Empresa Brasileira de Peixe
Pesquisa para melhoramento
de tilápias desenvolve novo híbrido
que substitui peixe de Israel; produto chega ao
mercado em junho
Davi
Molinari
Meia dúzia
de peixes frescos, híbridos de tilápias
do Nilo (Oreochromis niloticus), sobre
a mesa central de um galpão na Fazenda
Inês, região de Jundiaí
(SP), despertam o interesse do zootecnista Alexandre
Wagner Silva Hilsdorf, pesquisador do Núcleo
Integrado de Biotecnologia da Universidade de
Mogi das Cruzes (UMC), e do biólogo Salvador
Francisco Siciliano, da Royal Fish, empresa
produtora de peixe. As tilápias, recém-retiradas
de um dos tanques de criação da
fazenda, são o resultado de um trabalho
de melhoramento genético iniciado em
2001 e que está chegando ao final. "Gostaria
que você avaliasse sabor, textura e cor
da carne de acordo com o tipo de pele",
pede Alexandre a Salvador, apontando as diferenças
de padrão de manchas entre os espécimes.
"A comparação entre peso,
sabor e textura dos híbridos de cor vermelha
e sem manchas com os híbridos manchados
vai gerar informação para eu apresentar
à diretoria da empresa", argumenta
Alexandre.
O biólogo
Salvador, que faz as vezes de encarregado de
produção e distribuição
e também de "mestre cuca" da
fazenda — testando novas receitas culinárias
—, concorda com a urgência da análise.
Ele supervisiona o trabalho de dez pessoas na
criação e venda de cerca de 40
toneladas da espécie de tilápia
avermelhada, denominada Red Stirling,
produzidas pela empresa desde 2002. A Empresa
Brasileira de Peixe, antiga Agropecuária
Saint Peter, usa o nome fantasia Royal Fish
em seus veículos de distribuição.
A produção está dividida
entre duas fazendas, cortadas pela rodovia que
liga Jundiaí a Cabreúva. A Serra
do Japi, ao fundo, compõe a paisagem
com as estufas cobertas de plástico que
mantêm quente a água dos tanques
de engorda. "A política da empresa
é vender tilápia vermelha, mais
apreciada pelo mercado", explica Salvador.
Se depender
da fina freguesia do Empório Santa Luzia,
em São Paulo, o novo híbrido em
desenvolvimento na fazenda de Jundiaí
terá lugar cativo nas receitas de peixe.
O empório, especializado em produtos
sofisticados, vendia a tilápia israelense
Saint Peter, primeiro produto da Empresa
Brasileira de Peixe. Os consumidores continuaram
procurando pelo peixe quando ele deixou de ser
produzido, e passaram a comprar o Red Stirling
sem notar a diferença. Hoje, o Empório
Santa Luzia vende 50 quilos do Red Stirling
por semana. O peixe fresco chega toda terça-feira,
há mais de três anos. "Ele
tem muita aceitação", afirma
Renato Lima, responsável pela compra
de peixes do empório. "As pessoas
compram de olhos fechados. Nunca tivemos uma
devolução, e quando acaba o peixe,
o consumidor reclama."
Vermelho
e grande
O Brasil produz
60 mil toneladas de tilápias por ano.
De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), tilápias e carpas representam
80% do peixe cultivado em fazendas pesqueiras,
que respondem pelo manejo de 64 espécies
diferentes. A Empresa Brasileira de Peixe só
vende a tilápia vermelha. O problema
é que a variedade Red Stirling
cresce menos que a tilápia escura, chamada
Chitralada. "Procurarmos o financiamento
do PIPE, em 2001, justamente para viabilizar
um híbrido de tilápia que fosse
vermelho como o Red Stirling e grande
como o Chitralada", explica Alexandre,
enquanto verifica a incubadora de alevinos.
De bermuda e galochas, o professor e pesquisador
da UMC explica que visita os tanques de pesquisa
duas vezes por semana. Traz consigo alunos de
mestrado, que ajudam na coleta de dados sobre
a produção do híbrido.
Desde criança, Alexandre alimenta seu
desejo de conhecimento sobre peixes. Nascido
na cidade de Santos, lembra que passava horas
no aquário municipal assistindo ao pequeno
pedaço do universo submarino exposto
ao público. Foi dele a idéia de
trazer a tilápia vermelha da Escócia,
onde, em 1990, formou-se mestre em aqüicultura
pela Universidade de Stirling — que emprestou
o nome à variação Red
Stirling.
A primeira pessoa
a abraçar seu projeto, por mera coincidência,
foi o médico otorrinolaringologista Ricardo
Ferreira Bento. Alexandre lembra que, em 1999,
Ricardo entrou na sala em que ele conversava
com seu orientador de doutorado, José
Eduardo Krieger, diretor do Laboratório
de Genética e Cardiologia Molecular do
Instituto do Coração, em São
Paulo. A tese era sobre genética do DNA
mitocondrial de uma espécie de peixe
da bacia do Rio Paraíba do Sul. O visitante
Ricardo, um dos sócios da Empresa Brasileira
de Peixe, interessou-se pelo trabalho de Alexandre
e por seus conhecimentos. Na época, a
firma cultivava uma espécie de tilápia,
também vermelha, com a marca registrada
Saint Peter, cujas matrizes comprava
de uma empresa israelense. Como a Empresa Brasileira
de Peixe não tinha licença para
modificar a espécie e dependia do fornecimento
constante de matrizes israelenses, o negócio
não vingou. Com a espécie Red
Stirling, a empresa quer repetir o sucesso
repentino que a tilápia Saint Peter
teve no mercado brasileiro nos anos 1990.
Apoio da Fapesp
Em 2000, a Empresa
Brasileira de Peixe encomendou um plantel de
Red Stirling da Escócia. Alexandre,
pesquisador em dedicação exclusiva
da UMC, já conhecia o PIPE. "Como
acadêmico, sou defensor da Fapesp como
modelo internacional", afirma. O professor
enfatiza o fato de a Fapesp não discriminar
uma instituição privada que desenvolve
pesquisa científica, como a UMC. "Há
outras instituições de fomento
e apoio à pesquisa no Brasil que se recusam
a fornecer recursos a uma instituição
de ensino e pesquisa só pelo fato de
ela ser privada", conta Alexandre.
O projeto apresentado
ao PIPE foi calcado no tripé de produção
animal: alimento, manejo e genética.
Com base em conhecimento próprio e em
literatura já publicada sobre cultivo
de tilápias, Alexandre decidiu que a
melhor linhagem para o cruzamento seria a do
Chitralada, espécie originária
da Tailândia, introduzida no Brasil em
1996. Para o experimento foram trazidos dois
plantéis, um de cada espécie.
Os peixes, ainda na fase pequena, ficaram separados
por redes no mesmo tanque até chegarem
à maturidade sexual. Para o cruzamento,
foram selecionados os indivíduos acima
de 200 gramas, Red Stirling sem manchas,
e Chitralada com corpo avantajado e cabeça
pequena. Os alevinos frutos deste cruzamento
foram separados na fase de larva para que os
pesquisadores fizessem sua reversão sexual,
ou seja, induzissem a formação
de alevinos machos por meio de hormônios
masculinizantes. "Os estudos apontam que
os machos tendem a ganhar mais massa corpórea
que as fêmeas", afirma Alexandre.
Os peixes crescem
em tanques cuja temperatura precisa ser mantida
em torno de 26 graus Celsius, já que
as primeiras tilápias são naturais
de regiões quentes da África.
"Por isso, é mais adequado que elas
cresçam em águas mais quentes,
sem muita variação de temperatura",
explica Alexandre. Durante oito meses do ano,
a temperatura média da região
de Jundiaí varia entre 20 e 26 graus
Celsius. No inverno, cai abaixo dos 20 graus
Celsius, período que coincide com a colheita
dos adultos e com a fase de crescimento dos
alevinos em incubadoras de temperatura controlada.
"Nesses quatro anos de estudos, conseguimos
chegar à melhor combinação
para coloração, crescimento e
resistência a temperaturas baixas",
explica Alexandre.
A Fapesp financiou
R$ 113 mil em dois projetos apresentados ao
PIPE. "No início, o assessor da
Fapesp não via inovação
tecnológica no cruzamento de espécies.
Tive de provar que havia inovação
e também que o cruzamento ampliava nosso
conhecimento em genética de tilápias",
conta Alexandre. "Esta pesquisa em particular
gerou duas dissertações de mestrado
e dois artigos científicos publicados",
acrescenta. Os recursos do PIPE foram usados
para montar as estufas e os tanques-rede, e
para comprar a ração e os insumos
para a análise de genética molecular.
De acordo com as leis brasileiras, Alexandre
não pode pedir patente nem registro de
variedade de espécies animais. No entanto,
ele estuda uma abertura na legislação
atual — por exemplo, na Lei de Cultivares,
que permite registrar variedades agriculturáveis
— para solicitar o registro da nova variedade
de tilápia.
Resultados
Entre as conclusões
do projeto pode-se destacar que a coloração
avermelhada do Red Stirling predomina
sobre a coloração escura; os estudos
sugerem que a expressão da cor é
coordenada por mecanismos genéticos ainda
não conhecidos totalmente; e, finalmente,
houve um acréscimo de peso aos híbridos
avermelhados, que ultrapassaram a variedade
Red Stirling em cerca de 30% e o Chitralada
em 6%, atingindo 700 gramas. Para o veterinário
Juliano Kutitza, da Empresa Brasileira de Peixe,
do ponto de vista da produtividade, esse aumento
é a chave para o sucesso do negócio.
Ele explica que para cada quilo de filé
do Red Stirling são necessários
três quilos de peixe. Além disso,
dentro dos R$ 14 cobrados pelo quilo do filé,
80% são custos de produção.
"Temos de aumentar a produtividade em quantidade
e peso para conseguir diminuir os custos por
peixe", explica Juliano.
O propósito
de Alexandre é dar padrão de cor,
tamanho, consistência e corte da carne
à tilápia para vencer a resistência
dos consumidores. "O aspecto do peixe é
o que conta para o consumidor", afirma
Alexandre, que lembra a história de sucesso
do salmão, peixe de água salgada.
Hoje, só o Ceagesp de São Paulo,
o maior entreposto de peixes do Estado, vende
46 toneladas de salmão por dia, segundo
Virgílio Fonzar Hernandes, dono de barraca
de peixes há 28 anos. "Se o consumidor
desconfiar da cor, do cheiro ou da consistência,
ele não compra. Ele troca o peixe por
outro produto", explica Virgílio.
O peixeiro do Ceagesp concorda com a estratégia
de padronizar o produto. Ele mesmo já
compra mil quilos de Red Stirling por
semana e aguarda ansiosamente a chegada do híbrido
avermelhado, previsto para entrar no mercado
em junho com o provável nome de Royal
Saint Peter. "Boto a maior fé
neste produto. Quero ser o primeiro a vender.
Tenho certeza de que vou crescer junto com os
produtores, assim com aconteceu com o salmão",
afirma Virgílio, acrescentando que a
tilápia avermelhada tem o filé
de carne mais branco que os demais.