CATG Centro de Genomas
Novo teste detecta ao mesmo
tempo vírus da Aids e da hepatite C em amostra
de sangue; transfusão será mais segura, diz empresa
Evanildo
da Silveira
O médico
infectologista Ricardo Sobhie Diaz, diretor
do Laboratório de Retrovirologia da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), sempre
desejou dedicar parte de seu tempo à
iniciativa privada. Por isso, quando a oportunidade
surgiu em 2002, ele não a desperdiçou.
Junto com a biomédica Cíntia Vilhena
dos Santos, adquiriu o Centro de Análise
e Tipagem de Genomas (CATG), empresa que havia
sido criada em 1998 por pesquisadores do Hospital
do Câncer para fazer testes de paternidade.
Cinco anos depois,
o Centro de Genomas, como é chamada a
empresa, tornou-se um laboratório de
biologia molecular especializado em doenças
infecciosas e em genética humana, com
foco em pesquisa e desenvolvimento e execução
de testes para outros laboratórios clínicos
conveniados. Agora, o CATG está empenhado
no projeto "Desenvolvimento de teste para
diagnóstico molecular combinado de infecção
pelo vírus da hepatite C (HCV) e vírus
da imunodeficiência adquirida (HIV)",
com financiamento do Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE).
Segundo Diaz,
o objetivo do projeto é o desenvolvimento
de teste diagnóstico molecular usando
a técnica chamada "Reação
em cadeia pela polimerase (PCR) em tempo real"
para a detecção combinada do HIV
e HCV. O teste será usado por bancos
de sangue. "Hoje essa é a metodologia
mais avançada em termos de amplificação
de ácidos nucléicos", diz.
"Amplificação" é
o termo usado pelos cientistas para designar
a operação que a técnica
realiza: a multiplicação dos fragmentos
de DNA, que só assim podem ser analisados.
"A tendência é de que todos
os kits comerciais que detectem e quantifiquem
ácidos nucléicos passem a adotar
esta metodologia em médio prazo."
Além de outras vantagens, ela permite
a detecção de vários genes,
de vírus diferentes, em um único
tubo de reação (multiplex).
Os ácidos
nucléicos são as substâncias
que armazenam as informações genéticas
dos seres vivos. Há dois tipos: o ácido
desoxirribonucléico (DNA) e o ácido
ribonucléico (RNA). O DNA é encontrado,
nos organismos superiores, nos cromossomos no
núcleo das células, enquanto o
RNA está presente no citoplasma da célula.
"Com o projeto que está desenvolvendo,
o CATG pretende produzir um kit com
tecnologia nacional com a cobertura de cada
uma das etapas para que o teste possa ser realizado
de forma independente: purificação
de ácidos nucléicos, produção
e estabilização de controle interno
e otimização de multiplex",
explica Diaz. "O objetivo é a melhora
da segurança do suprimento em bancos
de sangue com relação à
prevenção de transmissão
de patógenos infecciosos, nesse caso,
os vírus HIV e HCV."
Segurança
nas transfusões
O projeto surgiu
em função da Portaria No 112,
de 29 de janeiro de 2004, do governo federal,
que dispõe sobre o processo de implantação
de testes para ácidos nucléicos
para detecção desses dois vírus
na hemorrede nacional. O objetivo da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) com essa portaria é garantir
a segurança das transfusões de
sangue. Por isso, ela optou pela obrigatoriedade
da realização dos testes baseados
em ácido nucléico, chamados Nucleic
Acid Test (NAT), para detecção
do HIV e HCV. A portaria ainda não foi
implementada, no entanto, devido aos altos custos
de importação dos testes disponíveis
atualmente, para a cobertura das 4 milhões
de doações sangüíneas
anuais. "Há apenas duas empresas
no mundo, a Chiron e a Roche, que produzem esses
testes", diz Diaz. "Agora, nós
estamos tentando produzir um teste nacional,
eficiente e mais barato."
Para isso, a
CATG recorreu ao PIPE. No final de 2005, a empresa
solicitou financiamento para a Fase I do programa.
Em março de 2006 foram liberados R$ 100
mil para o estudo de viabilidade do projeto.
O dinheiro também serviu para a compra
de reagentes e a importação de
um painel de vírus HIV e HCV, fundamental
para as pesquisas. "O PIPE, além
de nos fortalecer como pesquisadores, em sua
primeira fase nos permitiu, por meio de aporte
financeiro, realizar os testes iniciais para
que o produto pudesse ser validado", explica
Cíntia. "Agora, estamos em fase
de finalização, baseando a última
validação do produto nas normas
sugeridas na consulta pública de número
53 da Anvisa".
Essa fase já
deveria estar concluída, mas a empresa
pediu prorrogação. "Preferimos
pedir mais prazo para realizar testes de campo,
em bancos de sangue", explica Diaz. "Achamos
que assim, com alguns resultados preliminares,
há mais chances de a solicitação
de financiamento para a Fase II ser aprovada."
A empresa pretende entregar os resultados da
Fase I e solicitar a Fase II dentro de dois
meses. Para isso, hoje ela conta com 27 funcionários,
dos quais quatro são pesquisadores, além
de três prestadores de serviços
fixos e um médico associado. O faturamento
médio anual é de R$ 3,85 milhões.
Quando chegar
à escala de produção industrial,
o que deve ocorrer em 2009, o teste será
fabricado pela empresa Cepheus Biotecnologia,
criada pelos mesmos sócios do CATG e
que já está incubada no Centro
para Competitividade e Inovação
do Cone Leste Paulista (Cecompi), de São
José dos Campos. "Agora estamos
em busca de investidores, bem como de capital
de subvenção, para que possamos
comercializar e oferecer ao mercado brasileiro
um produto de alta tecnologia e, obviamente,
nacional", explica Cíntia. "O
primeiro produto a ter seu desenvolvimento pronto
e a ser comercializado será o teste molecular.
Ele atenderá ao mercado de bancos de
sangue, no qual a triagem de doadores é
obrigatória."
É um
mercado significativo. O plano de negócios
do CATG para o teste que está desenvolvendo
leva em conta a grande sensibilidade e eficácia
dele. Isso permite que ele seja realizado em
"pool", ou seja, um mix
de plasmas. Isso quer dizer que em vez de testar
cada bolsa de sangue, de um doador só,
o teste seria feito com a mistura de cinco doadores
diferente. No caso de o resultado desse mix
dar positivo, ele seria aberto e as amostras
testadas individualmente, para verificar qual
delas está contaminada por vírus.
Segundo Cíntia,
com o teste sendo realizado em pool
de cinco amostras, o mercado potencial para
ele é de R$ 48 milhões. "Nosso
estudo de viabilidade prevê que conquistemos
5% desse mercado no primeiro ano de produção
do teste, 7% no segundo e terceiro anos e 12%
no quarto e quinto", diz. "Esse mercado
é formado por bancos de sangue públicos
e empresas privadas. Existem centrais sorológicas
privadas que prestam serviços a vários
hospitais. Além disso, alguns hospitais
possuem sua própria central sorológica,
o que também os torna potenciais clientes
para nosso produto."
Preencher uma lacuna
O teste que
o CATG está desenvolvendo vem preencher
uma lacuna deixada pelos existentes hoje, como
o Elisa, para a Aids. Os testes atuais não
detectam diretamente os vírus ou seu
material genético, mas os anticorpos
produzidos pelo organismo para combatê-los.
O problema é que entre o momento da infecção
e o surgimento dos anticorpos há um tempo,
uma "janela", no qual a contaminação
não é detectada pelos testes atuais.
Esse período varia de vírus para
vírus. No caso do HIV é de 30
dias e do HCV, de até três meses.
Isso é um perigo para os banco de sangue
e para as pessoas que precisam de transfusão.
"As 'janelas' entre a aquisição
da infecção e o aparecimento de
anticorpos na circulação sanguínea
dos indivíduos recém-infectados
são uma ameaça", diz Diaz. "O
banco pode recolher sangue de um doador que
tenha se infectado com o vírus da Aids
há menos de 30 dias, por exemplo, e os
testes para detectá-lo darão resultado
negativo."
Segundo a chefe
do Laboratório de Biologia Molecular
da Fundação Pró-Sangue
Hemocentro de São Paulo, Ester Cedeira
Sabino, essa é a principal causa para
a transmissão de HIV e HCV por transfusão
sanguínea. De acordo com ela, no caso
do HIV o risco de transmissão é
de 15 casos para cada 1 milhão de bolsas
de sangue. Só o Hemocentro, o maior banco
de sangue da América Latina, faz 180
mil coletas por ano. O surgimento de testes
como o que está sendo desenvolvido pelo
Centro de Genomas poderia diminuir consideravelmente
o risco de contaminação nesse
sangue. "Hoje, o que a gente faz é
uma triagem clínica e excluímos
pessoas com maior risco de adquirir estas infecções
da doação", explica Ester.
Os doadores são questionados sobre o
seu comportamento sexual (número de parceiros,
se usam o preservativo) e sobre o uso de droga
endovenosa. Os homens têm de responder
se tiveram relação sexual com
outro homem no ano anterior.
Com os testes
que começam a surgir, esse tipo de triagem
em breve poderá ser coisa do passado.
Esses novos testes se baseiam no fato de que
antes do surgimento dos anticorpos, a presença
do vírus pode ser detectada por outros
indicadores, como os ácidos nucléicos.
No caso do HIV, por exemplo, ele começa
a se replicar no organismo 15 dias após
a infecção. A partir daí
é possível detectar seu material
genético, no caso o RNA e não
o DNA (por isso, ele é classificado como
retrovírus). É justamente esse
ácido nucléico que o teste que
vem sendo desenvolvido pelo CATG tenta detectar,
diminuindo a "janela" para uma transfusão
segura.
Embora a Aids
seja uma doença que apavore todo mundo,
a necessidade de detecção do HCV
em suprimentos de hemoderivados é até
mais importante, segundo Diaz. Isso porque
enquanto a prevalência do HIV em doadores
de sangue no Brasil é de 0,04%, a prevalência
do HCV é de 0,21%. "Além
disso, o período que vai do aparecimento
do RNA do HCV e da detecção de
anticorpos é maior, 56,3 dias, e muito
mais variável", diz Diaz. "Estima-se,
por exemplo, que até 5% dos doadores
de sangue infectados pelo HCV apresentaram RNA
positivo no soro com anticorpos negativos."
De acordo com Diaz, o HCV infecta de 3%
a 5% da população mundial e estima-se
que mais de 175 milhões de pessoas estejam
infectadas, não havendo também
forma de prevenção por meio da
vacinação.
Desafios
Os principais
desafios para o desenvolvimento de um teste
diagnóstico de qualidade, do tipo que
o CATG está fazendo, passam basicamente
pela dificuldade na construção
de um controle interno (calibrador) e pela otimização
de multiplex. Segundo Diaz, o CATG
já venceu o desafio do calibrador. Sua
maior inovação no projeto foi
a "construção" de um
vírus artificial, que serve como controle
interno do teste. "É uma molécula
que mimetiza um vírus de verdade e é
adicionada à amostra que se quer testar
para monitorar a eficiência das etapas
de reação de detecção
de um determinado patógeno", explica
Cíntia. "Sem esse controle interno
não poderemos atestar com certeza se
um teste negativo é realmente negativo
ou falsamente negativo."
Segundo Diaz
e Cíntia, boa parte da metodologia laboratorial
para o teste já foi desenvolvida pelo
CATG nos últimos três anos. "As
etapas relacionadas à construção
de um controle interno, ao desenvolvimento de
metodologia de purificação de
RNA e ao desenho e otimização
de iniciadores e sondas para amplificação
do HIV e HCV já foram cumpridas, necessitando
apenas de alguns ajustes", explica Diaz.
"As etapas subseqüentes, ainda por
serem completadas, relacionam-se à otimização
de multiplex para amplificação
das moléculas alvo do HIV e HCV em um
mesmo tubo, estabelecimento de sensibilidade
da metodologia e exploração da
possibilidade de se trabalhar em pool
de amostras e validação dos testes
com painel de amostras clínicas provenientes
de bancos de sangue."
Mudanças
gerenciais
Depois que foi
adquirido pelos seus atuais proprietários,
o Centro de Genomas passou por mudanças
gerenciais e aperfeiçoamento estrutural.
"Com isso, pudemos então ampliar
e diversificar nossa gama de serviços,
construindo novas parcerias e fortalecendo as
já conquistadas", diz Cíntia.
"Esse crescimento foi contínuo durante
os anos seguintes à aquisição,
o que resultou no final de 2005 em uma nova
sede, mais ampla e com capacidade estimada para
as novas conquistas da empresa. Para isso trabalhamos
com profissionais atentos a todos os detalhes,
que garantem serviços cuidadosos e detalhados."
Dentre os testes
desenvolvidos para uso pelo próprio laboratório
estão a genotipagem do HIV, do HCV e
do vírus da hepatite B (HBV), por seqüenciamento
genômico; genotipagem do Papiloma Vírus
Humano (HPV), que pode causar câncer do
colo do útero; detecção
de ampla gama de patógenos infecciosos
e desenvolvimento de testes de identificação
humana. "Especialmente na área relacionada
a patógenos infecciosos, os testes de
desenvolvimento próprio têm uma
vital importância dada a necessidade de
adaptação de iniciadores e sondas
à diversidade genética dos agentes
circulantes em nossa região", diz
Diaz. "Alguns kits comerciais
desenvolvidos na América do Norte e na
Europa ocidental por vezes padecem de menor
sensibilidade e especificidade a patógenos
que circulam em nossa área. Além
disso, os testes de desenvolvimento próprio
transformam-se em alternativa mais barata e
seu desenvolvimento fomenta a massa crítica
local."