Eina — Estudos em Inteligência Natural
e Artificial
Projeto
para apoiar aprendizado em crianças com deficiência
Foi completado; mas escolas nunca o adotaram,
lamenta criador
Em 1997, Armando
Freitas da Rocha, então professor do
Instituto de Biologia da Unicamp (ele aposentou-se
no ano seguinte), abriu a Eina junto com dois
filhos e mais um sócio e inscreveu-a
no primeiro edital do PIPE. O objetivo do projeto
era desenvolver um software para ensinar
e avaliar o processo pedagógico e neural
de crianças com deficiência mental.
Passados dez anos, ele ainda luta para convencer
escolas e gestores de educação
da utilidade do produto que sua empresa criou,
batizado de Enscer. "O PIPE foi muito bom
em termos de conhecimento", conta, lembrando
que o projeto rendeu publicações
em revistas indexadas de nível e gerou
uma tecnologia de mapeamento cerebral própria.
"Mas do ponto de vista econômico
foi um fracasso", afirma. "Só
não fechei as portas porque sou turrão."
O empresário
atribui o mau desempenho comercial do Enscer
a dois fatores. O primeiro deles diz respeito
à pedagogia: "As escolas de educação
estão todas na área de humanas
e não sabem como funciona o cérebro;
ao mesmo tempo, elas se fundamentam em autores
da primeira metade do século XX, que
ignoram os progressos em neurociência
nos últimos 30 anos", aponta. O
segundo fator é o desinteresse dos gestores
de educação, que dificulta a entrada
do produto naquele que seria o seu maior mercado
— a escola pública. "Uma firma
como a nossa não vai para frente enquanto
não mudar a pedagogia ou a postura do
político brasileiro", admite.
Armando adverte
que o Enscer também pode ser usado para
ajudar crianças não portadoras
de deficiência mental a aprender mais
facilmente. A eficiência do software
nesse sentido já está sendo testada
em Mogi das Cruzes (SP), num projeto com apoio
da Fapesp e da Secretaria Municipal de Educação
—"a única que até hoje
topou fazer alguma coisa". Lá, o
sistema foi utilizado para caracterizar os alunos
que, segundo os professores, tinham dificuldade
de aprendizagem. Essa caracterização
serviu de base para a montagem de um programa
de trabalho com o software. Hoje, 400
crianças com dificuldade e 200 sem nenhum
problema (o grupo de controle) permanecem nos
quatro laboratórios de informática
montados pela Fapesp durante duas horas por
semana, onde são assessoradas por 16
professores pagos pela fundação.
O programa já está no segundo
ano e, de acordo com Armando, os resultados
obtidos até agora são positivos.
O dono da Eina
diz que 15% das crianças do mundo têm
dificuldade de aprendizagem, sendo que em alguns
lugares a taxa chega a 30% devido à influência
do ambiente. "Parte do problema que temos
no País poderia ser minimizada, mas o
produto que temos ninguém quer comprar",
ressalta. Isso não o impede, contudo,
de continuar trabalhando no produto, o que faz
com a ajuda de pesquisadores da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo
(USP) e da Escola Paulista de Medicina. "Quando
aperta, ponho dinheiro do meu bolso", revela.
A Eina não
pretende abandonar o Enscer, que também
é adotado em um colégio particular
de Guarulhos (SP). Mas, para não correr
o risco de fechar, resolveu redirecionar sua
atividade para a neuroeconomia, estudando o
processo de tomada de decisão com base
na tecnologia de mapeamento cerebral que desenvolveu.
"A economia também está na
área de humanas, mas eles já sabem
que quem toma decisões é o cérebro",
observa Armando, que foi convidado para montar
um projeto nessa área na Fundação
Getúlio Vargas (FGV). Atualmente ele
toca a empresa junto com seu filho mais novo,
que é formado em lingüística
pela Unicamp e está terminando o doutorado
na mesma área na USP. Além deles,
a Eina conta com mais "uma pessoa e meia"
— a secretária e um programador
que não trabalha em tempo integral. Quanto
a empresa fatura? "Esquece faturamento",
conclui.