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Publicado em 17 de junho de 2008






Clorovale Diamante Ind. e Com. S.A.

Empresa usa tecnologia desenvolvida no Instituto de Pesquisas
Espaciais para criar broca de dentista que não gira e evita a dor

Evanildo da Silveira

A imagem do dentista é sempre a mesma: uma sala de consulta, com a broca que zune ao entrar na boca, e o reflexo automático à dor que apavora muita gente. Mas tudo isso vai acabar.

Mais de 5 mil dentistas no Brasil já usam uma nova "broca" feita de diamante sintético, que substitui aquela conhecida, de rotação, nos tratamentos dentários. A principal inovação em relação ao equipamento tradicional é que o produto funciona por vibração, a partir de ondas de ultra-som. Isso faz uma diferença e tanto na hora de limpar e preparar a cavidade da cárie.

Como a ponta não gira, há menos atrito e menor impacto no dente, o que diminuiu a dor, dispensando a anestesia na maioria dos casos. Além disso, ela não corta tecidos moles, como gengiva e vasos sangüíneos — reduzindo sangramentos.

O novo equipamento resultou do trabalho do programa Diamantes e Materiais Relacionados (Dimare), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), voltado para o desenvolvimento do diamante sintético — que pode, por exemplo, ser empregado como lubrificante sólido em equipamentos de satélites. Para produzi-lo na escala industrial, um grupo de seis pesquisadores e um técnico em eletrônica do Dimare criou, em 1998, a Clorovale Diamante Ind. e Com. Ltda., em São José dos Campos (SP).

Segundo seus proprietários, a Clorovale é a primeira empresa do mundo a dominar a tecnologia dessa nova broca — termo que, na verdade, não é o mais apropriado para designar essa ferramenta. O nome certo da invenção é ponta odontológica.

Todas as características inovadoras do equipamento podem ser atestadas pelos prêmios que recebeu. O primeiro foi o Governador do Estado de São Paulo, como melhor invento, em 1998.

Em 2003 recebeu o Prêmio Finep de Inovação Tecnológica, na categoria "melhor produto da Região Sudeste", e menção honrosa em nível nacional. No mesmo ano, a ponta odontológica recebeu o Top of Business, oferecido pela organização do Montreal Eventos Internacionais, do Canadá, por ser mundialmente abrangente e de impacto social.

Em abril de 2004, os organizadores da International Conference on Metallurgical Coatings and Thin Films, de San Diego, nos Estados Unidos, reconheceram a ponta odontológica como o trabalho aplicado de alto valor agregado com maior impacto tecnológico e social do evento.

O interesse do INPE na produção de diamantes sintéticos deve-se às características desse material, muito semelhantes às do encontrado na natureza. Além de ser o mais duro que existe, o diamante possui coeficiente de atrito muito baixo (equivalente ao do Teflon), o que o torna autolubrificante; alta condutividade térmica (cerca de cinco vezes superior à do cobre); resistência às radiações cósmica, nuclear e ultravioleta; e é quimicamente inerte (não reage com outros elementos), biocompatível e de excelente integração óssea.

Máximo potencial de aplicação

Graças a essas características, o diamante sintético tem um grande potencial de aplicação em muitas áreas tecnológicas. No caso do INPE, por exemplo, os pesquisadores buscam lubrificantes sólidos para equipamentos espaciais, filmes finos protetores de painéis solares para satélites e dissipadores de calor para circuitos eletrônicos de alto desempenho.

Há muitas técnicas para a obtenção deles. A história começou em 1954, quando se conseguiu pela primeira vez produzir o material a partir da grafite, que, assim como o diamante, é composta por átomos de carbono. Foram necessárias, no entanto, alta pressão (acima de 60 mil atmosferas) e temperatura de pelo menos 2 mil kelvin (2.273,15 graus Celsius).

Justamente nesse ano, também se publicou o primeiro trabalho com indício de que era possível obter diamante a partir da forma gasosa de alguns compostos orgânicos (que têm átomos de carbono), por deposição química na fase vapor (CVD, sigla em inglês de chemical vapor deposition), pressão inferior a uma atmosfera e temperatura menor que 1,2 mil kelvin (1.473,15 graus Celsius).

É essa a técnica que se disseminou a partir da década de 1980 e que os pesquisadores do INPE e da Clorovale utilizam em sua produção: em um reator, o metano reage com o hidrogênio a cerca de dois graus Celsius e forma as moléculas do diamante, que vão se depositando sob forma de um filme ou película fina, num substrato ou base. À medida que as moléculas se depositam, o filme fica mais espesso — o diamante cresce no formato da base. O resultado são diamantes homogêneos, que propiciam melhor corte e mais durabilidade.

No caso da Clorovale, a base é uma haste de metal que, com o diamante crescido e aderido à ponta, transforma-se na nova ferramenta desenvolvida pela empresa. "Nossa equipe foi pioneira em obter o diamante-CVD com características de espessura, durabilidade e alta aderência à haste metálica e, principalmente, viável à produção industrial em pequenas superfícies, para pontas odontológicas e médicas", explica Vladimir Airoldi, sócio e responsável técnico da Clorovale e coordenador do Dimare. "Hoje, produzimos brocas nos quatro modelos mais utilizados pelos dentistas: cônica, tronco-cônica, cilíndrica e esférica. Como elas não giram, podem ter dobras diferentes para atender às diversas necessidades cirúrgico-odontológicas, o que representa mais uma vantagem em relação às brocas para alta rotação."

Dentistas aprovaram

Os dentistas que aderiram ao uso da ponta odontológica da Clorovale aprovaram a nova ferramenta. É o caso de Rogério Ribas da Costa, professor de metodologia científica dos cursos de pós-graduação do Centro de Estudos, Treinamento e Aperfeiçoamento em Odontologia (CETAO), uma escola privada de São José dos Campos. "O produto trouxe uma série de vantagens para o tratamento: preparamos o dente de forma mais eficiente, para que seja restaurado e tenha de novo as funções e a forma que havia perdido por causa da cárie; o que com as brocas tradicionais não se consegue fazer."

Outro ponto positivo é a precisão de corte, que preserva a área sadia do dente. "Além de fazer pouco ruído, permite visibilidade total da área tratada por parte do dentista, pois somente a ponta de diamante fica sobre o campo operatório", acrescenta Costa. Isso ocorre porque a ponta não possui turbina, ou a cabeça cilíndrica onde a haste giratória é comumente fixada.

O mestre em engenharia biomédica e pesquisador da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), de São José dos Campos, Luiz Augusto Conrado, ajudou a desenvolver e testar o produto. "Foi durante os testes na clínica que descobrimos que, ao contrário das de alta rotação, a nova broca não causava dor em mais de 80% dos pacientes", conta. "Fomos investigar as causas e descobrimos que as tradicionais, que giram a 300 rotações por minuto, provocam uma sucção de células da polpa do dente, onde estão os nervos", diz.

Apesar das vantagens, contudo, ela não é um produto perfeito. A própria empresa aponta a menor velocidade de corte e o preço, 40 vezes maior do que o equipamento tradicional, como uma dificuldade para o mercado. Airoldi garante, no entanto, que esses problemas são compensados: a economia é feita em anestésicos e na durabilidade do equipamento, 30 vezes maior do que a do tradicional.

Investimentos do capital de risco

Embora a Clorovale fique instalada em amplo terreno de 7 mil metros quadrados, o espaço físico onde os diamantes e as pontas são fabricados é comparativamente pequeno, ocupando não mais do que 600 metros quadrados. Mas essa situação deve mudar. Em 2005, a empresa recebeu investimentos de R$ 2,5 milhões de um grupo de capital de risco dos Estados Unidos, e transformou-se numa sociedade anônima, passando a se chamar Clorovale Diamantes Ind. e Com. S.A.

Os planos ainda são de expansão do espaço físico da fábrica e da produção, uma vez que novos projetos relacionados ao dimante-CVD e ao DLC (diamond-like carbon) estão sendo implementados. "Estamos compatibilizando a empresa com as Boas Práticas de Fabricação exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para produtos odontológicos", explica Vladimir Airoldi.

Atualmente, três dos sete sócios ainda trabalham no INPE e se desdobram para compatibilizar as duas funções. "Eles trabalham na empresa em período fora do expediente exigido pelo INPE", assegura Airoldi. "Tem pesquisador que chega a trabalhar 90 horas por semana."

Mas o esforço está trazendo resultados: artigos científicos produzidos no INPE e dez patentes, duas das quais internacionais (nos Estados Unidos, Canadá, Japão e Europa). Os royalties são divididos entre os autores, o INPE e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "Nossa empresa é a primeira a inverter o fluxo de recursos para a agência de fomento, isto é, a Fapesp", diz Airoldi. "Estamos pagando royalties, pois a agência está financiando a nossa patente, de forma que ela tem um terço dos direitos."

Somente agora a Clorovale consegue efetivar o processo de certificações internacionais, "em virtude de uma resistência grande às mudanças de conceito impostas pelo produto", defende o sócio-fundador. "Nesse período foram criados cerca de dez novos modelos de pontas ultra-sônicas e, também, desenvolvido um parelho de ultra-som próprio, cujo desempenho tem sido muito bom", avalia.

Só agora nos holofotes

Apesar do reconhecimento de suas qualidades e das patentes, só agora as vendas começam a deslanchar. "Nosso trabalho foi intenso na criação de cursos de "Odontologia Ultra-sônica" nas faculdades, fazendo com que o aluno já tenha contato com o novo conceito de tratamento odontológico dentro da sala de aula."

O novo conceito de vendas as aumentou em cerca de 30% em 2007, em relação ao ano anterior. A empresa também pretende conquistar uma fatia do mercado externo, no qual ainda tem uma participação irrisória. As exportações da Clorovale começaram em 2005, com uma pequena venda para o México, de US$ 20 mil. "O México já repetiu cinco vezes o pedido de compra", conta Airoldi. "Para Israel fizemos uma exportação experimental em 2005, no total de US$ 25 mil. Mas não conseguimos continuar as vendas, porque não temos ainda a certificação européia, que está no momento em processo de aquisição pela nossa empresa.

Com a conclusão das certificações internacionais, espera-se aumentar rapidamente os níveis de vendas, pois a procura por revendas no exterior tem sido grande.

A importância do PIPE

Embora seja o mais importante, o dinheiro dos investidores americanos não foi o único aporte de capital que a empresa recebeu em sua história. O primeiro foi um financiamento de R$ 450 mil das Fases I e II do programa Pesquisa Inovativa na Pequena e Microempresa (PIPE), da Fapesp, que possibilitou a própria criação da empresa e seu desenvolvimento inicial. A Clorovale investiu esse dinheiro na construção de equipamentos e em uma infra-estrutura para a produção de diamantes sintéticos em escala industrial.

Os recursos também serviram para pagamentos de serviços de caracterizações de amostras. "Essa área de caracterizações é uma das mais caras e carentes em nosso país", diz Airoldi. "O financiamento do PIPE teve extrema importância. Sem ele não teríamos como dar início ao negócio e, portanto, a Clorovale não existiria hoje." Além disso, mais tarde, a empresa teve um aporte R$ 150 mil da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio de um programa de venture capital (capital de risco).

Antes, no entanto, houve outros investimentos no Dimare, do INPE, que contribuíram para o surgimento da empresa. Segundo Airoldi, as pesquisas sobre diamantes sintéticos no INPE começaram em 1992. "Desde então já foram investidos cerca de R$ 2 milhões, de quatro fontes: Fapesp, CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], Finep e Ministério da Ciência e Tecnologia", conta.

 

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