Inter-Metro Laboratório de Calibração
Empresa desenvolve sistema
para aumentar precisão de exames audiométricos;
ajuste é necessário para 90% dos equipamentos
Davi
Molinari
O engenheiro
José Stankevicius, responsável
pela parte elétrica e acústica
do laboratório Inter-Metro, gesticula
diante de uma caixa de madeira de 70 centímetros
de altura por 80 de largura e 80 de profundidade
para explicar como se faz o teste de calibração
e confiabilização de um audiômetro
— aparelho usado em exames clínicos
de audição. "O isolamento
acústico desta minicâmara faz toda
a diferença na hora de verificar os aspectos
técnicos dos audiômetros",
conta Stankevicius, um dos dez funcionários
da empresa. É ele quem acompanha a rotina
de ajustar 30 audiômetros por mês,
um dos negócios do laboratório.
A minicâmara é uma cabine acusticamente
vedada. Quem a idealizou foi Oswaldo Rossi Júnior,
professor e diretor do Inter-Metro, para realizar
o projeto da empresa apresentado ao PIPE da
Fapesp: estabelecer um padrão de medidas
para sistema audiométrico. Graduado em
física pela Universidade Presbiteriana
Mackenzie, em 1975, autor de livro sobre ensaios
com uso de líquidos penetrantes e especialista
em ensaios não-destrutivos, Oswaldo aceitou
o desafio proposto pelo Instituto Nacional de
Metrologia, Normalização e Qualidade
Industrial (Inmetro), em 1999, de padronizar
os testes de audiômetros. "Em contato
com o Inmetro, soubemos da problemática
calibração de audiômetros
no Brasil: não havia ninguém que
fizesse isso de acordo com normas e padrões
estabelecidos pelo instituto", afirma Oswaldo
Rossi.
Hoje, de acordo
com o empresário, não há
no País outro laboratório com
uma cabine igual. Ela foi construída
com parte dos R$ 82.980,00 das Fases I e II
do PIPE para garantir a replicação
acústica mais exata possível de
um mesmo sinal elétrico, sem interferências
de sinais externos. Oswaldo Rossi teve de pesquisar
e decidir-se sobre a madeira que envolve a cabine
(com elevado índice de absorção
sonora), as junções e características
de construção (para evitar vibrações
e reverberações) e os materiais
de isolamento acústico para absorver
o som. O isolamento interior é feito
com quatro camadas de espuma de alta e média
intensidade unidas por películas de chumbo.
Além da câmara, os recursos
da Fapesp garantiram a compra de três
instrumentos indispensáveis para testar
um audiômetro: o aparelho eletrônico
de análise de sinal; um ouvido artificial
(um microfone que simula o tímpano humano);
e um mastóide artificial (o osso mastóide
fica atrás da orelha e auxilia na condução
das ondas sonoras para o nervo auditivo). No
ouvido artificial, dentro da câmara, é
acoplado um fone de ouvido que emite os sinais
sonoros gerados pelo audiômetro. A caixa
tem um pequeno orifício por onde passa
o fio do audiômetro que fica do lado de
fora da cabine. O analisador confere o sinal
emitido. "Dentro da cabine, há de
se produzir exatamente os sons na freqüência
e intensidade desejadas pelo médico que
examina o aparelho auditivo do paciente",
explica o físico.
Os
ajustes
A precisão
tem uma razão específica. Durante
um exame audiométrico, o fonoaudiólogo
ou otorrinolaringologista submete a audição
do paciente a diferentes freqüências
e intensidades de estímulos sonoros gerados
por um audiômetro. A pessoa de audição
normal percebe sons de mínima intensidade,
medidos na faixa compreendida entre menos dez
decibéis e mais dez decibéis;
e tons graves e agudos com freqüência
entre 20 e 20 mil hertz. Os audiômetros
emitem freqüências entre 125
hertz e 8 mil hertz. "Se o equipamento
estiver desajustado e emitir um sinal sonoro
fora do esperado, a resposta ou a ausência
de resposta do paciente poderá induzir
o fonoaudiólogo a fazer um laudo errado",
explica o físico Oswaldo Rossi Júnior,
que contou com a ajuda da fonoaudióloga
Thelma Costa nos ensaios.
A cabine surgiu
para resolver o problema de interferência
do ruído ambiente na curva de intensidade
gerada pelo audiômetro. Mesmo em uma sala
acusticamente isolada, a presença de
pessoas pode alterar os sinais que se quer verificar.
Outro incômodo foi a influência
dos sistemas de alimentação de
rede elétrica ou baterias. Os estudos
concluíram que os equipamentos alimentados
por rede elétrica, em sua maioria, sofrem
variações nas faixas de freqüência
em função das oscilações
da corrente. Por isso, os pesquisadores determinaram
que a calibração deve ser feita
mantendo-se sempre um sistema de estabilização
elétrica. Todos os ensaios seguiram as
normas da Associação Brasileira
de Normas Técnicas (ABNT). O empenho
dos pesquisadores em reproduzir curvas de freqüência
e de intensidade perfeitas permitiu ao Inter-Metro
fincar bandeira neste novo mercado de "afinar"
audiômetros.
Os
desajustes
Quando Oswaldo
Rossi procurou o apoio do PIPE — que conheceu
pela Internet — já tinha uma vaga
idéia da real situação
dos audiômetros. "Nós tivermos
um pouco de dificuldade no começo para
compreender a diferença entre as Fases
I e II do PIPE, mas os consultores nos ajudaram
a perceber que a primeira fase era para estudo
da vialilidade do projeto e a segunda, para
execução da inovação
propriamente dita", lembra Oswaldo Rossi.
A experiência que acumulou ao longo de
11 anos como consultor da Organização
das Nações Unidas para o Desenvolvimento
Industrial (Unido) credenciou o pesquisador
a estimar que encontraria uma demanda razoável
de equipamentos descalibrados. Quando apresentou
o plano de negócios para a Fapesp, em
2000, já tinha elementos para prever
que o Laboratório Inter-Metro teria sucesso
financeiro com o negócio de calibração
de audiômetros. O Inter-Metro começou
suas atividades em 1997, apoiado pela Associação
Brasileira de Ensaios Não-Destrutivos,
e está apto a fazer quase cem diferentes
tipos de ensaios e testes de metrologia em pinturas,
espessuras de materiais, velocidade de vibração,
temperatura, densidade, corrente elétrica
etc. Hoje, instalado num pequeno sobrado no
bairro de Mirandópolis, Zona Sul da capital
paulista, emprega dez funcionários: quatro
com formação superior, dois com
nível técnico e seis na área
administrativa.
A atividade
garante um faturamento anual de R$ 1,8 milhão.
Do total, só 10% são provenientes
da calibração de audiômetros.
Pouco, na visão de Oswaldo Rossi. Ele
calcula que 90% dos 4,5 mil audiômetros
em operação no País não
passem por aferições. "Nós
temos divulgado junto às clínicas
e associações de classe dos fonoaudiólogos
a necessidade de calibrar os equipamentos de
modo correto. A operação desajustada
de um audiômetro pode implicar laudos
errados", afirma. Os equipamentos
chegam às suas mãos com desvios
grosseiros na intensidade e na freqüência
dos sons emitidos. A intensidade do som apresenta,
em média, desvios de 10%, e os parâmetros
da freqüência estão "desafinados"
20% em relação aos padrões
internacionais.
Os equipamentos
usados em clínicas e laboratórios
de análises auditivas "não
estão confiáveis", admite
o chefe do Laboratório de Eletroacústica
do Inmetro, Walter Hoffmann. O problema
não é novo. Quando conheceu o
Inter-Metro, Hoffmann estava numa cruzada para
incentivar laboratórios de metrologia
e as clínicas de fonoaudiologia a se
enquadrar nas normas (NBR 17025) da International
Standards Organization (ISO). Ele estima que
existam 20 laboratórios na atividade
de calibrar audiômetros, mas nenhum com
certificação do Inmetro. Nem mesmo
o Inter-Metro: apesar de padronizar a aferição
dos equipamentos, o laboratório ainda
aguarda a acreditação do Inmetro
para esta atividade específica. Quando
sair, vai se somar às certificações
que o Inter-Metro já recebeu da The International
Certificate Network e da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos
Automotores (Anfavea).
Um laudo errado,
explica Hoffmann, tem implicações
que não são apenas clínicas.
"A dimensão do problema cresce quando
pensamos que parte desses audiômetros
é usada em exames de admissão
e demissão, e que se estiverem desajustados
podem isentar empresas de indenizações
trabalhistas", afirma. Hoffmann reconhece
o esforço do Inter-Metro em estabelecer
um sistema "limpo" para a aferição
dos audiômetros.
Calibração
para fábrica
A calibração
de precisão feita pelo Inter-Metro logo
despertou o interesse da empresa Beta-Medical,
fabricante nacional de audiômetros, que
vende, em média, 20 aparelhos por mês.
O preço dos modelos mais completos gira
em trono de R$ 10,8 mil. A fábrica tem
seus equipamentos para aferir a intensidade
e a freqüência do som emitido pelo
audiômetro. Mas, por rotina, precisa checar
se os equipamentos estão saindo dentro
dos parâmetros. Dos oito laboratórios
de calibração que conhece, o Inter-Metro
é o preferido da Beta-Medical. "Pelo
processo e qualidade que têm, eles apresentam
um resultado muito superior aos concorrentes",
afirma o técnico em eletrônica
e futuro engenheiro elétrico pelo Centro
Universitário da FEI Danilo da Cruz,
responsável pela qualidade dos equipamentos.
"Quando conheci o Inter-Metro e vi a minicâmara
acústica, soube que teríamos um
trabalho de qualidade, já que os demais
laboratórios fazem a calibração
expostos a ruídos externos", afirmou
Danilo.
Oswaldo Rossi
Júnior está satisfeito com o retorno
e o reconhecimento que a minicâmara tem
dado à empresa. "Foi uma oportunidade
para provarmos nossa competência",
afirma o físico. Ele aguarda a resposta
de um segundo projeto enviado à Fapesp
na área de ultra-som. "Estamos confiantes",
completa.