Rick Soluções
Motor automotivo convertido
a aeronáutico por preço baixo: empresa quer PIPE
para concorrer com produto importado dos EUA
Davi
Molinari
Em uma oficina
de 247 metros quadrados no bairro do Ipiranga,
Zona Sudeste da capital paulista, a Rick Soluções
para Aviação Experimental guarda
a sete chaves um inovador motor aeronáutico.
Trata-se de um motor automotivo convertido para
aviação experimental — batizado
de Rick 200. O motor é um V6 de alumínio
de 24 válvulas com 200 cavalos de potência,
feito pela Ford/Yamaha para rodar no automóvel
Taurus, fora de linha no Brasil, mas prestigiado
nos EUA e no Japão. De acordo com Ricardo
Romanholi Cória, autor do projeto, a
idéia de usar um motor de alumínio
com características "high tech"
se deve ao fato de ele ter "a melhor relação
peso/potência". Isso permite redução
de 65% no consumo de combustível, explica.
E qual é o combustível? Gasolina
de boa qualidade e não querosene de aviação.
O uso de motores
de automóvel em aviões não
é novo. A história da aviação,
afirma Ricardo, está associada à
indústria de automóveis —
que nasceu antes. "Os primeiros dirigíveis
e aviões, dentre eles, o Dirigível
Nº. 01 e o 14 Bis de Alberto Santos Dumont,
dependiam dos motores produzidos para triciclos
e carros", afirma. Durante as duas grandes
Guerras Mundiais, empresas das nações
européias e dos Estados Unidos desenvolveram
motores genuinamente aeronáuticos. Ele
conta que, no pós-guerra, dois fabricantes
norte-americanos de motores para aviões
leves a hélice dominaram o mercado (Lycoming
e Continental), mas não incrementaram
mudanças nos sistemas de alimentação,
ignição e refrigeração
tão depressa quanto o fizeram os fabricantes
de motores para automóveis. "São
praticamente iguais aos motores que se fabricava
no pós-guerra. Perto dos motores aeronáuticos,
os automotivos evoluíram à 'velocidade
da luz'", compara Ricardo.
O engenheiro
elétrico Jorge Eduardo Vettorazzo, parceiro
de Ricardo, concorda com a comparação.
Ele mesmo passou mais de oito horas em cima
do motor Taurus para simplificar o sistema de
comandos eletrônicos. "O motor veio
com um complexo sistema de sensores que são
importantes para os carros porque medem tudo,
inclusive o nível dos gases que saem
pelo escapamento, mas que não são
necessários em um avião que exige
confiabilidade. Quanto menos exposto a defeitos,
melhor é o motor para avião",
ensina.
O autodidata
Jorge e Ricardo
estão envolvidos na transformação
do motor automotivo desde 2002. Foi Jorge
quem descobriu, em 2005, durante um curso no
Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que era
possível buscar recursos públicos
junto à Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp) para projetos de inovação
tecnológica. Ricardo, piloto e comandante
de grandes jatos, ficou entusiasmado com a possibilidade
de receber apoio financeiro. Mesmo sem graduação,
apenas com o segundo grau, Ricardo acumulou
conhecimento aeronáutico suficiente para
projetar e pedir patente da caixa de redução
de velocidade que converte motores V6 e V8 para
aeronaves experimentais. Para ser adaptados
à aeronáutica, os motores automotivos
precisam de redutores por dois motivos: aumentar
o torque do motor para a hélice e reduzir
a rotação para que a hélice
gire dentro dos limites aeronáuticos.
O redutor é uma engrenagem que, por ter
diâmetro maior que o do eixo do motor,
reduz o giro transmitido por uma correia.
Filho de controlador
aéreo da Força Aérea Brasileira,
aos sete anos de idade Ricardo já freqüentava
a torre de controle do Aeroporto Internacional
de São Paulo/Guarulhos — Governador
André Franco Montoro. Aos dez, ganhou
seu primeiro aeromodelo. Aos 15, projetou e
desenvolveu um aeromodelo de rádio controle.
Começou a voar em ultraleve no aeroclube
de Bertioga, litoral de São Paulo, com
17 anos de idade. Não demorou a buscar
brevê de pilotagem profissional no Aeroclube
de Bragança Paulista, no interior do
Estado. Dono de um avião Cessna e freqüentador
assíduo do aeroclube, entrou para o pequeno
círculo de aficionados por aviação.
Na década de 1990, conheceu Fernando
de Almeida, jornalista especializado em aviação,
piloto e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico
de Aeronáutica (ITA) em 1959. Foi Fernando
de Almeida, falecido em acidente de teste de
aeronave em julho de 2003, quem lhe abriu a
mente para os redutores de velocidade. "No
começo da empresa, eu sabia que era mais
barato converter um motor automobilístico
do que comprar um genuinamente aeronáutico,
mas quem me explicou e me indicou o que estudar
sobre o assunto foi Fernando de Almeida",
lembra Ricardo.
O pulo
do gato
Livros de autores
especializados — por exemplo, Converting
auto engines for experimental aircraft,
de Toni Bingelis — e consultas a especialistas
deram musculatura ao projeto de Ricardo. O principal
desafio era encontrar o equilíbrio entre
a rotação do motor e a velocidade
da ponta da hélice, também chamada
de velocidade angular. Para um avião
Cessna, o giro do motor não pode ser
superior a 2.700 rotações por
minuto — o que, em termos de velocidade
angular, equivale a 80% da velocidade do som.
"Se a velocidade da ponta da hélice
se aproximar da velocidade do som, enfrentará
uma onda de choque, haverá um arrasto
muito maior que o empuxo e o avião irá
'estolar', perder a sustentação",
explica Ricardo. Arrasto e empuxo são
duas forças da aerodinâmica que
devem se igualar para o avião permanecer
no ar.
O preço
dos motores aeronáuticos para aeronaves
leves — no mínimo, US$ 24 mil —
encorajou os aviadores a desenhar redutores
para motores da Volkswagen e da Subaru no Brasil
e também nos Estados Unidos. Lá,
os próprios fabricantes aeronáuticos,
como Lycoming e Continental, que gozam da vantagem
de ser homologados legalmente, também
lançam mão de converter motores
de Mustang, Spitfire e Buick. "Não
importa se o motor tem rotação
original para a aeronáutica ou se usa
redutor: a confiabilidade vem de uma boa margem
entre a potência máxima dele e
a exigida pela aeronave", explica o engenheiro
civil e arquiteto de Minas Gerais Maurício
Impelizzieri, um dos poucos brasileiros na lista
internacional de construtores de aviões
experimentais, autor de cinco projetos de avião,
dos quais quatro ele mesmo construiu. "Inspirei
o Ricardo com meus aviões", conta.
"Não sou particularmente adepto
de motor de alumínio, prefiro os de ferro
fundido. Mas é bem melhor do que importar
motores convertidos dos Estados Unidos",
declara Impelizzieri. O aficionado piloto projetou
e construiu o Esqualo IV, para o qual importou
um motor da GM por US$ 24 mil — e ainda
teve de refazer o redutor, pois o redutor que
o motivou a comprar o motor não estava
adequado ao seu avião.
A inovação
proposta pelo motor Rick 200 está no
fato de dispensar extensor de correia e de ter
tanto o sistema de arrefecimento como o de ignição
duplicados. "Mantivemos a ignição
eletrônica, mas se ela falhar é
possível usar o magneto, uma ignição
aeronáutica. Com relação
ao sistema de refrigeração, além
de uma bomba de água acionada por correia,
instalamos uma secundária, elétrica",
explica Ricardo.
PIPE
O trabalho de
usinagem de peças, os serviços
de torneiro mecânico, o protótipo
da frente do Cessna, feito em fibra de vidro,
testes de bancada e o próprio motor importado
por US$ 2 mil consumiram R$ 120 mil em recursos
próprios dos sócios Ricardo e
Jorge. A continuidade do projeto dependia de
recursos que os sócios conseguiram do
PIPE-Fapesp: R$ 250 mil, liberados em maio de
2007.
A aprovação
demorou dois anos. Um dos assessores da Fapesp
encarregado de avaliar o projeto pediu um detalhamento
e fez muitas perguntas antes de aprová-lo.
Uma das objeções foi o fato de
os redutores já estarem sendo feitos
por aviadores experimentais. Ricardo, que gosta
de se comparar ao pai da aviação,
Santos Dumont – que não tinha formação
acadêmica e, ainda assim, conseguiu a
proeza de "voar com o primeiro objeto mais
pesado que o ar" – argumentou que
no Brasil não há nenhum redutor
próprio para um motor high tech. De acordo
com o piloto, o conjunto redutor/motor proposto
por ele é restrito à aviação
experimental menos pela questão de segurança
do que pela dificuldade que existe no Brasil
em romper as normas burocráticas que
homologam aviões civis comerciais. "Apesar
de garantir a segurança da aviação,
as Regras Brasileiras de Homologação
de Aeronaves (RBHA) foram feitas com base nas
Federal American Rules (FAR), que protegem a
indústria americana, então você
só pode substituir o motor de uma aeronave
americana homologada por outro original",
critica Ricardo.
O apoio da Fapesp
já permitiu que Ricardo conseguisse do
Departamento de Aviação Civil
(DAC, atual Agência Nacional de Aviação
Civil — Anac) licença experimental
para voar 80 horas com seu conjunto redutor/motor.
Depois o desafio será o processo de homologação,
que poderá durar até mil horas
de vôo, dependendo dos resultados técnicos
e da "colaboração das autoridades",
já que, segundo Ricardo, o antigo DAC,
agora Anac, reluta em aceitar e homologar modificações
que não sejam originais das fábricas
das aeronaves.
Mercado
A homologação
faz toda a diferença quando se trata
de equipamentos e dispositivos para aeronaves.
Um conjunto de normas internacionais e nacionais
regula a segurança do setor. Obviamente,
quem se estabeleceu no mercado tem normas que
lhes são favoráveis. Romper com
elas não é uma tarefa fácil.
O engenheiro automobilístico Eduardo
Hilton Marinho Gonzáles, da Associação
Brasileira de Ultraleves e professor de Mecatrônica
da Escola Técnica Industrial de São
Bernardo do Campo, considera ousado o caminho
de Ricardo. "Se ele produzir um motor que
fique na faixa de US$ 20 mil, dificilmente vai
obter sucesso comercial, pois vai competir com
os importados", afirma Eduardo Hilton.
Ele mantém o site www.aviacaoexperimental.pro.br
na rede mundial de computadores, onde vende
a R$ 290 desenhos de projetos para a construção
de redutores de motores VW.
Existem hoje
no Brasil 3 mil aeronaves entre ultraleves,
leves e experimentais homologadas. Pelo menos
400 estariam no chão à espera
de motores a preços razoáveis.
Para alívio de Eduardo, Ricardo calcula
que seu motor convertido, um modelo básico,
poderia suprir esta demanda ao preço
de R$ 20 mil, metade do valor do importado à
taxa de câmbio de maio de 2007.
Eduardo torce
pelo sucesso do projeto de Ricardo, mas adianta
que a tarefa não é fácil.
"Uma coisa é homologar um motor,
outra coisa é homologar mil motores.
Nesse nível, você tem de homologar
todo o processo produtivo: a metrologia, metalurgia,
química; enfim, tudo tem de estar homologado
e isto não se consegue por menos de R$
10 milhões", afirma Eduardo.
A dificuldade
só aumenta a obstinação
de Ricardo. Entre um vôo internacional
e outro, o piloto volta à oficina do
Ipiranga para surpreender toda a vizinhança
com o zunido da hélice do motor que estará
instalado no Cessna-172 para o vôo inaugural
até agosto. "Nós, brasileiros,
podemos construir um caminho para deixar de
depender das grandes empresas Lycoming, Continental
e Rotax até para a compra de uma simples
vela de motor", finaliza Ricardo.