Publicado em 30 de abril de 2007






Oncocell Biotecnologia

Mercado de cavalos de raça é alvo de vacina contra câncer de pele desenvolvida a partir de produto similar já utilizado em ser humano

Evanildo da Silveira

Após quase três anos de pesquisa, a Oncocell Biotecnologia prepara-se para lançar, ainda em 2007, a primeira vacina terapêutica contra o melanoma eqüino. A doença — um câncer — é muito comum em cavalos das raças árabe e lusitano de pelagem tordilha. A vacina está sendo desenvolvida pela empresa paulistana com financiamento do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), sob a coordenação da médica veterinária Cristina Massoco. Fundada em 2000, a Oncocell surgiu a partir da expansão do Laboratório de Patologia Molecular e Celular (LPMC), criado em 1970 para atender o Hospital Sírio-Libanês nos serviços clínicos necessários a procedimentos complexos como transplantes e cirurgias radicais.

O laboratório foi pioneiro no uso da biologia molecular para diagnóstico de rotina. "A partir de 1992, fomos gradualmente substituindo antigos procedimentos por exames moleculares de maior sensibilidade e especificidade", diz o médico patologista Luiz Heraldo Camara Lopes, um dos fundadores do LPMC. "A pesquisa de numerosos agentes patogênicos passou a ser feita a partir da detecção de seu material genético." Com o tempo, foram surgindo novas idéias para pesquisas e o LPMC começou a ficar pequeno. "Foi então que resolvemos criar a Oncocell, para desenvolver vacinas contra o câncer", conta Lopes.

A pesquisa já vinha sendo feita com pacientes de dois tipos de câncer, o melanoma, de pele, e o carcinoma, de rim. Esse trabalho foi parcialmente financiado pela Fapesp, mas não pelo PIPE. No início de 2005, a Oncocell lançou no mercado a Hybricell, a primeira vacina terapêutica contra o melanoma e o câncer de rim desenvolvida no Brasil. Ela foi feita em conjunto por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e do LPMC, além dos da Oncocell. O trabalho durou dez anos. Os primeiros testes começaram a ser realizados em 2001 com mais de cem doentes em estado terminal.

Aprovada pela Anvisa

Os bons resultados fizeram com que a vacina fosse aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão que autoriza a comercialização de medicamentos no Brasil. Nos testes, sua aplicação deteve a expansão dos tumores em 80%. O tratamento com Hybricell melhorou ainda a qualidade de vida de pacientes que já tinham a doença espalhada pelo organismo. Além disso, a sobrevida deles, em alguns casos, passou de seis para mais de 22 meses. Com isso, muitos pacientes puderam voltar a ter uma vida normal. A vacina é feita individualmente para cada paciente e custa R$ 3,5 mil.

Quando teve conhecimento desses resultados, Cristina, que trabalhava num hospital veterinário em Jundiaí (SP), resolveu sugerir à Oncocell, em 2004, o desenvolvimento de uma vacina para o melanoma eqüino. Ela amparou sua sugestão no fato de ser mais fácil desenvolver uma vacina para animais, pois há menos restrições éticas e práticas para testes. Também pesou a alta incidência de melanoma em cavalos e o grande mercado potencial para uma vacina dessas. "Segundos dados do IBGE, há no Brasil seis milhões de animais, dos quais entre 3% e 8% são acometidos de melanoma", diz Cristina. "Ou seja, existem entre 180 mil e 480 mil eqüinos com esse tipo de câncer no País, levando a uma perda econômica e genética considerável do mercado agropecuário."

De acordo com Cristina, o melanoma é particularmente comum em cavalos a partir dos cinco anos de idade e de pelagem tordilha. Os tratamentos hoje existentes são principalmente aplicação de quimioterápicos, imunomoduladores ou cirurgias. Todos apresentam algum inconveniente, como a toxicidade elevada ou pouca eficiência. Daí surgiu a idéia de verificar se uma vacina semelhante à Hybricell para humanos poderia dar resultados em cavalos. Esse é o objetivo do projeto "Vacina terapêutica para melanoma eqüino", da Oncocell.

Para levá-lo adiante, a empresa solicitou um financiamento do PIPE, Fase I, que foi aprovado em setembro daquele ano. Foram R$ 72 mil, usados para avaliar a viabilidade do projeto e comprar reagentes. Em março de 2005, a Oncocell solicitou novo financiamento, dessa vez para a Fase II do PIPE, o qual foi aprovado em julho de 2005. O valor liberado foi de R$ 340 mil, empregados na compra de equipamentos e insumos para a pesquisa. O projeto deverá estar concluído em junho deste ano, com uma vacina eficaz.

Da mesma maneira

As vacinas humana e eqüina são feitas da mesma maneira. Elas usam o potencial terapêutico das células dendríticas — que têm  a função de "apresentar" ao sistema imunológico qualquer substância estranha ao organismo, para que seja atacada e destruída. Em outras palavras, as células dendríticas têm a função de capturar, processar e tornar potencialmente "reconhecível" pelo sistema imunológico qualquer substância. Nas doenças infecciosas, por exemplo, são elas que dão ao sistema de defesa do organismo o alerta sobre a presença de antígenos, como são chamadas as substâncias produzidas por uma bactéria ou vírus.

Esse mesmo processo deveria ocorrer em caso de câncer, pois as células tumorais sofrem tantas alterações bioquímicas que o organismo poderia vê-las como inimigas e reagir. Não é o que acontece, no entanto. Ainda não se sabe bem como, mas o tumor cria um ambiente onde as células dendríticas não desempenham sua função de forma adequada. Isso ocorre em dois níveis. O primeiro deles é uma deficiência de maturação das células dendríticas.

Para que elas apresentem um antígeno ao sistema imunológico de maneira eficiente, têm de estar em um estágio descrito como de células "ativadas". "No caso de câncer, essa passagem do estágio ainda imaturo para o 'ativado' está, muitas vezes, bloqueada no microambiente tumoral", explica Lopes. "Assim, as células dendríticas que capturam e processam os antígenos ali presentes (ou seja, tumorais) não se ativam e, portanto, não são capazes de desencadear uma resposta do sistema de defesa, para combater o tumor."

Num segundo nível, o câncer impede a própria produção de células dendríticas. Normalmente, elas são feitas a partir de outras células precursoras, chamadas monócitos, presentes na circulação sangüínea. Em um organismo sadio, esses monócitos se diferenciam, isto é, se transformam em células dendríticas. O câncer dificulta ou impede essa transformação, tornando ainda mais difícil o início de uma resposta imune contra o tumor. O que os pesquisadores fizeram no caso da vacina foi driblar esses problemas, produzindo células dendríticas a partir de monócitos em laboratório, técnica já conhecida que se desenvolveu nos últimos dez anos. Com essa inovação tornou-se possível gerar células dendríticas em grande quantidade e de maneira relativamente simples.

Para fazer a vacina propriamente dita, os pesquisadores usam dois tipo de células. As dendríticas produzidas em laboratório a partir de monócitos retirados do sangue de doadores saudáveis e as do tumor do próprio paciente. Por isso, a vacina é personalizada, feita especialmente para cada portador de tumor. O doador saudável é necessário, porque tanto os monócitos como as células dendríticas do portador de câncer não funcionam direito. Em seguida, os dois tipos de células são fundidos, num processo que lembra a clonagem da ovelha Dolly. Colocadas lado a lado, as células recebem uma descarga elétrica e se fundem.

A célula híbrida resultante tem dois núcleos. Para impedir que se multiplique no organismo do paciente vacinado, ela recebe uma dose de radiação que a esteriliza. Com esse processo, consegue-se uma célula capaz de estimular o sistema imunológico e ao mesmo tempo "apresentar" as substâncias estranhas que definem o tumor. O tratamento consiste em pelo menos duas doses, com intervalo de seis semanas entre cada aplicação.

Inovação eqüina

No caso da vacina para cavalos, a grande inovação introduzida por Cristina foi a substância usada no laboratório, um ativador do sistema imunológico para transformar os monócitos em células dendríticas. A usada por Cristina substitui a importada, que embora seja mais eficiente, também é bem mais cara. A menor eficiência na transformação de monócitos em dendríticas não interferiu nos resultados obtidos com a vacina produzida por Cristina. "Vacinamos 47 animais, que receberam cada um no mínimo seis doses", conta Cristina. "Os resultados foram bons e sem efeitos colaterais. Cerca de 80% dos animais vacinados apresentaram resposta parcial ao tratamento, mostrando benefícios clínicos, como diminuição do tamanho do tumor em 50%, e melhora da qualidade de vida deles."

Para Neimar Roncati, presidente do conselho técnico da Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano (ABPSL), uma vacina para o melanoma eqüino como a que está sendo desenvolvida por Cristina é bem-vinda. "O surgimento de uma vacina que controle o desenvolvimento crônico deste câncer de pele pode ser um fator extremamente importante na criação de cavalos de diferentes raças, já que esta afecção é bastante comum", diz ele, que também é coordenador do curso de Medicina Veterinária da Universidade Anhembi-Morumbi. "No caso da raça puro sangue lusitano, o número de animais que apresenta esta afecção de pele, denominada melanoma, é bastante grande. Cerca de 65% da raça é de pelagem tordilha e suas derivações, fato que aumenta a possibilidade de incidência da doença. Estimo que perto de 20% desses animais apresentem alterações compatíveis com melanoma de pele."

Segundo Roncati, hoje existem tratamentos preconizados para esta afecção como a administração de cimetidina por meses consecutivos, mas muitos trabalhos se contrapõem a resultados efetivos nessas terapias. "Também sabemos de grupos de pesquisa que hoje produzem autovacinas para os diferentes tipos de neoplasias de pele, incluindo o melanoma", diz. "Normalmente esses cavalos vivem ou convivem bem com essa doença e raramente morrem por causa dela, mas podem acontecer problemas secundários capazes de diminuir a sobrevida dos animais." Daí, segundo ele, a importância de uma vacina que melhore a qualidade de vida dos animais e aumente sua sobrevida.

Outras empresas

A vacina para melanoma eqüino não foi o único produto da Oncocell. Ela, na verdade, deu origem a um grupo de empresas, controladas hoje pela holding Genoa Biotecnologia. A primeira a surgir foi a Genoa Diagnósticos, criada em 2001 com o objetivo principal de fornecer alta tecnologia na área de medicina veterinária. A empresa oferece testes baseados em DNA para a investigação de patógenos em animais. Em 2003 foi criada a Indicus Biotecnologia, depois de a Genoa ter sido procurada por um grupo de pecuaristas interessados em testes de identificação por DNA, como genotipagem, paternidade, diagnósticos de precisão.
 
A Genoa Biotecnologia foi constituída para controlar essas empresas. "Verificamos que era difícil administrar todas elas", explica Lopes. "Então, resolvemos criar essa holding." Desde então, segundo ele, já foram investidos US$ 4 milhões na construção dos laboratórios e de uma infra-estrutura de tecnologia de última geração, em duas plantas separadas na cidade de São Paulo. Os laboratórios contam com cerca de 30 pesquisadores — a maioria deles PhDs com experiência em diferentes áreas de laboratórios.