Jackie-O Indústria e Comércio
Pesquisador
abre nova empresa para continuar desenvolvimento
de ligas de ouro colorido; mercado de jóias movimenta
R$ 4,5 bi
Evanildo
da Silveira
Para o engenheiro
metalúrgico Edval Araújo, Jacqueline
Kennedy Onassis "foi a mulher que mais
esbanjou classe em todos os tempos". Por
isso, ele achou que nenhum nome seria mais apropriado
que o dela para batizar uma empresa que pretende
produzir jóias de ouro. Assim, resolveu
chamar de Jackie-O a empresa que criou no início
deste ano com ajuda do PIPE, o programa da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas
inovadoras. A recém-nascida Jackie-O
surgiu como cisão da Regulus Ars Tecnologia
em Jóias Ltda., empresa que havia fundado
em 2002, com dois sócios. A Regulus Ars
— em latim, arte régia —
também teve um financiamento do PIPE.
Em ambas, Araújo desenvolveu uma tecnologia
para criar ligas de ouro colorido, que dispensa
a fundição. O processo é
mecânico, mais barato e pode ser usado
para produzir pequenas quantidades. Antes de
começar a produzir em escala, Araújo
pretende patentear o processo.
O ouro existe
várias tonalidades além do amarelo
— há ouro branco, preto, vermelho,
verde, púrpura e azul. Para obter ligas
de ouro 18 quilates nessas cores, a tecnologia
empregada atualmente é a metalurgia de
fundição, cara e que só
pode ser usada para grandes quantidades. O projeto
"Obtenção de ligas de ouro
colorido por moagem de alta energia", apresentado
pela Regulus e aprovado pela Fapesp, buscou
e criou uma alternativa a essa tecnologia. A
empresa recebeu recursos, primeiro, para pesquisar
se a idéia de Araújo era mesmo
aplicável. Para isso, a Fapesp financiou
R$ 70,6 mil, em novembro de 2003, dentro da
chamada "Fase I" do PIPE. "Sem
esses recursos, a empresa não existiria",
afirma o engenheiro. O dinheiro foi usado, principalmente,
para testar a viabilidade da produção
de pó de ouro colorido.
Como o projeto
passou na Fase I, em 2004, Araújo pediu
recursos dentro da Fase II — desta vez
para efetivar o projeto de pesquisa. Foram R$
300 mil. "Usamos esses recursos para produzir
nossos primeiros pigmentos de ouro colorido",
conta. Não foi o suficiente: em abril
de 2005, a Regulus apresentou outro projeto
de pesquisa, intitulado "Processo para
manufatura de artefatos de ouro colorido".
O objetivo, agora, era estudar como transformar
o pó de ouro colorido em peças
sólidas, com as quais seriam produzidas
as jóias. A empresa recebeu R$ 99,9 mil.
"Com esse dinheiro, produzimos algumas
peças", diz Araújo.
Ouro
colorido, quem quer?
As ligas de
ouro colorido estão na moda, de acordo
com a designer Regina Machado, consultora
de tendências do Instituto Brasileiro
de Gemas e Metais Preciosos (IBGM). "Muitas
empresas estão investindo na criação
de jóias de ouro com tonalidades diferenciadas",
diz. "O design das jóias
pode contar com vários recursos de combinações
cromáticas entre o metal e as gemas.
Como resultado, temos a cada novo lançamento
uma supervariedade de efeitos de luz e cor que
imprime um novo fashion mood à joalheria
contemporânea", completa, muito entusiasmada.
O mercado de
jóias, segundo a Associação
dos Joalheiros do Estado de São Paulo
(AJESP), movimentou em 2006 R$ 4,5 bilhões,
o que representa um crescimento de 5% em relação
a 2005; e gerou 380 mil empregos diretos. Ainda
de acordo com a AJESP, as exportações
da cadeia produtiva do setor joalheiro, que
engloba pedras, ouros, jóias, bijuterias
e folheados, atingiram US$ 1,2 bilhão
em 2006, 35% a mais do que no ano anterior.
Apenas em jóias de ouro foram exportados,
em 2006, US$ 115 milhões, o que significa
um crescimento de 15% em relação
a 2005. O volume de negócios tem feito
com que empresas invistam cada vez mais em pesquisa,
muitas na área de ligas de ouro colorido.
A Regulus e a Jackie-O optaram por desenvolver
elas próprias sua pesquisa. Mas há
empresas que, para buscar a tecnologia das ligas
de ouro colorido, preferem investir em parcerias
com universidades.
Uma delas é
AngloGold Ashanti, mineradora sul-africana que
firmou um convênio com a Universidade
do Estado de Minas Gerais (UEMG), em Belo Horizonte.
A companhia, que tem sede para América
Latina na cidade mineira de Nova Lima, financiou
a instalação do Laboratório
de Pesquisa em Ligas de Ouro no Centro de Estudos
em Design de Gemas e Jóias.
A empresa investiu ainda em equipamentos, ferramentas
e insumos como ouro e prata. O laboratório
permite aos alunos da UEMG realizar ensaios
com ligas não usuais para aplicação
em novos produtos. Portanto, o mercado das ligas
de ouro colorido é competitivo —
as empresas do PIPE não estão
sós.
PIPE
direto na Fase II
Em 2005, ocorreu
o desentendimento entre os sócios da
Regulus que resultou na cisão da empresa
— que deixou de existir. Nasceu a Aluvium
e também, no início de 2007, a
Jackie-O, fundada pelo engenheiro Araújo.
A Jackie-O passou o ano quase todo se instalando
na Incubadora Tecnológica de Empresas
de Sorocaba (Intes). "Escolhi essa incubadora,
porque fica perto de São Paulo e o preço
do aluguel é razoável", explica
Araújo. Os outros sócios criaram
a Aluvium. As duas ficaram com a tecnologia
desenvolvida pela Regulus, que enquanto existiu
viveu dentro do Centro de Incubação
de Empresas Tecnológicas (Cietec), instalado
no Instituto de Pesquisas Energéticas
e Nucleares (Ipen), no campus da Universidade
de São Paulo. A nova empresa já
recorreu ao PIPE. Dada a experiência anterior,
e o sucesso dos projetos, desta vez a Fapesp
aprovou o projeto de pesquisa "Manufatura
de peças de ouro colorido" sem exigir
a comprovação da viabilidade —
quer dizer, direto na Fase II. Em setembro,
foram liberados R$ 400 mil para a compra de
equipamentos e o início da produção
industrial de peças de ouro colorido
— o que deverá ocorrer dentro de
seis meses.
A principal
inovação que o projeto de P&D
da Regulus e da Jackie-O quer realizar é
deixar a fundição de lado no processo
que leva do ouro puro à jóia.
O ouro puro é muito mole e flexível
— tão mole e flexível que
não serve para a fabricação
de jóias. Ouro puro é ouro 24
quilates; para jóias, o ouro é
"impuro" — usualmente, tem 18
quilates: 75% de ouro e 25% de outro metal,
em geral prata ou cobre. Com essa mistura, o
ouro fica mais resistente e ganha tons: esverdeados,
amarelados e avermelhados. A liga é obtida
por fundição: os metais são
misturados quando estão em estado líquido.
A tecnologia
empregada pela Jackie-O é diferente:
a liga será feita a partir de pós.
O processo chama-se "moagem de alta energia".
Começa em um pequeno moinho, um cilindro
de cerca de 10 centímetros de altura
por 5 centímetros de diâmetro,
no interior do qual há pequenas bolas
de aço. Lâminas de ouro, com 0,15
milímetro de espessura, são colocadas
dentro desse cilindro, junto com uma espécie
de plástico. O moinho então é
ligado, o que faz com que ele chacoalhe numa
freqüência de 30 hertz (30 ciclos
por segundo), fazendo um movimento em oito.
Esse chacoalhar mói o ouro, transformando-o
em pó. O polímero serve como agente
controlador do processo, impedindo que as partículas
do ouro em pó se agreguem, formando bolotas.
Depois, ao ouro
moído mistura-se pó de outros
metais. Que metais? Aí é que está:
depende da cor desejada. "Para ter amarelo
ou vermelho, mistura-se com prata e cobre",
explica. "Dependendo da proporção
de cada um desses dois metais, a tonalidades
da liga será amarelada (mais prata) ou
avermelhada (mais cobre)." Se a liga contiver
apenas ouro e prata sua cor será verde.
Para obter o púrpura, mistura-se o metal
nobre com alumínio. Com níquel
ou platina consegue-se o ouro branco; com ferro,
o azul; com cromo, o verde-oliva; e com cobalto,
o preto. Segundo Araújo, a vantagem desse
processo é que ele permite controlar
com muita precisão a composição
química da liga, o que propicia um ajuste
sensível da obtenção das
cores.
Do pó
para peças sólidas
Depois de obtida
a liga em pó é preciso transformá-la
em peças sólidas. Isso é
feito por um outro aparelho, onde o pó
é prensado e compactado, a uma pressão
de 2 a 7 megapascais (um megapascal corresponde
a uma pressão de um quilo por milímetro
quadrado). Para as cores convencionais (amarelo,
vermelho, púrpura, verde e branco), o
processo termina aqui. Para a obtenção
das tonalidades azul, verde-oliva e preto, no
entanto, há mais uma etapa. "Essas
ligas devem ser oxidadas em forno a alta temperatura
(cerca de 400 ºC), por cerca de uma hora",
explica Araújo.
Prontas, essas
ligas podem então ser usadas na fabricação
de jóias. Agora, o que falta é
produzis-la em escala para colocás-la
no mercado. "Com o processo que inventamos
vamos desenvolver produtos que não existem
no mercado. A idéia é vendê-los
para joalherias ou mesmo para clientes particulares."