Publicado em 13 de agosto de 2007






Eina — Estudos em Inteligência Natural e Artificial

Projeto para apoiar aprendizado em crianças com deficiência
Foi completado; mas escolas nunca o adotaram, lamenta criador

Em 1997, Armando Freitas da Rocha, então professor do Instituto de Biologia da Unicamp (ele aposentou-se no ano seguinte), abriu a Eina junto com dois filhos e mais um sócio e inscreveu-a no primeiro edital do PIPE. O objetivo do projeto era desenvolver um software para ensinar e avaliar o processo pedagógico e neural de crianças com deficiência mental. Passados dez anos, ele ainda luta para convencer escolas e gestores de educação da utilidade do produto que sua empresa criou, batizado de Enscer. "O PIPE foi muito bom em termos de conhecimento", conta, lembrando que o projeto rendeu publicações em revistas indexadas de nível e gerou uma tecnologia de mapeamento cerebral própria. "Mas do ponto de vista econômico foi um fracasso", afirma. "Só não fechei as portas porque sou turrão."

O empresário atribui o mau desempenho comercial do Enscer a dois fatores. O primeiro deles diz respeito à pedagogia: "As escolas de educação estão todas na área de humanas e não sabem como funciona o cérebro; ao mesmo tempo, elas se fundamentam em autores da primeira metade do século XX, que ignoram os progressos em neurociência nos últimos 30 anos", aponta. O segundo fator é o desinteresse dos gestores de educação, que dificulta a entrada do produto naquele que seria o seu maior mercado — a escola pública. "Uma firma como a nossa não vai para frente enquanto não mudar a pedagogia ou a postura do político brasileiro", admite.

Armando adverte que o Enscer também pode ser usado para ajudar crianças não portadoras de deficiência mental a aprender mais facilmente. A eficiência do software nesse sentido já está sendo testada em Mogi das Cruzes (SP), num projeto com apoio da Fapesp e da Secretaria Municipal de Educação —"a única que até hoje topou fazer alguma coisa". Lá, o sistema foi utilizado para caracterizar os alunos que, segundo os professores, tinham dificuldade de aprendizagem. Essa caracterização serviu de base para a montagem de um programa de trabalho com o software. Hoje, 400 crianças com dificuldade e 200 sem nenhum problema (o grupo de controle) permanecem nos quatro laboratórios de informática montados pela Fapesp durante duas horas por semana, onde são assessoradas por 16 professores pagos pela fundação. O programa já está no segundo ano e, de acordo com Armando, os resultados obtidos até agora são positivos.

O dono da Eina diz que 15% das crianças do mundo têm dificuldade de aprendizagem, sendo que em alguns lugares a taxa chega a 30% devido à influência do ambiente. "Parte do problema que temos no País poderia ser minimizada, mas o produto que temos ninguém quer comprar", ressalta. Isso não o impede, contudo, de continuar trabalhando no produto, o que faz com a ajuda de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e da Escola Paulista de Medicina. "Quando aperta, ponho dinheiro do meu bolso", revela.

A Eina não pretende abandonar o Enscer, que também é adotado em um colégio particular de Guarulhos (SP). Mas, para não correr o risco de fechar, resolveu redirecionar sua atividade para a neuroeconomia, estudando o processo de tomada de decisão com base na tecnologia de mapeamento cerebral que desenvolveu. "A economia também está na área de humanas, mas eles já sabem que quem toma decisões é o cérebro", observa Armando, que foi convidado para montar um projeto nessa área na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente ele toca a empresa junto com seu filho mais novo, que é formado em lingüística pela Unicamp e está terminando o doutorado na mesma área na USP. Além deles, a Eina conta com mais "uma pessoa e meia" — a secretária e um programador que não trabalha em tempo integral. Quanto a empresa fatura? "Esquece faturamento", conclui.