O
espaço é pequeno —
25 metros quadrados —, mas organizadíssimo.
Na sala do Departamento de Biotecnologia
da Universidade de Ribeirão Preto
(Unaerp), quatro jovens, três graduandos
e um recém-formado, vestindo jalecos,
manuseiam pipetas em meio a equipamentos
sofisticados. O objetivo deles é
desenvolver uma técnica que permita
o diagnóstico rápido, barato
e preciso de uma doença endêmica
na região: a erliquiose. O nome
deriva da bactéria Ehrlichia
canis, que infecta carrapatos e,
por meio deles, cães e outros animais.
Eles trabalham sob a liderança
do biólogo Mozart de Azevedo Marins,
um doutor em biologia molecular que decidiu
colocar seu conhecimento a serviço
do diagnóstico dessa e de outras
doenças veterinárias disseminadas
na região.
Para
isso, doutor Marins fundou a Heranza,
empresa ainda tão pequena que
cabe nos 25 metros quadrados e no computador
de seu fundador. Ele conta, com voz
firme e muita didática, que a
empresa nasceu em 2003, para solucionar
deficiências locais. "Saí
em busca de problemas na região
para os quais a biologia molecular pudesse
ser útil. Em conversa com veterinários,
fiquei sabendo de doenças de
diagnóstico impreciso, das quais
não se sabia ao certo nem qual
era o agente infeccioso. Uma delas era
a erliquiose", conta. A partir
de então, a investigação
de um exame diagnóstico eficiente
para a doença que atinge os cães
de Ribeirão Preto passou a ser
a principal atividade da Heranza. Como
é transmitida pelo carrapato,
a doença atinge principalmente
as áreas de clima tropical. O
clima quente, típico da cidade,
é ideal para a reprodução
desse ácaro, que é comum
até mesmo nas áreas urbanas.
O homem também pode ser contaminado
pela moléstia, porém há
apenas um relato na literatura médica
de um caso na Venezuela.
O caminho
que a Heranza escolheu para criar os
exames baseia-se na análise do
DNA do animal supostamente infectado,
pelo método da Reação
da Polimerase em Cadeia (PCR). A identificação
de DNA por PCR é uma técnica
comum, bastante difundida. Outros laboratórios
já fazem o diagnóstico
da erliquiose por PCR; mas, em Ribeirão,
onde a incidência é alta,
a Heranza é pioneira.
Pesquisando
com o PIPE
Para
Marins, o futuro da Heranza está
ligado ao financiamento do Programa
Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp), que passou
a receber em outubro de 2005 com a aprovação
do projeto "Análise da biodiversidade
de bactérias associadas à
erliquiose canina na região de
Ribeirão Preto".
"Não haveria outra fonte
de recurso para bancar essa pesquisa",
pensa o dono da Heranza. "É
muito dispendiosa e os resultados aparecem
de forma lenta", explica. Além
de desenvolver o exame diagnóstico,
a empresa comprometeu-se a monitorar
a população canina na
cidade e a incidência das doenças
que afetam esses animais. O Centro de
Controle de Zoonoses local não
tem dados confiáveis —
justamente pela falta do método
diagnóstico preciso. A Heranza
já recebeu R$ 127 mil e U$ 27
mil, destinados à compra dos
equipamentos e de material de consumo,
como reagentes. Os graduandos e o recém-formado,
que ocupam a sala onde a empresa funciona
por enquanto, são bolsistas também
financiados pelo programa.
A partir
de 2008, Marins quer ver a Heranza em
sede própria, passando a lucrar
por meio de uma clientela alvo: as clínicas
veterinárias. "Com o tempo,
os veterinários terão
de adotar exames mais específicos",
acredita. "Essas enfermidades são
emergentes no mundo inteiro e as doenças
transmitidas por carrapatos estão
aumentando assustadoramente", continua.
Isso quer dizer mais oportunidades e
mais mercado para a ainda pequenina
que inova.
De fato:
segundo dados divulgados pelo Sindicato
Nacional da Indústria de Produtos
para Saúde Animal (Sindan), a
indústria no segmento cresceu
7% em 2006, encerrando o ano com faturamento
de R$ 2,4 bilhões. Informações
divulgadas pela assessoria de imprensa
do Sindan mostram que o resultado positivo
é fruto da preocupação
dos produtores em relação
à saúde animal, que estão
investindo cada vez mais para reduzir
os riscos de enfermidades. Outro fator
a ser considerado é a modernização
do parque industrial veterinário
brasileiro, atualmente entre os mais
avançados do mundo, capaz de
atender não só às
demandas sanitárias do Brasil,
mas também às de outros
países. Para 2007, o Sindan estima
um crescimento um pouco menor, mas ainda
considerável, de 3% a 4%.
Os
testes disponíveis
Os primeiros
casos de erliquiose foram diagnosticados
no Brasil em 1973, pelo método
clínico. Os sintomas são
vômito, febre, anemia, apatia
e sangramentos espontâneos. Depois,
passou-se a utilizar a contagem do nível
de plaquetas no sangue para diagnóstico
— que indica a reação
do animal a uma infecção,
mas não identifica sua causa.
A chamada trombocitopenia, no entanto,
também pode ser provocada por
outras doenças com sintomas similares,
como, por exemplo, a causada pela bactéria
Babesia canis. "Por ser
uma região endêmica, o
veterinário já associava
essa trombocitopenia à erliquiose
e passava então a tratar erroneamente
com o antibiótico direcionado
a essa enfermidade", explica. Esse
método impreciso continua a ser
utilizado nos dias de hoje.
Mas,
em Ribeirão Preto, o teste mais
usado para o diagnóstico da erliquiose
é o imunológico —
uma alternativa à contagem de
plaquetas. Esse teste oferece respostas
sobre os antígenos — vírus,
células de bactérias e
de fungos — que possam existir
no organismo do animal. Uma determinada
substância identificada pode apontar
uma característica da Ehrlichia
canis. O problema é que
com esse método pode haver com
freqüência a chamada "reação
cruzada", como dizem os especialistas
— a substância encontrada
pode ser causada por outros vírus
e bactérias presentes no corpo
do animal, com características
semelhantes.
A incerteza
acaba com a utilização
do método de análise do
DNA por PCR. A Heranza desenvolve seu
teste usando uma variação
do PCR: o "PCR aninhado".
Uma amostra de sangue animal é
suficiente. Se houver infecção,
surgirá, juntamente com o DNA
do animal, a identificação
do DNA da bactéria. O resultado
fica pronto em 24 horas.
Fase
II e novas metas
Na Fase
II do projeto, a empresa comprometeu-se
a estender sua análise para outros
parasitas e hospedeiros. Desde 2006,
a Heranza também busca desenvolver
testes para cavalos, bois e ovelhas,
vítimas de diversas espécies
de carrapatos vetores de doenças.
Para isso, a empresa conta com a colaboração
de veterinários que cedem gratuitamente
amostras de sangue para a pesquisa.
Uma
dessas colaboradoras é a médica
veterinária Gisele Nassif Conti,
do laboratório Nucleon Diagnósticos
e Especialidades Veterinárias,
de Ribeirão. Ela enfatiza a praticidade
e a eficácia dos diagnósticos
por PCR de 99,99%. "A biotecnologia
começou a fazer parte do universo
veterinário recentemente",
diz. "Muitos médicos veterinários
desconhecem as inovações
diagnósticas e se prendem aos
métodos antigos ou simplesmente
clínicos. Há dificuldade
também por causa dos custos desses
exames. Os donos de animais não
estão acostumados ao avanço
da medicina veterinária. Divulgação
e esclarecimento são chaves.
A veterinária já é
uma medicina preventiva e não
só curativa", conclui Gisele.
A Nucleon, onde ela trabalha, colabora
com a pesquisa da Heranza: a empresa
utiliza o teste de Marins nos animais
da clínica, a um preço
de custo de R$ 50. A Heranza afirma
que ainda não obtém retorno
comercial com isso.
Dos
700 cães analisados pela Heranza
desde setembro de 2006, como parte do
projeto financiado pelo PIPE, 38,9%
estavam contaminados com a Ehrlichia
canis. Os animais doentes passaram
a tomar antibióticos e tiveram
um rígido combate aos carrapatos.
Os outros cachorros estavam sadios ou
com a Babesia canis. Nos cavalos,
bois e ovelhas, foram encontrados diversos
tipos de microorganismos causadores
de patologias transmitidas por carrapato:
Babesia bovis, B. bigemina e Anaplasma
marginale.
Marins
explica que a vantagem do diagnóstico
preciso é também o bem-estar
do animal. "O tratamento com antibióticos
(doxiciclina) gira em torno de R$ 45
a R$ 60. Entretanto, a questão
não é somente o gasto
com o antibiótico, mas sim se
ele deve realmente ser aplicado. Com
exames mais precisos, o veterinário
estará melhor apoiado para solicitar
o início do tratamento e também
para definir o momento de encerrá-lo."
Idéias
multiplicadas com o PIPE
O objetivo
do projeto é também estimular
o conhecimento por meio da prática,
especializando os futuros biotecnólogos
que atuam diariamente nas pesquisas
associadas ao trabalho da Heranza dentro
da universidade. "Tudo o que é
referente à biologia molecular,
aprendemos na prática aqui, no
laboratório. Todas as técnicas
de análise de seqüências,
extração, clonagens, nos
aperfeiçoam para o futuro",
diz Giovana Pirolla Cardozo, aluna de
iniciação científica
do último ano do curso de biotecnologia
que trabalha no laboratório da
Heranza desde agosto de 2006.
O PIPE
foi uma alavanca para que as idéias
envolvendo o futuro da Heranza se multiplicassem.
São várias as metas para
o crescimento da empresa. "O trabalho
do PIPE foi de detecção.
Agora queremos migrar para um projeto
de descoberta de novas moléculas
para combater as enfermidades",
ambiciona Marins.
A Heranza
pretende produzir um kit de
exame para os laboratórios, contendo
todos os reagentes necessários
para a identificação da
Ehrlichia canis, Babesia
spp e Anaplasma platys. O investimento
do laboratório seria apenas na
aquisição de um equipamento
chamado termociclador — o que
baratearia e disseminaria esse método
diagnóstico.
Outro
efeito colateral do trabalho da Heranza
tem sido estimular os trabalhos de bioinformática
na universidade. "Há um
projeto de mestrado de um de meus alunos
de desenvolvimento de um software
de gerenciamento do nosso laboratório,
contendo desde armazenamento, catalogação,
recuperação, até
a análise dos dados", enumera
Marins. Na sua "sede virtual"
— o computador —, Marins
mostra o projeto do programa, que apresenta
todo o organograma dos procedimentos
realizados, desde a coleta do sangue
do animal até os índices
da doença em cada região
da cidade.