Publicado em 14 de maio de 2007






CATG Centro de Genomas

Novo teste detecta ao mesmo tempo vírus da Aids e da hepatite C em amostra de sangue; transfusão será mais segura, diz empresa

Evanildo da Silveira

O médico infectologista Ricardo Sobhie Diaz, diretor do Laboratório de Retrovirologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sempre desejou dedicar parte de seu tempo à iniciativa privada. Por isso, quando a oportunidade surgiu em 2002, ele não a desperdiçou. Junto com a biomédica Cíntia Vilhena dos Santos, adquiriu o Centro de Análise e Tipagem de Genomas (CATG), empresa que havia sido criada em 1998 por pesquisadores do Hospital do Câncer para fazer testes de paternidade.

Cinco anos depois, o Centro de Genomas, como é chamada a empresa, tornou-se um laboratório de biologia molecular especializado em doenças infecciosas e em genética humana, com foco em pesquisa e desenvolvimento e execução de testes para outros laboratórios clínicos conveniados. Agora, o CATG está empenhado no projeto "Desenvolvimento de teste para diagnóstico molecular combinado de infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) e vírus da imunodeficiência adquirida (HIV)", com financiamento do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE).

Segundo Diaz, o objetivo do projeto é o desenvolvimento de teste diagnóstico molecular usando a técnica chamada "Reação em cadeia pela polimerase (PCR) em tempo real" para a detecção combinada do HIV e HCV. O teste será usado por bancos de sangue. "Hoje essa é a metodologia mais avançada em termos de amplificação de ácidos nucléicos", diz.  "Amplificação" é o termo usado pelos cientistas para designar a operação que a técnica realiza: a multiplicação dos fragmentos de DNA, que só assim podem ser analisados. "A tendência é de que todos os kits comerciais que detectem e quantifiquem ácidos nucléicos passem a adotar esta metodologia em médio prazo." Além de outras vantagens, ela permite a detecção de vários genes, de vírus diferentes, em um único tubo de reação (multiplex).

Os ácidos nucléicos são as substâncias que armazenam as informações genéticas dos seres vivos. Há dois tipos: o ácido desoxirribonucléico (DNA) e o ácido ribonucléico (RNA). O DNA é encontrado, nos organismos superiores, nos cromossomos no núcleo das células, enquanto o RNA está presente no citoplasma da célula. "Com o projeto que está desenvolvendo, o CATG pretende produzir um kit com tecnologia nacional com a cobertura de cada uma das etapas para que o teste possa ser realizado de forma independente: purificação de ácidos nucléicos, produção e estabilização de controle interno e otimização de multiplex", explica Diaz. "O objetivo é a melhora da segurança do suprimento em bancos de sangue com relação à prevenção de transmissão de patógenos infecciosos, nesse caso, os vírus HIV e HCV."

Segurança nas transfusões

O projeto surgiu em função da Portaria No 112, de 29 de janeiro de 2004, do governo federal, que dispõe sobre o processo de implantação de testes para ácidos nucléicos para detecção desses dois vírus na hemorrede nacional. O objetivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com essa portaria é garantir a segurança das transfusões de sangue. Por isso, ela optou pela obrigatoriedade da realização dos testes baseados em ácido nucléico, chamados Nucleic Acid Test (NAT), para detecção do HIV e HCV. A portaria ainda não foi implementada, no entanto, devido aos altos custos de importação dos testes disponíveis atualmente, para a cobertura das 4 milhões de doações sangüíneas anuais. "Há apenas duas empresas no mundo, a Chiron e a Roche, que produzem esses testes", diz Diaz. "Agora, nós estamos tentando produzir um teste nacional, eficiente e mais barato."

Para isso, a CATG recorreu ao PIPE. No final de 2005, a empresa solicitou financiamento para a Fase I do programa. Em março de 2006 foram liberados R$ 100 mil para o estudo de viabilidade do projeto. O dinheiro também serviu para a compra de reagentes e a importação de um painel de vírus HIV e HCV, fundamental para as pesquisas. "O PIPE, além de nos fortalecer como pesquisadores, em sua primeira fase nos permitiu, por meio de aporte financeiro, realizar os testes iniciais para que o produto pudesse ser validado", explica Cíntia. "Agora, estamos em fase de finalização, baseando a última validação do produto nas normas sugeridas na consulta pública de número 53 da Anvisa".

Essa fase já deveria estar concluída, mas a empresa pediu prorrogação. "Preferimos pedir mais prazo para realizar testes de campo, em bancos de sangue", explica Diaz. "Achamos que assim, com alguns resultados preliminares, há mais chances de a solicitação de financiamento para a Fase II ser aprovada." A empresa pretende entregar os resultados da Fase I e solicitar a Fase II dentro de dois meses. Para isso, hoje ela conta com 27 funcionários, dos quais quatro são pesquisadores, além de três prestadores de serviços fixos e um médico associado. O faturamento médio anual é de R$ 3,85 milhões.  

Quando chegar à escala de produção industrial, o que deve ocorrer em 2009, o teste será fabricado pela empresa Cepheus Biotecnologia, criada pelos mesmos sócios do CATG e que já está incubada no Centro para Competitividade e Inovação do Cone Leste Paulista (Cecompi), de São José dos Campos. "Agora estamos em busca de investidores, bem como de capital de subvenção, para que possamos comercializar e oferecer ao mercado brasileiro um produto de alta tecnologia e, obviamente, nacional", explica Cíntia. "O primeiro produto a ter seu desenvolvimento pronto e a ser comercializado será o teste molecular. Ele atenderá ao mercado de bancos de sangue, no qual a triagem de doadores é obrigatória."

É um mercado significativo. O plano de negócios do CATG para o teste que está desenvolvendo leva em conta a grande sensibilidade e eficácia dele. Isso permite que ele seja realizado em "pool", ou seja, um mix de plasmas. Isso quer dizer que em vez de testar cada bolsa de sangue, de um doador só, o teste seria feito com a mistura de cinco doadores diferente. No caso de o resultado desse mix dar positivo, ele seria aberto e as amostras testadas individualmente, para verificar qual delas está contaminada por vírus.

Segundo Cíntia, com o teste sendo realizado em pool de cinco amostras, o mercado potencial para ele é de R$ 48 milhões. "Nosso estudo de viabilidade prevê que conquistemos 5% desse mercado no primeiro ano de produção do teste, 7% no segundo e terceiro anos e 12% no quarto e quinto", diz. "Esse mercado é formado por bancos de sangue públicos e empresas privadas. Existem centrais sorológicas privadas que prestam serviços a vários hospitais. Além disso, alguns hospitais possuem sua própria central sorológica, o que também os torna potenciais clientes para nosso produto."
 
Preencher uma lacuna

O teste que o CATG está desenvolvendo vem preencher uma lacuna deixada pelos existentes hoje, como o Elisa, para a Aids. Os testes atuais não detectam diretamente os vírus ou seu material genético, mas os anticorpos produzidos pelo organismo para combatê-los. O problema é que entre o momento da infecção e o surgimento dos anticorpos há um tempo, uma "janela", no qual a contaminação não é detectada pelos testes atuais. Esse período varia de vírus para vírus. No caso do HIV é de 30 dias e do HCV, de até três meses. Isso é um perigo para os banco de sangue e para as pessoas que precisam de transfusão. "As 'janelas' entre a aquisição da infecção e o aparecimento de anticorpos na circulação sanguínea dos indivíduos recém-infectados são uma ameaça", diz Diaz. "O banco pode recolher sangue de um doador que tenha se infectado com o vírus da Aids há menos de 30 dias, por exemplo, e os testes para detectá-lo darão resultado negativo."

Segundo a chefe do Laboratório de Biologia Molecular da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo, Ester Cedeira Sabino, essa é a principal causa para a transmissão de HIV e HCV por transfusão sanguínea. De acordo com ela, no caso do HIV o risco de transmissão é de 15 casos para cada 1 milhão de bolsas de sangue. Só o Hemocentro, o maior banco de sangue da América Latina, faz 180 mil coletas por ano. O surgimento de testes como o que está sendo desenvolvido pelo Centro de Genomas poderia diminuir consideravelmente o risco de contaminação nesse sangue. "Hoje, o que a gente faz é uma triagem clínica e excluímos pessoas com maior risco de adquirir estas infecções da doação", explica Ester. Os doadores são questionados sobre o seu comportamento sexual (número de parceiros, se usam o preservativo) e sobre o uso de droga endovenosa. Os homens têm de responder se tiveram relação sexual com outro homem no ano anterior.

Com os testes que começam a surgir, esse tipo de triagem em breve poderá ser coisa do passado. Esses novos testes se baseiam no fato de que antes do surgimento dos anticorpos, a presença do vírus pode ser detectada por outros indicadores, como os ácidos nucléicos. No caso do HIV, por exemplo, ele começa a se replicar no organismo 15 dias após a infecção. A partir daí é possível detectar seu material genético, no caso o RNA e não o DNA (por isso, ele é classificado como retrovírus). É justamente esse ácido nucléico que o teste que vem sendo desenvolvido pelo CATG tenta detectar, diminuindo a "janela" para uma transfusão segura.

Embora a Aids seja uma doença que apavore todo mundo, a necessidade de detecção do HCV em suprimentos de hemoderivados é até mais importante, segundo Diaz. Isso porque enquanto a prevalência do HIV em doadores de sangue no Brasil é de 0,04%, a prevalência do HCV é de 0,21%. "Além disso, o período que vai do aparecimento do RNA do HCV e da detecção de anticorpos é maior, 56,3 dias, e muito mais variável", diz Diaz. "Estima-se, por exemplo, que até 5% dos doadores de sangue infectados pelo HCV apresentaram RNA positivo no soro com anticorpos negativos." De acordo com Diaz,  o HCV infecta de 3% a 5% da população mundial e estima-se que mais de 175 milhões de pessoas estejam infectadas, não havendo também forma de prevenção por meio da vacinação.

Desafios

Os principais desafios para o desenvolvimento de um teste diagnóstico de qualidade, do tipo que o CATG está fazendo, passam basicamente pela dificuldade na construção de um controle interno (calibrador) e pela otimização de multiplex. Segundo Diaz, o CATG já venceu o desafio do calibrador. Sua maior inovação no projeto foi a "construção" de um vírus artificial, que serve como controle interno do teste. "É uma molécula que mimetiza um vírus de verdade e é adicionada à amostra que se quer testar para monitorar a eficiência das etapas de reação de detecção de um determinado patógeno", explica Cíntia. "Sem esse controle interno não poderemos atestar com certeza se um teste negativo é realmente negativo ou falsamente negativo."

Segundo Diaz e Cíntia, boa parte da metodologia laboratorial para o teste já foi desenvolvida pelo CATG nos últimos três anos. "As etapas relacionadas à construção de um controle interno, ao desenvolvimento de metodologia de purificação de RNA e ao desenho e otimização de iniciadores e sondas para amplificação do HIV e HCV já foram cumpridas, necessitando apenas de alguns ajustes", explica Diaz.  "As etapas subseqüentes, ainda por serem completadas, relacionam-se à otimização de multiplex para amplificação das moléculas alvo do HIV e HCV em um mesmo tubo, estabelecimento de sensibilidade da metodologia e exploração da possibilidade de se trabalhar em pool de amostras e validação dos testes com painel de amostras clínicas provenientes de bancos de sangue."

Mudanças gerenciais

Depois que foi adquirido pelos seus atuais proprietários, o Centro de Genomas passou por mudanças gerenciais e aperfeiçoamento estrutural. "Com isso, pudemos então ampliar e diversificar nossa gama de serviços, construindo novas parcerias e fortalecendo as já conquistadas", diz Cíntia. "Esse crescimento foi contínuo durante os anos seguintes à aquisição, o que resultou no final de 2005 em uma nova sede, mais ampla e com capacidade estimada para as novas conquistas da empresa. Para isso trabalhamos com profissionais atentos a todos os detalhes, que garantem serviços cuidadosos e detalhados."

Dentre os testes desenvolvidos para uso pelo próprio laboratório estão a genotipagem do HIV, do HCV e do vírus da hepatite B (HBV), por seqüenciamento genômico; genotipagem do Papiloma Vírus Humano (HPV), que pode causar câncer do colo do útero; detecção de ampla gama de patógenos infecciosos e desenvolvimento de testes de identificação humana. "Especialmente na área relacionada a patógenos infecciosos, os testes de desenvolvimento próprio têm uma vital importância dada a necessidade de adaptação de iniciadores e sondas à diversidade genética dos agentes circulantes em nossa região", diz Diaz. "Alguns kits comerciais desenvolvidos na América do Norte e na Europa ocidental por vezes padecem de menor sensibilidade e especificidade a patógenos que circulam em nossa área. Além disso, os testes de desenvolvimento próprio transformam-se em alternativa mais barata e seu desenvolvimento fomenta a massa crítica local."