogesso, substância que deriva de uma rocha que passou por alguma reação química, um importante aliado em suas pesquisas.

A fonte, derivada, por exemplo, da produção de fosfato de amônio para a agricultura ou de fosfato bicálcico para a alimentação animal, tem produção de 5,4 milhões de toneladas ao ano no Brasil e também consegue ser convertida no Novogesso, ganhando utilidade no mercado da construção civil.

O cimento e o Novogesso

O cimento é utilizado há séculos na construção civil, para assentar tijolos. Mas a produção de cimento gera gás carbônico em excesso, o que a torna uma grande responsável pelo aquecimento da superfície da Terra. O professor Milton explica: "Para cada tonelada de cimento, gera-se outra tonelada de CO2. Esse número só é ultrapassado por todos os automóveis do mundo, então temos de arrumar uma maneira ou de melhorar o cimento ou de não haver a necessidade de sua utilização".

Já o gesso, diz o físico da USP, é abundante em diversas regiões do mundo e, por sua própria natureza, pode ser convertido em material ecológico, reciclável e não poluente. Além dessas vantagens, ainda é incombustível e de altíssima produtividade.

A Inovamat quer desenvolver uma técnica de construção completa, em que mesmo as vigas de madeira do telhado sejam substituídas pelo seu produto. "Isso evitará o desmatamento das florestas", imagina o pesquisador.
 
Após o PIPE: patentes e PITE

O professor Milton pensa que sua invenção poderá ajudar a solucionar problemas como o déficit das habitações no Brasil, devido à rapidez com que as casas são erguidas e o baixo custo em todas as etapas da construção. "Mão de obra é um problema para a indústria da construção civil. As construtoras desejam uma peça que funcione como em um 'Lego' [o brinquedo infantil de montar, Nota do E.]. É o que vamos fazer. Temos potenciais clientes grandes, contatos com grandes construtoras de todo o País", completa o professor.

A empresa sobrevive atualmente por meio da prestação de consultorias com pesquisas em engenharia de materiais como sílica, celulose, adubo, cimento, gesso e o fosfogesso, contando com a credibilidade das patentes no Brasil e exterior que já estão depositadas por conta da inovação do Novogesso. De acordo com os proprietários, a Inovamat só não obteve ainda destaque no mercado da engenharia civil com o Novogesso por não possuir equipamentos que façam as peças em larga escala. "Não podemos vender cinco ou dez tijolos para uma construção. Têm de ser milhares", destaca Hebert. "Temos a tecnologia, mas não temos o recurso", completa.
 
O financiamento da segunda fase do PIPE termina em dezembro. Para continuar o desenvolvimento, a empresa decidiu pedir outro financiamento na Fapesp, desta vez dentro do Programa de Parceria para Inovações Tecnológicas (PITE). A intenção da Inovamat é conseguir recursos para o equipamento de produção em larga escala, que também está desenvolvendo. Essa máquina vai fazer as placas para serem aplicadas em paredes, pisos e forros; e os tijolos de Novogesso. O pedido já está sendo julgado pela Fapesp.

Apesar do sucesso científico do produto, a empresa busca conquistar o mercado e lucrar com sua inovação. "A Inovamat quer vender a tecnologia do Novogesso para quem quiser. Mas, para isso, vamos precisar do apoio da Fapesp, senão podemos morrer", salienta Milton.

 

© 2006-2007 - Inovação Unicamp - PIPE/Fapesp | All rights reserved