Publicado em 30 de abril de 2007






Inter-Metro Laboratório de Calibração

Empresa desenvolve sistema para aumentar precisão de exames audiométricos; ajuste é necessário para 90% dos equipamentos

Davi Molinari

O engenheiro José Stankevicius, responsável pela parte elétrica e acústica do laboratório Inter-Metro, gesticula diante de uma caixa de madeira de 70 centímetros de altura por 80 de largura e 80 de profundidade para explicar como se faz o teste de calibração e confiabilização de um audiômetro — aparelho usado em exames clínicos de audição. "O isolamento acústico desta minicâmara faz toda a diferença na hora de verificar os aspectos técnicos dos audiômetros", conta Stankevicius, um dos dez funcionários da empresa. É ele quem acompanha a rotina de ajustar 30 audiômetros por mês, um dos negócios do laboratório.
  
A minicâmara é uma cabine acusticamente vedada. Quem a idealizou foi Oswaldo Rossi Júnior, professor e diretor do Inter-Metro, para realizar o projeto da empresa apresentado ao PIPE da Fapesp: estabelecer um padrão de medidas para sistema audiométrico. Graduado em física pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1975, autor de livro sobre ensaios com uso de líquidos penetrantes e especialista em ensaios não-destrutivos, Oswaldo aceitou o desafio proposto pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), em 1999, de padronizar os testes de audiômetros. "Em contato com o Inmetro, soubemos da problemática calibração de audiômetros no Brasil: não havia ninguém que fizesse isso de acordo com normas e padrões estabelecidos pelo instituto", afirma Oswaldo Rossi.

Hoje, de acordo com o empresário, não há no País outro laboratório com uma cabine igual. Ela foi construída com parte dos R$ 82.980,00 das Fases I e II do PIPE para garantir a replicação acústica mais exata possível de um mesmo sinal elétrico, sem interferências de sinais externos. Oswaldo Rossi teve de pesquisar e decidir-se sobre a madeira que envolve a cabine (com elevado índice de absorção sonora), as junções e características de construção (para evitar vibrações e reverberações) e os materiais de isolamento acústico para absorver o som. O isolamento interior é feito com quatro camadas de espuma de alta e média intensidade unidas por películas de chumbo.  Além da câmara, os recursos da Fapesp garantiram a compra de três instrumentos indispensáveis para testar um audiômetro: o aparelho eletrônico de análise de sinal; um ouvido artificial (um microfone que simula o tímpano humano); e um mastóide artificial (o osso mastóide fica atrás da orelha e auxilia na condução das ondas sonoras para o nervo auditivo). No ouvido artificial, dentro da câmara, é acoplado um fone de ouvido que emite os sinais sonoros gerados pelo audiômetro. A caixa tem um pequeno orifício por onde passa o fio do audiômetro que fica do lado de fora da cabine. O analisador confere o sinal emitido. "Dentro da cabine, há de se produzir exatamente os sons na freqüência e intensidade desejadas pelo médico que examina o aparelho auditivo do paciente", explica o físico.

Os ajustes

A precisão tem uma razão específica. Durante um exame audiométrico, o fonoaudiólogo ou otorrinolaringologista submete a audição do paciente a diferentes freqüências e intensidades de estímulos sonoros gerados por um audiômetro. A pessoa de audição normal percebe sons de mínima intensidade, medidos na faixa compreendida entre menos dez decibéis e mais dez decibéis; e tons graves e agudos com freqüência entre 20 e 20 mil hertz. Os audiômetros emitem freqüências entre  125 hertz e 8 mil hertz. "Se o equipamento estiver desajustado e emitir um sinal sonoro fora do esperado, a resposta ou a ausência de resposta do paciente poderá induzir o fonoaudiólogo a fazer um laudo errado", explica o físico Oswaldo Rossi Júnior, que contou com a ajuda da fonoaudióloga Thelma Costa nos ensaios.

A cabine surgiu para resolver o problema de interferência do ruído ambiente na curva de intensidade gerada pelo audiômetro. Mesmo em uma sala acusticamente isolada, a presença de pessoas pode alterar os sinais que se quer verificar. Outro incômodo foi a influência dos sistemas de alimentação de rede elétrica ou baterias. Os estudos concluíram que os equipamentos alimentados por rede elétrica, em sua maioria, sofrem variações nas faixas de freqüência em função das oscilações da corrente. Por isso, os pesquisadores determinaram que a calibração deve ser feita mantendo-se sempre um sistema de estabilização elétrica. Todos os ensaios seguiram as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O empenho dos pesquisadores em reproduzir curvas de freqüência e de intensidade perfeitas permitiu ao Inter-Metro fincar bandeira neste novo mercado de "afinar" audiômetros.  

Os desajustes

Quando Oswaldo Rossi procurou o apoio do PIPE — que conheceu pela Internet — já tinha uma vaga idéia da real situação dos audiômetros. "Nós tivermos um pouco de dificuldade no começo para compreender a diferença entre as Fases I e II do PIPE, mas os consultores nos ajudaram a perceber que a primeira fase era para estudo da vialilidade do projeto e a segunda, para execução da inovação propriamente dita", lembra Oswaldo Rossi. A experiência que acumulou ao longo de 11 anos como consultor da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) credenciou o pesquisador a estimar que encontraria uma demanda razoável de equipamentos descalibrados. Quando apresentou o plano de negócios para a Fapesp, em 2000, já tinha elementos para prever que o Laboratório Inter-Metro teria sucesso financeiro com o negócio de calibração de audiômetros. O Inter-Metro começou suas atividades em 1997, apoiado pela Associação Brasileira de Ensaios Não-Destrutivos, e está apto a fazer quase cem diferentes tipos de ensaios e testes de metrologia em pinturas, espessuras de materiais, velocidade de vibração, temperatura, densidade, corrente elétrica etc. Hoje, instalado num pequeno sobrado no bairro de Mirandópolis, Zona Sul da capital paulista, emprega dez funcionários: quatro com formação superior, dois com nível técnico e seis na área administrativa.

A atividade garante um faturamento anual de R$ 1,8 milhão. Do total, só 10% são provenientes da calibração de audiômetros. Pouco, na visão de Oswaldo Rossi. Ele  calcula que 90% dos 4,5 mil audiômetros em operação no País não passem por aferições. "Nós temos divulgado junto às clínicas e associações de classe dos fonoaudiólogos a necessidade de calibrar os equipamentos de modo correto. A operação desajustada de um audiômetro pode implicar laudos errados", afirma.  Os equipamentos chegam às suas mãos com desvios grosseiros na intensidade e na freqüência dos sons emitidos. A intensidade do som apresenta, em média, desvios de 10%, e os parâmetros da freqüência estão "desafinados" 20% em relação aos padrões internacionais.

Os equipamentos usados em clínicas e laboratórios de análises auditivas "não estão confiáveis", admite o chefe do Laboratório de Eletroacústica do Inmetro, Walter Hoffmann.  O problema não é novo. Quando conheceu o Inter-Metro, Hoffmann estava numa cruzada para incentivar laboratórios de metrologia e as clínicas de fonoaudiologia a se enquadrar nas normas (NBR 17025) da International Standards Organization (ISO). Ele estima que existam 20 laboratórios na atividade de calibrar audiômetros, mas nenhum com certificação do Inmetro. Nem mesmo o Inter-Metro: apesar de padronizar a aferição dos equipamentos, o laboratório ainda aguarda a acreditação do Inmetro para esta atividade específica. Quando sair, vai se somar às certificações que o Inter-Metro já recebeu da The International Certificate Network e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Um laudo errado, explica Hoffmann, tem implicações que não são apenas clínicas. "A dimensão do problema cresce quando pensamos que parte desses audiômetros é usada em exames de admissão e demissão, e que se estiverem desajustados podem isentar empresas de indenizações trabalhistas", afirma. Hoffmann reconhece o esforço do Inter-Metro em estabelecer um sistema "limpo" para a aferição dos audiômetros.

Calibração para fábrica

A calibração de precisão feita pelo Inter-Metro logo despertou o interesse da empresa Beta-Medical, fabricante nacional de audiômetros, que vende, em média, 20 aparelhos por mês. O preço dos modelos mais completos gira em trono de R$ 10,8 mil. A fábrica tem seus equipamentos para aferir a intensidade e a freqüência do som emitido pelo audiômetro. Mas, por rotina, precisa checar se os equipamentos estão saindo dentro dos parâmetros. Dos oito laboratórios de calibração que conhece, o Inter-Metro é o preferido da Beta-Medical. "Pelo processo e qualidade que têm, eles apresentam um resultado muito superior aos concorrentes", afirma o técnico em eletrônica e futuro engenheiro elétrico pelo Centro Universitário da FEI Danilo da Cruz, responsável pela qualidade dos equipamentos. "Quando conheci o Inter-Metro e vi a minicâmara acústica, soube que teríamos um trabalho de qualidade, já que os demais laboratórios fazem a calibração expostos a ruídos externos", afirmou Danilo.

Oswaldo Rossi Júnior está satisfeito com o retorno e o reconhecimento que a minicâmara tem dado à empresa. "Foi uma oportunidade para provarmos nossa competência", afirma o físico. Ele aguarda a resposta de um segundo projeto enviado à Fapesp na área de ultra-som. "Estamos confiantes", completa.