Publicado em 29 de maio de 2007






Copol Compostos Poliméricos

Equipamento que reaproveita plástico e alumínio de embalagem longa vida e investimento em nanopartícula são base de empresa

Evanildo da Silveira

Depois de 17 anos como empregado, oito dos quais na iniciativa privada e nove na universidade, o engenheiro de materiais Eliezer Gibertoni decidiu dar uma guinada em sua trajetória profissional e iniciar uma nova fase como empreendedor. Em 2002, criou a Copol – Compostos Poliméricos, uma empresa com objetivo de desenvolver novos materiais e aplicações que viessem a atender à indústria de transformação de materiais plásticos. Cinco anos depois, a Copol tem em seu portfolio um equipamento que torna possível o reaproveitamento do polietileno e do alumínio das embalagens cartonadas (longa vida). Agora trabalha no desenvolvimento de nanopartículas pigmentantes para colorir diversos tipos de plástico.

Trata-se do projeto "Pigmentos alternativos à base de nanopartículas aplicáveis a composições poliméricas de engenharia", financiado pelo Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), da Fapesp. "A idéia principal do projeto foi estudar a viabilidade técnica de produção de nanopartículas pigmentantes para atender ao setor da economia de materiais plásticos (ou poliméricos)", explica Antonio Carlos Hernandes, responsável pelo Grupo de Crescimento de Cristais e Materiais Cerâmicos do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, e parceiro da Copol no projeto. "Nossa meta foi desenvolver metodologia para produzir granulados com elevada concentração de agente pigmentante para uso na indústria como matéria-prima de tingimento dos plásticos."

Para as indústrias de plástico, o novo produto é muito bem-vindo. "Mais do que bem-vindo, um produto avançado como esse que está sendo desenvolvido é fundamental para o setor", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum. "Não podemos viver a reboque do mundo desenvolvido. Precisamos valorizar e aproveitar as novas tecnologias que são desenvolvidas no Brasil, por brasileiros." Segundo Cachum, em breve a nanotecnologia será uma realidade no setor. "Quem desconhecer os benefícios da nanotecnologia na indústria do plástico vai deixar de ganhar dinheiro", diz.

Larga experiência

Antes de fundar a Copol, Gibertoni, graduado em 1984 em Engenharia de Materiais com especialização em materiais poliméricos pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), adquiriu larga experiência profissional na área industrial, em empresas como 3M do Brasil e Indústria e Comércio Cardinali. "De 1985 a 1993 desempenhei funções de engenheiro de qualidade, gerente de qualidade, de produção e de materiais poliméricos, além de assessor de Diretoria", conta. "Em 1993 iniciei uma nova fase na carreira profissional, ingressando no Centro de Caracterização e Desenvolvimento de Materiais (CCDM) no Departamento de Engenharia de Materiais (DEMa) da UFSCar, no gerenciamento da Área de Polímeros."

Nesse período, mais especificamente em 1999, ele concluiu o mestrado em Engenharia de Materiais no DEMa/UFScar. Depois, trabalhou no CCDM por nove anos, prestando serviços de consultoria a diversas empresas no âmbito de processos, produtos e matérias-primas. "Nessa fase da vida profissional, maturou a idéia de iniciar a carreira empreendedora e no final de 2002, início de 2003 criei a Copol", lembra Gibertoni. "Hoje a Copol está no seu quinto ano de existência, tendo superado vários desafios ao longo desse período, muitos dos quais são amplamente anunciados nas estatísticas de entidades de apoio a empreendedores e microempresas."

Gibertoni refere-se a dados que mostram que grande parte das micro e pequenas empresas encerram suas atividades antes de completar o primeiro ano de existência, pois faltam a elas estabilidade de mercado, capital de giro e competitividade. Para superar essas dificuldades, a Copol procurou desenvolver produtos personalizados aos clientes, criando uma relação de fornecimento que viabilizasse a continuidade dos demais projetos de pesquisa na área tecnológica e de inovação.
 
Segundo Gibertoni, a idéia de desenvolver 'produtos personalizados' surgiu da combinação das suas experiências profissionais nas esferas industrial e acadêmica, pois a demanda por materiais alternativos é crescente nas empresas. "Em resumo, a empresa precisa manter linhas de produtos que a mantenham 'viva' para poder buscar novos desenvolvimentos que possam ampliar sua participação no mercado, inclusive com produtos diferenciados que possam conferir maior valor agregado", explica.

Hoje a Copol produz compostos poliméricos na forma de granulados (pellets), principalmente para a indústria de plástico. São pequenos grãos de formato cilíndrico com dimensões aproximadas de cinco milímetros de diâmetro e de comprimento, usados na fabricação de partes ou itens completos de produtos das indústrias eletroeletrônica, de embalagens, automobilística, da construção civil, de utensílios domésticos, entre outras. O produto é uma alternativa à utilização das resinas convencionais fornecidas ao mercado pelas indústrias petroquímicas.

De acordo com Gibertoni, a principal contribuição que a Copol procura oferecer aos seus clientes é o desenvolvimento de compostos alternativos, baseado na reunião das propriedades de diferentes tipos de resinas, combinados com aditivos que possam agregar melhores características de processabilidade e propriedades finais aos produtos, com redução dos custos e aumento de eficiência. "Para tanto, procuramos manter estreita relação de parceria com as universidades e parceiros tecnológicos, de forma a poder aplicar alternativas na produção dos compostos", diz.

Segundo PIPE

O atual financiamento do PIPE não é o primeiro que a empresa obtém. Em 2003, a Copol iniciou seu primeiro projeto PIPE, com o objetivo de desenvolver um processo alternativo para a utilização de polietileno/alumínio proveniente de embalagens cartonadas. "O projeto permitiu o desenvolvimento de um equipamento desagregador para eliminação de fibras de celulose residuais da superfície do polietileno, adequando-o para a etapa de processamento na forma de composto polimérico", conta Gibertoni.  "Esse projeto foi desenvolvido contando com o apoio da infra-estrutura do DEMa da UFSCar."

A interação com o Grupo de Pesquisa em Crescimento de Cristais e Materiais Cerâmicos do Instituto de Física da USP de São Carlos tornou possível o segundo projeto PIPE, voltado para a utilização da nanotecnologia no campo de composições poliméricas. O projeto de pigmentos alternativos visa a atender a uma demanda de aplicações voltadas para os segmentos de produtos que apresentem exigências de inércia química (grau atóxico) e preservação das propriedades físico-químicas dos polímeros. "O objetivo é desenvolver um processo otimizado para a produção de nanopartículas pigmentantes e aplicá-las na forma de concentrados de cores, chamados de masterbatches, em resinas poliméricas", explica Gibertoni.

Atualmente, a indústria do plástico utiliza extensa variedade de pigmentos e corantes, que são fornecidos na forma de concentrados de cores. Tanto na etapa de preparação dos masterbatches como na etapa de aplicação final, nos processos de transformação plástica, existem diversos problemas oriundos da falta de dispersão das partículas de pigmentos, ocasionando a formação de aglomerados e pontos não dispersos, que provocam falhas nos produtos obtidos, afetando propriedades físico-químicas dos polímeros a que foram incorporados. A utilização de nanopartículas pigmentantes como alternativa aos sistemas de cores em materiais poliméricos visa a eliminar esses problemas de dispersão existentes com os pigmentos e corantes convencionais, bem como desenvolver novas composições de cores, podendo ampliar o seu uso em embalagens, brinquedos e outros produtos.

Sem poluição

O pesquisador Antonio Carlos Hernandes explica que nanopartículas pigmentantes são partículas que têm de 20 a 80 nanômetros de diâmetro (um nanômetro é a bilionésima parte do metro) e composição química à base de óxidos, como, por exemplo, de titânio, de elevada estabilidade química. "As principais inovações do projeto são o desenvolvimento das nanopartículas pigmentantes à base de compostos óxidos inertes ao meio ambiente, quer dizer, não poluentes, e a incorporação aos polímeros de engenharia (formação de nanocompostos)", diz. "O processo habitual de coloração de grande parte dessas peças é feito com materiais tóxicos à base de chumbo e cádmio. Com o uso de nanopartículas na elaboração do pigmento, trabalha-se com material inorgânico, o que resulta em aumento da estabilidade do material plástico sem apresentar elementos tóxicos para a indústria desses produtos."

Os polímeros ou plásticos de engenharia (usados para fazer as mais variadas peças) não são pintados como se pinta uma parede, com pincel, brocha ou rolo. Ao invés disso, as nanopartículas pigmentantes são adicionadas ao plástico fundido que se quer colorir. "Os primeiros resultados foram muito positivos", diz Hernandes. Conseguimos obter diferentes tons de cores, o que é altamente significativo para a criação de novos designs de produtos. Além disso, a coloração é realizada por um processo mais simples e mais limpo do que o convencional."

A Fase I do projeto já está concluída. A empresa recebeu R$ 95 mil, tendo investido igual valor de recursos próprios em infra-estrutura e equipamentos complementares. Os recursos do PIPE foram aplicados na aquisição de matérias-primas e no desenvolvimento e compra de equipamentos para a preparação das bases pigmentantes e o seu processamento em escala de protótipo em nível industrial. Agora, na segunda etapa do projeto, o objetivo é levar o produto a uma escala semi-industrial. Deve ser desenvolvido um plano de negócios para viabilizar essa produção maior.

Segundo Gibertoni, a empresa já solicitou financiamento para o PIPE Fase II. "Nesta segunda etapa, pedimos recursos da ordem de R$ 400 mil, que serão aplicados na produção de nanopartículas em escala ampliada, de tal forma a permitir a obtenção de concentrados delas em diferentes veículos poliméricos e diferentes teores de concentração", explica. "Esta etapa visa à consolidação do sistema de produção de nanopartículas pigmentantes em larga escala e ao processamento de masterbatches."

Apoio fundamental

O apoio do PIPE foi fundamental para a consolidação e crescimento da empresa. "Os projetos de financiamento desse programa permitiram à Copol efetivamente incorporar a tecnologia e a geração de conhecimento aplicado ao desenvolvimento de produtos inovadores que permitem oferecer um diferencial ao mercado", diz Gibertoni. "Com ampla experiência na área de materiais poliméricos e processos de transformação, os profissionais ligados à Copol podem auxiliar os clientes nos projetos de desenvolvimentos e melhorias de processos em todas as fases do ciclo de fabricação dos produtos. Esse diferencial, aliado às parcerias com universidades e toda infra-estrutura dos institutos de pesquisa, permite ampliar o leque de atuação no desenvolvimento de produtos com maior valor agregado dos mercados de alto nível de exigência em especificações e garantia de qualidade."

Por isso, Gibertoni garante que a empresa está preparada para atender ao grande e exigente mercado da indústria de transformação plástica, voltada a buscar inovações em processos e novos materiais para aumentar sua competitividade no mundo globalizado. No Brasil, as cerca de 8,5 mil empresas do setor, a maioria de pequeno e médio porte, estão distribuídas por todo o território nacional. Juntas, elas empregam mais de 250 mil funcionários. Em 2005, o setor de transformação plástica consumiu mais de 4,2 milhões de toneladas de resinas poliméricas, sendo que quase a totalidade dos produtos apresenta alguma coloração obtida por meio da introdução dos sistemas pigmentantes.

Quanto aos concentrados de cores, especificamente, a estimativa é de em torno de 200 produtores fabriquem de 7,5 mil a 9 mil toneladas e faturem o equivalente a US$ 15 milhões por mês. As pesquisas de mercado indicam que o volume de consumo de masterbatches é da ordem de 8 mil toneladas por mês, sendo 40% deles brancos, 30% coloridos, 20% pretos e 10% aditivos. Dentre os diversos segmentos de produtos, o setor de embalagens é o que acumula o maior volume de negócios com 42% de participação, reunindo produtos que vão desde frascos para produtos de limpeza, com menor valor agregado, até as embalagens de cosméticos, com diferencial de acabamento e mais valorizadas.