WhitePix Sistemas Computacionais
Empresa criada só para ser
licenciada da Embrapa Instrumentação planeja lançar
tomógrafo portátil em 2008, com recursos do PIPE
Evanildo
da Silveira
A técnica
da tomografia chega à agricultura e à
silvicultura. Desde 1985, pesquisadores da Embrapa
Instrumentação Agropecuária,
unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária,
vêm trabalhando em um tomógrafo portátil
que possa ir ao campo e "ver" as entranhas
de árvores e do solo sem precisar destruí-los.
Por meio de um contrato de transferência
de tecnologia, o novo equipamento será
produzido comercialmente pela pequena que inova
WhitePix Sistemas Computacionais, de São
Carlos, no interior de São Paulo, onde
também está a Embrapa Instrumentação.
De acordo com o dono da empresa, Edson Minatel,
o equipamento — um cubo, com 1 metro de
aresta, que pesa 30 quilos — estará
no mercado no início de 2008. Para cumprir
seu cronograma, ele conta com recursos do programa
da Fapesp que apóia a pesquisa na pequena
empresa — e com a tecnologia transferida.
Álvaro
Macedo da Silva, chefe geral da Embrapa Instrumentação,
conhece a utilidade que o tomógrafo portátil
tem para a agropecuária. Primeiro emprego
citado por ele: o tomógrafo permite a análise
do solo, para verificar se ele facilita ou não
o transporte de líquidos. "O solo
é um meio poroso", diz, na linguagem
dos agrônomos, "e sua estrutura afeta
a forma pela qual nutrientes e pesticidas são
absorvidos". A vantagem do tomógrafo
sobre outros meios de análise é
ser "não invasivo", continua
o chefe geral. Por isso mesmo, o instrumento também
será útil para acompanhar o desenvolvimento
da cultura: a germinação das sementes,
o crescimento das raízes. Outra vantagem:
como as amostras analisadas pelo tomógrafo
portátil ficam intactas, podem ser reutilizadas
em metodologias diferentes de análise.
Para a silvicultura
— cultivo de florestas —, além
de útil para a analise do solo, o tomógrafo
poderá vir a ser aplicado na caracterização
e prescrição da utilização
da madeira, por meio da tomografia da árvore
em pé. Por isso, será importante
para empresas que cultivam florestas para produção
de papel e celulose. "A WhitePix e nosso
grupo têm mantido contatos com grandes empresas
do setor", revela.
Tudo começou com o atual presidente!
O tomógrafo
portátil começou a ser desenvolvido
em 1985 pelo físico Silvio Crestana, em
sua tese de doutorado. Silvio, que ajudou a fundar
a unidade de São Carlos nos anos 70, agora
é diretor-presidente da Embrapa. "Ele
criou uma metodologia inédita no mundo,
que permitiu estudar quantitativamente as propriedades
físicas do solo, utilizando um tomógrafo
médico em um hospital da Universidade de
Roma", conta João de Mendonça
Naime, pesquisador da Embrapa Instrumentação
Agropecuária e responsável pelo
desenvolvimento dos protótipos do equipamento
para a WhitePix.
Segundo ele, comprovada
a viabilidade da técnica, surgiu a necessidade
do desenvolvimento de equipamentos dedicados e
versáteis para estudo de solo e que fossem
mais acessíveis do que os tomógrafos
médicos, que custam cerca de U$ 1 milhão.
"Em 1987, Paulo Estevão Cruvinel,
outro pesquisador da Embrapa Instrumentação
Agropecuária, desenvolveu o minitomógrafo
de raios X e raios gama para estudos agrícolas",
lembra Naime. "Depois disso, diversos trabalhos,
dissertações e teses foram desenvolvidas
com essa técnica e equipamento. Pouco mais
tarde, o doutor Crestana orientou meu mestrado
(1994) e meu doutorado (2001), nos quais foram
desenvolvidas as versões de primeira e
terceira geração, respectivamente,
do tomógrafo portátil."
Prestação de serviços
Os interessados
em usar o tomógrafo portátil não
precisarão necessariamente comprá-lo.
"O modelo de negócios da WhitePix
também é inovador e o aparelho será
disponibilizado prioritariamente como um serviço",
explica o dono da empresa, Edson Minatel. "Por
ser portátil, ele poderá ser levado
e operado nas instalações do cliente."
Instituições de pesquisa ou grandes
indústrias, se quiserem, também
vão poder comprar seu próprio equipamento.
Mas, após uma análise de mercado
criteriosa, a WhitePix concluiu que a forma de
uso do equipamento por tempo ou quantidades pré-estabelecidas
é mais adequada.
Para o presidente
da Associação Brasileira das Indústrias
do Mobiliário (Abimovel), José Luiz
Fernandez, o tomógrafo portátil
pode ser usado pelo setor no controle de qualidade
da madeira, principalmente na serraria. Segundo
ele, hoje não há nenhum tipo de
equipamento para detectar cupins, carunchos e
outras pragas. "A verificação
da infestação é feita no
'olhômetro', isto é, por exame visual",
explica. "Esse tomógrafo seria uma
ferramenta a mais para o controle. Mas seu o emprego
pela indústria moveleira vai depender dos
custos."
Tecnologia multidisciplinar
A WhitePix foi
fundada em outubro de 2005, em São Carlos.
Para entender os motivos de sua criação
é preciso antes conhecer um pouco da história
da primeira empresa criada por Minatel, a Ablevision,
em 1999. Ela surgiu com o objetivo de pesquisar,
desenvolver e disponibilizar softwares de visão
computacional. "Durante nossa experiência
no mercado, observamos que o leque de aplicações
dessa tecnologia é multidisciplinar",
conta Minatel. "Isso permitiu que a Ablevision
tivesse experiências de sucesso no desenvolvimento
de sistemas complexos em áreas diversas
como no agronegócio, indústria automobilística,
indústria cerâmica, eletrônica,
segurança, medicina, indústria de
alimentos, entre outras."
Segundo Minatel,
na época (e ainda agora) a maioria dos
sistemas de visão computacional era importada
e muitas vezes inviável economicamente.
"Além do custo, do ponto de vista
técnico, os 'pacotes comerciais' de sistemas
de visão computacional eram e ainda são
limitados, pois oferecem um escopo pré-definido
de rotinas que muitas vezes não atendem
à demanda do cliente", diz Minatel.
"Essa baixa flexibilidade já colocou
muitas empresas integradoras de automação
industrial em situações críticas,
pois elas não conseguiam atender o cliente
de forma adequada (e contratada) com uso dos 'pacotes'."
Minatel garante
que a Ablevision vai além disso. "Nossa
empresa se diferencia por desenvolver sua própria
biblioteca de soluções e isso permite
que soluções inéditas sejam
criadas", garante. "Se em nosso escopo
de rotinas não tiver uma função
que seja adequada para a aplicação
do cliente, nós a desenvolvemos. Assim,
resolvemos o problema do cliente e incrementamos
nossa base de soluções. No nosso
histórico, há diversos casos de
soluções criativas e patenteáveis."
Essa característica
enriqueceu o portfólio da empresa e apresentou
uma tendência de crescimento significante.
"Isso começou a exigir que a Ablevision
se estruturasse para atender essa demanda",
diz seu fundador. "Neste contexto, a diretoria
da empresa decidiu, de forma estratégica,
manter o foco da Ablevision no desenvolvimento
de software e de soluções baseadas
em visão computacional, podendo assim viabilizar
novas parcerias comerciais com outras empresas
integradoras, que antes consideravam a Ablevision
como 'potencial' concorrente."
Grandes projetos
Com essa decisão,
alguns projetos importantes já iniciados
ficaram fora do novo escopo de atuação
da Ablevision. "Com isso, surgiu uma excelente
oportunidade que nos motivou a criar a WhitePix",
lembra Minatel. A nova empresa passou a ser cliente
da Ablevision e herdou grandes projetos, como
o inspetor de revestimentos cerâmicos, que
teve um Pipe Fase 2 aprovado, no valor de R$ 278.960,00,
com início em 1º de dezembro de 2005
e término previsto para novembro de 2007.
O dinheiro está sendo usado na contratação
de consultorias especializadas e na aquisição
de hardware para visão computacional que
será usado no sistema.
O projeto Inspeção
automática de revestimentos cerâmicos
por visão computacional prevê o desenvolvimento
de um equipamento que será acoplado sobre
as linhas transportadoras de revestimentos cerâmicos
nas fábricas, pouco depois deles saírem
dos fornos. "Sua função é
inspecionar a presença de trincas, manchas,
diferenças de tonalidades, bordas quebradas,
entre outras não-conformidades estabelecidas
pela Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT)", explica Minatel.
"Hoje, essa tarefa é realizada por
pessoas de forma subjetiva, imprecisa e insalubre."
Pouco antes de
sua criação, a WhitePix se candidatou
a duas tecnologias que a Embrapa Instrumentação
Agropecuária teve interesse em transferir:
a do tomógrafo portátil e a do analisador
de alimentos. Este é um equipamento que,
através de tecnologia foto-térmica,
analisa a pureza de alimentos e já está
com a versão para café em fase final
de validação. Diferentemente da
famosa Língua Eletrônica, que analisa
o café líquido, esse equipamento
verifica o teor de impurezas no produto em pó.
Ambas as tecnologias
foram oficialmente repassadas em 2006. A Embrapa
é a titular de ambas as patentes. De acordo
com Álvaro da Silva, o chefe geral da instituição,
a transferência das tecnologias para a WhitePix
aconteceu dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento
de Novas Empresas de Base Tecnológica Agropecuária
e à Transferência de Tecnologia (PROETA).
Financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), o programa tem como objetivo apoiar a criação
de empresas de base tecnológica para atuarem
no agronegócio.
Direito a royalties
Pelo contrato
de transferência das tecnologias do tomógrafo
e do analisador de alimentos, a Embrapa recebeu
R$ 2 mil no ato do repasse e terá direito
a 5% de royalties para a comercialização
dos produtos ou 8% para prestação
de serviços com base nos produtos. "Os
serviços significam a WhitePix construir
os equipamentos para seu próprio uso, prestando
serviços de análise para terceiros",
explica Álvaro. "Temos hoje 18 contratos
de licença para exploração
de patente e dois de cooperação.
As transferências geraram em torno de R$
35 mil. Os royalties variam, de acordo com a tecnologia,
entre 1,5% e 15%."
Para Silva, essas
transferências de tecnologias trazem benefícios
para a Embrapa, para a empresa e para a sociedade.
"Para a Embrapa, a importância principal
reside no fato de colocarmos uma tecnologia inovadora
ao alcance da sociedade, além de possibilitar
a criação de empresas de base tecnológica
e geração de empregos", diz.
Segundo ele, isso
é o retorno social que a empresa tem divulgado.
"Para a Embrapa como um todo, e não
apenas para essas transferências de base
tecnológica, cada real aplicado dá
um retorno de R$ 14,00", explica Silva. "O
lucro social estimado foi de R$ 12,9 milhões,
com 102,3 mil empregos por tecnologias da Embrapa."
Incentivo fundamental
De acordo com
Edson Minatel, a missão da WhitePix está
em seu próprio nome. Essa palavra reflete
a intenção do fundador da empresa
de criar uma marca universal, com vistas ao mercado
internacional. "A palavra 'white', branco
em inglês, cor que contém todas as
componentes das outras cores em suas intensidades
máximas, apresenta a WhitePix como uma
empresa integradora de soluções
de alta tecnologia", explica. "'Pix',
por sua vez, vem da abreviação 'pics',
de 'pictures', emoldurando as cores em um quadro:
a empresa. Enfim, um jogo de palavras que ilustra
muito bem o espírito de uma equipe criativa,
ousada e competente."
Para levar adiante
esse espírito, o Pipe tem sido fundamental.
"Esse incentivo da Fapesp permitiu que trouxéssemos
para dentro de nossa empresa a motivação
de se criar novas tecnologias para aplicações
reais, levando para uso prático muitos
conhecimentos que antes ficavam apenas no escopo
acadêmico", diz Minatel. "Nossas
empresas hoje investem cerca de 50% de seus lucros
em pesquisas de novos produtos e acreditamos que
esta decisão nos dará vantagens
competitivas. Prova disso é que a maioria
de nossas soluções implementadas
até o momento não possui similares
comerciais."
O aparelho desenvolvido
pelo pesquisador da Embrapa e responsável
pelo protótipo, João de Mendonça
Naime, é similar ao tomógrafo médico
de raio X. Ele também utiliza raios gama,
emitidos pelos elementos químicos amerício-241
ou césio-137, que fazem imagens bi e tridimensionais
dos objetos analisados. A diferença é
que ele é alimentado por bateria automotiva
e seu mecanismo permite ser transportado para
o campo, podendo ser instalado em torno de uma
árvore. Outra diferença é
que, em vez do corpo humano, o tomógrafo
portátil pode obter imagens do interior
de amostras de solos e árvores. "Essas
imagens correspondem às características
de densidade e de umidade de um corte transversal
à amostra", explica Naime. "Com
essa técnica, a distribuição
da densidade e da umidade pode ser estudada detalhadamente".
As aplicações
do tomógrafo portátil são
muitas. Naime detalha as aplicações
mencionadas por Álvaro: determinar o nível
de compactação do solo, estudar
a ação de implementos de preparação
e plantio e o comportamento da água na
terra, detectar rachaduras e infestação
de pragas em árvores, como cupins e besouros,
e determinar a densidade da madeira em condições
de campo. Minatel, da WhitePix, dá outros
exemplos de aplicações. "Ele
pode ser usado na inspeção de componentes
internos de equipamento eletrônicos como
de telefones celulares ou de peças automotivas,
como travas de segurança, injetores de
combustíveis, entre outros."
Entre os potenciais
usuários do tomógrafo portátil
estão as indústrias de celulose
e papel e de móveis. Os municípios,
por meio da defesa civil, também poderão
usá-lo na identificação preventiva
de árvores com infestação
de cupins ou de postes de concreto com fissuras
estruturais. A WhitePix já realizou uma
pesquisa de mercado e identificou que o leque
de clientes é muito maior.
Entre eles
podem estar as indústrias que queiram inspecionar
internamente seus produtos sem a necessidade de
abri-los. "Indústrias de autopeças,
de injetados plásticos, metalúrgicas
e até mesmo de eletroeletrônicos
já demonstraram muito interesse durante
essa pesquisa de mercado", revela Minatel.
"As universidades e os centros de pesquisa
merecerão atenção especial
no uso do tomógrafo. Acreditamos que, assim,
muitas pesquisas serão viabilizadas com
a possibilidade de análises não
invasivas."