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Publicado em 20 de junho de 2008






Genoa Veterinária
Teste barato e rápido para determinação de paternidade de animais
chegará ao mercado até 2009; objetivo é concorrer com importado

Evanildo da Silveira

Não são só os humanos que precisam ter sua paternidade comprovada de vez em quando. Na hora de dizer quem é o pangaré e qual é o animal de raça, a tecnologia também constrói genealogias de bois, cavalos, cabras e ovelhas.

Mas como testes de paternidade ainda são procedimentos complicados, a idéia é aplicá-los a animais que possuem algum valor econômico. Foi esse o filão que a Genoa Veterinária, empresa de São Paulo que já faz testes de paternidade em animais desde 2005, resolveu aproveitar: desenvolver um kit a partir do manuseio de amostras de pêlos, sêmem ou sangue, com a finalidade de baratear os custos: de R$ 6 a R$ 10, em oposição aos testes já existentes no mercado, que custam R$ 25, em média.

Os kits consistem de tubos que contêm as misturas de primers – ou iniciadores, que são trechos de DNA sintetizados artificialmente, necessários às reações químicas - em concentrações ideais para, combinadas com o DNA dos animais testados, identificarem sua ascendência.

Depois de preparado, o DNA é processado em seqüenciadores automáticos; concluída a análise do material genético, o resultado é comparado com informações depositadas em um banco de dados que reúne as seqüências de DNA de outros 50 mil animais, entre bovinos e eqüinos. O computador faz as comparações e é responsável pelo alto grau de certeza: os dados indicam com precisão – 99,9% - se um determinado animal descende ou não do suposto “papai”.

O conhecimento da genealogia dos animais é fundamental para programas de melhoramento genético de uma raça. "Calcula-se que um erro de 10% na identificação parental em dez populações de 100 mil vacas de leite cada pode resultar em perdas genéticas ao final de 20 anos", explica o biólogo Flavio Canellas Canavez, diretor do Laboratório de Biologia Molecular da Genoa Veterinária.

Há duas formas de ocorrerem perdas genéticas: uma, quando se cruza uma vaca com um touro tido como bom, mas de genealogia desconhecida; outra, quando se cruza dois animais bons que são parentes entre si. Com o tempo podem aparecer doenças genéticas nos descendentes dos animas cuja genealogia não é bem conhecida.
Os pecuaristas da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) sabem da importância econômica disso. Cem por cento dos bovinos das dez raças zebuínas criadas no Brasil são resultado de transferências de embriões ou de fertilização in vitro e têm sua genealogia comprovada por testes de DNA.

Só em 2006, foram feitas 63.025 transferências de embriões e 193.463 fertilizações in vitro. "As inovações tecnológicas fazem parte da rotina dos selecionadores de gado zebuíno", garante o superintendente técnico da ABCZ, Luiz Antonio Josahkian.

O novo produto é resultado do projeto "Desenvolvimento de kits de genotipagem e identificação parental por DNA para espécies animais de interesse econômico", financiado pelo PIPE, o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas empresas inovadoras. Aprovado em janeiro de 2006, o projeto recebeu R$ 370 mil. "Metade desse dinheiro foi usado na compra de equipamentos, entre os quais um seqüenciador e um analisador automático de DNA", conta Canavez. "A outra metade foi usada para comprar reagentes e primers."
“A Genoa não desenvolveu um produto inédito”, diz o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Dario Grattapaglia, sócio-proprietário da concorrente Heréditas - Tecnologia em Análise de DNA Ltda. "Nós desenvolvemos kit semelhante em 1999".

A Heréditas ajudou o Ministério da Agricultura a estabelecer os critérios para o credenciamento dos laboratórios que fazem análises de paternidade por DNA em animais. O laboratório de Grattapaglia foi o primeiro a ser credenciado, em fevereiro de 2005. Outra empresa do PIPE, a Linkgen, também realiza esse trabalho, mas somente para cavalos quarto de milha.

Canavez explica qual é a novidade de seu produto: "Montamos um kit de forma mais simples e barata, para ser vendido a outras empresas e laboratórios que realizam teste de DNA", afirma. O desafio tecnológico foi prever a concentração ideal dos primers e reagentes para identificar a paternidade do animal em uma única reação, tornando a idéia economicamente viável. A Genoa atingiu seu objetivo por meio de uma mistura de 22 iniciadores para os testes em bovinos, e de 30 para os testes em cavalos, cada um numa quantidade específica.

“Para lançarmos comercialmente, ainda falta encontrar um laboratório que valide os resultados obtidos até agora com o kit; depois, consultaremos o Ministério da Agricultura, sobre a necessidade de registro do produto”, conclui o biólogo.

Testes para cinco espécies

A Genoa pretende desenvolver kits para teste em cinco espécies de animais: bois, cavalos, ovelhas, cabras e cães. "Desses, já estão prontos os de bovinos (desde novembro de 2006), eqüinos (abril de 2007) e ovinos (outubro de 2007)", conta Canavez. "O primeiro foi testado em 20 mil análises de paternidade. Agora, para colocá-lo no mercado, falta criar uma embalagem, definir um nome comercial e outros detalhes, como prazo de validade", relata o diretor da Genoa.
Além de poder concorrer com os importados, o kit de genotipagem também é uma alternativa ao teste de paternidade por tipagem sangüínea, ainda muito utilizado no país — apesar de ser uma metodologia antiga, estabelecida há mais de 50 anos. Por só poder ser realizado no sangue dos animais, não serve para criadores que querem testar sêmen ou embriões importados, nem para análises retrospectivas de animais mortos. "A tipagem sangüínea gera resultados pouco precisos que nem sempre permitem a exclusão de prováveis pais", observa. "Enquanto um teste de paternidade por DNA tem uma chance de erro em um bilhão de tentativas, para seres humanos, ou uma em 10 mil, para animais, estudos realizados com bois mostram que a tipagem sangüínea pode apresentar um índice de erro de 27,5%."

Cientistas e pecuaristas

A Genoa Veterinária nasceu de uma parceria entre um grupo de pecuaristas, interessado em aumentar a produtividade do rebanho usando as ferramentas da engenharia genética, e cientistas que conheciam a tecnologia. Hoje, entre as principais atividades da empresa estão a realização de exames diagnósticos e a certificação de animais de produção, além dos testes de identificação pela análise do DNA.

O grupo fica instalado em duas plantas na cidade de São Paulo e conta com cerca de 30 pesquisadores — a maioria deles PhDs com experiência em diferentes áreas de pesquisa. Desde a criação da holding Genoa Biotecnologia, em 2004, já foram investidos cerca de R$ 8 milhões na construção dos laboratórios e na infra-estrutura tecnológica. O faturamento mensal do grupo chega a R$ 180 mil, dos quais R$ 120 mil provêm da Genoa Veterinária.

Se comparados ao tamanho da pecuária brasileira, esses valores são pífios. Com 190 milhões de cabeças, o Brasil possui o maior rebanho de bovinos do mundo e é um dos principais exportadores de carne — vendemos 1,5 milhões de toneladas por ano. Esse desempenho poderia ser melhor se houvesse um maior controle da procedência e genealogia do rebanho.

O Ministério da Agricultura deu o primeiro passo nesse sentido em 2004, quando adotou a genotipagem como critério para os exames de paternidade bovina, em substituição aos baseados na tipagem sanguínea. O exame é obrigatório, no entanto, apenas para os animais envolvidos em fertilização in vitro e transferência de embriões. Uma parcela pequena do rebanho se enquadra nessa categoria.

Há vários laboratórios já credenciados pelo Ministério para realizar testes de identificação genética animal pela análise do DNA. Isso ocorreu com a Genoa Veterinária em 26 de julho de 2005, por meio da Portaria nº 97. Desde então a empresa vem realizando esse trabalho — com kits importados, muito caros. Foi o preço do material estrangeiro que fez a empresa decidir desenvolver seu próprio material, por meio do projeto financiado pelo PIPE. "Como a tecnologia dos testes de DNA já é conhecida e aceita no Brasil e no mundo, o que precisávamos era apenas desenvolver o produto", explica Canavez. "Por isso, entramos direto na Fase II do programa da Fapesp."

A empresa e sua holding

A Genoa Laboratório de Patologia Molecular e Celular Veterinária Ltda., nome completo da Genoa Veterinária, é um braço do grupo Genoa Biotecnologia, holding que controla outras três empresas, a Oncocell e a Genoa Diagnósticos, na área humana, e a Indicus Genética, que comercializa os exames da Genoa Veterinária na área de animais chamados de produção (ou grande porte). A história do grupo começou em 1970, quando foi criado o Laboratório de Patologia Molecular e Celular (LPMC) para atender o Hospital Sírio-Libanês nos serviços clínicos necessários a procedimentos complexos como transplantes e cirurgias radicais.

O LPMC foi um dos pioneiros no uso da biologia molecular para diagnóstico de rotina. A partir de 1992, sua equipe começou gradualmente a substituir antigos procedimentos por exames moleculares de maior sensibilidade e especificidade. A pesquisa de numerosos agentes causadores de doença passou a ser feita por meio da análise de seu material genético. Com o tempo, foram surgindo novos problemas para pesquisas e o LPMC começou a ficar pequeno para resolvê-los. Foi criada então, em 2000, a Oncocell, que possibilitou o surgimento das outras empresas. Em 2001, nasceu a Genoa Diagnósticos; em 2003, a Genoa Veterinária; e em 2004, a Indicus.

 

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