Genoa
Veterinária
Teste barato e rápido
para determinação de paternidade de animais
chegará ao mercado até 2009; objetivo
é concorrer com importado
Evanildo
da Silveira
Não
são só os humanos que precisam
ter sua paternidade comprovada de vez
em quando. Na hora de dizer quem é
o pangaré e qual é o animal
de raça, a tecnologia também
constrói genealogias de bois, cavalos,
cabras e ovelhas.
Mas como
testes de paternidade ainda são
procedimentos complicados, a idéia
é aplicá-los a animais que
possuem algum valor econômico. Foi
esse o filão que a Genoa Veterinária,
empresa de São Paulo que já
faz testes de paternidade em animais desde
2005, resolveu aproveitar: desenvolver
um kit a partir do manuseio de amostras
de pêlos, sêmem ou sangue,
com a finalidade de baratear os custos:
de R$ 6 a R$ 10, em oposição
aos testes já existentes no mercado,
que custam R$ 25, em média.
Os kits
consistem de tubos que contêm as
misturas de primers – ou iniciadores,
que são trechos de DNA sintetizados
artificialmente, necessários às
reações químicas
- em concentrações ideais
para, combinadas com o DNA dos animais
testados, identificarem sua ascendência.
Depois
de preparado, o DNA é processado
em seqüenciadores automáticos;
concluída a análise do material
genético, o resultado é
comparado com informações
depositadas em um banco de dados que reúne
as seqüências de DNA de outros
50 mil animais, entre bovinos e eqüinos.
O computador faz as comparações
e é responsável pelo alto
grau de certeza: os dados indicam com
precisão – 99,9% - se um
determinado animal descende ou não
do suposto “papai”.
O conhecimento
da genealogia dos animais é fundamental
para programas de melhoramento genético
de uma raça. "Calcula-se que
um erro de 10% na identificação
parental em dez populações
de 100 mil vacas de leite cada pode resultar
em perdas genéticas ao final de
20 anos", explica o biólogo
Flavio Canellas Canavez, diretor do Laboratório
de Biologia Molecular da Genoa Veterinária.
Há
duas formas de ocorrerem perdas genéticas:
uma, quando se cruza uma vaca com um touro
tido como bom, mas de genealogia desconhecida;
outra, quando se cruza dois animais bons
que são parentes entre si. Com
o tempo podem aparecer doenças
genéticas nos descendentes dos
animas cuja genealogia não é
bem conhecida.
Os pecuaristas da Associação
Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ)
sabem da importância econômica
disso. Cem por cento dos bovinos das dez
raças zebuínas criadas no
Brasil são resultado de transferências
de embriões ou de fertilização
in vitro e têm sua genealogia comprovada
por testes de DNA.
Só
em 2006, foram feitas 63.025 transferências
de embriões e 193.463 fertilizações
in vitro. "As inovações
tecnológicas fazem parte da rotina
dos selecionadores de gado zebuíno",
garante o superintendente técnico
da ABCZ, Luiz Antonio Josahkian.
O novo
produto é resultado do projeto
"Desenvolvimento de kits de genotipagem
e identificação parental
por DNA para espécies animais de
interesse econômico", financiado
pelo PIPE, o programa da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) que apóia
as pequenas empresas inovadoras. Aprovado
em janeiro de 2006, o projeto recebeu
R$ 370 mil. "Metade desse dinheiro
foi usado na compra de equipamentos, entre
os quais um seqüenciador e um analisador
automático de DNA", conta
Canavez. "A outra metade foi usada
para comprar reagentes e primers."
“A Genoa não desenvolveu
um produto inédito”, diz
o pesquisador da Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
Dario Grattapaglia, sócio-proprietário
da concorrente Heréditas - Tecnologia
em Análise de DNA Ltda. "Nós
desenvolvemos kit semelhante em 1999".
A Heréditas
ajudou o Ministério da Agricultura
a estabelecer os critérios para
o credenciamento dos laboratórios
que fazem análises de paternidade
por DNA em animais. O laboratório
de Grattapaglia foi o primeiro a ser credenciado,
em fevereiro de 2005. Outra empresa do
PIPE, a Linkgen, também realiza
esse trabalho, mas somente para cavalos
quarto de milha.
Canavez
explica qual é a novidade de seu
produto: "Montamos um kit de forma
mais simples e barata, para ser vendido
a outras empresas e laboratórios
que realizam teste de DNA", afirma.
O desafio tecnológico foi prever
a concentração ideal dos
primers e reagentes para identificar a
paternidade do animal em uma única
reação, tornando a idéia
economicamente viável. A Genoa
atingiu seu objetivo por meio de uma mistura
de 22 iniciadores para os testes em bovinos,
e de 30 para os testes em cavalos, cada
um numa quantidade específica.
“Para
lançarmos comercialmente, ainda
falta encontrar um laboratório
que valide os resultados obtidos até
agora com o kit; depois, consultaremos
o Ministério da Agricultura, sobre
a necessidade de registro do produto”,
conclui o biólogo.
Testes
para cinco espécies
A Genoa
pretende desenvolver kits para teste em
cinco espécies de animais: bois,
cavalos, ovelhas, cabras e cães.
"Desses, já estão prontos
os de bovinos (desde novembro de 2006),
eqüinos (abril de 2007) e ovinos
(outubro de 2007)", conta Canavez.
"O primeiro foi testado em 20 mil
análises de paternidade. Agora,
para colocá-lo no mercado, falta
criar uma embalagem, definir um nome comercial
e outros detalhes, como prazo de validade",
relata o diretor da Genoa.
Além de poder concorrer com os
importados, o kit de genotipagem também
é uma alternativa ao teste de paternidade
por tipagem sangüínea, ainda
muito utilizado no país —
apesar de ser uma metodologia antiga,
estabelecida há mais de 50 anos.
Por só poder ser realizado no sangue
dos animais, não serve para criadores
que querem testar sêmen ou embriões
importados, nem para análises retrospectivas
de animais mortos. "A tipagem sangüínea
gera resultados pouco precisos que nem
sempre permitem a exclusão de prováveis
pais", observa. "Enquanto um
teste de paternidade por DNA tem uma chance
de erro em um bilhão de tentativas,
para seres humanos, ou uma em 10 mil,
para animais, estudos realizados com bois
mostram que a tipagem sangüínea
pode apresentar um índice de erro
de 27,5%."
Cientistas
e pecuaristas
A Genoa
Veterinária nasceu de uma parceria
entre um grupo de pecuaristas, interessado
em aumentar a produtividade do rebanho
usando as ferramentas da engenharia genética,
e cientistas que conheciam a tecnologia.
Hoje, entre as principais atividades da
empresa estão a realização
de exames diagnósticos e a certificação
de animais de produção,
além dos testes de identificação
pela análise do DNA.
O grupo
fica instalado em duas plantas na cidade
de São Paulo e conta com cerca
de 30 pesquisadores — a maioria
deles PhDs com experiência em diferentes
áreas de pesquisa. Desde a criação
da holding Genoa Biotecnologia, em 2004,
já foram investidos cerca de R$
8 milhões na construção
dos laboratórios e na infra-estrutura
tecnológica. O faturamento mensal
do grupo chega a R$ 180 mil, dos quais
R$ 120 mil provêm da Genoa Veterinária.
Se comparados
ao tamanho da pecuária brasileira,
esses valores são pífios.
Com 190 milhões de cabeças,
o Brasil possui o maior rebanho de bovinos
do mundo e é um dos principais
exportadores de carne — vendemos
1,5 milhões de toneladas por ano.
Esse desempenho poderia ser melhor se
houvesse um maior controle da procedência
e genealogia do rebanho.
O Ministério
da Agricultura deu o primeiro passo nesse
sentido em 2004, quando adotou a genotipagem
como critério para os exames de
paternidade bovina, em substituição
aos baseados na tipagem sanguínea.
O exame é obrigatório, no
entanto, apenas para os animais envolvidos
em fertilização in vitro
e transferência de embriões.
Uma parcela pequena do rebanho se enquadra
nessa categoria.
Há
vários laboratórios já
credenciados pelo Ministério para
realizar testes de identificação
genética animal pela análise
do DNA. Isso ocorreu com a Genoa Veterinária
em 26 de julho de 2005, por meio da Portaria
nº 97. Desde então a empresa
vem realizando esse trabalho — com
kits importados, muito caros. Foi o preço
do material estrangeiro que fez a empresa
decidir desenvolver seu próprio
material, por meio do projeto financiado
pelo PIPE. "Como a tecnologia dos
testes de DNA já é conhecida
e aceita no Brasil e no mundo, o que precisávamos
era apenas desenvolver o produto",
explica Canavez. "Por isso, entramos
direto na Fase II do programa da Fapesp."
A
empresa e sua holding
A Genoa
Laboratório de Patologia Molecular
e Celular Veterinária Ltda., nome
completo da Genoa Veterinária,
é um braço do grupo Genoa
Biotecnologia, holding que controla outras
três empresas, a Oncocell e a Genoa
Diagnósticos, na área humana,
e a Indicus Genética, que comercializa
os exames da Genoa Veterinária
na área de animais chamados de
produção (ou grande porte).
A história do grupo começou
em 1970, quando foi criado o Laboratório
de Patologia Molecular e Celular (LPMC)
para atender o Hospital Sírio-Libanês
nos serviços clínicos necessários
a procedimentos complexos como transplantes
e cirurgias radicais.
O LPMC
foi um dos pioneiros no uso da biologia
molecular para diagnóstico de rotina.
A partir de 1992, sua equipe começou
gradualmente a substituir antigos procedimentos
por exames moleculares de maior sensibilidade
e especificidade. A pesquisa de numerosos
agentes causadores de doença passou
a ser feita por meio da análise
de seu material genético. Com o
tempo, foram surgindo novos problemas
para pesquisas e o LPMC começou
a ficar pequeno para resolvê-los.
Foi criada então, em 2000, a Oncocell,
que possibilitou o surgimento das outras
empresas. Em 2001, nasceu a Genoa Diagnósticos;
em 2003, a Genoa Veterinária; e
em 2004, a Indicus.