Publicado em 13 de abril de 2007






Empresa Brasileira de Peixe

Pesquisa para melhoramento de tilápias desenvolve novo híbrido
que substitui peixe de Israel; produto chega ao mercado em junho

Davi Molinari

Meia dúzia de peixes frescos, híbridos de tilápias do Nilo (Oreochromis niloticus), sobre a mesa central de um galpão na Fazenda Inês, região de Jundiaí (SP), despertam o interesse do zootecnista Alexandre Wagner Silva Hilsdorf, pesquisador do Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), e do biólogo Salvador Francisco Siciliano, da Royal Fish, empresa produtora de peixe. As tilápias, recém-retiradas de um dos tanques de criação da fazenda, são o resultado de um trabalho de melhoramento genético iniciado em 2001 e que está chegando ao final. "Gostaria que você avaliasse sabor, textura e cor da carne de acordo com o tipo de pele", pede Alexandre a Salvador, apontando as diferenças de padrão de manchas entre os espécimes. "A comparação entre peso, sabor e textura dos híbridos de cor vermelha e sem manchas com os híbridos manchados vai gerar informação para eu apresentar à diretoria da empresa", argumenta Alexandre.

O biólogo Salvador, que faz as vezes de encarregado de produção e distribuição e também de "mestre cuca" da fazenda — testando novas receitas culinárias —, concorda com a urgência da análise. Ele supervisiona o trabalho de dez pessoas na criação e venda de cerca de 40 toneladas da espécie de tilápia avermelhada, denominada Red Stirling, produzidas pela empresa desde 2002. A Empresa Brasileira de Peixe, antiga Agropecuária Saint Peter, usa o nome fantasia Royal Fish em seus veículos de distribuição. A produção está dividida entre duas fazendas, cortadas pela rodovia que liga Jundiaí a Cabreúva. A Serra do Japi, ao fundo, compõe a paisagem com as estufas cobertas de plástico que mantêm quente a água dos tanques de engorda. "A política da empresa é vender tilápia vermelha, mais apreciada pelo mercado", explica Salvador.

Se depender da fina freguesia do Empório Santa Luzia, em São Paulo, o novo híbrido em desenvolvimento na fazenda de Jundiaí terá lugar cativo nas receitas de peixe. O empório, especializado em produtos sofisticados, vendia a tilápia israelense Saint Peter, primeiro produto da Empresa Brasileira de Peixe. Os consumidores continuaram procurando pelo peixe quando ele deixou de ser produzido, e passaram a comprar o Red Stirling sem notar a diferença. Hoje, o Empório Santa Luzia vende 50 quilos do Red Stirling por semana. O peixe fresco chega toda terça-feira, há mais de três anos. "Ele tem muita aceitação", afirma Renato Lima, responsável pela compra de peixes do empório. "As pessoas compram de olhos fechados. Nunca tivemos uma devolução, e quando acaba o peixe, o consumidor reclama."

Vermelho e grande

O Brasil produz 60 mil toneladas de tilápias por ano. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), tilápias e carpas representam 80% do peixe cultivado em fazendas pesqueiras, que respondem pelo manejo de 64 espécies diferentes. A Empresa Brasileira de Peixe só vende a tilápia vermelha. O problema é que a variedade Red Stirling cresce menos que a tilápia escura, chamada Chitralada. "Procurarmos o financiamento do PIPE, em 2001, justamente para viabilizar um híbrido de tilápia que fosse vermelho como o Red Stirling e grande como o Chitralada", explica Alexandre, enquanto verifica a incubadora de alevinos.

De bermuda e galochas, o professor e pesquisador da UMC explica que visita os tanques de pesquisa duas vezes por semana. Traz consigo alunos de mestrado, que ajudam na coleta de dados sobre a produção do híbrido. Desde criança, Alexandre alimenta seu desejo de conhecimento sobre peixes. Nascido na cidade de Santos, lembra que passava horas no aquário municipal assistindo ao pequeno pedaço do universo submarino exposto ao público. Foi dele a idéia de trazer a tilápia vermelha da Escócia, onde, em 1990, formou-se mestre em aqüicultura pela Universidade de Stirling — que emprestou o nome à variação Red Stirling.

A primeira pessoa a abraçar seu projeto, por mera coincidência, foi o médico otorrinolaringologista Ricardo Ferreira Bento. Alexandre lembra que, em 1999, Ricardo entrou na sala em que ele conversava com seu orientador de doutorado, José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração, em São Paulo. A tese era sobre genética do DNA mitocondrial de uma espécie de peixe da bacia do Rio Paraíba do Sul. O visitante Ricardo, um dos sócios da Empresa Brasileira de Peixe, interessou-se pelo trabalho de Alexandre e por seus conhecimentos. Na época, a firma cultivava uma espécie de tilápia, também vermelha, com a marca registrada Saint Peter, cujas matrizes comprava de uma empresa israelense. Como a Empresa Brasileira de Peixe não tinha licença para modificar a espécie e dependia do fornecimento constante de matrizes israelenses, o negócio não vingou. Com a espécie Red Stirling, a empresa quer repetir o sucesso repentino que a tilápia Saint Peter teve no mercado brasileiro nos anos 1990.

Apoio da Fapesp

Em 2000, a Empresa Brasileira de Peixe encomendou um plantel de Red Stirling da Escócia. Alexandre, pesquisador em dedicação exclusiva da UMC, já conhecia o PIPE. "Como acadêmico, sou defensor da Fapesp como modelo internacional", afirma. O professor enfatiza o fato de a Fapesp não discriminar uma instituição privada que desenvolve pesquisa científica, como a UMC. "Há outras instituições de fomento e apoio à pesquisa no Brasil que se recusam a fornecer recursos a uma instituição de ensino e pesquisa só pelo fato de ela ser privada", conta Alexandre.

O projeto apresentado ao PIPE foi calcado no tripé de produção animal: alimento, manejo e genética. Com base em conhecimento próprio e em literatura já publicada sobre cultivo de tilápias, Alexandre decidiu que a melhor linhagem para o cruzamento seria a do Chitralada, espécie originária da Tailândia, introduzida no Brasil em 1996. Para o experimento foram trazidos dois plantéis, um de cada espécie. Os peixes, ainda na fase pequena, ficaram separados por redes no mesmo tanque até chegarem à maturidade sexual. Para o cruzamento, foram selecionados os indivíduos acima de 200 gramas, Red Stirling sem manchas, e Chitralada com corpo avantajado e cabeça pequena. Os alevinos frutos deste cruzamento foram separados na fase de larva para que os pesquisadores fizessem sua reversão sexual, ou seja, induzissem a formação de alevinos machos por meio de hormônios masculinizantes. "Os estudos apontam que os machos tendem a ganhar mais massa corpórea que as fêmeas", afirma Alexandre.

Os peixes crescem em tanques cuja temperatura precisa ser mantida em torno de 26 graus Celsius, já que as primeiras tilápias são naturais de regiões quentes da África. "Por isso, é mais adequado que elas cresçam em águas mais quentes, sem muita variação de temperatura", explica Alexandre. Durante oito meses do ano, a temperatura média da região de Jundiaí varia entre 20 e 26 graus Celsius. No inverno, cai abaixo dos 20 graus Celsius, período que coincide com a colheita dos adultos e com a fase de crescimento dos alevinos em incubadoras de temperatura controlada. "Nesses quatro anos de estudos, conseguimos chegar à melhor combinação para coloração, crescimento e resistência a temperaturas baixas", explica Alexandre.

A Fapesp financiou R$ 113 mil em dois projetos apresentados ao PIPE. "No início, o assessor da Fapesp não via inovação tecnológica no cruzamento de espécies. Tive de provar que havia inovação e também que o cruzamento ampliava nosso conhecimento em genética de tilápias", conta Alexandre. "Esta pesquisa em particular gerou duas dissertações de mestrado e dois artigos científicos publicados", acrescenta. Os recursos do PIPE foram usados para montar as estufas e os tanques-rede, e para comprar a ração e os insumos para a análise de genética molecular. De acordo com as leis brasileiras, Alexandre não pode pedir patente nem registro de variedade de espécies animais. No entanto, ele estuda uma abertura na legislação atual — por exemplo, na Lei de Cultivares, que permite registrar variedades agriculturáveis — para solicitar o registro da nova variedade de tilápia.

Resultados

Entre as conclusões do projeto pode-se destacar que a coloração avermelhada do Red Stirling predomina sobre a coloração escura; os estudos sugerem que a expressão da cor é coordenada por mecanismos genéticos ainda não conhecidos totalmente; e, finalmente, houve um acréscimo de peso aos híbridos avermelhados, que ultrapassaram a variedade Red Stirling em cerca de 30% e o Chitralada em 6%, atingindo 700 gramas. Para o veterinário Juliano Kutitza, da Empresa Brasileira de Peixe, do ponto de vista da produtividade, esse aumento é a chave para o sucesso do negócio. Ele explica que para cada quilo de filé do Red Stirling são necessários três quilos de peixe. Além disso, dentro dos R$ 14 cobrados pelo quilo do filé, 80% são custos de produção. "Temos de aumentar a produtividade em quantidade e peso para conseguir diminuir os custos por peixe", explica Juliano.

O propósito de Alexandre é dar padrão de cor, tamanho, consistência e corte da carne à tilápia para vencer a resistência dos consumidores. "O aspecto do peixe é o que conta para o consumidor", afirma Alexandre, que lembra a história de sucesso do salmão, peixe de água salgada. Hoje, só o Ceagesp de São Paulo, o maior entreposto de peixes do Estado, vende 46 toneladas de salmão por dia, segundo Virgílio Fonzar Hernandes, dono de barraca de peixes há 28 anos. "Se o consumidor desconfiar da cor, do cheiro ou da consistência, ele não compra. Ele troca o peixe por outro produto", explica Virgílio. O peixeiro do Ceagesp concorda com a estratégia de padronizar o produto. Ele mesmo já compra mil quilos de Red Stirling por semana e aguarda ansiosamente a chegada do híbrido avermelhado, previsto para entrar no mercado em junho com o provável nome de Royal Saint Peter. "Boto a maior fé neste produto. Quero ser o primeiro a vender. Tenho certeza de que vou crescer junto com os produtores, assim com aconteceu com o salmão", afirma Virgílio, acrescentando que a tilápia avermelhada tem o filé de carne mais branco que os demais.