Publicado em 21 de julho de 2008






Match Report

Empresa de Campinas desenvolve software para "scout" – a análise dos lances durante a partida, que revela segredos táticos dos times

Davi Molinari

Há quem diga que acompanhar as análises da partida de futebol depois do término do jogo pode ser melhor ou até mais divertido que entender os fundamentos, as estratégias, os erros, e comemorar novamente os gols.

Os mais obsessivos pelo esporte, porém, fariam de tudo para enxergar as entrelinhas de cada lance, antes mesmo do apito final.

Foi por esse motivo que Nicolas Bacic e Eduardo Fantato Rodrigues se uniram em 2000. Naquela época, Nicolas, estudante de economia da Unicamp e de engenharia de computação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), jogava no time de futebol de salão da Unicamp, comandado por Eduardo, que se graduava em educação física na universidade.

Futuros sócios da pequena que inova Match Report, logo descobriram um interesse comum: a vontade de desenvolver uma ferramenta para escrutinar os lances mais importantes — os chamados fundamentos — das competições de equipe. "Avaliávamos o time no final dos jogos e sentíamos falta de uma ferramenta mais eficiente. A idéia de construir um método automático de análise dos fundamentos foi amadurecendo ao longo do tempo", lembra Nicolas, que teve a sensibilidade de unir sua paixão pelo esporte e seu conhecimento em computação ao método de avaliação técnica das táticas de partidas desenvolvido por Eduardo.

No futebol, os fundamentos são classificados em grupos — recepção, desarme, passe e reposição da bola; finalização, chute ao gol, defesa do goleiro e infrações. O método de Eduardo avalia taticamente o desempenho de uma equipe por meio da observação de 44 ações técnicas específicas, inseridas no conjunto de fundamentos.

Assim, dentro do grupo "goleiro", a ferramenta contabiliza as defesas completas pelo alto ou as reposições de bola do goleiro que foram feitas com acerto.

A este trabalho de reconhecimento, os esportistas brasileiros adotaram do inglês o termo scout. "A análise da partida, mesmo nos grandes times, ainda é feita de maneira empírica. A coleta de informações é manual ou feita por meio de vídeos, ao término do jogo — o que não permite uma análise simultânea à partida", explica o ex-técnico da Unicamp. 

O comentarista esportivo Juca Kfouri conheceu o projeto dos jovens pesquisadores ainda na fase inicial. Ele considera o serviço de scout útil principalmente quando se quer levantar informações do time adversário. Mas afirma que boa estatística de jogo não é garantia de vitória.

"Às vezes, um jogador acerta 100% das jogadas, mas é o que acertou só 20% que marca dois gols. São coisas do futebol", acredita o comentarista.

Bazilio Amaral, observador tático e ex-preparador físico do Guaçuano, discorda. Para ele, cada vez mais os jogadores apresentam o mesmo nível técnico. ScoutOnline, que permite mudanças táticas baseadas em estatísticas durante a partida, pode ser, segundo ele, "a saída para vencer".

Primeiro, a Fase I

Os amigos logo perceberam que a falta de lógica na análise esportiva — como a apontada por Kfouri — poderia ser uma oportunidade de negócios para ambos, pelo conhecimento que tinham do desenvolvimento metodológico e tecnológico em scouts esportivos.

"Pensamos em oferecer serviços de scouts on-line para clubes, técnicos de futebol e para redes de rádio e TV", afirma Nicolas. Mas os jovens não tinham os recursos para montar uma empresa. Por isso, Nicolas convidou o colega Kleber Campanini, do curso de engenharia da computação, para se associar ao empreendimento.

Campanini chegou com um trunfo: conhecia o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia a pesquisa na pequena empresa — o PIPE. Em 2003, os três jovens passaram meses estudando as exigências da Fapesp para o ingresso do pedido de recursos no programa.

Em 2004, apresentaram o projeto, com a argumentação de que era possível introduzir uma inovação no método de análise, coleta e processamento de dados. O projeto foi rejeitado pelos avaliadores da fundação, sob o argumento de que era muito trabalho para a equipe planejada, de seis pessoas — três jovens sócios e mais três bolsistas de educação física.

"Tivemos a impressão de que nossa idade denunciava inexperiência e trazia insegurança aos examinadores. Então modificamos o projeto e propusemos aumentar a equipe para dez pessoas, com o acréscimo de mais dois consultores e dois bolsistas", relembra Eduardo.

Em dezembro de 2005, a primeira fase do projeto recebeu R$ 65 mil para o estudo de viabilidade. Os recursos permitiram aos pesquisadores bancar um computador para o desenvolvimento do software, equipamentos portáteis como palm e tablets PC (notebook com tela sensível ao toque) para testar a performance de coleta de informações, ingressos para jogos e os custos de transporte para entrevistar 20 pessoas — dirigentes e técnicos de clubes de futebol, basquete e handebol; jornalistas e diretores de jornal.

No final da primeira fase, em setembro de 2006, a Match Report havia conseguido padronizar a metodologia de análise dos fundamentos e fazer um protótipo de software para a coleta de dados de quatro modalidades — futebol, futsal, voleibol e handebol.

A equipe testou a coleta de dados em diferentes ambientes e com diferentes equipamentos. Foi aos estádios acompanhar jogos in loco e monitorou-os pela televisão.

"O sistema de coleta envolve uma tela com um campo ou quadra, chamado campograma, que é a porta de entrada dos dados lançados por 'scoutistas'. São três por partida: dois acompanham as equipes e o terceiro acompanha a bola."

O software desenvolvido divide o compograma em zonas. Nelas, os scoutistas inserem, com caneta touch screen, as ocorrências elencadas como fundamentos.

"Hoje o processo é em tempo real, de forma automatizada, com defasagem de menos de 40 segundos, permitindo análise e avaliação da partida em tempo real", diz Nicolas. "É possível observar tendência das partidas, pontos fortes e fracos, ou a região com maior probabilidade de sair um gol."

Com uma base de dados contendo mais de 3 mil jogos analisados, a empresa conseguiu desenvolver diversos algoritmos que ajudam na análise da partida e dos adversários. Além disso, foram incorporados diversos aspectos táticos à análise, de forma que ela deixasse de ser apenas estatística.

Agora, a Fase II

Simultaneamente à aprovação do PIPE, os jovens conseguiram uma sede para a recém-nascida pessoa jurídica Match Report: a Companhia de Desenvolvimento do Pólo Tecnológico de Campinas (Ciatec), uma incubadora que abriga pequenas empresas em um galpão fora do campus da universidade estadual e fornece estrutura administrativa e jurídica a elas.

A empresa ficava instalada em uma sala de 40 metros quadrados. A temperatura era alta e um ar-condicionado preservava os computadores e o bom humor dos três programadores de computação.

A segunda fase do financiamento injetou R$ 300 mil na empresa — com os recursos, ela previa admitir mais 13 bolsistas (seis para a área de educação física e sete para computação), comprar oito novos computadores e dois novos tablets PCs.

Foram aprovadas apenas seis bolsas, cabendo à empresa arcar com outros recursos necessários. Nesse período, ampliaram-se os espaços no interior da incubadora, com duas salas, e o quadro de funcionários passou a ser complementado de acordo com a demanda surgida.

Os desafios ainda são melhorar o software, a performance da coleta de dados, e ampliar o número de modalidades existentes para cinco, com a inclusão do basquete.

Como não se pode patentear um método de coleta de dados e o software é construído com o programa Java em linguagem SuperWaba, a Match Report tem poucos meios para proteger seu negócio. Um deles é o sigilo sobre a metodologia, a modelagem estatística e o padrão dos scouts. Conhecimento que — ainda que empiricamente — nem mesmo os técnicos de futebol gostam de divulgar.

Durante o período em que os jovens pesquisadores desenvolviam seu projeto, outras empresas entraram neste segmento e já fornecem o produto para rádios e jornais. A concorrência não vai ser fácil.

Empresas americanas também querem trazer este negócio dos Estados Unidos, onde ele já é uma tradição entre os desportistas. Eduardo e Nicolas têm uma avenida em construção pela frente. "Já conhecemos a concorrência e sabemos que vamos colocar no mercado um produto que analisa on-line o maior número de variáveis com a menor margem de erro."

Apesar das dificuldades, a empresa expandiu seus negócios, fechando acordos, como o feito com Antonio Carlos Gomes, professor renomado em treinamento esportivo e responsável pela Nigéria nas Olimpíadas de 1996, ou ainda com a implementação de um sistema de tracking (rastreamento de jogadores em campo) no Atlético Paranaense.

"Prestamos serviços para a seleção da Jamaica, sob o comando de Rene Simões, que disputa as eliminatórias para a Copa de 2010", conta o empresário. No fim do ano de 2007, a Match lançou no Fórum de Tecnologia no Futebol (Footecon), no Rio de Janeiro, a prancheta eletrônica, sistema de visualização dinâmica, personalizada e em tempo real para futebol.

Recentemente foi firmado um acordo com o Sistema Globo de Rádio para oferecer em tempo real nos sites das rádios Globo e CBN dados para o público acompanhar o jogo com detalhes e informações.

O oferecimento de dados para o público é parte dos projetos da empresa para lançar produtos para celular e TV Digital.