Holophotonics Equipamentos Ópticos e Eletrônicos
Ltda.
Sensor que
não dispara quando um bicho passa por ele é produto
inovador desenvolvido por empresa de óptica de
São Carlos
Evanildo
da Silveira
Um sensor de
movimento, do tamanho de um mouse de
computador, capaz de diferenciar seres humanos
de animais pequenos — este é o
produto inovador que a Holophotonics, pequena
empresa de São Carlos (SP), pretende
colocar no mercado já no primeiro semestre
de 2008. Com esse sensor pet immune
— quer dizer, imune a animais de estimação
—, a Holophotonics pretende conquistar
85% do mercado potencial nessa categoria de
produtos (o equivalente a 200 mil unidades por
ano, nos cálculos da empresa) e, assim,
aos três anos de idade, passar a líder
de vendas no País. Atualmente, os únicos
sensores pet immune comercializados
no Brasil vêm da Ásia.
Como outras
empresas de São Carlos — a mais
famosa delas sendo a Opto
—, a Holophotonics domina conhecimentos
de óptica. É como seu nome indica:
"holo", de hologramas, mais "photonics",
a palavra em inglês para fotônica,
área da física que estuda possíveis
aplicações dos poderes da luz
— lasers, por exemplo, são
assunto da fotônica. No caso do novo sensor
pet immune, a capacidade de ignorar
a presença de animais de estimação
no ambiente deve-se às lentes de Fresnel
que a empresa criou especialmente para esse
fim.
Todo o desenvolvimento
do sensor foi financiado pelo PIPE, o programa
da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
que apóia as pequenas inovadoras. O bem-sucedido
projeto, iniciado em 2003, resultou em uma patente
depositada pela Holophotonics em maio deste
ano. Agora, a empresa quer mais apoio do PIPE
para seu sensor: inscreveu-se na recente chamada
para projetos em Fase III do programa, aquela
que financia a comercialização
de produtos ou protótipos desenvolvidos
com recursos da fundação. O resultado
é esperado para o final do mês
de outubro.
Se o novo projeto
for aprovado, a Holophotonics vai aperfeiçoar
seu produto: quer desenvolver uma lente mais
eficiente. No estágio atual da tecnologia,
o sensor não dispara quando animais de
até 30 quilos passam por ele; mas a empresa
quer que sua próxima lente deixe passar
bichos de 36 quilos ou mais. Se o projeto não
for aprovado, os planos para a comercialização
do sensor atual não se alteram: o lançamento
será mesmo logo no primeiro semestre
de 2008.
Sede
modesta
A Holophotonics
está instalada em uma sede ainda modesta.
A empresa ocupa um prédio alugado de
350 metros quadrados, onde trabalham cinco pessoas
— os quatro sócios e um estagiário.
"Nossa empresa consiste basicamente em
um departamento de pesquisa e desenvolvimento
(P&D), no qual são realizados os
projetos dos produtos", explica Giuseppe
Cirino, um dos sócios. "A produção
propriamente dita é terceirizada, pois
a Holophotonics ainda não tem tamanho
suficiente para abrigar uma unidade fabril."
O faturamento também é modesto:
em 2006, girou em torno de R$ 48 mil. Para 2007,
a estimativa é de que haja um crescimento
de 30%.
O mercado,
segundo uma especialista
O mercado de
segurança eletrônica movimenta
mais de R$ 1 bilhão por ano e cresce
em média 12% ao ano. Segundo dados da
Associação Brasileira das Empresas
de Sistemas Eletrônicos de Segurança
(Abese), existem no Brasil cerca de 8 mil firmas
atuantes nesse segmento, que geram 80 mil empregos
diretos e cerca de 800 mil indiretos. "É
um mercado muito amplo para os fabricantes de
sensores", diz Selma Migliori, presidente
da Abese. "Pelas tendências observadas,
deve continuar crescendo. Ainda mais se for
considerado que apenas 7% dos domicílios
brasileiros são equipados com algum sistema
de proteção eletrônica."
Segundo Selma,
estima-se que existam no país 430 mil
imóveis protegidos por sistemas de alarmes
monitorados. "Dependendo do tamanho do
imóvel, das áreas protegidas,
se ele conta ou não com sistema de proteção
perimetral — que são as barreiras
de infravermelho que protegem o perímetro
da área monitorada —, cada sistema
desses pode utilizar de dez a cem sensores de
detecção de presença",
explica. "Entre os sistemas de proteção,
incluem-se ainda alarmes, circuitos fechados
de TV, sistemas de controle de acesso, portas
e portões automáticos, equipamentos
de combate a incêndio, detecção
de metais e explosivos, portas giratórias
e eclusas, dispositivos de identificação
por biometria e rastreamento de veículos
e seres vivos."
Nesse cenário,
os sensores pet immune desenvolvidos
pela Holophotonics são uma inovação
importante. "O alarme falso, acionado acidentalmente
por animais de estimação, causa
muitos problemas e não é desejado",
diz Selma. "Além do mais, esses
sensores pet immune garantem maior
precisão ao sistema de detecção
de invasões e diminuem a possibilidade
de falhas técnicas ou burlas ao sistema",
completa.
Cirino explica
seu ponto de vista sobre a importância
de bons sensores: "Um gato, por exemplo,
pode acionar toda a estrutura de segurança
e desviar os recursos de uma emergência
real, em que houvesse vidas humanas em risco".
A relevância
do produto
É a lente
do sensor desenvolvida pela Holophotonics que
vai diminuir a incidência desses falsos
alarmes. Dentro dela, a empresa embutiu um filtro
óptico, capaz de discernir silhuetas
de pequenos animais das de seres humanos. Os
sensores pet immune convencionais importados
operam eletronicamente — quer dizer, distinguem
o grande do pequeno por meio de circuitos para
processamento de sinais, como microcontroladores
e microprocessadores. Cirino explica a diferença.
"Com a lente especial que desenvolvemos,
a informação não precisa
ser processada eletronicamente", diz. "A
própria lente já faz grande parte
do trabalho, ainda no domínio da óptica,
entregando a informação já
'bem mastigada' ao circuito eletrônico.
Desta forma, a complexidade desse circuito é
consideravelmente reduzida. Por outro lado, o
custo para produzir a lente especial é
o mesmo do da convencional, pois se trata apenas
de modificação no seu desenho,
na sua geometria. É como se a óptica
facilitasse em muito o trabalho da eletrônica."
O material
O sensor da
Holophotonics é de calor — quer
dizer, detecta o calor que o corpo emite. As
lentes captam o calor e o concentram, aumentando
sua intensidade — até o ponto de
ser perceptível por um sensor interno
ao dispositivo, que transforma a radiação
do calor em sinal elétrico. É
o sinal elétrico que dispara o alarme.
Outras empresas
tentaram desenvolver um produto semelhante,
mas sem sucesso, segundo o dono da Holophotonics.
Cirino explica que a maior dificuldade está
em chegar ao material de que é feita
a lente do sensor, pois ela precisa ter a propriedade
de captar apenas as radiações
com comprimento de onda compatível com
o calor emitido por uma pessoa — e não
com o calor emitido por pequenos animais.
De acordo com
Cirino, os distribuidores brasileiros só
vendem sensores de movimento pet immune
produzidos na Ásia porque, até
agora, não havia nenhuma empresa nacional
que fabricasse lentes de boa qualidade. "Nosso
trabalho daqui em diante será convencer
esses distribuidores de que não é
mais necessário importar o produto. Vamos
mostrar as vantagens, que são, principalmente,
a eliminação da burocracia e dos
custos de importação que encarecem
o produto."
Módulo
em computador
As lentes de
Fresnel, usadas pela Holophotonics, são
conhecidas desde o início do século
XIX. Hoje em dia, o primeiro passo para sua
fabricação é criar um modelo
em computador. Em seguida, esse modelo é
usado para fazer um molde em aço, uma
espécie de fôrma, que servirá
para a produção das lentes em
larga escala. Não é um trabalho
simples. A geometria interna — o formato
— das lentes tem nuances que precisam
depois ser transferidas para a fôrma de
aço. Aí entra a LaserTools,
de São Paulo, também uma cliente
do PIPE. A empresa desenvolveu um sistema de
gravação do molde por meio de
um feixe de laser de alta precisão.
Foram necessários dois anos até
conseguir transformar em peça de aço
o modelo concebido no projeto computacional
— e é ele o objeto da patente requerida
ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI).
História
de um sensor
A história
que culminou no sensor pet immune começou
em 2002, quando Cirino concluiu seu doutorado
em óptica na Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Nesse mesmo ano, ele solicitou um financiamento
do PIPE para desenvolver um projeto na área
de segurança eletrônica na empresa
PPA, situada em Garça, no interior de
São Paulo. O projeto "Desenvolvimento
de novos sensores infravermelhos de detecção
de movimento para aplicações em
segurança doméstica e corporativa",
no valor de R$ 154 mil, foi aprovado em janeiro
de 2003.
A Fase I foi
realizada na PPA, e demonstrou — como
é o objetivo dessa etapa do programa
— a viabilidade técnica do projeto.
"O trabalho foi feito com o apoio do Laboratório
de Sistemas Integráveis da Poli e da
terceirização para outras empresas
de base tecnológica, sendo a LaserTools
a principal delas", conta Cirino. "Na
transição para a Fase II, surgiu
a oportunidade de abrir minha própria
empresa, prestando serviço para a PPA."
De acordo com
Cirino, a experiência de coordenar a Fase
I do projeto lhe mostrou a viabilidade de abrir
seu próprio negócio, fazer tecnologia
no Brasil e viver disso. "Foi assim que
nasceu a Holophotonics, em abril de 2005",
explica. "Eu e mais um sócio, o
engenheiro Robson Barcellos, fundamos a empresa,
sediada na incubadora ParqTec, em São
Carlos. Logo depois recebemos aporte de capital
de novos sócios, e deixamos a incubadora
apenas quatro meses depois de a empresa ter
sido fundada."
O PIPE foi fundamental
para o nascimento da empresa, porque financiou
o projeto que deu início a tudo. "Toda
a estruturação da Holophotonics
e as possibilidades de novos negócios
só foram possíveis por causa das
receitas geradas pelo projeto do sensor pet
immune", reconhece Cirino. "Sem
o PIPE, ele não existiria e a empresa
não teria nascido."
Outra
linha de pesquisa e desenvolvimento
O projeto do
sensor não é o único da
empresa financiado pelo PIPE. Há outro,
já na Fase II, no valor de R$ 120 mil,
para o desenvolvimento de um produto denominado
correlator óptico. Esse produto serve
para checar se determinadas características
de uma imagem — a imagem de uma linha
de produção de comprimidos embalados
em cartelas, por exemplo — estão
alteradas ou não em relação
a uma imagem padrão. "Com o correlator
monitorando a esteira em que as cartelas passam,
é possível detectar uma com um
ou mais comprimidos ausentes", explica
Cirino. "Uma vez detectada a cartela fora
da especificação, o correlator
envia um comando eletrônico (para um braço
de robô, por exemplo) que toma uma decisão
(que pode ser remover a cartela da esteira)."
O aspecto inovador
desse produto é seu baixo custo. Existem
produtos análogos no mercado, mas baseados
na chamada "visão de máquina".
Eles capturam a imagem com uma câmera
de vídeo e a processam eletronicamente
com um computador. "Em geral, esse processo
é custoso no que diz respeito aos equipamentos
e também ao esforço computacional",
diz Cirino. "O produto por nós proposto
processa a imagem no âmbito puramente
óptico, o que proporciona baixo custo
e velocidade, já que tudo funciona na
velocidade da luz."