MRA Indústria de Equipamentos Eletrônicos
Pesquisa torna empresa única
fabricante no País de detectores
de radiação; agora, nasce primeiro centro de calibração
privado
Lívia
Komar
Da empresa
de Ribeirão Preto, em São Paulo,
que começou há 19 anos com apenas
três pesquisadores e faturamento de R$
30 mil mensais, até a MRA de hoje, que
fatura 23 vezes mais, decuplicou o número
de funcionários e é líder
no mercado de detecção de radiação
em hospitais e na indústria, quatro projetos
no PIPE se passaram. O primeiro deles transformou
a empresa na única em solo brasileiro
a produzir aparelhos para medir a quantidade
de radiação emitida por aparelhos
de raios-X ou por equipamentos da medicina nuclear.
O mais recente, aprovado em abril de 2007, pretende
desenvolver um sistema de controle para hemocentros
que pode evitar a ocorrência de uma doença
fatal em pessoas que recebem transfusão
de sangue. O financiamento dos projetos chegará,
quando todos estiverem concluídos, a
quase R$ 2 milhões — em bolsas
para pesquisadores, equipamentos e custeio.
Em
1988; e antes ainda
A MRA surgiu
a partir de um projeto do Departamento de Física
e Matemática da Universidade de São
Paulo (USP) de Ribeirão Preto que pretendia
desenvolver equipamentos de controle de qualidade
na área de radiodiagnóstico —
quer dizer, diagnósticos complementados
com exames de raio-X. Por exemplo, um timer
para aparelhos de raios-X: como o tempo de exposição
influi na qualidade das imagens radiográficas,
o equipamento poderia melhorar a precisão
do diagnóstico e reduzir a dose de radioatividade
dirigida ao paciente.
O projeto amadureceu
quando três pesquisadores do departamento
— os doutores Thomas Guilardi Neto, Carlos
Alberto Pelá e o mestre José Luiz
Bruçó — juntaram-se em uma
sociedade. Logo descobriram que a procura pelos
equipamentos era muito pequena. "Na época,
não havia regulamentação
que tornasse obrigatório o controle de
qualidade nos hospitais, o que limitava o mercado
dos produtos", explica Bruçó.
Só em 1998, dez anos depois da fundação
da MRA, a Secretaria de Vigilância Sanitária
editou a Portaria 453 para determinar diretrizes
básicas de proteção radiológica
em radiodiagnósticos médico e
odontológico. A partir da regulamentação,
o portfolio cresceu: são 11
produtos nessa linha.
Enquanto
isso...
A constatação
de que o mercado para os equipamentos planejados
não sustentaria a empresa levou o trio
a buscar uma alternativa: a MRA passou a fabricar
eletrificadores de cerca para a área
rural, para substituir arame farpado e viabilizar
o confinamento de gado. Na época, o equipamento
não era muito difundido por causa do
temor dos fazendeiros de matar os animais. Mas
a empresa mostrou aos clientes que a corrente
elétrica era de baixa amperagem e levava
ao arame pulsos de curta duração
e baixa potência — o que causa apenas
uma sensação incômoda ao
animal que toca a cerca. O equipamento fez sucesso
e garantiu estabilidade à empresa.
As
cercas, também na cidade
Na década
de 1980, Bruçó foi estagiário
de Pelá, seu sócio. Hoje ocupa
o cargo de diretor-executivo da MRA. Assertivo,
conhece cada detalhe da história da empresa.
De acordo com o diretor, o motivo do sucesso
foram duas linhas, criadas em 1994: a de eletrificadores
de cercas para área residencial e a de
detectores de radiação ionizante.
Os eletrificadores
para residências fizeram sucesso e foram
tema de reportagem no Jornal Nacional,
em 2000 — o que fez o sucesso crescer
mais ainda. Bruçó conta que a
MRA foi a primeira empresa do Brasil a fabricar
cercas para residências; e que a reportagem
alavancou as vendas e o mercado. Ribeirão
Preto acabou sendo a primeira cidade a ter uma
lei de instalação de cercas elétricas.
A empresa cresceu, mas também a concorrência.
E como a empresa não depositou pedido
de patente de seu produto, as cópias
se multiplicaram. "Infelizmente, não
tínhamos conhecimento e nem estrutura
financeira para montar um processo de patenteamento",
lamenta-se o pesquisador.
Apesar da concorrência,
as cercas ainda são os produtos de maior
procura na MRA. Mas se o assunto for faturamento,
os detectores de radiação ionizante
ganham disparados. Aí entrou o programa
de financiamento da Fapesp para a pesquisa na
pequena empresa: quando começou a atuar
nesse mercado, a MRA importava os medidores
dos Estados Unidos, da Europa ou de Israel e
os comercializava no Brasil. Com um projeto
PIPE, finalizado em 2003, a empresa desenvolveu
a competência para ela própria
fabricar os detectores. Hoje, a MRA é
a única indústria brasileira desses
produtos.
Mais
valor agregado com o PIPE
Em 1999, a
MRA apresentou à Fapesp um projeto para
estudo da viabilidade do desenvolvimento de
um "sistema de monitores de radiação
ionizante", como dizia o texto aprovado
na época. Mostrada a viabilidade, a empresa
apresentou o pedido para o financiamento da
Fase II do projeto: o desenvolvimento da tecnologia.
Para coordenar o trabalho, a MRA buscou o pesquisador
Renato Glauco de Souza Rodrigues, doutor em
física aplicada à medicina e à
biologia — que na época trabalhava
na USP. Para essa linha de produtos, hoje a
de maior faturamento da empresa, a MRA recebeu
ainda mais um financiamento, dentro da chamada
Fase III do programa para as pequenas que inovam
— neste caso, em parceria com a Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), do governo federal.
Desde a criação do PIPE, há
dez anos, só em 2004 a Fapesp financiou
projetos para levar o produto inovador até
a fase comercial. Vinte empresas tiveram projetos
selecionados. Um deles foi o da MRA.
Terminada a
Fase III, em 2005, a MRA passou a fabricar uma
linha de oito detectores: sete portáteis
e um fixo, que avaliam o nível de intensidade
da radiação dos aparelhos de raio-x,
monitoram rejeitos hospitalares, mas também
têm aplicações em outros
setores da indústria. O físico
Márcio Donizeti Daniel, gerente da área
de radiação da MRA, informa que
a empresa tem mais de 400 clientes dentro e
fora do País, que pagam de R$ 3 mil a
R$ 7 mil por um monitor. Mais de 300 detectores
são fornecidos por ano para organizações
como Goodyear, Pirelli, Votorantim, Petrobras,
Eletronuclear, Usinas Angra I e II, entre muitas
outras. "Para se encher uma garrafa de
cerveja, por exemplo, o nível é
controlado por uma fonte de radiação.
Então, toda a indústria que tem
essa fonte em seu meio de produção
tem de ter um monitor de radiação
para fazer um levantamento radiométrico",
ressalta.
No mesmo projeto,
a MRA desenvolveu medidores de quilovoltagem
(kVp). Estes são equipamentos importantes
para segurança: o operador de raios-X
segue um manual que indica qual é a voltagem
correta para cada pessoa, de acordo com sua
massa corpórea. "O kVp representa
a penetração dos raios. Quem garante
para você que a máquina do raio-X
está lançando aquele valor indicado?",
indaga Renato, o coordenador do projeto, hoje
trabalhando na Universidade Estadual de Ciências
da Saúde de Alagoas (Uncisal). "A
MRA garante", continua. "Os monitores
são tão importantes para a segurança
da sociedade e quantificação da
radiação que, se não fosse
a MRA, teriam de continuar a ser importados."
O pesquisador, orgulhoso de seu trabalho, explica
que, dentre as muitas vantagens da produção
brasileira dessa tecnologia, destacam-se a redução
de custos e a garantia de dois anos. "Isso
graças à MRA, ao apoio da Fapesp
e aos pesquisadores que trabalharam nos projetos",
conclui.
Nova
etapa: calibração
Uma norma da
Comissão Nacional de Energia Nuclear
(CNEN) exige que detectores de radiação
ionizante passem por calibração
anual. A MRA tinha uma opção não
muito viável de calibrar seus produtos
no Instituto de Pesquisas Energéticas
e Nucleares (Ipen), em São Paulo. Mas
o Ipen pode demorar até seis meses para
realizar esse serviço. Para evitar o
gargalo, como define Bruçó, a
MRA decidiu criar um laboratório de calibração,
o Centro de Ensaios e Pesquisas em Metrologia
(Metrobras), o único privado do Brasil.
O prédio
foi levantado no Distrito Industrial de Jardinópolis,
cidade circunvizinha de Ribeirão Preto.
A construção teve de se adaptar
às normas da CNEN, com paredes revestidas
de espessas camadas de concreto, muros com cinco
metros de altura e bunkers (salas de
blindagem) climatizados. A expectativa é
de que o laboratório entre em funcionamento
em janeiro de 2008, pois ele ainda deverá
passar por processo de implantação
de certificação da International
Organization for Standardization (ISO) e contratação
de auditoria. A criação do laboratório
foi um desdobramento do projeto para criação
de detectores de radiação com
tecnologia brasileira.
O laboratório
terá três fontes de cobalto e uma
de césio. Essas fontes são as
mesmas usadas por hospitais, por exemplo, para
aplicar radioterapia. As fontes de cobalto,
a MRA vai receber de hospitais, como doação.
A doação é um bom negócio
para o hospital e para o centro: o descarte
de fontes, quando chega a hora de substituí-las,
é feito pela CNEN e custa R$ 60 mil reais.
Com a doação, esse custo desaparece.
Foi o descarte descuidado de uma bomba de césio,
por um centro de radiologia de Goiânia,
que causou o acidente de 1988.
A quarta bomba
está sendo financiada pela Fapesp e deve
ser instalada no mês de maio. As normas
exigem que a calibração seja feita,
obrigatoriamente, com fontes desses isótopos.
PIPE
número II
Em 2004, a
MRA entrou com um projeto no PIPE da Fapesp
de desenvolvimento de detectores termoluminescentes
— pastilhas utilizadas nos crachás
de profissionais que trabalham diretamente com
radioatividade nos hospitais. O detector, em
contato com a luz, aponta o nível de
exposição à radiação.
Essa análise é feita a cada 30
dias.
A MRA finalizou
mais esse projeto de pesquisa financiado no
programa em abril. "As pastilhas são
um sucesso e já atendem a todos os laboratórios
nacionais (que trabalham com análises
radiológicas). A idéia agora é
fornecer para o exterior", entusiasma-se
Bruçó. Anteriormente, a CNEN produzia
as pastilhas, ao valor irrisório de R$
0,31. Num dado momento, a comissão decidiu
que não era sua função
subsidiar esses equipamentos, e sim fiscalizar
e desenvolver produtos. Todos os serviços
prestados pela CNEN sofreram reajuste de preço
e o valor das pastilhas saltou para R$ 9,40.
O Ipen começou a fabricá-las,
ao preço de R$ 11,40 a unidade. O preço
da MRA é R$ 4,50 a unidade — por
isso, a empresa tornou-se a maior distribuidora
desses produtos no País.
Com o projeto
de pesquisa, a empresa montou o laboratório
e desenvolveu as substâncias químicas
dos novos tipos de detectores, de maior sensibilidade
à luz. O produto é reutilizável
por mais de cem vezes.
PIPE
número três!
Enquanto o
projeto dos detectores termoluminescentes ainda
estava em andamento, a MRA apresentou outro
projeto no programa que financia as pequenas
inovadoras, para o desenvolvimento de um sistema
de controle de sangue irradiado. A fase de estudo
de viabilidade terminou e, em abril, veio a
notícia de que o pedido de financiamento
para a Fase II havia sido aprovado.
Nesse caso,
o trabalho será feito em parceria com
o Hemocentro e a USP de Ribeirão Preto.
O sangue usado em transfusões é
irradiado, para evitar um problema decorrente
delas: a doença enxerto-versus-hospedeiro
associada à transfusão (DEVH-AT),
que ocorre se células T, do sistema imunológico
do doador, estiverem presentes no sangue transfundido.
Para evitar o problema, os componentes do sangue
a ser transfundido são irradiados nos
hemocentros.
De acordo com
o projeto de pesquisa apresentado, a MRA pretende
desenvolver um sistema que possibilite o controle
de qualidade na rotina da irradiação
de sangue.
PIPE
número quatro!
Em conjunto
com o Grupo de Detectores de Radiação
do Ipen, a MRA apresentou outro projeto de pesquisa
à Fapesp: o desenvolvimento de calibradores
de dose. A dose a que se refere o nome do equipamento
é dose de radiação. Esses
calibradores serão usados para dosar
a quantidade de radiação presente
em certos contrastes injetados em pacientes
submetidos a exames de medicina nuclear. O calibrador
de dose afere a medida de radiação
que pode ser introduzida no paciente de acordo
com sua massa corpórea.
O projeto está
no primeiro ano da segunda fase e a Fapesp está
financiando todo o desenvolvimento da eletrônica
do produto final. A fundação só
não está custeando a bolsa porque
a pesquisadora já é da USP.
A MRA será
pioneira em mais este equipamento. "Não
existe similar nacional e é obrigatório
que as clínicas possuam esses calibradores
de dose", atesta o diretor-executivo da
empresa. A empresa já importa e vende
esses equipamentos, mas, a partir do financiamento,
passará também a fabricá-los.
"A Fapesp
promoveu uma maior integração
da empresa aos grupos de pesquisa das universidades
e houve um ganho significativo de qualidade
e produtos para atender a sociedade", enfatiza
Bruçó.
Propriedade
Intelectual
Desde 2003,
são apenas dois os sócios da MRA,
com a saída do doutor em física
Thomas Guilardi Neto. Na trajetória de
duas décadas, a empresa não registrou
propriedade intelectual proveniente de seus
desenvolvimentos. No caso dos detectores, por
já existirem similares em outros países,
a empresa optou por não patentear nenhum
deles. Na opinião de Bruçó,
patentear apenas o modelo de um produto é
o mesmo que jogar dinheiro fora, visto que se
alguma empresa mudar um botão no equipamento,
já estará fugindo do padrão
do design registrado. As pastilhas
termoluminescentes, apesar de possuírem
diferenciais após a produção
da MRA, também já existiam no
mercado. De acordo com o diretor-executivo,
a cerca elétrica residencial seria o
único produto que, não fossem
os obstáculos financeiros da época,
poderia ter sido patenteado como idéia
original.
Apoiar
é preciso
Além
de empresa de sucesso, a MRA surge como grande
apoiadora da pesquisa científica, trabalhando
em convênio com a Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da USP de Ribeirão
Preto. "Temos alunos fazendo iniciação
científica na empresa. A idéia
é que a Metrobras não funcione
apenas como um centro de calibração,
mas também como centro de pesquisa. O
que eu vejo no futuro para a MRA é radiação
ionizante. Hoje, investimos todo nosso conhecimento,
tempo e dinheiro em produtos de radiação
por ser um mercado que dominamos e não
queremos que outras empresas entrem", finaliza
Bruçó.