DLG Automação Industrial
Empresa surge para abastecer
setor sucroalcooleiro; dois PIPEs
ajudaram-na a crescer e levaram seus negócios
para a agricultura
Lívia
Komar
Para seus proprietários,
a DLG Automação Industrial é
uma espécie de fênix, a ave egípcia
lendária que ressurge das próprias
cinzas. A empresa, localizada em Sertãozinho,
maior pólo sucroalcooleiro do Estado
de São Paulo, nasceu dos planos de funcionários
demitidos da extinta TLK, indústria de
automação que baixou as portas
em 1997. Com pouco capital e os equipamentos
que receberam como acerto rescisório
— computadores, móveis e instrumentos
de medição —, o mestre em
engenharia elétrica Glauco Guaitoli e
os técnicos eletrônicos Paulo Donizete
Duarte, Gilberto Freire Duarte e Antônio
Francisco Jain decidiram criar a DLG. Empresas
da região, que se viram sem fornecedor
de peças periféricas para automação
— ou seja, para controle e execução
de processos operacionais por meio de dispositivos
mecânicos ou eletrônicos, em substituição
ao trabalho humano —, incentivaram os
ex-funcionários da TLK. De lá
para cá, a DLG cresceu e viu seu faturamento
anual saltar de R$ 200 mil para R$ 4 milhões.
A Smar Equipamentos
Industriais, também de Sertãozinho,
foi uma das empresas que apoiaram a criação
da DLG. "Os produtos da DLG complementam
nossas soluções com conversores
de sinais, indicadores, sensores, entre outros",
explica César Cassiolato, diretor de
marketing da companhia. "Em grande
parte de nossos projetos utilizamos a parceria
com a DLG por se tratar de uma excelente empresa,
com um nível técnico altíssimo",
acrescenta. A Smar não é um cliente
qualquer: no mercado há mais 30 anos,
tem subsidiárias em todos os continentes,
exporta para mais de 60 países e atende
diversos segmentos da indústria, com
destaque para o sucroalcooleiro. A partir do
interior de São Paulo, a Smar já
automatizou centenas de usinas de açúcar
e álcool no País e no mundo —
em muitas delas, utilizando peças da
DLG.
Com 40 funcionários
e três unidades em Sertãozinho,
a DLG agora planeja construir um prédio
de 1.600 metros quadrados no Distrito Industrial
do município para abrigar os setores
administrativo e comercial e todas as etapas
de desenvolvimento e produção,
hoje separadas.
O começo
A DLG surgiu
num momento difícil para o setor sucroalcooleiro.
"O governo começava a tirar as vantagens
do Proálcool dos produtores, dificultando
ainda mais a vida do setor, que estava sem investimentos
para crescer", conta o engenheiro Glauco
Guaitoli. No entanto, ele e seus sócios,
habituados a trabalhar com as usinas desde os
tempos da TLK, souberam driblar os obstáculos
setoriais e também a crise financeira
asiática. Dois anos depois, o setor de
açúcar e álcool já
se recuperava com a abertura do mercado de combustíveis
e a liberação do preço
do álcool anidro, aquele que é
misturado à gasolina. "Desde essa
época a DLG vem crescendo junto com o
setor, desenvolvendo equipamentos e sistemas",
conta o proprietário. De 20 produtos
digitais na época da fundação,
a empresa passou a produzir 60, utilizando tecnologia
microprocessada. Os produtos com essa tecnologia
operam de forma mais precisa e versátil,
pois possuem uma espécie de computador
em seu interior que armazena informações
detalhadas sobre todas as etapas da produção
industrial.
PIPE
I
Em 2002, a DLG
decidiu ampliar seus negócios: além
de peças para equipamentos que ajudam
a aumentar a qualidade e o volume de produção
na indústria, resolveu fabricar aparelhos
para melhorar a produtividade no campo. Para
poder fazer isso, os proprietários se
organizaram e pediram financiamento ao Programa
Inovação Tecnológica em
Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). No projeto que apresentaram
à agência, explicaram que pretendiam
desenvolver um penetrômetro eletrônico
georeferenciado. Os penetrômetros simulam
a força que a raiz de uma planta fará
ao crescer, por isso são usados para
avaliar a compactação do solo.
"Um agrônomo
sabe que num solo muito compactado a raiz não
se desenvolve. Ele tem de saber se esse solo
está precisando ser descompactado e em
que profundidade", explica Guaitoli. A
compactação altera a estrutura
dos poros do solo e prejudica o plantio porque
impede a chegada dos nutrientes à planta.
O principal fator de compactação
é o tráfego de máquinas
agrícolas. A idéia da DLG era
substituir os penetrômetros mecânicos,
que, entre outras desvantagens, obrigam o usuário
a fazer manualmente os cálculos sobre
o solo. Com o financiamento da Fapesp, a empresa
aperfeiçoou o aparelho, agregando à
realização das medições
a informação automática
sobre as condições do terreno,
de maneira rápida e precisa.
O penetrômetro
que resultou do projeto cabe na palma da mão,
está desde 2004 no mercado e custa R$
7 mil. Seu funcionamento é simples: uma
haste é inserida 60 centímetros
no solo e verifica a resistência à
penetração por meio de um sensor
que leva as informações para um
visor. A DLG vende uma média de 15 desses
aparelhos ao ano. Denizart Bolhonese, doutor
em agronomia pela Universidade Estadual Paulista
(Unesp), utiliza um há três anos
na Agência Paulista de Tecnologia em Agronegócios
(APTA), da Secretaria da Agricultura do Estado.
"O penetrômetro é muito prático
para pesquisas por ser georreferenciado e ter
boa capacidade de armazenamento de dados",
detalha. O equipamento mostra o nível
de compactação do solo, revela
a profundidade das camadas compactadas e sua
localização espacial. O agrônomo
elogia, mas quer mais: "Ainda é
difícil trabalhar com solo seco",
observa.
A DLG não
depositou patentes do seu penetrômetro.
"Houve uma falha de organização
e o processo é muito burocrático",
diz Guaitoli. Contudo, a empresa garante que
registrará a propriedade intelectual
de outros produtos derivados dessa inovação.
Por enquanto, a DLG não tem nenhuma patente.
Primeiros
frutos do financiamento
Depois do financiamento
da Fapesp, outras idéias foram brotando.
A criação do penetrômetro
eletrônico possibilitou o desenvolvimento
do penetrômetro motorizado, que não
exige a força do homem para ser introduzido
no solo, com a adaptação de um
motor ligado na bateria. "Lançamos
o motorizado porque nosso grande mercado é
o sucroalcooleiro e o solo de cana é
muito compactado", explica Guaitoli. O
equipamento chegou ao mercado no final do ano
passado e custa R$ 9 mil. Segundo o engenheiro,
três peças já foram vendidas.
Agora, a DLG está trabalhando no projeto
de utilização do penetrômetro
em tratores e quadriciclos.
PIPE
II
A DLG resolveu
continuar investindo em equipamentos para a
agricultura de precisão e, em 2004, pediu
mais um financiamento ao PIPE. A empresa teve
a idéia de fazer um aparelho com Sistema
de Geoprocessamento Global (GPS) de alta precisão
e baixos custos, o DGPS. Esse tipo de equipamento
pode chegar a custar R$ 20 mil, mas o da DLG
sairá, em média, por R$ 3 mil.
O truque da empresa foi criar uma espécie
de adaptador para ser acoplado a GPSs comuns,
como os utilizados em celulares, potencializando
sua precisão em dez vezes.
As colheitadeiras
mecânicas vêm equipadas com GPS
— o sistema informa que quilometragem
elas fizeram e em quais setores da fazenda.
Com o novo equipamento da DLG, o agricultor
terá acesso a todas as coordenadas geográficas
dos hectares, poderá analisar a compactação
e umidade do solo e corrigir os problemas de
acordo com a produtividade de cada lote. Tudo
isso dentro de uma sala de controle, recebendo
informações via satélite.
A idéia
da DLG era tão boa que a Motorola criou
um equipamento similar e com baixo custo nos
EUA, em 2006 — justamente na época
em que o projeto de pesquisa da empresa de Sertãozinho
se completava. Trata-se de um chip
que tem mais ou menos a mesma função
— um GPS de bolso. "Teremos de inovar
em alguma coisa antes de lançar nosso
produto no mercado", diz Guaitoli. Mas
ele não se arrepende do esforço:
"O importante disso foi a tecnologia que
aprendemos".
Colhendo
sucesso
Nos dois casos,
a Fapesp financiou o estudo de viabilidade e
o desenvolvimento do equipamento em si. O investimento
nos dois projetos foi de R$ 438 mil: R$ 172
mil no primeiro e R$ 266 mil no segundo. A agência
paulista custeou bolsas de estagiários
e pesquisadores, equipamentos e insumos como
softwares e kits de desenvolvimento
de microprocessadores.
Guaitoli afirma
que a DLG cresceu muito e que a ajuda da Fapesp
foi fundamental. "A fundação
nos proporcionou a aquisição de
uma tecnologia eletrônica totalmente nova",
diz. A empresa, segundo ele, também fez
sua parte, buscando diferenciais para entrar
e se manter no mercado. "Não temos
uma linha de produção muito extensa;
portanto, temos de incrementá-la com
tecnologia de ponta", completa. Pouco a
pouco, a DLG foi conquistando o setor de açúcar
e álcool, expandindo seus serviços
para indústrias de papel e celulose,
pavimentação, mineração
e, desde 2002, para a agricultura. Como clientes,
destacam-se, além da Smar, o Grupo Cosan,
a Votorantim Celulose e Papel e mais de 50 usinas
de açúcar e álcool.