Nanocore Biotecnologia Ltda.
BNDESPar
investe R$ 3 milhões na empresa, que se
prepara para
lançar droga anticâncer em 2009; projetos
PIPE marcam história
Janaína
Simões
Obter
recursos públicos para fazer pesquisa
e desenvolvimento e, ao mesmo tempo, prestar
serviços para gerar receita própria
e imediata — essa estratégia
foi adotada pela Nanocore para sair da
condição de empresa incubada
e chegar a ter, como sócia, a empresa
de participações do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES), o BNDESPar. Prestes
a concluir o negócio com o banco e
se tornar uma sociedade anônima
de capital fechado, a Nanocore se prepara
para lançar seu primeiro produto
inovador em 2009: um imunoterápico de
DNA recombinante para o tratamento de
câncer. A Nanocore desenvolve produtos
e presta serviços de análises e
testes nas áreas farmacêutica, veterinária
e biotecnológica. O mineiro José
Maciel Rodrigues Júnior, diretor-executivo
da Nanocore, não quer saber de
dar muitos detalhes — o pedido de
patente da tecnologia por trás do medicamento
ainda não foi depositado no Instituto
Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Mas já comemora os R$ 3 milhões
que deve receber do banco estatal. "Vamos
passar de nano a microempresários",
brinca.
Imunoterápicos
de DNA recombinante, chamados também
de vacinas gênicas, são alvo
de pesquisa em vários países e uma grande
esperança para tratamento de câncer,
em especial. As vacinas tradicionais são
desenvolvidas a partir de vírus ou bactérias
causadores da doença, usados em
sua forma atenuada ou inativa —
portanto, sem atividade patogênica.
Ao chegar no corpo humano, a vacina induz
o sistema imunológico a produzir anticorpos
que combatam a doença. Já os imunoterápicos
de DNA são desenvolvidos a partir
de um fragmento do microorganismo que
vai desencadear no corpo a resposta protetora
do sistema imunológico contra a doença.
No caso do tratamento estudado pela Nanocore,
o paciente não recebe a vacina
pronta, mas apenas a mensagem de produção,
e o próprio DNA passa a produzir a vacina
no organismo.
A produção
do imunoterápico começa com a identificação
de uma proteína do microorganismo causador
da doença ou tumor. Essa proteína,
chamada de antígeno, induzirá o sistema
imunológico humano a gerar uma resposta
de proteção. Usando técnica
de seqüenciamento genético,
os pesquisadores vão procurar um
gene que codifique essa proteína. Esse
gene será clonado, para multiplicar o
número de cópias que serão usadas
na vacina, e purificado. Depois disso,
coloca-se o gene em microesferas, feitas
pela Nanocore com o uso de nano e microtecnologia.
O produto
está na fase pré-clínica de desenvolvimento,
ou seja, ainda será testado em animais.
"Precisamos mostrar eficácia e segurança.
Em seguida, precisamos mostrar a viabilidade
industrial e comercial do produto, para
depois passar para os testes em seres
humanos", conta Maciel. A empresa
espera poder realizar todo o desenvolvimento
no Brasil.
O
portfolio da empresa
A Nanocore,
fundada em 2003, desenvolve produtos farmacêuticos,
usando biotecnologia e nanotecnologia,
e metodologias analíticas; além
disso, faz controle de qualidade de medicamentos,
inclusive de uso veterinário. Pode desenvolver
formulações de remédios,
realiza testes químico-físicos complexos
para controle de qualidade, faz estudos
de viabilidade de produtos e é
capacitada para desenvolver processos
de cultivo de células bacterianas,
leveduras e células de mamíferos
em diferentes escalas, usadas em produção
de biomoléculas — proteína
ou DNA —, entre outros serviços.
A empresa não revela seu faturamento.
A participação societária
do BNDESPar ainda está em discussão,
diz Maciel. Em outras firmas nas
quais o banco investiu, como a Genoa, empresa
de biotecnologia, o BNDESPar ficou com
20% das ações.
Para as
atividades de P&D e prestação
de serviços, a Nanocore conta com
16 funcionários. São seis doutores,
além de farmacêuticos, biólogos
e três técnicos de nível
médio. Há ainda as colaborações
com a Universidade de São Paulo
(USP), campi de São Paulo
e Ribeirão Preto, e com a Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). A empresa
é estruturada em três divisões,
cada uma delas coordenada por um doutor:
Maciel, farmacêutico formado pela
UFMG, mestre em controle de qualidade
pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS) e doutor em tecnologia
farmacêutica pela Universidade de
Paris XI, é responsável pela divisão
Desenvolvimento de Novas Tecnologias;
a Divisão de Desenvolvimento Analítico
está com a sócia de Maciel na Nanocore, a
farmacêutica Karla de Melo Lima, formada
pela UFMG, mestre em ciências farmacêuticas
pela mesma instituição e
doutora em imunologia pela Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto da USP;
Sandra Aparecida dos Santos, biomédica
formada pela Universidade Estadual Paulista
(Unesp), mestre e doutora em imunologia
pela Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto da USP, coordena a Divisão
de Biotecnologia.
A empresa
tem dois pedidos de patente depositados
no INPI; para um deles, também
fez depósito internacional, via Tratado
de Cooperação em Matéria
de Patentes (PCT). Um terceiro pedido
está em vias de ser depositado. É o que
se relaciona ao imunoterápico para câncer.
Os pesquisadores
da Nanocore também publicam artigos
em revistas nacionais e internacionais.
"Uma vez pedida a patente, a segunda
etapa é buscar parceiros. A publicação
é uma forma de divulgar nosso trabalho,
mas preservamos o que não foi protegido,
evitando abrir muito as informações",
comenta Maciel. "É importante publicar
porque quando temos uma entrevista com
setores de P&D de empresa internacional
eles sempre estão com uma lista
de publicações nossas, e
nos questionam em relação
aos artigos", completa. A página
da empresa na Internet — fato raro
em empresas brasileiras — lista
as 30 publicações de seus
cientistas, sendo quatro delas capítulos
de livros; o restante são textos
de periódicos como Annual Review of
Biomedical Science, Gene Therapy
e International Journal for Parasitology.
R$
2 milhões da Fapesp
A Nanocore
já obteve cinco financiamentos da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) no âmbito
do Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE). Todos os
projetos de pesquisa foram baseados em
tecnologias recombinantes para a produção
de proteína e DNA recombinante para diferentes
aplicações na parte de desenvolvimento
de medicamentos, vacina e método
diagnóstico.
O primeiro
PIPE aprovado era um projeto para produção
de DNA recombinante com foco em vacina
para tuberculose. "Esse projeto nos
deu capacitação para a produção
de DNA recombinante, que é o atual
projeto em que o BNDES está apostando.
No PIPE, tivemos bons resultados do ponto
de vista da eficácia em animais, mas não
chegamos a testar em humanos", lembra
Maciel. A empresa não está mais
focada nesse produto, e se voltou para
a área de imunoterápicos, que tem maior
potencial de mercado. Mas o conhecimento
gerado no projeto é objeto de uma
das duas patentes que a Nanocore tem.
Refere-se à associação
do DNA recombinante a micropartículas,
visando a uma vacina de dose única ou
imunoterápico de dose única. "É uma
plataforma tecnológica que podemos usar
em diferentes aplicações,
em vacinas animais e imunoterápicos para
uso humano", acrescenta.
O segundo
PIPE foi voltado para a produção
de hormônio folículo-estimulante
(FSH) recombinante, feito em parceria
com a professora Mari Sogayar, do Instituto
de Química da USP. "Iniciamos o estudo
clínico em animal, e em 2008 devemos começar
em humanos, assim que tivermos a planta
[de fabricação do produto]
certificada", conta.
O terceiro
projeto aprovado no PIPE é referente
à vacina contra carrapato. "É
uma vacina de dose única, diferente das
proteínas que estão no mercado",
comenta. Em parceria com a Embrapa Gado
e Corte, no Mato Grosso do Sul, a Nanocore
caracterizou as cepas de maior incidência
no Brasil, que foram clonadas. Os medicamentos
usados no País para combater o carrapato
são administrados em várias doses
e feitos para cepas que não existem
aqui.
O quarto
projeto PIPE, feito em parceria com a
Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão
Preto, estuda métodos de diagnóstico
para a hantavirose. "É uma doença
de alta letalidade, há pacientes que morrem
sem mesmo saber o diagnóstico", destaca.
A Nanocore propôs um método
rápido para esse diagnóstico. Uma empresa
do Rio Grande do Sul deve comercializar
o kit.
O último
projeto recentemente aprovado no PIPE
também será feito em parceria com
o Instituto de Química da USP. O projeto
visa à produção de
análogos de amilina, substância
secretada pelas mesmas glândulas
que produzem a insulina no pâncreas
e que é um auxiliar no tratamento
de diabetes. Somados os recursos, a Fapesp
investiu cerca de R$ 2 milhões
na Nanocore, de acordo com os cálculos
de Maciel. A empresa também contou
com bolsistas do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) e com um pequeno financiamento
do Banco do Brasil. Mas para sair da incubadora
onde estava, a Supera, de Ribeirão
Preto, o que ajudou mesmo foram os recursos
próprios.
A
origem da empresa
A Nanocore
nasceu de um projeto de pesquisa da UFMG
e da USP que pretendia desenvolver vacinas
recombinantes. Foi abrigada na Supera
em 2003, onde residiu por dois anos e
um mês. Há um ano e dois meses,
já graduada, foi para Campinas. Apesar
de Belo Horizonte ser um pólo de biotecnologia,
havia uma limitação para
o fomento desse tipo de atividade em Minas
Gerais. Os pesquisadores empreendedores
escolheram o Estado de São Paulo
em função da oportunidade
que a Fapesp abria com o PIPE. Também
pesaram na decisão o bom relacionamento
com a Faculdade de Medicina da USP de
Ribeirão Preto e a iniciativa da
universidade e da prefeitura de criar
a Supera. Maciel deixou o cargo de professor
da UFMG para montar a empresa.
Com a
graduação na incubadora,
Maciel escolheu o Techno Park, condomínio
de empresas próximo a Campinas, para abrigar
sua sede e laboratórios. Ele avaliou como
razoável o custo para se instalar no local
e considerou o fato de o mercado estar
próximo. "Ficamos perto das empresas
do setor farmacêutico, localizadas
no eixo Campinas-São Paulo. Em
Ribeirão Preto, tínhamos dois clientes;
agora, em Campinas, temos 25", conta
Maciel. Entre os clientes, parceiros internacionais:
a Schering-Plough e a Merial. "Fazemos
para essas duas empresas o desenvolvimento
de produtos veterinários. Foram produtos
inicialmente focados no mercado nacional,
mas um deles tem alcance mundial e deverá
ser exportado", conta. Os nomes dos
produtos estão em registro.
A empresa
também se interessou pelo programa
da prefeitura de atração
de investimentos para o município. Campinas
concede incentivos fiscais para empresas
de tecnologia — reduz o Imposto
sobre Serviços (ISS) e o Imposto
Predial e Territorial Urbano (IPTU). "Esses
incentivos tiveram papel fundamental na
nossa vinda para cá", credita.
Prestar
serviços: solução
para gerar caixa
"O
desenvolvimento desses projetos do PIPE
exigiu que a empresa montasse um laboratório
bioanalítico, o que nos deu a oportunidade
de oferecer serviços de desenvolvimento
analítico e desenvolvimento de produtos
farmacêuticos quando ainda estávamos
na incubadora", lembra. Com as receitas
de prestação de serviço,
a Nanocore contratou pessoal e construiu
sua sede. "A grande limitação
que encontramos foi o acesso ao crédito.
Por isso optamos por fortalecer a área
de serviços, no que fomos bem-sucedidos",
afirma. "Nesse contato com nossos
clientes sempre vem um desenvolvimento
agregado", acrescenta. Quando a Nanocore
encontra um problema no controle de qualidade
de um medicamento, abre-se uma oportunidade
para otimizar ou agregar uma nova tecnologia.
A empresa
funciona em um prédio de dois andares
construído em uma área de 400 metros quadrados
dentro do Techno Park. Ali funcionam cinco
laboratórios, visitados por Inovação
no dia 24 de julho. Um deles, o laboratório
bioanalítico, concentra as atividades
de prestação de serviços.
Por exemplo, a empresa pode, ali, realizar
análise de estabilidade dos medicamentos,
o que define seu prazo de validade. Para
isso, a Nanocore simula no laboratório
diferentes condições de
temperatura e umidade, às quais
submete o medicamento. Com isso, pode
determinar o período durante o qual o
medicamento, na prateleira, mantém
características e teor do princípio ativo.
No laboratório
de desenvolvimento, a empresa pode chegar
até a fase de fabricação
de lotes-piloto de um novo medicamento.
"No caso de medicamentos para uso
humano, fazemos parcerias para as fases
pré-clínica e também clínica",
diz. Para a fase pré-clínica, quando
se faz testes em animais, a parceira é
a Bio Horizonte, de Minas Gerais —
dos mesmos donos da Nanocore —,
responsável pela experimentação
em aves, bovinos, suínos e caprinos.
O Laboratório
de Microbiologia/Fermentação
está equipado para fazer análises microbiológicas,
em especial para detectar a potência
de antibióticos. "Trabalhamos com
pequenos volumes chegando até a
escala-piloto", conta. No Laboratório
de Purificação de Proteínas,
a empresa tem capacidade para processar
até gramas de proteínas —
gramas, em se tratando de proteínas, é
uma massa expressiva. Por fim, a empresa
conta com o Laboratório de Cultivo Celular,
já que a Nanocore usa algumas células
transformadas para produzir a proteína
de interesse. "Esse laboratório terá
grande upgrade na próxima estrutura
porque é muito importante para
a gente." A Nanocore está de mudança:
vai ocupar uma construção
de 800 metros quadrados, o dobro de espaço
em relação ao prédio
de hoje. A nova sede, também dentro
do Techno Park, está quase pronta e fica
de frente a outras duas empresas de base
tecnológica instaladas no pólo, CanaVialis
e Alellyx.
Razões
do sucesso
Norberto
Prestes, gerente da incubadora Supera,
destaca os fatores que fizeram o sucesso
da Nanocore. Primeiro, a empresa entrou
no mercado preenchendo uma lacuna ao oferecer
os testes e pesquisar imunoterápicos.
Ser da área de nanotecnologia também
ajudou, pois se trata de um dos setores
portadores de futuro na política industrial.
Além disso, a empresa conseguiu
pensar na sua sustentabilidade no curto
prazo ao investir na prestação
de serviços para poder gerar recursos
e se manter mesmo depois que saísse da
incubadora. "O setor público investiu
na Nanocore porque ela tem um projeto
que, se der certo, trará um alto retorno",
acrescenta.
Ele lembra
que incubação de empresas
de tecnologia é um negócio de risco
e que essa trajetória bem-sucedida da
Nanocore, infelizmente, ainda é
exceção entre as incubadas.
"As incubadoras existem como instrumento
público de indução do desenvolvimento
econômico e um dos seus objetivos
é prover as empresas de infra-estrutura
para que elas direcionem os esforços
para a inovação e se arrisquem
mais nesse percurso", explica. Um
dos problemas mais comuns nas incubadas,
afirma, é o pesquisador-empreendedor
desenvolver a "obsessão pelo
produto final", que pode demorar
muito tempo para ficar pronto. Pensando
apenas nisso, ele não elabora uma
estratégia para sobreviver até
chegar ao mercado.
"Os
executivos da Nanocore perceberam que
o produto demoraria para chegar ao mercado
e que precisariam sustentar a empresa
até lá. Para isso, otimizaram conhecimentos,
estrutura física e de pessoal para atuar
em um nicho que lhes traz um aprendizado
para o desenvolvimento do produto e gera
caixa para a firma", destaca. A experiência
da Nanocore se tornou uma espécie
de modelo para o gerente Prestes: a incubadora
orienta os pesquisadores-empreendedores
incubados a pensar também nas alternativas
para a sobrevivência da empresa
no curto e no médio prazo.
Política
industrial, Lei de Inovação...
José
Maciel destaca que a participação
do BNDESPar na empresa tem relação
direta com a política industrial do governo,
que coloca biotecnologia e nanotecnologia
como setores prioritário e portador de
futuro, respectivamente. O empresário
também aprova a subvenção
econômica, instrumento criado pela
Lei de Inovação. A Nanocore
teve uma carta-consulta aprovada e deve
receber subvenção da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep) para contratação
de mestres e doutores. "Mas é
importante termos um perfil de prestação
de serviço porque o fluxo de caixa
reduz a ansiedade pelo financiamento,
o que nos permite trabalhar com os prazos
mais lentos do governo", aponta.
Maciel
lembra que tentou abrir uma empresa antes
da Nanocore. A tentativa falhou porque
a USP, na época, não autorizou
o uso da patente do pesquisador que seria
um dos sócios. Agora, com a Lei de Inovação,
ele percebe uma abertura maior por parte
das universidades, mas crê que ainda
não há regras claras sobre como
será gerenciada a propriedade intelectual
nessas instituições.
A empresa
sente também a falta de retorno
da Comissão Técnica Nacional
de Biossegurança (CTNBio). A Nanocore
tem uma comissão interna de biossegurança
e faz os relatórios anuais, como manda
a lei, mas não há retorno do órgão.
"Somos muito atentos às normas
nacionais e internacionais. Às
vezes, temos algumas dúvidas em relação
ao licenciamento que poderia ser feito
pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) no caso de tecnologias
recombinantes, mas isso não nos
afetou muito porque ainda não trabalhamos
com a produção. Essa etapa,
vamos viver agora", completa.
Propriedade
intelectual
Segundo
Maciel, a Nanocore adotou uma postura
bastante flexível em propriedade intelectual
quando é contratada para projetos
de pesquisa e desenvolvimento. "A
patente pode ser 100% da contratante e
pode ser compartilhada", diz ele.
Além disso, a Nanocore concorda
em partilhar o risco quando é contratada
para desenvolver um produto — aceita
uma remuneração futura na
forma de royalties.