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Publicado em 3 de Dezembro de 2007






Heranza Equipamentos para Laboratórios
Doença emergente transmitida por carrapatos aos cães terá teste
diagnóstico molecular desenvolvido por empresa de Ribeirão Pretos

Lívia Komar

O espaço é pequeno — 25 metros quadrados —, mas organizadíssimo. Na sala do Departamento de Biotecnologia da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), quatro jovens, três graduandos e um recém-formado, vestindo jalecos, manuseiam pipetas em meio a equipamentos sofisticados. O objetivo deles é desenvolver uma técnica que permita o diagnóstico rápido, barato e preciso de uma doença endêmica na região: a erliquiose. O nome deriva da bactéria Ehrlichia canis, que infecta carrapatos e, por meio deles, cães e outros animais. Eles trabalham sob a liderança do biólogo Mozart de Azevedo Marins, um doutor em biologia molecular que decidiu colocar seu conhecimento a serviço do diagnóstico dessa e de outras doenças veterinárias disseminadas na região.

Para isso, doutor Marins fundou a Heranza, empresa ainda tão pequena que cabe nos 25 metros quadrados e no computador de seu fundador. Ele conta, com voz firme e muita didática, que a empresa nasceu em 2003, para solucionar deficiências locais. "Saí em busca de problemas na região para os quais a biologia molecular pudesse ser útil. Em conversa com veterinários, fiquei sabendo de doenças de diagnóstico impreciso, das quais não se sabia ao certo nem qual era o agente infeccioso. Uma delas era a erliquiose", conta. A partir de então, a investigação de um exame diagnóstico eficiente para a doença que atinge os cães de Ribeirão Preto passou a ser a principal atividade da Heranza. Como é transmitida pelo carrapato, a doença atinge principalmente as áreas de clima tropical. O clima quente, típico da cidade, é ideal para a reprodução desse ácaro, que é comum até mesmo nas áreas urbanas. O homem também pode ser contaminado pela moléstia, porém há apenas um relato na literatura médica de um caso na Venezuela.

O caminho que a Heranza escolheu para criar os exames baseia-se na análise do DNA do animal supostamente infectado, pelo método da Reação da Polimerase em Cadeia (PCR). A identificação de DNA por PCR é uma técnica comum, bastante difundida. Outros laboratórios já fazem o diagnóstico da erliquiose por PCR; mas, em Ribeirão, onde a incidência é alta, a Heranza é pioneira.

Pesquisando com o PIPE

Para Marins, o futuro da Heranza está ligado ao financiamento do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que passou a receber em outubro de 2005 com a aprovação do projeto "Análise da biodiversidade de bactérias associadas à erliquiose canina na região de Ribeirão Preto". "Não haveria outra fonte de recurso para bancar essa pesquisa", pensa o dono da Heranza. "É muito dispendiosa e os resultados aparecem de forma lenta", explica. Além de desenvolver o exame diagnóstico, a empresa comprometeu-se a monitorar a população canina na cidade e a incidência das doenças que afetam esses animais. O Centro de Controle de Zoonoses local não tem dados confiáveis — justamente pela falta do método diagnóstico preciso. A Heranza já recebeu R$ 127 mil e U$ 27 mil, destinados à compra dos equipamentos e de material de consumo, como reagentes. Os graduandos e o recém-formado, que ocupam a sala onde a empresa funciona por enquanto, são bolsistas também financiados pelo programa.

A partir de 2008, Marins quer ver a Heranza em sede própria, passando a lucrar por meio de uma clientela alvo: as clínicas veterinárias. "Com o tempo, os veterinários terão de adotar exames mais específicos", acredita. "Essas enfermidades são emergentes no mundo inteiro e as doenças transmitidas por carrapatos estão aumentando assustadoramente", continua. Isso quer dizer mais oportunidades e mais mercado para a ainda pequenina que inova.

De fato: segundo dados divulgados pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), a indústria no segmento cresceu 7% em 2006, encerrando o ano com faturamento de R$ 2,4 bilhões. Informações divulgadas pela assessoria de imprensa do Sindan mostram que o resultado positivo é fruto da preocupação dos produtores em relação à saúde animal, que estão investindo cada vez mais para reduzir os riscos de enfermidades. Outro fator a ser considerado é a modernização do parque industrial veterinário brasileiro, atualmente entre os mais avançados do mundo, capaz de atender não só às demandas sanitárias do Brasil, mas também às de outros países. Para 2007, o Sindan estima um crescimento um pouco menor, mas ainda considerável, de 3% a 4%.

Os testes disponíveis

Os primeiros casos de erliquiose foram diagnosticados no Brasil em 1973, pelo método clínico. Os sintomas são vômito, febre, anemia, apatia e sangramentos espontâneos. Depois, passou-se a utilizar a contagem do nível de plaquetas no sangue para diagnóstico — que indica a reação do animal a uma infecção, mas não identifica sua causa. A chamada trombocitopenia, no entanto, também pode ser provocada por outras doenças com sintomas similares, como, por exemplo, a causada pela bactéria Babesia canis. "Por ser uma região endêmica, o veterinário já associava essa trombocitopenia à erliquiose e passava então a tratar erroneamente com o antibiótico direcionado a essa enfermidade", explica. Esse método impreciso continua a ser utilizado nos dias de hoje.

Mas, em Ribeirão Preto, o teste mais usado para o diagnóstico da erliquiose é o imunológico — uma alternativa à contagem de plaquetas. Esse teste oferece respostas sobre os antígenos — vírus, células de bactérias e de fungos — que possam existir no organismo do animal. Uma determinada substância identificada pode apontar uma característica da Ehrlichia canis. O problema é que com esse método pode haver com freqüência a chamada "reação cruzada", como dizem os especialistas — a substância encontrada pode ser causada por outros vírus e bactérias presentes no corpo do animal, com características semelhantes.

A incerteza acaba com a utilização do método de análise do DNA por PCR. A Heranza desenvolve seu teste usando uma variação do PCR: o "PCR aninhado". Uma amostra de sangue animal é suficiente. Se houver infecção, surgirá, juntamente com o DNA do animal, a identificação do DNA da bactéria. O resultado fica pronto em 24 horas.

Fase II e novas metas

Na Fase II do projeto, a empresa comprometeu-se a estender sua análise para outros parasitas e hospedeiros. Desde 2006, a Heranza também busca desenvolver testes para cavalos, bois e ovelhas, vítimas de diversas espécies de carrapatos vetores de doenças. Para isso, a empresa conta com a colaboração de veterinários que cedem gratuitamente amostras de sangue para a pesquisa.

Uma dessas colaboradoras é a médica veterinária Gisele Nassif Conti, do laboratório Nucleon Diagnósticos e Especialidades Veterinárias, de Ribeirão. Ela enfatiza a praticidade e a eficácia dos diagnósticos por PCR de 99,99%. "A biotecnologia começou a fazer parte do universo veterinário recentemente", diz. "Muitos médicos veterinários desconhecem as inovações diagnósticas e se prendem aos métodos antigos ou simplesmente clínicos. Há dificuldade também por causa dos custos desses exames. Os donos de animais não estão acostumados ao avanço da medicina veterinária. Divulgação e esclarecimento são chaves. A veterinária já é uma medicina preventiva e não só curativa", conclui Gisele. A Nucleon, onde ela trabalha, colabora com a pesquisa da Heranza: a empresa utiliza o teste de Marins nos animais da clínica, a um preço de custo de R$ 50. A Heranza afirma que ainda não obtém retorno comercial com isso.

Dos 700 cães analisados pela Heranza desde setembro de 2006, como parte do projeto financiado pelo PIPE, 38,9% estavam contaminados com a Ehrlichia canis. Os animais doentes passaram a tomar antibióticos e tiveram um rígido combate aos carrapatos. Os outros cachorros estavam sadios ou com a Babesia canis. Nos cavalos, bois e ovelhas, foram encontrados diversos tipos de microorganismos causadores de patologias transmitidas por carrapato: Babesia bovis, B. bigemina e Anaplasma marginale.

Marins explica que a vantagem do diagnóstico preciso é também o bem-estar do animal. "O tratamento com antibióticos (doxiciclina) gira em torno de R$ 45 a R$ 60. Entretanto, a questão não é somente o gasto com o antibiótico, mas sim se ele deve realmente ser aplicado. Com exames mais precisos, o veterinário estará melhor apoiado para solicitar o início do tratamento e também para definir o momento de encerrá-lo."

Idéias multiplicadas com o PIPE

O objetivo do projeto é também estimular o conhecimento por meio da prática, especializando os futuros biotecnólogos que atuam diariamente nas pesquisas associadas ao trabalho da Heranza dentro da universidade. "Tudo o que é referente à biologia molecular, aprendemos na prática aqui, no laboratório. Todas as técnicas de análise de seqüências, extração, clonagens, nos aperfeiçoam para o futuro", diz Giovana Pirolla Cardozo, aluna de iniciação científica do último ano do curso de biotecnologia que trabalha no laboratório da Heranza desde agosto de 2006.

O PIPE foi uma alavanca para que as idéias envolvendo o futuro da Heranza se multiplicassem. São várias as metas para o crescimento da empresa. "O trabalho do PIPE foi de detecção. Agora queremos migrar para um projeto de descoberta de novas moléculas para combater as enfermidades", ambiciona Marins.

A Heranza pretende produzir um kit de exame para os laboratórios, contendo todos os reagentes necessários para a identificação da Ehrlichia canis, Babesia spp e Anaplasma platys. O investimento do laboratório seria apenas na aquisição de um equipamento chamado termociclador — o que baratearia e disseminaria esse método diagnóstico.

Outro efeito colateral do trabalho da Heranza tem sido estimular os trabalhos de bioinformática na universidade. "Há um projeto de mestrado de um de meus alunos de desenvolvimento de um software de gerenciamento do nosso laboratório, contendo desde armazenamento, catalogação, recuperação, até a análise dos dados", enumera Marins. Na sua "sede virtual" — o computador —, Marins mostra o projeto do programa, que apresenta todo o organograma dos procedimentos realizados, desde a coleta do sangue do animal até os índices da doença em cada região da cidade.

 

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