Publicado em 2 de abril de 2007






Bionova Mudas e Plantas

Mudança de foco garante sobrevivência de empresa; agora, é a tecnologia de propagação que está à venda, e não mais as mudas!

Lívia Komar

De um início tímido, a Bionova, localizada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, foi crescendo, aparecendo e multiplicando seus serviços ao longo de dez anos de mercado, assim como aconteceu com seu produto principal, as mudas de plantas. A empresa, hoje premiada e reconhecida, teve momentos de glória com sua técnica inovadora de micropropagação de mudas "de alta quantidade e baixo custo", de acordo com Clemência Noriega, fundadora da empresa. Um financiamento do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) ajudou a empresa a incluir mudas de banana entre seus produtos e expandir seus negócios. Colheu frutos saborosos desse apoio.

Em 2005, a morte de um de seus sócios desestabilizou a Bionova; mas não abateu a empresa — que continuou sendo expert na multiplicação de plantas em grandes quantidades, mas foi obrigada a mudar o foco de seus serviços. Agora, ao invés de fornecer mudas, a empresa presta consultoria e vende a tecnologia de suas incubadoras de mudas — tecnicamente chamadas de "biorreatores". Em relação à metodologia tradicional, os biorreatores da Bionova (de "alto volume") garantem a proliferação de até 200 vezes mais mudas no mesmo espaço de tempo. Além da escala, outra vantagem dos reatores de 50 litros da empresa é o fato de ocuparem menos espaço, proporcionalmente à produção.

A mudança de foco já rendeu um bom negócio: em outubro de 2006, a filial brasileira da holandesa SBW International, localizada em Holambra, São Paulo, adquiriu da Bionova 24 biorreatores, que serão utilizados na produção de mudas in vitro de abacaxi, cana-de-açúcar e banana, entre outras. Apesar de ainda estar em fase de testes, os biorreatores brasileiros já foram aprovados pelo grupo holandês. "Até o momento, o trabalho da Bionova demonstrou-se eficaz e à altura de nossas expectativas. O diferencial da empresa são os dez anos de experiência com culturas tropicais", afirma o engenheiro agrônomo Admir Giachini, gerente geral de produção da filial brasileira da SBW.

A idéia brotando

A idéia de criar a Bionova surgiu em 1996, nos EUA, quando o agrônomo Maro Söndahl, mestre em fisiologia vegetal e PhD em biologia celular, e a bióloga e mestre em botânica, Clemência Noriega, trabalhavam na DNA Plant Technology Corporation, companhia de biotecnologia no Estado de New Jersey. O casal atuava no desenvolvimento de sistemas de micropropagação de mudas desde 1990, para multiplicar plantas-elite — aquelas que apresentam as melhores características dentro de uma determinada variedade da espécie —, com alta qualidade e baixo custo. A DNA encerrou as atividades em 1993, mas o casal deu continuidade às pesquisas e conseguiu aperfeiçoar a técnica. A micropropagação de mudas é largamente utilizada na agronomia. Sua função é difundir uma cultura sem sementes, geralmente in vitro.

O casal passou, então, a desenvolver um sistema de "micropropagação em cultura líquida em alto volume através de imersão temporária". Com muita determinação, investimentos em protótipos e noites em claro, os sócios da Bionova desenharam o biorreator de 50 litros, com o objetivo de aumentar a velocidade de introdução de novas variedades no mercado. De acordo com Clemência, os biorreatores convencionais têm volume dez vezes menor. O equipamento é o grande diferencial da Bionova. "Quando se abre um dos nossos biorreatores, tiram-se 7 mil ou 8 mil plantas juntas. Quando se abre um potinho, utilizado em outras metodologias de micropropagação, tiram-se 30 ou 40", esclarece Noriega, a dona da idéia.

No sistema de micropropagação da Bionova, os meristemas — tecido formado por células embrionárias, que têm capacidade de divisão e podem dar origem a tipos diferentes de células — de uma planta matriz são cultivados in vitro, crescem e se multiplicam. Quando o número de meristemas chega a centenas, são transferidos para o biorreator. Lá, as centenas se transformam em milhares — um "inóculo" de 100 a 500 plantas, para usar a expressão técnica, pode resultar, depois de semanas no biorreator, em 4 mil a 15 mil plantas.

Multiplicando os frutos

A micropropagação serve para multiplicar, em tempo e espaço menores, uma grande quantidade de mudas. A técnica também é utilizada para multiplicação em massa de plantas em processo de extinção, cujas sementes apresentem dificuldades de germinação ou quando há necessidade de erradicação de alguma doença. O nome "micropropagação" se deve ao fato de pequenos fragmentos de plantas serem utilizados para a multiplicação. A engenheira química Miriam Vergínia Lourenço, pesquisadora na área de biotecnologia da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), explica que a propagação pode partir de várias ou de uma única matriz, conforme o enfoque do trabalho. "Para mantermos a diversidade genética da espécie, o ideal é que utilizemos indivíduos geneticamente distintos, já que as plantas obtidas por micropropagação são sempre clones da matriz", comenta.

A primeira aplicação comercial da técnica foi feita em orquídeas. Hoje, sabe-se que qualquer planta pode ser micropropagada; para cada espécie, no entanto, é necessário estabelecer um protocolo próprio. O protocolo é uma espécie de receita para a micropropagação dar certo com aquela planta, pois os vegetais apresentam características próprias em função de sua fisiologia, genética etc. A cana, por exemplo, multiplica-se com mais facilidade que a banana. Os estudos para o desenvolvimento da tecnologia começaram nas primeiras décadas do século XX. Nos primórdios, a técnica fracassou devido ao desconhecimento das necessidades nutricionais das plantas. Mais tarde, os pesquisadores implementaram os meios de cultura com nutrientes minerais, depois com aminoácidos e vitaminas. Os maiores avanços foram obtidos na década de 1950, após a descoberta da citocinina, substância que ajuda a regular o crescimento vegetal, ainda utilizada na micropropação.

"No Brasil, a técnica é recente e foi introduzida por pesquisadores, em laboratórios de pesquisas em instituições públicas, universidade e, atualmente, em algumas empresas", conta a engenheira química. No Japão, na Europa e nos Estados Unidos, a micropropagação é mais difundida. Para a pesquisadora, que trabalha com o assunto há 18 anos, existe uma grande diferença entre as técnicas de micropropagação laboratoriais comumente utilizadas, com pequenos biorreatores ou sem a utilização destes, e a desenvolvida pela Bionova, com recipientes de 50 litros. "Este sistema exige menos mão-de-obra e os custos, com o tempo, tornam-se menores. O investimento inicial com o biorreator é maior que a metodologia tradicional, mas vai se amortizando", garante. Ela atesta também que o biorreator de alto volume, em relação à metodologia convencional, diminui o tempo e o espaço necessários para a micropropagação.

Da cana para o abacaxi e a banana

Clemência e Maro voltaram ao Brasil. Em 1997, uniram-se ao pesquisador da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq/USP), de Piracicaba, Henrique Amorim. Surgiu assim a Bionova, que começou com a exploração de multiplicação de cana-de-açúcar, planta que havia servido de modelo durante todo o trabalho de pesquisa nos EUA. Justamente por isso, a biofábrica instalou-se em Ribeirão Preto, núcleo sucroalcooleiro nacional. Quando o sócio Henrique — um expert no assunto fermentação de álcool — deixou a empresa em 2002, Clemência passou a ser também proprietária. "Percebemos a viabilidade de aplicar nossa tecnologia na cidade por meio de uma pesquisa de mercado. Descobrimos aproximadamente 32 laboratórios de cultura de tecidos na área de cana ligados às usinas em toda a região", explica a fundadora. Os laboratórios faziam parte das usinas e produziam as plantas que seriam utilizadas na safra pelo método tradicional de micropropagação — ou seja, sem os biorreatores. Na época, um biorreator da Bionova era capaz de produzir de 10 mil a 15 mil plantas de cana em pouco mais de oito semanas, com a promessa de sobrevivência de praticamente 100% das mudas.

Enquanto a bióloga ficava na biofábrica cuidando da produção, Söndahl e Amorim saíam a campo para oferecer as mudas micropropagadas primeiro para as usinas de açúcar e álcool da região; depois, para as de outros Estados do território nacional. Mais de 40 usinas do Brasil adquiriram 3,5 milhões de mudas de cana-de-açúcar em apenas oito anos. "No processo que desenvolvemos, com a utilização de grandes biorreatores, o manuseio das plantas é menor", diz Clemência. Além disso, continua a empresária, a troca de meios — um passo do processo que é importante para a evolução das fases de desenvolvimento da planta — leva apenas cinco minutos com a técnica da Bionova, mas pode demorar horas na metodologia tradicional. "O grande valor disso está na supereficiência de energia, espaço funcionários e insumos. Tudo é utilizado com grande eficiência", completa.

Quem olhasse a casa onde funciona a Bionova, em um bairro residencial de Ribeirão Preto, dificilmente imaginaria que ali eram produzidas 5 milhões de plantas por ano, com uma equipe enxuta, de oito funcionários, treinada exclusivamente na prática de micropropagação semi-automatizada. Apenas uma colaboradora possuía um curso técnico em química. Os sete restantes se especializaram dentro da biofábrica, mais um motivo pelo qual se vangloria a proprietária. Duas destas funcionárias foram contratadas pela SBW para operarem os biorreatores vendidos pela Bionova. Uma parte do processo de produção de mudas, anterior ao transplante para o solo, era terceirizada para viveiristas.

Os prêmios

Nos anos de 2005 e 2006, a empresa foi agraciada com o Prêmio Top de Agronegócios. Apesar do grande reconhecimento, a empresa optou por não registrar patentes. "Optamos por trabalhar com nosso biorreator como segredo industrial. Considero muito difícil proteger uma patente no Brasil", assevera Clemência. Ela não dá nem uma pista dos materiais que utiliza na montagem do equipamento que levou muitos anos para sair do papel.

Logo após o sucesso com a produção de mudas de cana-de-açúcar, a empresa passou a desenvolver mudas do MD2 Gold, uma espécie de abacaxi desconhecida no Brasil, criada na América Central. Esse abacaxi, dirigido exclusivamente para consumo in natura, é mais doce, tem baixo conteúdo de fibras e folha lisa, sem espinhos. As mudas do MD2 Gold foram enviadas para diversas partes do Brasil. A aceitação da fruta no mercado foi a alavanca para a produção de mudas de banana.

A Fapesp

O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de banana, atrás apenas da Índia e do Equador, com um volume de negócios superior a R$ 1,8 bilhão ao ano. Para entrar nesse mercado, os sócios buscaram o apoio do PIPE da Fapesp. O financiamento de R$ 190 mil foi despendido com uma bolsa de pesquisa, insumos, filtros de membrana, filtros de ar, garrafas, vidraria para as culturas, mangueiras e reagentes, relógios com termômetro e suporte para serviço terceirizado de viveiros.

"A produção de mudas de banana in vitro ganhou um potencial muito grande", garante a bióloga, que enumera os benefícios da micropropagação da fruta nos biorreatores projetados pela Bionova: "economia de espaço superior a 65%, eficiência de utilização de mão-de-obra superior a 300%, economia de energia e insumos superior a 50% e produção de mudas a partir de bancos de germoplasma mais limpos", cita. O projeto da Fapesp foi feito com banana prata, de grande importância no mercado do Estado, porém a tecnologia foi testada com outros germoplasmas e obteve bons resultados.

Mas... A Bionova conseguiu vender apenas 100 mil mudas de banana. Um acidente automobilístico em 2005 tirou a vida do sócio-fundador Söndahl, representante da empresa no mercado e no campo. "Devido à falta de Maro, além do agravante da situação do mercado, os pedidos começaram a ser feitos em pequenas quantidades e nossa tecnologia foi desenvolvida para alta escala. Infelizmente não conseguíamos manter o laboratório", lamenta-se a esposa do agrônomo.

Plano B

Sozinha na direção da empresa, a bióloga optou por comercializar a tecnologia que o PIPE ajudou a desenvolver e aperfeiçoar. Ao invés das mudas, a Bionova vende agora os próprios biorreatores, cujos princípios científicos, segundo a dona, são completamente novos no Brasil e no mundo. "Se uma companhia como a SBW explorar este potencial, o Brasil terá uma fonte inesgotável de mudas sadias de banana. É só aplicar a técnica", diz Noriega. "Se tivéssemos as condições de ter permanecido com a biofábrica, a banana teria sido a cultura mais propagada pela Bionova", completa.

Mesmo com os percalços do caminho, o financiamento da Fapesp para a Bionova realizou o sonho de demonstrar as vantagens e a viabilidade da multiplicação mais eficiente e mais barata de mudas sadias de banana. Apesar da representatividade da fruta na economia de vários Estados, a cultura no País ainda é feita principalmente de modo tradicional, utilizando poucas mudas in vitro de boa qualidade.

"A Fapesp não perdeu o investimento", diz a viúva. "A Bionova conseguiu dar mais um exemplo da viabilidade da cultura de micropropagação em alto volume. Outra companhia vai explorar isso, gerar empregos. Quero que essa tecnologia seja usufruída. Não quero deixá-la na gaveta", enfatiza a bióloga.

A Bionova espera agora outros clientes, além da SFW. "Um biorreator tradicional, de dois a cinco litros, pode custar até US$ 10 mil. Nossos biorreatores para comercialização custam em média US$ 2,5 mil e são 10 mil vezes mais fáceis de trabalhar", garante Clemência. Isso acontece, segundo a bióloga, pelo fato de ele ainda não ter sido industrializado. "Ele é desenhado por mim. Ninguém mais o tem. Ele é grande, produz mais e é barato", explica, enaltecendo sua invenção.