Oncocell Biotecnologia
Mercado de cavalos de raça
é alvo de vacina contra câncer de pele desenvolvida
a partir de produto similar já utilizado em ser
humano
Evanildo
da Silveira
Após
quase três anos de pesquisa, a Oncocell
Biotecnologia prepara-se para lançar,
ainda em 2007, a primeira vacina terapêutica
contra o melanoma eqüino. A doença
— um câncer — é muito
comum em cavalos das raças árabe
e lusitano de pelagem tordilha. A vacina está
sendo desenvolvida pela empresa paulistana com
financiamento do Programa de Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE),
sob a coordenação da médica
veterinária Cristina Massoco. Fundada
em 2000, a Oncocell surgiu a partir da expansão
do Laboratório de Patologia Molecular
e Celular (LPMC), criado em 1970 para atender
o Hospital Sírio-Libanês nos serviços
clínicos necessários a procedimentos
complexos como transplantes e cirurgias radicais.
O laboratório
foi pioneiro no uso da biologia molecular para
diagnóstico de rotina. "A partir
de 1992, fomos gradualmente substituindo antigos
procedimentos por exames moleculares de maior
sensibilidade e especificidade", diz o
médico patologista Luiz Heraldo Camara
Lopes, um dos fundadores do LPMC. "A pesquisa
de numerosos agentes patogênicos passou
a ser feita a partir da detecção
de seu material genético." Com o
tempo, foram surgindo novas idéias para
pesquisas e o LPMC começou a ficar pequeno.
"Foi então que resolvemos criar
a Oncocell, para desenvolver vacinas contra
o câncer", conta Lopes.
A pesquisa
já vinha sendo feita com pacientes de
dois tipos de câncer, o melanoma, de pele,
e o carcinoma, de rim. Esse trabalho foi parcialmente
financiado pela Fapesp, mas não pelo
PIPE. No início de 2005, a Oncocell lançou
no mercado a Hybricell, a primeira vacina terapêutica
contra o melanoma e o câncer de rim desenvolvida
no Brasil. Ela foi feita em conjunto por pesquisadores
do Instituto de Ciências Biomédicas
da Universidade de São Paulo (ICB-USP)
e do LPMC, além dos da Oncocell. O trabalho
durou dez anos. Os primeiros testes começaram
a ser realizados em 2001 com mais de cem doentes
em estado terminal.
Aprovada
pela Anvisa
Os bons resultados
fizeram com que a vacina fosse aprovada pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), órgão que autoriza a
comercialização de medicamentos
no Brasil. Nos testes, sua aplicação
deteve a expansão dos tumores em 80%.
O tratamento com Hybricell melhorou ainda a
qualidade de vida de pacientes que já
tinham a doença espalhada pelo organismo.
Além disso, a sobrevida deles, em alguns
casos, passou de seis para mais de 22 meses.
Com isso, muitos pacientes puderam voltar a
ter uma vida normal. A vacina é feita
individualmente para cada paciente e custa R$
3,5 mil.
Quando teve
conhecimento desses resultados, Cristina, que
trabalhava num hospital veterinário em
Jundiaí (SP), resolveu sugerir à
Oncocell, em 2004, o desenvolvimento de uma
vacina para o melanoma eqüino. Ela amparou
sua sugestão no fato de ser mais fácil
desenvolver uma vacina para animais, pois há
menos restrições éticas
e práticas para testes. Também
pesou a alta incidência de melanoma em
cavalos e o grande mercado potencial para uma
vacina dessas. "Segundos dados do IBGE,
há no Brasil seis milhões de animais,
dos quais entre 3% e 8% são acometidos
de melanoma", diz Cristina. "Ou seja,
existem entre 180 mil e 480 mil eqüinos
com esse tipo de câncer no País,
levando a uma perda econômica e genética
considerável do mercado agropecuário."
De acordo com
Cristina, o melanoma é particularmente
comum em cavalos a partir dos cinco anos de
idade e de pelagem tordilha. Os tratamentos
hoje existentes são principalmente aplicação
de quimioterápicos, imunomoduladores
ou cirurgias. Todos apresentam algum inconveniente,
como a toxicidade elevada ou pouca eficiência.
Daí surgiu a idéia de verificar
se uma vacina semelhante à Hybricell
para humanos poderia dar resultados em cavalos.
Esse é o objetivo do projeto "Vacina
terapêutica para melanoma eqüino",
da Oncocell.
Para levá-lo
adiante, a empresa solicitou um financiamento
do PIPE, Fase I, que foi aprovado em setembro
daquele ano. Foram R$ 72 mil, usados para avaliar
a viabilidade do projeto e comprar reagentes.
Em março de 2005, a Oncocell solicitou
novo financiamento, dessa vez para a Fase II
do PIPE, o qual foi aprovado em julho de 2005.
O valor liberado foi de R$ 340 mil, empregados
na compra de equipamentos e insumos para a pesquisa.
O projeto deverá estar concluído
em junho deste ano, com uma vacina eficaz.
Da
mesma maneira
As vacinas
humana e eqüina são feitas da mesma
maneira. Elas usam o potencial terapêutico
das células dendríticas —
que têm a função de
"apresentar" ao sistema imunológico
qualquer substância estranha ao organismo,
para que seja atacada e destruída. Em
outras palavras, as células dendríticas
têm a função de capturar,
processar e tornar potencialmente "reconhecível"
pelo sistema imunológico qualquer substância.
Nas doenças infecciosas, por exemplo,
são elas que dão ao sistema de
defesa do organismo o alerta sobre a presença
de antígenos, como são chamadas
as substâncias produzidas por uma bactéria
ou vírus.
Esse mesmo
processo deveria ocorrer em caso de câncer,
pois as células tumorais sofrem tantas
alterações bioquímicas
que o organismo poderia vê-las como inimigas
e reagir. Não é o que acontece,
no entanto. Ainda não se sabe bem como,
mas o tumor cria um ambiente onde as células
dendríticas não desempenham sua
função de forma adequada. Isso
ocorre em dois níveis. O primeiro deles
é uma deficiência de maturação
das células dendríticas.
Para que elas
apresentem um antígeno ao sistema imunológico
de maneira eficiente, têm de estar em
um estágio descrito como de células
"ativadas". "No caso de câncer,
essa passagem do estágio ainda imaturo
para o 'ativado' está, muitas vezes,
bloqueada no microambiente tumoral", explica
Lopes. "Assim, as células dendríticas
que capturam e processam os antígenos
ali presentes (ou seja, tumorais) não
se ativam e, portanto, não são
capazes de desencadear uma resposta do sistema
de defesa, para combater o tumor."
Num segundo
nível, o câncer impede a própria
produção de células dendríticas.
Normalmente, elas são feitas a partir
de outras células precursoras, chamadas
monócitos, presentes na circulação
sangüínea. Em um organismo sadio,
esses monócitos se diferenciam, isto
é, se transformam em células dendríticas.
O câncer dificulta ou impede essa transformação,
tornando ainda mais difícil o início
de uma resposta imune contra o tumor. O que
os pesquisadores fizeram no caso da vacina foi
driblar esses problemas, produzindo células
dendríticas a partir de monócitos
em laboratório, técnica já
conhecida que se desenvolveu nos últimos
dez anos. Com essa inovação tornou-se
possível gerar células dendríticas
em grande quantidade e de maneira relativamente
simples.
Para fazer
a vacina propriamente dita, os pesquisadores
usam dois tipo de células. As dendríticas
produzidas em laboratório a partir de
monócitos retirados do sangue de doadores
saudáveis e as do tumor do próprio
paciente. Por isso, a vacina é personalizada,
feita especialmente para cada portador de tumor.
O doador saudável é necessário,
porque tanto os monócitos como as células
dendríticas do portador de câncer
não funcionam direito. Em seguida, os
dois tipos de células são fundidos,
num processo que lembra a clonagem da ovelha
Dolly. Colocadas lado a lado, as células
recebem uma descarga elétrica e se fundem.
A célula
híbrida resultante tem dois núcleos.
Para impedir que se multiplique no organismo
do paciente vacinado, ela recebe uma dose de
radiação que a esteriliza. Com
esse processo, consegue-se uma célula
capaz de estimular o sistema imunológico
e ao mesmo tempo "apresentar" as substâncias
estranhas que definem o tumor. O tratamento
consiste em pelo menos duas doses, com intervalo
de seis semanas entre cada aplicação.
Inovação
eqüina
No caso da
vacina para cavalos, a grande inovação
introduzida por Cristina foi a substância
usada no laboratório, um ativador do
sistema imunológico para transformar
os monócitos em células dendríticas.
A usada por Cristina substitui a importada,
que embora seja mais eficiente, também
é bem mais cara. A menor eficiência
na transformação de monócitos
em dendríticas não interferiu
nos resultados obtidos com a vacina produzida
por Cristina. "Vacinamos 47 animais, que
receberam cada um no mínimo seis doses",
conta Cristina. "Os resultados foram bons
e sem efeitos colaterais. Cerca de 80% dos animais
vacinados apresentaram resposta parcial ao tratamento,
mostrando benefícios clínicos,
como diminuição do tamanho do
tumor em 50%, e melhora da qualidade de vida
deles."
Para Neimar
Roncati, presidente do conselho técnico
da Associação Brasileira de Criadores
do Cavalo Puro Sangue Lusitano (ABPSL), uma
vacina para o melanoma eqüino como a que
está sendo desenvolvida por Cristina
é bem-vinda. "O surgimento de uma
vacina que controle o desenvolvimento crônico
deste câncer de pele pode ser um fator
extremamente importante na criação
de cavalos de diferentes raças, já
que esta afecção é bastante
comum", diz ele, que também é
coordenador do curso de Medicina Veterinária
da Universidade Anhembi-Morumbi. "No caso
da raça puro sangue lusitano, o número
de animais que apresenta esta afecção
de pele, denominada melanoma, é bastante
grande. Cerca de 65% da raça é
de pelagem tordilha e suas derivações,
fato que aumenta a possibilidade de incidência
da doença. Estimo que perto de 20% desses
animais apresentem alterações
compatíveis com melanoma de pele."
Segundo Roncati,
hoje existem tratamentos preconizados para esta
afecção como a administração
de cimetidina por meses consecutivos, mas muitos
trabalhos se contrapõem a resultados
efetivos nessas terapias. "Também
sabemos de grupos de pesquisa que hoje produzem
autovacinas para os diferentes tipos de neoplasias
de pele, incluindo o melanoma", diz. "Normalmente
esses cavalos vivem ou convivem bem com essa
doença e raramente morrem por causa dela,
mas podem acontecer problemas secundários
capazes de diminuir a sobrevida dos animais."
Daí, segundo ele, a importância
de uma vacina que melhore a qualidade de vida
dos animais e aumente sua sobrevida.
Outras
empresas
A vacina para
melanoma eqüino não foi o único
produto da Oncocell. Ela, na verdade, deu origem
a um grupo de empresas, controladas hoje pela
holding Genoa Biotecnologia. A primeira
a surgir foi a Genoa Diagnósticos, criada
em 2001 com o objetivo principal de fornecer
alta tecnologia na área de medicina veterinária.
A empresa oferece testes baseados em DNA para
a investigação de patógenos
em animais. Em 2003 foi criada a Indicus Biotecnologia,
depois de a Genoa ter sido procurada por um
grupo de pecuaristas interessados em testes
de identificação por DNA, como
genotipagem, paternidade, diagnósticos
de precisão.
A Genoa Biotecnologia foi constituída
para controlar essas empresas. "Verificamos
que era difícil administrar todas elas",
explica Lopes. "Então, resolvemos
criar essa holding." Desde então,
segundo ele, já foram investidos US$
4 milhões na construção
dos laboratórios e de uma infra-estrutura
de tecnologia de última geração,
em duas plantas separadas na cidade de São
Paulo. Os laboratórios contam com cerca
de 30 pesquisadores — a maioria deles
PhDs com experiência em diferentes áreas
de laboratórios.