Publicado em 13 de agosto de 2007






Kom Montagens e Comércio Ltda.

Empresa criadora da manta óptica para tratar icterícia
busca parceiros para comercializar seus outros produtos

A Kom Lux Fibras Ópticas (nome fantasia da Kom Montagens e Comércio Ltda.) já nasceu com os dias contados: seus dois fundadores pretendiam fechá-la logo que terminassem de executar um determinado trabalho. No entanto, quando chegou a hora de encerrar o negócio, eles perceberam que precisariam gastar muito mais do que haviam gasto para abri-lo. Um dos sócios, então, resolveu vender sua parte para o pai do outro. Passados mais de vinte anos, a empresa continua funcionando em Campinas (SP), emprega 32 pessoas e tem três projetos financiados pelo PIPE no currículo. Quem a dirige até hoje é o analista de sistemas Cícero Lívio Omegna de Souza Filho — o sócio que encarou o desafio de tocar o barco para frente.

Quando fundou a Kom Lux, em 1986, Cícero ainda cursava a graduação na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Conhecimento sobre fibras ópticas, contudo, não lhe faltava: ele já havia trabalhado como pesquisador de nível técnico na Unicamp, dentro do projeto com a Telebrás para desenvolver as comunicações ópticas no Brasil, e também na ABC Xtal, empresa para a qual a tecnologia nacional de fibras fora transferida.

Em 1995, três ou quatro anos depois de a Kom Lux ter começado a fabricar fibras ópticas, um amigo convidou Cícero para viajar aos Estados Unidos. "Estava cansado de tentar fazer as coisas no Brasil e nada dar certo", lembra. Os dois conheceram o escritório norte-americano de patentes e visitaram algumas companhias. Numa dessas visitas, o empresário recebeu uma proposta para transferir sua fábrica de fibras para lá com todas as despesas pagas. Na época com quatro filhos (hoje são cinco), ele voltou ao Brasil pensando em como convencer a esposa a sair do País.

Na mesma semana, os professores Hugo Fragnito, da Unicamp, e Pedro Mangabeira e Aníbal Arraes, da Escola Paulista de Medicina, procuraram Cícero com a idéia de desenvolver um endoscópio no Brasil. Ele ficou interessado, mas não tinha dinheiro para bancar o projeto. "Não havia financiamento direto para a empresa; a Fapesp foi pioneira nisso", recorda. Para conseguir os recursos necessários, a Kom Lux entrou com as universidades no Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT) e solicitou algumas bolsas do Programa de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas (RHAE), ambos do governo federal. Com isso, Cícero viu sua "empresinha se transformar num pedacinho de um centro de pesquisa" e esqueceu a proposta dos norte-americanos.

Em 1997, ano em que surgiu o PIPE, outros dois professores bateram à porta da Kom Lux: Fernando Facchini e Said Jorge Calil, do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Unicamp. Eles queriam que a empresa desenvolvesse um equipamento fototerápico para combater a icterícia em recém-nascidos. Como o projeto do endoscópio estava terminando, Cícero aceitou o convite e foi buscar financiamento junto ao novo programa da Fapesp. O trabalho resultou numa manta de fibras ópticas entrelaçadas que deixam vazar a luz, para a qual foi feito pedido de patente em 2001. Em seguida, vieram mais dois PIPEs: no primeiro, a Kom Lux acoplou uma câmera ao endoscópio rígido que já havia desenvolvido; no segundo, criou um endoscópio flexível.

Juntos, o projeto do PADCT e os três do PIPE ajudaram Cícero a formar uma equipe e ampliar suas relações com as universidades. "Eu estava desanimado, querendo ir embora daqui, e esses apoios acabaram me motivando", conta. O problema que ele vê no programa da Fapesp é a falta de financiamento para o que seria a Fase III — ou seja, para levar o produto desenvolvido nas duas primeiras fases até o mercado. A fundação paulista custeou essa etapa uma vez, em 2004, e abriu nova chamada apenas em junho de 2007. "A terceira fase é quando o produto realmente nasce. Ela tem tanta importância quanto a primeira", diz.

A estratégia que ele encontrou para aumentar as chances de comercialização dos produtos da Kom Lux foi inscrever a empresa em entidades de classe e investir no "networking" com companhias maiores. Agindo assim, conseguiu atrair o interesse da Olidef, de Ribeirão Preto (SP), para a manta de fibras ópticas. Hoje, são parceiras: a empresa campineira cuida da parte científica, faz os testes e fabrica a manta com a marca da Olidef; esta se responsabilizou pela aprovação do produto e agora se encarrega de divulgá-lo e distribuí-lo.

Cícero está negociando uma parceria similar com outra empresa, cujo nome não revela, para que os dois endoscópios desenvolvidos com recursos do PIPE possam passar pelo caro processo de aprovação e chegar à área médica — por enquanto, a Kom Lux só tem como vender os equipamentos para uso industrial. "Essa para mim é a terceira fase", afirma. "Sou atirado nesse sentido, estou conseguindo fazer a empresa andar, mas não dá para tomar meu caso como base", acrescenta.

Apesar da falta da Fase III, o empresário diz que o programa da Fapesp ajudou a Kom Lux a crescer em vários aspectos. "Quando há pessoas de alto nível e a empresa dá condições, é líquido e certo que se coloca uma sementinha com alto poder de germinação", diz. Atualmente a empresa possui laboratórios de eletrônica e óptica, tem seis funcionários trabalhando na área de P&D e mantém parcerias de pesquisa com quatro professores universitários. Cícero aparece em dez pedidos de patente feitos ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) como inventor, incluindo o da manta de fibras ópticas, e em 11 como depositante.