Publicado em 27 de abril de 2007






MRA Indústria de Equipamentos Eletrônicos

Pesquisa torna empresa única fabricante no País de detectores
de radiação; agora, nasce primeiro centro de calibração privado

Lívia Komar

Da empresa de Ribeirão Preto, em São Paulo, que começou há 19 anos com apenas três pesquisadores e faturamento de R$ 30 mil mensais, até a MRA de hoje, que fatura 23 vezes mais, decuplicou o número de funcionários e é líder no mercado de detecção de radiação em hospitais e na indústria, quatro projetos no PIPE se passaram. O primeiro deles transformou a empresa na única em solo brasileiro a produzir aparelhos para medir a quantidade de radiação emitida por aparelhos de raios-X ou por equipamentos da medicina nuclear. O mais recente, aprovado em abril de 2007, pretende desenvolver um sistema de controle para hemocentros que pode evitar a ocorrência de uma doença fatal em pessoas que recebem transfusão de sangue. O financiamento dos projetos chegará, quando todos estiverem concluídos, a quase R$ 2 milhões — em bolsas para pesquisadores, equipamentos e custeio.

Em 1988; e antes ainda

A MRA surgiu a partir de um projeto do Departamento de Física e Matemática da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto que pretendia desenvolver equipamentos de controle de qualidade na área de radiodiagnóstico — quer dizer, diagnósticos complementados com exames de raio-X. Por exemplo, um timer para aparelhos de raios-X: como o tempo de exposição influi na qualidade das imagens radiográficas, o equipamento poderia melhorar a precisão do diagnóstico e reduzir a dose de radioatividade dirigida ao paciente.

O projeto amadureceu quando três pesquisadores do departamento — os doutores Thomas Guilardi Neto, Carlos Alberto Pelá e o mestre José Luiz Bruçó — juntaram-se em uma sociedade. Logo descobriram que a procura pelos equipamentos era muito pequena. "Na época, não havia regulamentação que tornasse obrigatório o controle de qualidade nos hospitais, o que limitava o mercado dos produtos", explica Bruçó. Só em 1998, dez anos depois da fundação da MRA, a Secretaria de Vigilância Sanitária editou a Portaria 453 para determinar diretrizes básicas de proteção radiológica em radiodiagnósticos médico e odontológico. A partir da regulamentação, o portfolio cresceu: são 11 produtos nessa linha.

Enquanto isso...

A constatação de que o mercado para os equipamentos planejados não sustentaria a empresa levou o trio a buscar uma alternativa: a MRA passou a fabricar eletrificadores de cerca para a área rural, para substituir arame farpado e viabilizar o confinamento de gado. Na época, o equipamento não era muito difundido por causa do temor dos fazendeiros de matar os animais. Mas a empresa mostrou aos clientes que a corrente elétrica era de baixa amperagem e levava ao arame pulsos de curta duração e baixa potência — o que causa apenas uma sensação incômoda ao animal que toca a cerca. O equipamento fez sucesso e garantiu estabilidade à empresa.

As cercas, também na cidade

Na década de 1980, Bruçó foi estagiário de Pelá, seu sócio. Hoje ocupa o cargo de diretor-executivo da MRA. Assertivo, conhece cada detalhe da história da empresa. De acordo com o diretor, o motivo do sucesso foram duas linhas, criadas em 1994: a de eletrificadores de cercas para área residencial e a de detectores de radiação ionizante.

Os eletrificadores para residências fizeram sucesso e foram tema de reportagem no Jornal Nacional, em 2000 — o que fez o sucesso crescer mais ainda. Bruçó conta que a MRA foi a primeira empresa do Brasil a fabricar cercas para residências; e que a reportagem alavancou as vendas e o mercado. Ribeirão Preto acabou sendo a primeira cidade a ter uma lei de instalação de cercas elétricas. A empresa cresceu, mas também a concorrência. E como a empresa não depositou pedido de patente de seu produto, as cópias se multiplicaram. "Infelizmente, não tínhamos conhecimento e nem estrutura financeira para montar um processo de patenteamento", lamenta-se o pesquisador.  

Apesar da concorrência, as cercas ainda são os produtos de maior procura na MRA. Mas se o assunto for faturamento, os detectores de radiação ionizante ganham disparados. Aí entrou o programa de financiamento da Fapesp para a pesquisa na pequena empresa: quando começou a atuar nesse mercado, a MRA importava os medidores dos Estados Unidos, da Europa ou de Israel e os comercializava no Brasil. Com um projeto PIPE, finalizado em 2003, a empresa desenvolveu a competência para ela própria fabricar os detectores. Hoje, a MRA é a única indústria brasileira desses produtos.

Mais valor agregado com o PIPE

Em 1999, a MRA apresentou à Fapesp um projeto para estudo da viabilidade do desenvolvimento de um "sistema de monitores de radiação ionizante", como dizia o texto aprovado na época. Mostrada a viabilidade, a empresa apresentou o pedido para o financiamento da Fase II do projeto: o desenvolvimento da tecnologia. Para coordenar o trabalho, a MRA buscou o pesquisador Renato Glauco de Souza Rodrigues, doutor em física aplicada à medicina e à biologia — que na época trabalhava na USP. Para essa linha de produtos, hoje a de maior faturamento da empresa, a MRA recebeu ainda mais um financiamento, dentro da chamada Fase III do programa para as pequenas que inovam — neste caso, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do governo federal. Desde a criação do PIPE, há dez anos, só em 2004 a Fapesp financiou projetos para levar o produto inovador até a fase comercial. Vinte empresas tiveram projetos selecionados. Um deles foi o da MRA.

Terminada a Fase III, em 2005, a MRA passou a fabricar uma linha de oito detectores: sete portáteis e um fixo, que avaliam o nível de intensidade da radiação dos aparelhos de raio-x, monitoram rejeitos hospitalares, mas também têm aplicações em outros setores da indústria. O físico Márcio Donizeti Daniel, gerente da área de radiação da MRA, informa que a empresa tem mais de 400 clientes dentro e fora do País, que pagam de R$ 3 mil a R$ 7 mil por um monitor. Mais de 300 detectores são fornecidos por ano para organizações como Goodyear, Pirelli, Votorantim, Petrobras, Eletronuclear, Usinas Angra I e II, entre muitas outras. "Para se encher uma garrafa de cerveja, por exemplo, o nível é controlado por uma fonte de radiação. Então, toda a indústria que tem essa fonte em seu meio de produção tem de ter um monitor de radiação para fazer um levantamento radiométrico", ressalta.

No mesmo projeto, a MRA desenvolveu medidores de quilovoltagem (kVp). Estes são equipamentos importantes para segurança: o operador de raios-X segue um manual que indica qual é a voltagem correta para cada pessoa, de acordo com sua massa corpórea. "O kVp representa a penetração dos raios. Quem garante para você que a máquina do raio-X está lançando aquele valor indicado?", indaga Renato, o coordenador do projeto, hoje trabalhando na Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal). "A MRA garante", continua. "Os monitores são tão importantes para a segurança da sociedade e quantificação da radiação que, se não fosse a MRA, teriam de continuar a ser importados." O pesquisador, orgulhoso de seu trabalho, explica que, dentre as muitas vantagens da produção brasileira dessa tecnologia, destacam-se a redução de custos e a garantia de dois anos. "Isso graças à MRA, ao apoio da Fapesp e aos pesquisadores que trabalharam nos projetos", conclui.

Nova etapa: calibração

Uma norma da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) exige que detectores de radiação ionizante passem por calibração anual. A MRA tinha uma opção não muito viável de calibrar seus produtos no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo. Mas o Ipen pode demorar até seis meses para realizar esse serviço. Para evitar o gargalo, como define Bruçó, a MRA decidiu criar um laboratório de calibração, o Centro de Ensaios e Pesquisas em Metrologia (Metrobras), o único privado do Brasil.

O prédio foi levantado no Distrito Industrial de Jardinópolis, cidade circunvizinha de Ribeirão Preto. A construção teve de se adaptar às normas da CNEN, com paredes revestidas de espessas camadas de concreto, muros com cinco metros de altura e bunkers (salas de blindagem) climatizados. A expectativa é de que o laboratório entre em funcionamento em janeiro de 2008, pois ele ainda deverá passar por processo de implantação de certificação da International Organization for Standardization (ISO) e contratação de auditoria. A criação do laboratório foi um desdobramento do projeto para criação de detectores de radiação com tecnologia brasileira.

O laboratório terá três fontes de cobalto e uma de césio. Essas fontes são as mesmas usadas por hospitais, por exemplo, para aplicar radioterapia. As fontes de cobalto, a MRA vai receber de hospitais, como doação. A doação é um bom negócio para o hospital e para o centro: o descarte de fontes, quando chega a hora de substituí-las, é feito pela CNEN e custa R$ 60 mil reais. Com a doação, esse custo desaparece. Foi o descarte descuidado de uma bomba de césio, por um centro de radiologia de Goiânia, que causou o acidente de 1988.  

A quarta bomba está sendo financiada pela Fapesp e deve ser instalada no mês de maio. As normas exigem que a calibração seja feita, obrigatoriamente, com fontes desses isótopos.  

PIPE número II

Em 2004, a MRA entrou com um projeto no PIPE da Fapesp de desenvolvimento de detectores termoluminescentes — pastilhas utilizadas nos crachás de profissionais que trabalham diretamente com radioatividade nos hospitais. O detector, em contato com a luz, aponta o nível de exposição à radiação. Essa análise é feita a cada 30 dias.

A MRA finalizou mais esse projeto de pesquisa financiado no programa em abril. "As pastilhas são um sucesso e já atendem a todos os laboratórios nacionais (que trabalham com análises radiológicas). A idéia agora é fornecer para o exterior", entusiasma-se Bruçó. Anteriormente, a CNEN produzia as pastilhas, ao valor irrisório de R$ 0,31. Num dado momento, a comissão decidiu que não era sua função subsidiar esses equipamentos, e sim fiscalizar e desenvolver produtos. Todos os serviços prestados pela CNEN sofreram reajuste de preço e o valor das pastilhas saltou para R$ 9,40. O Ipen começou a fabricá-las, ao preço de R$ 11,40 a unidade. O preço da MRA é R$ 4,50 a unidade — por isso, a empresa tornou-se a maior distribuidora desses produtos no País.

Com o projeto de pesquisa, a empresa montou o laboratório e desenvolveu as substâncias químicas dos novos tipos de detectores, de maior sensibilidade à luz. O produto é reutilizável por mais de cem vezes.

PIPE número três!

Enquanto o projeto dos detectores termoluminescentes ainda estava em andamento, a MRA apresentou outro projeto no programa que financia as pequenas inovadoras, para o desenvolvimento de um sistema de controle de sangue irradiado. A fase de estudo de viabilidade terminou e, em abril, veio a notícia de que o pedido de financiamento para a Fase II havia sido aprovado.

Nesse caso, o trabalho será feito em parceria com o Hemocentro e a USP de Ribeirão Preto. O sangue usado em transfusões é irradiado, para evitar um problema decorrente delas: a doença enxerto-versus-hospedeiro associada à transfusão (DEVH-AT), que ocorre se células T, do sistema imunológico do doador, estiverem presentes no sangue transfundido. Para evitar o problema, os componentes do sangue a ser transfundido são irradiados nos hemocentros.

De acordo com o projeto de pesquisa apresentado, a MRA pretende desenvolver um sistema que possibilite o controle de qualidade na rotina da irradiação de sangue.

PIPE número quatro!

Em conjunto com o Grupo de Detectores de Radiação do Ipen, a MRA apresentou outro projeto de pesquisa à Fapesp: o desenvolvimento de calibradores de dose. A dose a que se refere o nome do equipamento é dose de radiação. Esses calibradores serão usados para dosar a quantidade de radiação presente em certos contrastes injetados em pacientes submetidos a exames de medicina nuclear. O calibrador de dose afere a medida de radiação que pode ser introduzida no paciente de acordo com sua massa corpórea.

O projeto está no primeiro ano da segunda fase e a Fapesp está financiando todo o desenvolvimento da eletrônica do produto final. A fundação só não está custeando a bolsa porque a pesquisadora já é da USP.

A MRA será pioneira em mais este equipamento. "Não existe similar nacional e é obrigatório que as clínicas possuam esses calibradores de dose", atesta o diretor-executivo da empresa. A empresa já importa e vende esses equipamentos, mas, a partir do financiamento, passará também a fabricá-los.  

"A Fapesp promoveu uma maior integração da empresa aos grupos de pesquisa das universidades e houve um ganho significativo de qualidade e produtos para atender a sociedade", enfatiza Bruçó.

Propriedade Intelectual

Desde 2003, são apenas dois os sócios da MRA, com a saída do doutor em física Thomas Guilardi Neto. Na trajetória de duas décadas, a empresa não registrou propriedade intelectual proveniente de seus desenvolvimentos. No caso dos detectores, por já existirem similares em outros países, a empresa optou por não patentear nenhum deles. Na opinião de Bruçó, patentear apenas o modelo de um produto é o mesmo que jogar dinheiro fora, visto que se alguma empresa mudar um botão no equipamento, já estará fugindo do padrão do design registrado. As pastilhas termoluminescentes, apesar de possuírem diferenciais após a produção da MRA, também já existiam no mercado. De acordo com o diretor-executivo, a cerca elétrica residencial seria o único produto que, não fossem os obstáculos financeiros da época, poderia ter sido patenteado como idéia original.

Apoiar é preciso

Além de empresa de sucesso, a MRA surge como grande apoiadora da pesquisa científica, trabalhando em convênio com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto. "Temos alunos fazendo iniciação científica na empresa. A idéia é que a Metrobras não funcione apenas como um centro de calibração, mas também como centro de pesquisa. O que eu vejo no futuro para a MRA é radiação ionizante. Hoje, investimos todo nosso conhecimento, tempo e dinheiro em produtos de radiação por ser um mercado que dominamos e não queremos que outras empresas entrem", finaliza Bruçó.