Publicado em 24 de maio de 2007






DLG Automação Industrial

Empresa surge para abastecer setor sucroalcooleiro; dois PIPEs
ajudaram-na a crescer e levaram seus negócios para a agricultura

Lívia Komar

Para seus proprietários, a DLG Automação Industrial é uma espécie de fênix, a ave egípcia lendária que ressurge das próprias cinzas. A empresa, localizada em Sertãozinho, maior pólo sucroalcooleiro do Estado de São Paulo, nasceu dos planos de funcionários demitidos da extinta TLK, indústria de automação que baixou as portas em 1997. Com pouco capital e os equipamentos que receberam como acerto rescisório — computadores, móveis e instrumentos de medição —, o mestre em engenharia elétrica Glauco Guaitoli e os técnicos eletrônicos Paulo Donizete Duarte, Gilberto Freire Duarte e Antônio Francisco Jain decidiram criar a DLG. Empresas da região, que se viram sem fornecedor de peças periféricas para automação — ou seja, para controle e execução de processos operacionais por meio de dispositivos mecânicos ou eletrônicos, em substituição ao trabalho humano —, incentivaram os ex-funcionários da TLK. De lá para cá, a DLG cresceu e viu seu faturamento anual saltar de R$ 200 mil para R$ 4 milhões.

A Smar Equipamentos Industriais, também de Sertãozinho, foi uma das empresas que apoiaram a criação da DLG. "Os produtos da DLG complementam nossas soluções com conversores de sinais, indicadores, sensores, entre outros", explica César Cassiolato, diretor de marketing da companhia. "Em grande parte de nossos projetos utilizamos a parceria com a DLG por se tratar de uma excelente empresa, com um nível técnico altíssimo", acrescenta. A Smar não é um cliente qualquer: no mercado há mais 30 anos, tem subsidiárias em todos os continentes, exporta para mais de 60 países e atende diversos segmentos da indústria, com destaque para o sucroalcooleiro. A partir do interior de São Paulo, a Smar já automatizou centenas de usinas de açúcar e álcool no País e no mundo — em muitas delas, utilizando peças da DLG.

Com 40 funcionários e três unidades em Sertãozinho, a DLG agora planeja construir um prédio de 1.600 metros quadrados no Distrito Industrial do município para abrigar os setores administrativo e comercial e todas as etapas de desenvolvimento e produção, hoje separadas.

O começo

A DLG surgiu num momento difícil para o setor sucroalcooleiro. "O governo começava a tirar as vantagens do Proálcool dos produtores, dificultando ainda mais a vida do setor, que estava sem investimentos para crescer", conta o engenheiro Glauco Guaitoli. No entanto, ele e seus sócios, habituados a trabalhar com as usinas desde os tempos da TLK, souberam driblar os obstáculos setoriais e também a crise financeira asiática. Dois anos depois, o setor de açúcar e álcool já se recuperava com a abertura do mercado de combustíveis e a liberação do preço do álcool anidro, aquele que é misturado à gasolina. "Desde essa época a DLG vem crescendo junto com o setor, desenvolvendo equipamentos e sistemas", conta o proprietário. De 20 produtos digitais na época da fundação, a empresa passou a produzir 60, utilizando tecnologia microprocessada. Os produtos com essa tecnologia operam de forma mais precisa e versátil, pois possuem uma espécie de computador em seu interior que armazena informações detalhadas sobre todas as etapas da produção industrial.

PIPE I

Em 2002, a DLG decidiu ampliar seus negócios: além de peças para equipamentos que ajudam a aumentar a qualidade e o volume de produção na indústria, resolveu fabricar aparelhos para melhorar a produtividade no campo. Para poder fazer isso, os proprietários se organizaram e pediram financiamento ao Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). No projeto que apresentaram à agência, explicaram que pretendiam desenvolver um penetrômetro eletrônico georeferenciado. Os penetrômetros simulam a força que a raiz de uma planta fará ao crescer, por isso são usados para avaliar a compactação do solo.

"Um agrônomo sabe que num solo muito compactado a raiz não se desenvolve. Ele tem de saber se esse solo está precisando ser descompactado e em que profundidade", explica Guaitoli. A compactação altera a estrutura dos poros do solo e prejudica o plantio porque impede a chegada dos nutrientes à planta. O principal fator de compactação é o tráfego de máquinas agrícolas. A idéia da DLG era substituir os penetrômetros mecânicos, que, entre outras desvantagens, obrigam o usuário a fazer manualmente os cálculos sobre o solo. Com o financiamento da Fapesp, a empresa aperfeiçoou o aparelho, agregando à realização das medições a informação automática sobre as condições do terreno, de maneira rápida e precisa.

O penetrômetro que resultou do projeto cabe na palma da mão, está desde 2004 no mercado e custa R$ 7 mil. Seu funcionamento é simples: uma haste é inserida 60 centímetros no solo e verifica a resistência à penetração por meio de um sensor que leva as informações para um visor. A DLG vende uma média de 15 desses aparelhos ao ano. Denizart Bolhonese, doutor em agronomia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), utiliza um há três anos na Agência Paulista de Tecnologia em Agronegócios (APTA), da Secretaria da Agricultura do Estado. "O penetrômetro é muito prático para pesquisas por ser georreferenciado e ter boa capacidade de armazenamento de dados", detalha. O equipamento mostra o nível de compactação do solo, revela a profundidade das camadas compactadas e sua localização espacial. O agrônomo elogia, mas quer mais: "Ainda é difícil trabalhar com solo seco", observa.

A DLG não depositou patentes do seu penetrômetro. "Houve uma falha de organização e o processo é muito burocrático", diz Guaitoli. Contudo, a empresa garante que registrará a propriedade intelectual de outros produtos derivados dessa inovação. Por enquanto, a DLG não tem nenhuma patente.

Primeiros frutos do financiamento

Depois do financiamento da Fapesp, outras idéias foram brotando. A criação do penetrômetro eletrônico possibilitou o desenvolvimento do penetrômetro motorizado, que não exige a força do homem para ser introduzido no solo, com a adaptação de um motor ligado na bateria. "Lançamos o motorizado porque nosso grande mercado é o sucroalcooleiro e o solo de cana é muito compactado", explica Guaitoli. O equipamento chegou ao mercado no final do ano passado e custa R$ 9 mil. Segundo o engenheiro, três peças já foram vendidas. Agora, a DLG está trabalhando no projeto de utilização do penetrômetro em tratores e quadriciclos.

PIPE II

A DLG resolveu continuar investindo em equipamentos para a agricultura de precisão e, em 2004, pediu mais um financiamento ao PIPE. A empresa teve a idéia de fazer um aparelho com Sistema de Geoprocessamento Global (GPS) de alta precisão e baixos custos, o DGPS. Esse tipo de equipamento pode chegar a custar R$ 20 mil, mas o da DLG sairá, em média, por R$ 3 mil. O truque da empresa foi criar uma espécie de adaptador para ser acoplado a GPSs comuns, como os utilizados em celulares, potencializando sua precisão em dez vezes.

As colheitadeiras mecânicas vêm equipadas com GPS — o sistema informa que quilometragem elas fizeram e em quais setores da fazenda. Com o novo equipamento da DLG, o agricultor terá acesso a todas as coordenadas geográficas dos hectares, poderá analisar a compactação e umidade do solo e corrigir os problemas de acordo com a produtividade de cada lote. Tudo isso dentro de uma sala de controle, recebendo informações via satélite.

A idéia da DLG era tão boa que a Motorola criou um equipamento similar e com baixo custo nos EUA, em 2006 — justamente na época em que o projeto de pesquisa da empresa de Sertãozinho se completava. Trata-se de um chip que tem mais ou menos a mesma função — um GPS de bolso. "Teremos de inovar em alguma coisa antes de lançar nosso produto no mercado", diz Guaitoli. Mas ele não se arrepende do esforço: "O importante disso foi a tecnologia que aprendemos".

Colhendo sucesso

Nos dois casos, a Fapesp financiou o estudo de viabilidade e o desenvolvimento do equipamento em si. O investimento nos dois projetos foi de R$ 438 mil: R$ 172 mil no primeiro e R$ 266 mil no segundo. A agência paulista custeou bolsas de estagiários e pesquisadores, equipamentos e insumos como softwares e kits de desenvolvimento de microprocessadores.

Guaitoli afirma que a DLG cresceu muito e que a ajuda da Fapesp foi fundamental. "A fundação nos proporcionou a aquisição de uma tecnologia eletrônica totalmente nova", diz. A empresa, segundo ele, também fez sua parte, buscando diferenciais para entrar e se manter no mercado. "Não temos uma linha de produção muito extensa; portanto, temos de incrementá-la com tecnologia de ponta", completa. Pouco a pouco, a DLG foi conquistando o setor de açúcar e álcool, expandindo seus serviços para indústrias de papel e celulose, pavimentação, mineração e, desde 2002, para a agricultura. Como clientes, destacam-se, além da Smar, o Grupo Cosan, a Votorantim Celulose e Papel e mais de 50 usinas de açúcar e álcool.