Orbital Engenharia
Financiamento do PIPE viabilizou
desenvolvimento de tecnologia de painéis solares
para satélites, que empresa fornece para o INPE
Evanildo
da Silveira
Com apenas seis
anos de existência, a Orbital Engenharia,
de São José dos Campos, conseguiu
realizar um feito tecnológico: colocou
o Brasil no seleto grupo de países que
dominam o ciclo completo da fabricação
de painéis solares espaciais —
ou seja, geradores de energia para uso em satélites
—, o qual inclui Estados Unidos, França,
Alemanha, Japão, Rússia e China.
Criada em março de 2001 pelo engenheiro
mecânico Célio Costa Vaz, com ajuda
de um financiamento do Programa de Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE),
a Orbital já produziu os painéis
solares de três satélites fabricados
pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE). Os últimos foram entregues em
janeiro de 2007. Eles vão equipar o China-Brazil
Earth Resources Satellite 2B (CBERS-2B),
ou Satélite Sino-Brasileiro de Recursos
Terrestres, fruto de um programa de cooperação
do Brasil com a China.
Vaz resolveu
fundar a empresa para aproveitar sua experiência
na área de geração de energia
para satélites, adquirida no período
em que trabalhou no INPE, entre 1981 e 2000.
Ele foi o projetista dos painéis solares
dos satélites de coleta de dados SCD-1,
SCD-2A e SCD-2, lançados, respectivamente,
em 1993, 1997 e 1998. O SCD-1 e SCD-2 ainda
estão em operação, mas
SCD-2A nem chegou a entrar em órbita.
O foguete que o levaria ao espaço, o
VLS 1, explodiu durante o lançamento.
Vaz também foi o engenheiro responsável
pelos mesmos equipamentos do CBERS-1, lançado
1999. Além disso, foi consultor interno
do INPE na construção do Saci,
pequeno satélite que falhou em órbita.
Com essa bagagem
de conhecimentos, Vaz aderiu ao programa de
demissão voluntária do INPE em
setembro de 2000. Logo em seguida concluiu seu
doutorado na área de energia no próprio
instituto. "Isso me habilitou a apresentar
o projeto 'Geradores fotovoltaicos para aplicações
aeroespaciais' no PIPE da Fapesp", conta.
"O que fiz em março de 2001, mesmo
mês em que criei a Orbital." O projeto,
na Fase I do PIPE, foi aprovado dois meses depois,
com um financiamento de R$ 52.971,60. "Esse
dinheiro viabilizou o nascimento da Orbital",
diz Vaz. "Sem ele, a empresa não
existiria hoje".
O financiamento
foi usado para estudar a viabilidade do projeto.
Nessa fase, foram projetados e desenhados os
equipamentos para a fabricação
das células, que, em conjunto, formam
o painel solar. "Foi também nessa
fase que definimos os processos e procedimentos
de fabricação", explica Vaz.
"Além disso, definimos o plano de
garantia do produto, os programas de inspeção
e testes de qualificação."
A primeira fase começou em abril de 2001
e foi concluída cerca de seis meses depois.
PIPE
Fase II
Vaz solicitou
financiamento para o PIPE Fase II em novembro
de 2001. O pedido foi aprovado no começo
do ano seguinte. O valor liberado, de R$ 236,7
mil e mais US$ 41.308,95, foi usado para detalhar
o projeto, desenvolver os processos de fabricação
e produzir efetivamente os equipamentos que
haviam sido projetados na Fase I. "O que
fizemos na Fase II foi desenvolver a tecnologia
de fabricação dos painéis,
que havíamos estudado na Fase I",
explica Vaz. "Para isso, fabricamos uma
série de máquinas, equipamentos
e acessórios necessários para
a produção dos geradores fotovoltaicos."
Nessa fase,
também foi feita a qualificação
da empresa e dos painéis solares por
ela produzidos. Foram fabricados e testados
os chamados corpos-de-prova, ou seja, painéis
idênticos aos que vão equipar os
satélites, mas que podem ter dimensões
diferentes. "O processo de qualificação
é rigoroso", diz Vaz. "Tivemos
de demonstrar que os equipamentos e processos
que desenvolvemos atendem aos requisitos de
qualidade exigidos para itens que equipam satélites."
Vaz explica
que a qualidade dos itens dos satélites
tem de ser excelente, porque não é
possível fazer manutenção
no espaço. A empresa também teve
de demonstrar capacidade de produção
e repetição. "Fomos aprovados
na qualificação", orgulha-se
Vaz. "Os resultados dos testes demonstram
que dispomos de qualidade tecnológica
e meios de fabricação qualificados
para atender à demanda por equipamentos
para o setor aeroespacial. Agora a Orbital está
habilitada a fornecer equipamentos espaciais
para o INPE."
Os painéis
solares ou geradores fotovoltaicos são
a fonte de energia elétrica que faz o
satélite e seus equipamentos funcionarem.
Eles captam os raios do Sol e transformam a
radiação solar em energia elétrica.
São compostos por milhares de pequenas
unidades básicas chamadas de Solar
Cell Assembly (SCA), ou célula solar
montada. Estas unidades, por sua vez, são
compostas de três partes: a célula
solar propriamente dita, feita na maioria dos
casos de silício ou arseneto de gálio;
o interconector, feito de prata, que liga uma
célula à outra; e uma cobertura
de proteção feita de vidro, conhecida
como cover glass.
Segundo Vaz,
a célula solar e o cover glass
podem ser facilmente comprados no mercado. A
dificuldade é o interconector, que depende
das especificações de cada projeto
de painel solar. Para cada gerador é
requerido um interconector específico.
E produzi-lo não é fácil.
"No caso do usado no painel do CBERS-2B,
ele tinha de ter uma espessura de 0,012 milímetro,
com uma alça com um raio de 0,10 milímetro",
explica Vaz. "Essa alça é
necessária para que o interconector não
se rompa com a variação de temperatura
no espaço, que pode ir de 80 graus Celsius
negativos a 80 graus Celsius positivos."
Desafio
tecnológico
Produzir uma
peça tão pequena não é,
no entanto, a maior dificuldade para a fabricação.
O grande desafio tecnológico é
produzir as SCAs. Em cada célula, cujo
tamanho pode variar entre dois e quatro centímetros
de largura e quatro e sete centímetros
de comprimento, é colada a cobertura
de vidro, com uma espessura entre 0,1 e 0,2
milímetro, que a protege das radiações
existentes no espaço, como prótons
e elétrons. Também é preciso
soldar o interconector, que servirá para
ligar uma célula à outra. "Se
compararmos um painel a uma caixa de pilhas,
cada célula seria uma pilha", explica
Vaz. "À primeira vista, pode parecer
um desafio simples, mas não é.
Existem vários requisitos de qualidade
que tornam essa montagem muito complexa. É
por isso que são poucos os países
que dominam essa tecnologia."
Hoje a Orbital
tem como cliente, além do INPE, a Agência
Espacial Brasileira (AEB). A primeira encomenda
à empresa foi feita em dezembro de 2001,
quando ela participou de uma concorrência
pública e foi escolhida para fabricar
quatro painéis solares para o Satélite
Tecnológico (Satec), cada um deles medindo
50 centímetros por 66 centímetros.
Juntos, eles eram compostos por 1,1 mil SCAs.
Nesse caso, a Orbital apenas montou os painéis
com células importadas, porque ainda
não dominava a tecnologia. O Satec não
chegou a ser lançado. Ele já estava
acoplado ao VLS 1 quando este explodiu na base
de lançamento de Alcântara, no
Maranhão, em agosto de 2003.
O contrato seguinte
da Orbital foi assinado em setembro de 2002.
"Fomos subcontratados para projetar e fabricar
os painéis solares da Plataforma Multimissão
(PMM)", conta Vaz. "Ela está
sendo construída para a AEB e para o
INPE por um consórcio de quatro empresas
nacionais: Atech, de São Paulo, Cenic,
Fibraforte e Mectron, de São José
dos Campos." A PMM é um módulo
de serviço que poderá ser usado
por uma série de satélites diferentes.
Numa analogia, é como se fosse um chassi
de carro, no qual se podem montar vários
modelos. Na PMM poderão ser montados
diversos tipos de satélites. "Desenvolvemos
e montamos os painéis solares para as
duas asas da plataforma, cada uma delas com
cerca de 80 centímetros por 130 centímetros
e quase 1,5 mil células", conta
Vaz.
O trabalho mais
recente da Orbital para o INPE começou
em dezembro de 2005, quando a empresa venceu
a licitação para o fornecimento
dos painéis solares para o CBERS-2B,
que deve ser lançado em setembro. Na
verdade foram duas licitações,
uma para fabricar os módulos (série
de SCAs ligadas entre si) e outra para instalação
da parte elétrica (colagem dos módulos
nos painéis e instalação
e ligação de cabos), num contrato
de R$ 4 milhões. Para esse satélite,
a Orbital fabricou três geradores fotovoltaicos
de 1,8 metro por 2,8 metros, compostos no total
por 16 mil SCAs de dois centímetros por
quatro centímetros. Eles passaram por
testes de aceitação realizados
pelo INPE em dezembro e foram aprovados.
Capacidade
tecnológica
O coordenador
do Segmento Espacial do Programa CBERS, Janio
Kono, do INPE, reconhece a capacidade tecnológica
da Orbital Engenharia. "A empresa passou
por um processo rigoroso de qualificação
aqui no INPE e foi aprovada", diz. "Ela
domina uma tecnologia bastante avançada,
que antes o Brasil precisava importar."
De acordo com ele, além de ser capaz
de produzir painéis solares para satélites,
a empresa está qualificada para projetos
de outras áreas, como a de aeronáutica.
Para o coordenador
do Programa de Satélites Baseados na
Plataforma Multimissão, Mário
Marcos Quintino da Silva, do INPE, o caso da
Orbital é um exemplo de sucesso da diretriz
do instituto de transferir tecnologia para empresas
nacionais. "Ela representa a maturação
de uma iniciativa de transferência de
tecnologia de uma instituição
pública para a indústria",
explica. Além do INPE e da própria
Orbital, quem ganha com isso é o País.
"Com a Orbital, o Brasil tem agora uma
indústria de altíssimo nível
tecnológico, que gera produto com grande
valor agregado e empregos que requerem alta
especialização", diz Silva.
"Além disso, a empresa está
qualificada para vender no exterior."
É justamente
o que pretende o fundador da Orbital. "Como
o mercado nacional de satélites é
limitado e sazonal, vamos buscar clientes no
exterior para crescer", revela Vaz. "Pretendemos
participar de licitações internacionais.
Para isso, estamos tentando obter a certificação
pela norma NBR 15.100 Sistema de Qualidade Espacial."
Um dos possíveis mercados internacionais
são os Estados Unidos, que fabricam dezenas
de satélites científicos por ano.
"Acho que poderemos ser bem-sucedidos nesse
mercado se tivermos preço competitivo",
diz Vaz. "Mas não vamos nos limitar
a essa alternativa. Vamos procurar outros países,
como México, Chile e Argentina, que também
têm programas espaciais, mas não
dominam a tecnologia de fabricação
desses painéis solares."