Clorovale Diamante Ind. e Com. S.A.
Empresa
usa tecnologia desenvolvida no Instituto
de Pesquisas
Espaciais para criar broca de dentista que
não gira e evita a dor
Evanildo
da Silveira
A imagem
do dentista é sempre a mesma: uma
sala de consulta, com a broca que zune
ao entrar na boca, e o reflexo automático
à dor que apavora muita gente.
Mas tudo isso vai acabar.
Mais de
5 mil dentistas no Brasil já usam
uma nova "broca" feita de diamante
sintético, que substitui aquela
conhecida, de rotação, nos
tratamentos dentários. A principal
inovação em relação
ao equipamento tradicional é que
o produto funciona por vibração,
a partir de ondas de ultra-som. Isso faz
uma diferença e tanto na hora de
limpar e preparar a cavidade da cárie.
Como a
ponta não gira, há menos
atrito e menor impacto no dente, o que
diminuiu a dor, dispensando a anestesia
na maioria dos casos. Além disso,
ela não corta tecidos moles, como
gengiva e vasos sangüíneos
— reduzindo sangramentos.
O novo
equipamento resultou do trabalho do programa
Diamantes e Materiais Relacionados (Dimare),
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE), voltado para o desenvolvimento
do diamante sintético — que
pode, por exemplo, ser empregado como
lubrificante sólido em equipamentos
de satélites. Para produzi-lo na
escala industrial, um grupo de seis pesquisadores
e um técnico em eletrônica
do Dimare criou, em 1998, a Clorovale
Diamante Ind. e Com. Ltda., em São
José dos Campos (SP).
Segundo
seus proprietários, a Clorovale
é a primeira empresa do mundo a
dominar a tecnologia dessa nova broca
— termo que, na verdade, não
é o mais apropriado para designar
essa ferramenta. O nome certo da invenção
é ponta odontológica.
Todas
as características inovadoras do
equipamento podem ser atestadas pelos
prêmios que recebeu. O primeiro
foi o Governador do Estado de São
Paulo, como melhor invento, em 1998.
Em 2003
recebeu o Prêmio Finep de Inovação
Tecnológica, na categoria "melhor
produto da Região Sudeste",
e menção honrosa em nível
nacional. No mesmo ano, a ponta odontológica
recebeu o Top of Business, oferecido pela
organização do Montreal
Eventos Internacionais, do Canadá,
por ser mundialmente abrangente e de impacto
social.
Em abril
de 2004, os organizadores da International
Conference on Metallurgical Coatings and
Thin Films, de San Diego, nos Estados
Unidos, reconheceram a ponta odontológica
como o trabalho aplicado de alto valor
agregado com maior impacto tecnológico
e social do evento.
O interesse
do INPE na produção de diamantes
sintéticos deve-se às características
desse material, muito semelhantes às
do encontrado na natureza. Além
de ser o mais duro que existe, o diamante
possui coeficiente de atrito muito baixo
(equivalente ao do Teflon), o que o torna
autolubrificante; alta condutividade térmica
(cerca de cinco vezes superior à
do cobre); resistência às
radiações cósmica,
nuclear e ultravioleta; e é quimicamente
inerte (não reage com outros elementos),
biocompatível e de excelente integração
óssea.
Máximo potencial de aplicação
Graças
a essas características, o diamante
sintético tem um grande potencial
de aplicação em muitas áreas
tecnológicas. No caso do INPE,
por exemplo, os pesquisadores buscam lubrificantes
sólidos para equipamentos espaciais,
filmes finos protetores de painéis
solares para satélites e dissipadores
de calor para circuitos eletrônicos
de alto desempenho.
Há
muitas técnicas para a obtenção
deles. A história começou
em 1954, quando se conseguiu pela primeira
vez produzir o material a partir da grafite,
que, assim como o diamante, é composta
por átomos de carbono. Foram necessárias,
no entanto, alta pressão (acima
de 60 mil atmosferas) e temperatura de
pelo menos 2 mil kelvin (2.273,15 graus
Celsius).
Justamente
nesse ano, também se publicou o
primeiro trabalho com indício de
que era possível obter diamante
a partir da forma gasosa de alguns compostos
orgânicos (que têm átomos
de carbono), por deposição
química na fase vapor (CVD, sigla
em inglês de chemical vapor deposition),
pressão inferior a uma atmosfera
e temperatura menor que 1,2 mil kelvin
(1.473,15 graus Celsius).
É
essa a técnica que se disseminou
a partir da década de 1980 e que
os pesquisadores do INPE e da Clorovale
utilizam em sua produção:
em um reator, o metano reage com o hidrogênio
a cerca de dois graus Celsius e forma
as moléculas do diamante, que vão
se depositando sob forma de um filme ou
película fina, num substrato ou
base. À medida que as moléculas
se depositam, o filme fica mais espesso
— o diamante cresce no formato da
base. O resultado são diamantes
homogêneos, que propiciam melhor
corte e mais durabilidade.
No caso
da Clorovale, a base é uma haste
de metal que, com o diamante crescido
e aderido à ponta, transforma-se
na nova ferramenta desenvolvida pela empresa.
"Nossa equipe foi pioneira em obter
o diamante-CVD com características
de espessura, durabilidade e alta aderência
à haste metálica e, principalmente,
viável à produção
industrial em pequenas superfícies,
para pontas odontológicas e médicas",
explica Vladimir Airoldi, sócio
e responsável técnico da
Clorovale e coordenador do Dimare. "Hoje,
produzimos brocas nos quatro modelos mais
utilizados pelos dentistas: cônica,
tronco-cônica, cilíndrica
e esférica. Como elas não
giram, podem ter dobras diferentes para
atender às diversas necessidades
cirúrgico-odontológicas,
o que representa mais uma vantagem em
relação às brocas
para alta rotação."
Dentistas aprovaram
Os dentistas
que aderiram ao uso da ponta odontológica
da Clorovale aprovaram a nova ferramenta.
É o caso de Rogério Ribas
da Costa, professor de metodologia científica
dos cursos de pós-graduação
do Centro de Estudos, Treinamento e Aperfeiçoamento
em Odontologia (CETAO), uma escola privada
de São José dos Campos.
"O produto trouxe uma série
de vantagens para o tratamento: preparamos
o dente de forma mais eficiente, para
que seja restaurado e tenha de novo as
funções e a forma que havia
perdido por causa da cárie; o que
com as brocas tradicionais não
se consegue fazer."
Outro ponto positivo é a precisão
de corte, que preserva a área sadia
do dente. "Além de fazer pouco
ruído, permite visibilidade total
da área tratada por parte do dentista,
pois somente a ponta de diamante fica
sobre o campo operatório",
acrescenta Costa. Isso ocorre porque a
ponta não possui turbina, ou a
cabeça cilíndrica onde a
haste giratória é comumente
fixada.
O mestre
em engenharia biomédica e pesquisador
da Universidade do Vale do Paraíba
(Univap), de São José dos
Campos, Luiz Augusto Conrado, ajudou a
desenvolver e testar o produto. "Foi
durante os testes na clínica que
descobrimos que, ao contrário das
de alta rotação, a nova
broca não causava dor em mais de
80% dos pacientes", conta. "Fomos
investigar as causas e descobrimos que
as tradicionais, que giram a 300 rotações
por minuto, provocam uma sucção
de células da polpa do dente, onde
estão os nervos", diz.
Apesar
das vantagens, contudo, ela não
é um produto perfeito. A própria
empresa aponta a menor velocidade de corte
e o preço, 40 vezes maior do que
o equipamento tradicional, como uma dificuldade
para o mercado. Airoldi garante, no entanto,
que esses problemas são compensados:
a economia é feita em anestésicos
e na durabilidade do equipamento, 30 vezes
maior do que a do tradicional.
Investimentos
do capital de risco
Embora
a Clorovale fique instalada em amplo terreno
de 7 mil metros quadrados, o espaço
físico onde os diamantes e as pontas
são fabricados é comparativamente
pequeno, ocupando não mais do que
600 metros quadrados. Mas essa situação
deve mudar. Em 2005, a empresa recebeu
investimentos de R$ 2,5 milhões
de um grupo de capital de risco dos Estados
Unidos, e transformou-se numa sociedade
anônima, passando a se chamar Clorovale
Diamantes Ind. e Com. S.A.
Os planos
ainda são de expansão do
espaço físico da fábrica
e da produção, uma vez que
novos projetos relacionados ao dimante-CVD
e ao DLC (diamond-like carbon) estão
sendo implementados. "Estamos compatibilizando
a empresa com as Boas Práticas
de Fabricação exigidas pela
Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) para produtos
odontológicos", explica Vladimir
Airoldi.
Atualmente,
três dos sete sócios ainda
trabalham no INPE e se desdobram para
compatibilizar as duas funções.
"Eles trabalham na empresa em período
fora do expediente exigido pelo INPE",
assegura Airoldi. "Tem pesquisador
que chega a trabalhar 90 horas por semana."
Mas o
esforço está trazendo resultados:
artigos científicos produzidos
no INPE e dez patentes, duas das quais
internacionais (nos Estados Unidos, Canadá,
Japão e Europa). Os royalties são
divididos entre os autores, o INPE e a
Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp). "Nossa empresa é
a primeira a inverter o fluxo de recursos
para a agência de fomento, isto
é, a Fapesp", diz Airoldi.
"Estamos pagando royalties, pois
a agência está financiando
a nossa patente, de forma que ela tem
um terço dos direitos."
Somente
agora a Clorovale consegue efetivar o
processo de certificações
internacionais, "em virtude de uma
resistência grande às mudanças
de conceito impostas pelo produto",
defende o sócio-fundador. "Nesse
período foram criados cerca de
dez novos modelos de pontas ultra-sônicas
e, também, desenvolvido um parelho
de ultra-som próprio, cujo desempenho
tem sido muito bom", avalia.
Só
agora nos holofotes
Apesar
do reconhecimento de suas qualidades e
das patentes, só agora as vendas
começam a deslanchar. "Nosso
trabalho foi intenso na criação
de cursos de "Odontologia Ultra-sônica"
nas faculdades, fazendo com que o aluno
já tenha contato com o novo conceito
de tratamento odontológico dentro
da sala de aula."
O novo
conceito de vendas as aumentou em cerca
de 30% em 2007, em relação
ao ano anterior. A empresa também
pretende conquistar uma fatia do mercado
externo, no qual ainda tem uma participação
irrisória. As exportações
da Clorovale começaram em 2005,
com uma pequena venda para o México,
de US$ 20 mil. "O México já
repetiu cinco vezes o pedido de compra",
conta Airoldi. "Para Israel fizemos
uma exportação experimental
em 2005, no total de US$ 25 mil. Mas não
conseguimos continuar as vendas, porque
não temos ainda a certificação
européia, que está no momento
em processo de aquisição
pela nossa empresa.
Com a
conclusão das certificações
internacionais, espera-se aumentar rapidamente
os níveis de vendas, pois a procura
por revendas no exterior tem sido grande.
A
importância do PIPE
Embora
seja o mais importante, o dinheiro dos
investidores americanos não foi
o único aporte de capital que a
empresa recebeu em sua história.
O primeiro foi um financiamento de R$
450 mil das Fases I e II do programa Pesquisa
Inovativa na Pequena e Microempresa (PIPE),
da Fapesp, que possibilitou a própria
criação da empresa e seu
desenvolvimento inicial. A Clorovale investiu
esse dinheiro na construção
de equipamentos e em uma infra-estrutura
para a produção de diamantes
sintéticos em escala industrial.
Os recursos também serviram para
pagamentos de serviços de caracterizações
de amostras. "Essa área de
caracterizações é
uma das mais caras e carentes em nosso
país", diz Airoldi. "O
financiamento do PIPE teve extrema importância.
Sem ele não teríamos como
dar início ao negócio e,
portanto, a Clorovale não existiria
hoje." Além disso, mais tarde,
a empresa teve um aporte R$ 150 mil da
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep),
por meio de um programa de venture capital
(capital de risco).
Antes,
no entanto, houve outros investimentos
no Dimare, do INPE, que contribuíram
para o surgimento da empresa. Segundo
Airoldi, as pesquisas sobre diamantes
sintéticos no INPE começaram
em 1992. "Desde então já
foram investidos cerca de R$ 2 milhões,
de quatro fontes: Fapesp, CNPq [Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico], Finep e Ministério
da Ciência e Tecnologia", conta.