Publicado em 22 de Outubro de 2007






Jackie-O Indústria e Comércio

Pesquisador abre nova empresa para continuar desenvolvimento
de ligas de ouro colorido; mercado de jóias movimenta R$ 4,5 bi

Evanildo da Silveira

Para o engenheiro metalúrgico Edval Araújo, Jacqueline Kennedy Onassis "foi a mulher que mais esbanjou classe em todos os tempos". Por isso, ele achou que nenhum nome seria mais apropriado que o dela para batizar uma empresa que pretende produzir jóias de ouro. Assim, resolveu chamar de Jackie-O a empresa que criou no início deste ano com ajuda do PIPE, o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas inovadoras. A recém-nascida Jackie-O surgiu como cisão da Regulus Ars Tecnologia em Jóias Ltda., empresa que havia fundado em 2002, com dois sócios. A Regulus Ars — em latim, arte régia — também teve um financiamento do PIPE. Em ambas, Araújo desenvolveu uma tecnologia para criar ligas de ouro colorido, que dispensa a fundição. O processo é mecânico, mais barato e pode ser usado para produzir pequenas quantidades. Antes de começar a produzir em escala, Araújo pretende patentear o processo.

O ouro existe várias tonalidades além do amarelo — há ouro branco, preto, vermelho, verde, púrpura e azul. Para obter ligas de ouro 18 quilates nessas cores, a tecnologia empregada atualmente é a metalurgia de fundição, cara e que só pode ser usada para grandes quantidades. O projeto "Obtenção de ligas de ouro colorido por moagem de alta energia", apresentado pela Regulus e aprovado pela Fapesp, buscou e criou uma alternativa a essa tecnologia. A empresa recebeu recursos, primeiro, para pesquisar se a idéia de Araújo era mesmo aplicável. Para isso, a Fapesp financiou R$ 70,6 mil, em novembro de 2003, dentro da chamada "Fase I" do PIPE. "Sem esses recursos, a empresa não existiria", afirma o engenheiro. O dinheiro foi usado, principalmente, para testar a viabilidade da produção de pó de ouro colorido.

Como o projeto passou na Fase I, em 2004, Araújo pediu recursos dentro da Fase II — desta vez para efetivar o projeto de pesquisa. Foram R$ 300 mil. "Usamos esses recursos para produzir nossos primeiros pigmentos de ouro colorido", conta. Não foi o suficiente: em abril de 2005, a Regulus apresentou outro projeto de pesquisa, intitulado "Processo para manufatura de artefatos de ouro colorido". O objetivo, agora, era estudar como transformar o pó de ouro colorido em peças sólidas, com as quais seriam produzidas as jóias. A empresa recebeu R$ 99,9 mil. "Com esse dinheiro, produzimos algumas peças", diz Araújo.

Ouro colorido, quem quer?

As ligas de ouro colorido estão na moda, de acordo com a designer Regina Machado, consultora de tendências do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM). "Muitas empresas estão investindo na criação de jóias de ouro com tonalidades diferenciadas", diz. "O design das jóias pode contar com vários recursos de combinações cromáticas entre o metal e as gemas. Como resultado, temos a cada novo lançamento uma supervariedade de efeitos de luz e cor que imprime um novo fashion mood à joalheria contemporânea", completa, muito entusiasmada.

O mercado de jóias, segundo a Associação dos Joalheiros do Estado de São Paulo (AJESP), movimentou em 2006 R$ 4,5 bilhões, o que representa um crescimento de 5% em relação a 2005; e gerou 380 mil empregos diretos. Ainda de acordo com a AJESP, as exportações da cadeia produtiva do setor joalheiro, que engloba pedras, ouros, jóias, bijuterias e folheados, atingiram US$ 1,2 bilhão em 2006, 35% a mais do que no ano anterior. Apenas em jóias de ouro foram exportados, em 2006, US$ 115 milhões, o que significa um crescimento de 15% em relação a 2005. O volume de negócios tem feito com que empresas invistam cada vez mais em pesquisa, muitas na área de ligas de ouro colorido. A Regulus e a Jackie-O optaram por desenvolver elas próprias sua pesquisa. Mas há empresas que, para buscar a tecnologia das ligas de ouro colorido, preferem investir em parcerias com universidades.

Uma delas é AngloGold Ashanti, mineradora sul-africana que firmou um convênio com a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em Belo Horizonte. A companhia, que tem sede para América Latina na cidade mineira de Nova Lima, financiou a instalação do Laboratório de Pesquisa em Ligas de Ouro no Centro de Estudos em Design de Gemas e Jóias. A empresa investiu ainda em equipamentos, ferramentas e insumos como ouro e prata. O laboratório permite aos alunos da UEMG realizar ensaios com ligas não usuais para aplicação em novos produtos. Portanto, o mercado das ligas de ouro colorido é competitivo — as empresas do PIPE não estão sós.

PIPE direto na Fase II

Em 2005, ocorreu o desentendimento entre os sócios da Regulus que resultou na cisão da empresa — que deixou de existir. Nasceu a Aluvium e também, no início de 2007, a Jackie-O, fundada pelo engenheiro Araújo. A Jackie-O passou o ano quase todo se instalando na Incubadora Tecnológica de Empresas de Sorocaba (Intes). "Escolhi essa incubadora, porque fica perto de São Paulo e o preço do aluguel é razoável", explica Araújo. Os outros sócios criaram a Aluvium. As duas ficaram com a tecnologia desenvolvida pela Regulus, que enquanto existiu viveu dentro do Centro de Incubação de Empresas Tecnológicas (Cietec), instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), no campus da Universidade de São Paulo. A nova empresa já recorreu ao PIPE. Dada a experiência anterior, e o sucesso dos projetos, desta vez a Fapesp aprovou o projeto de pesquisa "Manufatura de peças de ouro colorido" sem exigir a comprovação da viabilidade — quer dizer, direto na Fase II. Em setembro, foram liberados R$ 400 mil para a compra de equipamentos e o início da produção industrial de peças de ouro colorido — o que deverá ocorrer dentro de seis meses.

A principal inovação que o projeto de P&D da Regulus e da Jackie-O quer realizar é deixar a fundição de lado no processo que leva do ouro puro à jóia. O ouro puro é muito mole e flexível — tão mole e flexível que não serve para a fabricação de jóias. Ouro puro é ouro 24 quilates; para jóias, o ouro é "impuro" — usualmente, tem 18 quilates: 75% de ouro e 25% de outro metal, em geral prata ou cobre. Com essa mistura, o ouro fica mais resistente e ganha tons: esverdeados, amarelados e avermelhados. A liga é obtida por fundição: os metais são misturados quando estão em estado líquido.

A tecnologia empregada pela Jackie-O é diferente: a liga será feita a partir de pós. O processo chama-se "moagem de alta energia". Começa em um pequeno moinho, um cilindro de cerca de 10 centímetros de altura por 5 centímetros de diâmetro, no interior do qual há pequenas bolas de aço. Lâminas de ouro, com 0,15 milímetro de espessura, são colocadas dentro desse cilindro, junto com uma espécie de plástico. O moinho então é ligado, o que faz com que ele chacoalhe numa freqüência de 30 hertz (30 ciclos por segundo), fazendo um movimento em oito. Esse chacoalhar mói o ouro, transformando-o em pó. O polímero serve como agente controlador do processo, impedindo que as partículas do ouro em pó se agreguem, formando bolotas.

Depois, ao ouro moído mistura-se pó de outros metais. Que metais? Aí é que está: depende da cor desejada. "Para ter amarelo ou vermelho, mistura-se com prata e cobre", explica. "Dependendo da proporção de cada um desses dois metais, a tonalidades da liga será amarelada (mais prata) ou avermelhada (mais cobre)." Se a liga contiver apenas ouro e prata sua cor será verde. Para obter o púrpura, mistura-se o metal nobre com alumínio. Com níquel ou platina consegue-se o ouro branco; com ferro, o azul; com cromo, o verde-oliva; e com cobalto, o preto. Segundo Araújo, a vantagem desse processo é que ele permite controlar com muita precisão a composição química da liga, o que propicia um ajuste sensível da obtenção das cores.

Do pó para peças sólidas

Depois de obtida a liga em pó é preciso transformá-la em peças sólidas. Isso é feito por um outro aparelho, onde o pó é prensado e compactado, a uma pressão de 2 a 7 megapascais (um megapascal corresponde a uma pressão de um quilo por milímetro quadrado). Para as cores convencionais (amarelo, vermelho, púrpura, verde e branco), o processo termina aqui. Para a obtenção das tonalidades azul, verde-oliva e preto, no entanto, há mais uma etapa. "Essas ligas devem ser oxidadas em forno a alta temperatura (cerca de 400 ºC), por cerca de uma hora", explica Araújo.

Prontas, essas ligas podem então ser usadas na fabricação de jóias. Agora, o que falta é produzis-la em escala para colocás-la no mercado. "Com o processo que inventamos vamos desenvolver produtos que não existem no mercado. A idéia é vendê-los para joalherias ou mesmo para clientes particulares."