Publicado em 21 de março de 2007






WhitePix Sistemas Computacionais

Empresa criada só para ser licenciada da Embrapa Instrumentação planeja lançar tomógrafo portátil em 2008, com recursos do PIPE

Evanildo da Silveira

A técnica da tomografia chega à agricultura e à silvicultura. Desde 1985, pesquisadores da Embrapa Instrumentação Agropecuária, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vêm trabalhando em um tomógrafo portátil que possa ir ao campo e "ver" as entranhas de árvores e do solo sem precisar destruí-los. Por meio de um contrato de transferência de tecnologia, o novo equipamento será produzido comercialmente pela pequena que inova WhitePix Sistemas Computacionais, de São Carlos, no interior de São Paulo, onde também está a Embrapa Instrumentação. De acordo com o dono da empresa, Edson Minatel, o equipamento — um cubo, com 1 metro de aresta, que pesa 30 quilos — estará no mercado no início de 2008. Para cumprir seu cronograma, ele conta com recursos do programa da Fapesp que apóia a pesquisa na pequena empresa — e com a tecnologia transferida.

Álvaro Macedo da Silva, chefe geral da Embrapa Instrumentação, conhece a utilidade que o tomógrafo portátil tem para a agropecuária. Primeiro emprego citado por ele: o tomógrafo permite a análise do solo, para verificar se ele facilita ou não o transporte de líquidos. "O solo é um meio poroso", diz, na linguagem dos agrônomos, "e sua estrutura afeta a forma pela qual nutrientes e pesticidas são absorvidos". A vantagem do tomógrafo sobre outros meios de análise é ser "não invasivo", continua o chefe geral. Por isso mesmo, o instrumento também será útil para acompanhar o desenvolvimento da cultura: a germinação das sementes, o crescimento das raízes. Outra vantagem: como as amostras analisadas pelo tomógrafo portátil ficam intactas, podem ser reutilizadas em metodologias diferentes de análise.

Para a silvicultura — cultivo de florestas —, além de útil para a analise do solo, o tomógrafo poderá vir a ser aplicado na caracterização e prescrição da utilização da madeira, por meio da tomografia da árvore em pé. Por isso, será importante para empresas que cultivam florestas para produção de papel e celulose. "A WhitePix e nosso grupo têm mantido contatos com grandes empresas do setor", revela.


Tudo começou com o atual presidente!

O tomógrafo portátil começou a ser desenvolvido em 1985 pelo físico Silvio Crestana, em sua tese de doutorado. Silvio, que ajudou a fundar a unidade de São Carlos nos anos 70, agora é diretor-presidente da Embrapa. "Ele criou uma metodologia inédita no mundo, que permitiu estudar quantitativamente as propriedades físicas do solo, utilizando um tomógrafo médico em um hospital da Universidade de Roma", conta João de Mendonça Naime, pesquisador da Embrapa Instrumentação Agropecuária e responsável pelo desenvolvimento dos protótipos do equipamento para a WhitePix.

Segundo ele, comprovada a viabilidade da técnica, surgiu a necessidade do desenvolvimento de equipamentos dedicados e versáteis para estudo de solo e que fossem mais acessíveis do que os tomógrafos médicos, que custam cerca de U$ 1 milhão. "Em 1987, Paulo Estevão Cruvinel, outro pesquisador da Embrapa Instrumentação Agropecuária, desenvolveu o minitomógrafo de raios X e raios gama para estudos agrícolas", lembra Naime. "Depois disso, diversos trabalhos, dissertações e teses foram desenvolvidas com essa técnica e equipamento. Pouco mais tarde, o doutor Crestana orientou meu mestrado (1994) e meu doutorado (2001), nos quais foram desenvolvidas as versões de primeira e terceira geração, respectivamente, do tomógrafo portátil."


Prestação de serviços

Os interessados em usar o tomógrafo portátil não precisarão necessariamente comprá-lo. "O modelo de negócios da WhitePix também é inovador e o aparelho será disponibilizado prioritariamente como um serviço", explica o dono da empresa, Edson Minatel. "Por ser portátil, ele poderá ser levado e operado nas instalações do cliente." Instituições de pesquisa ou grandes indústrias, se quiserem, também vão poder comprar seu próprio equipamento. Mas, após uma análise de mercado criteriosa, a WhitePix concluiu que a forma de uso do equipamento por tempo ou quantidades pré-estabelecidas é mais adequada.

Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimovel), José Luiz Fernandez, o tomógrafo portátil pode ser usado pelo setor no controle de qualidade da madeira, principalmente na serraria. Segundo ele, hoje não há nenhum tipo de equipamento para detectar cupins, carunchos e outras pragas. "A verificação da infestação é feita no 'olhômetro', isto é, por exame visual", explica. "Esse tomógrafo seria uma ferramenta a mais para o controle. Mas seu o emprego pela indústria moveleira vai depender dos custos."


Tecnologia multidisciplinar

A WhitePix foi fundada em outubro de 2005, em São Carlos. Para entender os motivos de sua criação é preciso antes conhecer um pouco da história da primeira empresa criada por Minatel, a Ablevision, em 1999. Ela surgiu com o objetivo de pesquisar, desenvolver e disponibilizar softwares de visão computacional. "Durante nossa experiência no mercado, observamos que o leque de aplicações dessa tecnologia é multidisciplinar", conta Minatel. "Isso permitiu que a Ablevision tivesse experiências de sucesso no desenvolvimento de sistemas complexos em áreas diversas como no agronegócio, indústria automobilística, indústria cerâmica, eletrônica, segurança, medicina, indústria de alimentos, entre outras."

Segundo Minatel, na época (e ainda agora) a maioria dos sistemas de visão computacional era importada e muitas vezes inviável economicamente. "Além do custo, do ponto de vista técnico, os 'pacotes comerciais' de sistemas de visão computacional eram e ainda são limitados, pois oferecem um escopo pré-definido de rotinas que muitas vezes não atendem à demanda do cliente", diz Minatel. "Essa baixa flexibilidade já colocou muitas empresas integradoras de automação industrial em situações críticas, pois elas não conseguiam atender o cliente de forma adequada (e contratada) com uso dos 'pacotes'."

Minatel garante que a Ablevision vai além disso. "Nossa empresa se diferencia por desenvolver sua própria biblioteca de soluções e isso permite que soluções inéditas sejam criadas", garante. "Se em nosso escopo de rotinas não tiver uma função que seja adequada para a aplicação do cliente, nós a desenvolvemos. Assim, resolvemos o problema do cliente e incrementamos nossa base de soluções. No nosso histórico, há diversos casos de soluções criativas e patenteáveis."

Essa característica enriqueceu o portfólio da empresa e apresentou uma tendência de crescimento significante. "Isso começou a exigir que a Ablevision se estruturasse para atender essa demanda", diz seu fundador. "Neste contexto, a diretoria da empresa decidiu, de forma estratégica, manter o foco da Ablevision no desenvolvimento de software e de soluções baseadas em visão computacional, podendo assim viabilizar novas parcerias comerciais com outras empresas integradoras, que antes consideravam a Ablevision como 'potencial' concorrente."


Grandes projetos

Com essa decisão, alguns projetos importantes já iniciados ficaram fora do novo escopo de atuação da Ablevision. "Com isso, surgiu uma excelente oportunidade que nos motivou a criar a WhitePix", lembra Minatel. A nova empresa passou a ser cliente da Ablevision e herdou grandes projetos, como o inspetor de revestimentos cerâmicos, que teve um Pipe Fase 2 aprovado, no valor de R$ 278.960,00, com início em 1º de dezembro de 2005 e término previsto para novembro de 2007. O dinheiro está sendo usado na contratação de consultorias especializadas e na aquisição de hardware para visão computacional que será usado no sistema.

O projeto Inspeção automática de revestimentos cerâmicos por visão computacional prevê o desenvolvimento de um equipamento que será acoplado sobre as linhas transportadoras de revestimentos cerâmicos nas fábricas, pouco depois deles saírem dos fornos. "Sua função é inspecionar a presença de trincas, manchas, diferenças de tonalidades, bordas quebradas, entre outras não-conformidades estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)", explica Minatel. "Hoje, essa tarefa é realizada por pessoas de forma subjetiva, imprecisa e insalubre."

Pouco antes de sua criação, a WhitePix se candidatou a duas tecnologias que a Embrapa Instrumentação Agropecuária teve interesse em transferir: a do tomógrafo portátil e a do analisador de alimentos. Este é um equipamento que, através de tecnologia foto-térmica, analisa a pureza de alimentos e já está com a versão para café em fase final de validação. Diferentemente da famosa Língua Eletrônica, que analisa o café líquido, esse equipamento verifica o teor de impurezas no produto em pó.

Ambas as tecnologias foram oficialmente repassadas em 2006. A Embrapa é a titular de ambas as patentes. De acordo com Álvaro da Silva, o chefe geral da instituição, a transferência das tecnologias para a WhitePix aconteceu dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Novas Empresas de Base Tecnológica Agropecuária e à Transferência de Tecnologia (PROETA). Financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o programa tem como objetivo apoiar a criação de empresas de base tecnológica para atuarem no agronegócio.


Direito a royalties

Pelo contrato de transferência das tecnologias do tomógrafo e do analisador de alimentos, a Embrapa recebeu R$ 2 mil no ato do repasse e terá direito a 5% de royalties para a comercialização dos produtos ou 8% para prestação de serviços com base nos produtos. "Os serviços significam a WhitePix construir os equipamentos para seu próprio uso, prestando serviços de análise para terceiros", explica Álvaro. "Temos hoje 18 contratos de licença para exploração de patente e dois de cooperação. As transferências geraram em torno de R$ 35 mil. Os royalties variam, de acordo com a tecnologia, entre 1,5% e 15%."

Para Silva, essas transferências de tecnologias trazem benefícios para a Embrapa, para a empresa e para a sociedade. "Para a Embrapa, a importância principal reside no fato de colocarmos uma tecnologia inovadora ao alcance da sociedade, além de possibilitar a criação de empresas de base tecnológica e geração de empregos", diz.

Segundo ele, isso é o retorno social que a empresa tem divulgado. "Para a Embrapa como um todo, e não apenas para essas transferências de base tecnológica, cada real aplicado dá um retorno de R$ 14,00", explica Silva. "O lucro social estimado foi de R$ 12,9 milhões, com 102,3 mil empregos por tecnologias da Embrapa."


Incentivo fundamental

De acordo com Edson Minatel, a missão da WhitePix está em seu próprio nome. Essa palavra reflete a intenção do fundador da empresa de criar uma marca universal, com vistas ao mercado internacional. "A palavra 'white', branco em inglês, cor que contém todas as componentes das outras cores em suas intensidades máximas, apresenta a WhitePix como uma empresa integradora de soluções de alta tecnologia", explica. "'Pix', por sua vez, vem da abreviação 'pics', de 'pictures', emoldurando as cores em um quadro: a empresa. Enfim, um jogo de palavras que ilustra muito bem o espírito de uma equipe criativa, ousada e competente."

Para levar adiante esse espírito, o Pipe tem sido fundamental. "Esse incentivo da Fapesp permitiu que trouxéssemos para dentro de nossa empresa a motivação de se criar novas tecnologias para aplicações reais, levando para uso prático muitos conhecimentos que antes ficavam apenas no escopo acadêmico", diz Minatel. "Nossas empresas hoje investem cerca de 50% de seus lucros em pesquisas de novos produtos e acreditamos que esta decisão nos dará vantagens competitivas. Prova disso é que a maioria de nossas soluções implementadas até o momento não possui similares comerciais."

O aparelho desenvolvido pelo pesquisador da Embrapa e responsável pelo protótipo, João de Mendonça Naime, é similar ao tomógrafo médico de raio X. Ele também utiliza raios gama, emitidos pelos elementos químicos amerício-241 ou césio-137, que fazem imagens bi e tridimensionais dos objetos analisados. A diferença é que ele é alimentado por bateria automotiva e seu mecanismo permite ser transportado para o campo, podendo ser instalado em torno de uma árvore. Outra diferença é que, em vez do corpo humano, o tomógrafo portátil pode obter imagens do interior de amostras de solos e árvores. "Essas imagens correspondem às características de densidade e de umidade de um corte transversal à amostra", explica Naime. "Com essa técnica, a distribuição da densidade e da umidade pode ser estudada detalhadamente".

As aplicações do tomógrafo portátil são muitas. Naime detalha as aplicações mencionadas por Álvaro: determinar o nível de compactação do solo, estudar a ação de implementos de preparação e plantio e o comportamento da água na terra, detectar rachaduras e infestação de pragas em árvores, como cupins e besouros, e determinar a densidade da madeira em condições de campo. Minatel, da WhitePix, dá outros exemplos de aplicações. "Ele pode ser usado na inspeção de componentes internos de equipamento eletrônicos como de telefones celulares ou de peças automotivas, como travas de segurança, injetores de combustíveis, entre outros."

Entre os potenciais usuários do tomógrafo portátil estão as indústrias de celulose e papel e de móveis. Os municípios, por meio da defesa civil, também poderão usá-lo na identificação preventiva de árvores com infestação de cupins ou de postes de concreto com fissuras estruturais. A WhitePix já realizou uma pesquisa de mercado e identificou que o leque de clientes é muito maior.

Entre eles podem estar as indústrias que queiram inspecionar internamente seus produtos sem a necessidade de abri-los. "Indústrias de autopeças, de injetados plásticos, metalúrgicas e até mesmo de eletroeletrônicos já demonstraram muito interesse durante essa pesquisa de mercado", revela Minatel. "As universidades e os centros de pesquisa merecerão atenção especial no uso do tomógrafo. Acreditamos que, assim, muitas pesquisas serão viabilizadas com a possibilidade de análises não invasivas."