Publicado em 05 de março de 2007






STQ Serviços e Comércio em Tecnologia Química

Especialistas da empresa, em parceria com pesquisador da UFMG, aplicam processo patenteado na melhoria de droga para hipertensão

Evanildo da Silveira

Os brasileiros que sofrem de hipertensão arterial — cerca de 25% da população — podem vir a ter acesso a um medicamento para baixar a pressão mais eficaz e com menores efeitos colaterais, se der certo um projeto de pesquisa da STQ Serviços e Comércio em Tecnologia Química, pequena que inova de São Paulo. Com recursos do programa PIPE da Fapesp a partir de março de 2007, a empresa trabalha em uma forma nova de preparação de uma droga anti-hipertensiva já no mercado. Essa forma nova de preparação fará com que a liberação dos princípios ativos da droga aconteça de maneira progressiva (e controlada) no organismo. A liberação progressiva, dizem especialistas da empresa e de fora dela, é que beneficiará os usuários do novo medicamento.

A empresa tem três sócios e um parceiro acadêmico. Os sócios são Mariângela Martins de Azevedo — uma especialista na tecnologia que permitirá a liberação progressiva do princípio ativo, pós-doutorada no Instituto de Química da Unicamp —; Carlos Alberto Alves de Carvalho, outro doutor em química, também interessado nas formulações de liberação progressiva para medicamentos; e Vânia Nazaré Alves de Carvalho, farmacêutica. O parceiro acadêmico é da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – o professor Robson Santos, do Laboratório de Hipertensão do Instituto de Ciências Biológicas da universidade mineira.

Fala o especialista que não é da empresa

O bioquímico Bronislaw Polakiewicz, do Departamento de Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), disse a PIPE – Pequenas que Inovam por que a STQ está no caminho certo: "Os medicamentos de liberação controlada evitam o chamado efeito teto. Todo medicamento tem uma dosagem terapêutica limite, a partir da qual não há alterações no seu efeito, mas aumentam os problemas colaterais". Com os medicamentos de liberação controlada isso não ocorre. Além disso, sua posologia é mais prática. O paciente não precisa tomar vários comprimidos por dia, de olho no relógio. Isso faz com que aumente a adesão ao tratamento.

O professor da USP também contou que a STQ segue uma tendência mundial. Segundo ele, devido aos custos elevados e ao tempo necessário para desenvolver uma nova droga, a indústria farmacêutica tem desenvolvido novas formulações para princípios ativos já consagrados e de eficácia comprovada para transformá-los em medicamentos mais eficientes. Exatamente o que a empresa já começou a fazer, antes mesmo de a Fapesp ter aprovado o financiamento do projeto "Preparação de formulações de inibidores da enzima conversora de angiotensina utilizando tecnologia de inclusão molecular em ciclodextrinas e/ou polímeros biodegradáveis".

Atualização tecnológica

Com os R$ 300 mil do programa PIPE, a STQ fará uma atualização tecnológica de uma determinada droga anti-hipertensiva. "Trata-se de uma inovação incremental, mas que gerou um pedido de patente já depositado", explica Carvalho. A inovação está na forma de preparação: por meio dela, os princípios ativos do medicamento serão encapsulados em uma substância chamada ciclodextrina. A ciclodextrina, um açúcar, tem cavidades no interior das quais é possível incluir ou hospedar moléculas. A sócia Mariângela já trabalhou com as ciclodextrinas, no encapsulamento de hormônios vegetais — em 2002 —, como jovem pesquisadora financiada também pela Fapesp, no Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

A empresa não quer dar muitas informações sobre o processo de fabricação da nova formulação que desenvolve. Não diz, por exemplo, qual é a droga anti-hipertensiva que está encapsulando dentro da ciclodextrina. Informa, apenas, ser um consagrado inibidor da enzima conversora de angiotensina. O pesquisador da UFMG, parceiro da STQ, explica a biologia envolvida: "Chamamos angiotensina os peptídeos (fragmentos de proteína) hipertensores derivados de uma proteína produzida no organismo, especialmente no fígado, chamada angiotensinogênio", diz Robson. Há a angiotensina I e a II, continua ele. A II é formada a partir da I pela ação da enzima conversora de angiotensina. Ela é um potente vasoconstritor, que pode contribuir para causar hipertensão arterial. A angiotensina II também leva à liberação de aldosterona (um tipo de hormônio) pela glândula supra-renal, que age sobre os rins e faz aumentar o volume do sangue presente no corpo. A substância atua então de duas formas, de acordo com a explicação que o professor simplificou: contrai os vasos sangüíneos e aumenta o volume de sangue. Entre os medicamentos contra a hipertensão, há uma classe que age pela inibição dessa enzima conversora de angiotensina I em angiotensina II. "Assim, com o bloqueio da enzima pelo inibidor, a concentração de angiotensina II diminui e a pressão arterial tende a se normalizar", completa o professor Robson.

Bons resultados

Os testes pré-clínicos da formulação da STQ, em ratos, já estão em andamento — são realizados na UFMG. Os parceiros começaram essa fase antes mesmo da aprovação do projeto apresentado à Fapesp. Os resultados preliminares têm sido muito promissores, de acordo com eles: quando o inibidor não está encapsulado na ciclodextrina, seu efeito dura pouco, sendo necessárias duas a três doses por dia. Com o encapsulamento, o efeito dura cerca de 20 horas. Esses testes indicam que a tecnologia proposta pela STQ parece viável. Por essa razão, a Fapesp aceitou que a empresa pulasse a fase I do programa — que financia valores menores, apenas o necessário para o estudo de viabilidade técnica do projeto — e recebesse recursos diretamente da fase II, de valor mais alto.

O fato de uma formulação já estar em teste não significa, no entanto, que não haja muito trabalho de desenvolvimento ainda pela frente. Os recursos do PIPE vão financiar mais testes pré-clínicos; o trabalho de determinação de dosagem; o desenvolvimento da apresentação em comprimidos, de acordo com as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); os testes que comprovem a eficácia da formulação final com seres humanos. A empresa, no entanto, não pretende produzir comercialmente o produto. "Nós vamos transferir a tecnologia para alguma indústria farmacêutica interessada, o que deve ocorrer até 2008", explica Carvalho. "Algumas já manifestaram interesse pelos nossos conhecimentos, com o objetivo de encapsular seus produtos em ciclodextrinas e polímeros biodegradáveis."

Desejo antigo

O desenvolvimento desse projeto é resultado de um desejo antigo do sócio Carlos Carvalho de transformar seus conhecimentos científicos em produtos tecnológicos que beneficiem a sociedade. O desejo surgiu durante seu doutorado na área de química inorgânica no Instituto de Química da USP, no início dos anos 1990. Mas só em 2000 ele começou a colocar em prática seu objetivo de transformar conhecimento em produtos. Junto com dois colegas do doutorado, fundou a Scientia Tecnologia Química, precursora da atual STQ, para desenvolver uma nova maneira de controlar os fungos e bactérias que proliferam nos sistemas de ar-condicionado.

Para isso, a empresa pediu seu primeiro PIPE — cuja aprovação foi fundamental. "Na época, fizemos uma avaliação cuidadosa dos nossos conhecimentos e do potencial de possíveis produtos no mercado. Decidimos nos concentrar no desenvolvimento de uma solução eficaz e com efeito duradouro para o combate a bactérias e fungos em sistemas centrais de condicionamento de ar", conta Carvalho. "Encaminhamos um projeto ao PIPE e ele foi aprovado."

A empresa recebeu R$ 312.271,72 e US$ 4 mil para tocar o projeto "Desenvolvimento de um dispositivo químico de liberação controlada de princípios bioativos para tratamento microbiológico do ar interior em ambientes climatizados". "Esse dinheiro, além de possibilitar a criação da empresa, garantiu verba para a compra de equipamentos para o laboratório e a remuneração de assessorias de negócios, além de permitir a nossa instalação no Cietec", conta Carvalho. Cietec é o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas, que fica no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), localizado no campus da USP.

Sociedade desfeita

Pouco depois de sua criação, no entanto, a sociedade foi desfeita e dos antigos sócios apenas Carlos ficou na empresa. Embora tenha trocado de nome, ela ainda continua instalada no Cietec. Foi quando se juntaram a ele Vânia, farmacêutica, e Mariângela. Esta última foi contratada pela empresa, em 2002, graças ao Programa de Fixação de Doutores (Profix), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Antes disso, Mariângela fez pós-doutoramento no Laboratório de Química Biológica do Instituto de Química da Unicamp e trabalhou como pesquisadora no Instituto Agronômico de Campinas, com um projeto do Programa Jovens Pesquisadores da Fapesp. Foi quando realizou as pesquisas com compostos com ciclodextrinas para encapsulamento de hormônios vegetais, com o objetivo de aumentar, com pulverizações desse produto, a massa e as sementes de várias espécies de planta.

Depois de concluído o projeto do anti-hipertensivo, as atividades de pesquisa e desenvolvimento da STQ vão continuar focadas no desenvolvimento de novas formulações de substâncias ativas conhecidas. "O objetivo é obter produtos mais competitivos e otimizados quando comparados às formulações originais já colocadas no mercado", diz Mariângela. "Os resultados esperados são maior estabilidade química dos princípios ativos protegidos na nanocavidade das ciclodextrinas, melhor biodisponibilidade e tolerabilidade maximizada e, como conseqüência, aumento da adesão do paciente aos tratamentos."