STQ Serviços e Comércio em Tecnologia Química
Especialistas da empresa,
em parceria com pesquisador da UFMG, aplicam processo
patenteado na melhoria de droga para hipertensão
Evanildo
da Silveira
Os brasileiros
que sofrem de hipertensão arterial —
cerca de 25% da população —
podem vir a ter acesso a um medicamento para baixar
a pressão mais eficaz e com menores efeitos
colaterais, se der certo um projeto de pesquisa
da STQ Serviços e Comércio em Tecnologia
Química, pequena que inova de São
Paulo. Com recursos do programa PIPE da Fapesp
a partir de março de 2007, a empresa trabalha
em uma forma nova de preparação
de uma droga anti-hipertensiva já no mercado.
Essa forma nova de preparação fará
com que a liberação dos princípios
ativos da droga aconteça de maneira progressiva
(e controlada) no organismo. A liberação
progressiva, dizem especialistas da empresa e
de fora dela, é que beneficiará
os usuários do novo medicamento.
A empresa tem três sócios e um parceiro
acadêmico. Os sócios são Mariângela
Martins de Azevedo — uma especialista na
tecnologia que permitirá a liberação
progressiva do princípio ativo, pós-doutorada
no Instituto de Química da Unicamp —;
Carlos Alberto Alves de Carvalho, outro doutor
em química, também interessado nas
formulações de liberação
progressiva para medicamentos; e Vânia Nazaré
Alves de Carvalho, farmacêutica. O parceiro
acadêmico é da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG) – o professor Robson
Santos, do Laboratório de Hipertensão
do Instituto de Ciências Biológicas
da universidade mineira.
Fala o
especialista que não é da empresa
O bioquímico Bronislaw Polakiewicz, do
Departamento de Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica
da Faculdade de Ciências Farmacêuticas
da Universidade de São Paulo (USP), disse
a PIPE – Pequenas que Inovam
por que a STQ está no caminho certo: "Os
medicamentos de liberação controlada
evitam o chamado efeito teto. Todo medicamento
tem uma dosagem terapêutica limite, a partir
da qual não há alterações
no seu efeito, mas aumentam os problemas colaterais".
Com os medicamentos de liberação
controlada isso não ocorre. Além
disso, sua posologia é mais prática.
O paciente não precisa tomar vários
comprimidos por dia, de olho no relógio.
Isso faz com que aumente a adesão ao tratamento.
O professor da USP também contou que a
STQ segue uma tendência mundial. Segundo
ele, devido aos custos elevados e ao tempo necessário
para desenvolver uma nova droga, a indústria
farmacêutica tem desenvolvido novas formulações
para princípios ativos já consagrados
e de eficácia comprovada para transformá-los
em medicamentos mais eficientes. Exatamente o
que a empresa já começou a fazer,
antes mesmo de a Fapesp ter aprovado o financiamento
do projeto "Preparação de formulações
de inibidores da enzima conversora de angiotensina
utilizando tecnologia de inclusão molecular
em ciclodextrinas e/ou polímeros biodegradáveis".
Atualização
tecnológica
Com os R$ 300
mil do programa PIPE, a STQ fará uma atualização
tecnológica de uma determinada droga anti-hipertensiva.
"Trata-se de uma inovação incremental,
mas que gerou um pedido de patente já depositado",
explica Carvalho. A inovação está
na forma de preparação: por meio
dela, os princípios ativos do medicamento
serão encapsulados em uma substância
chamada ciclodextrina. A ciclodextrina, um açúcar,
tem cavidades no interior das quais é possível
incluir ou hospedar moléculas. A sócia
Mariângela já trabalhou com as ciclodextrinas,
no encapsulamento de hormônios vegetais
— em 2002 —, como jovem pesquisadora
financiada também pela Fapesp, no Instituto
Agronômico de Campinas (IAC).
A empresa não
quer dar muitas informações sobre
o processo de fabricação da nova
formulação que desenvolve. Não
diz, por exemplo, qual é a droga anti-hipertensiva
que está encapsulando dentro da ciclodextrina.
Informa, apenas, ser um consagrado inibidor da
enzima conversora de angiotensina. O pesquisador
da UFMG, parceiro da STQ, explica a biologia envolvida:
"Chamamos angiotensina os peptídeos
(fragmentos de proteína) hipertensores
derivados de uma proteína produzida no
organismo, especialmente no fígado, chamada
angiotensinogênio", diz Robson. Há
a angiotensina I e a II, continua ele. A II é
formada a partir da I pela ação
da enzima conversora de angiotensina. Ela é
um potente vasoconstritor, que pode contribuir
para causar hipertensão arterial. A angiotensina
II também leva à liberação
de aldosterona (um tipo de hormônio) pela
glândula supra-renal, que age sobre os rins
e faz aumentar o volume do sangue presente no
corpo. A substância atua então de
duas formas, de acordo com a explicação
que o professor simplificou: contrai os vasos
sangüíneos e aumenta o volume de sangue.
Entre os medicamentos contra a hipertensão,
há uma classe que age pela inibição
dessa enzima conversora de angiotensina I em angiotensina
II. "Assim, com o bloqueio da enzima pelo
inibidor, a concentração de angiotensina
II diminui e a pressão arterial tende a
se normalizar", completa o professor Robson.
Bons resultados
Os testes pré-clínicos da formulação
da STQ, em ratos, já estão em andamento
— são realizados na UFMG. Os parceiros
começaram essa fase antes mesmo da aprovação
do projeto apresentado à Fapesp. Os resultados
preliminares têm sido muito promissores,
de acordo com eles: quando o inibidor não
está encapsulado na ciclodextrina, seu
efeito dura pouco, sendo necessárias duas
a três doses por dia. Com o encapsulamento,
o efeito dura cerca de 20 horas. Esses testes
indicam que a tecnologia proposta pela STQ parece
viável. Por essa razão, a Fapesp
aceitou que a empresa pulasse a fase I do programa
— que financia valores menores, apenas o
necessário para o estudo de viabilidade
técnica do projeto — e recebesse
recursos diretamente da fase II, de valor mais
alto.
O fato de uma formulação já
estar em teste não significa, no entanto,
que não haja muito trabalho de desenvolvimento
ainda pela frente. Os recursos do PIPE vão
financiar mais testes pré-clínicos;
o trabalho de determinação de dosagem;
o desenvolvimento da apresentação
em comprimidos, de acordo com as normas da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa); os testes que comprovem a eficácia
da formulação final com seres humanos.
A empresa, no entanto, não pretende produzir
comercialmente o produto. "Nós vamos
transferir a tecnologia para alguma indústria
farmacêutica interessada, o que deve ocorrer
até 2008", explica Carvalho. "Algumas
já manifestaram interesse pelos nossos
conhecimentos, com o objetivo de encapsular seus
produtos em ciclodextrinas e polímeros
biodegradáveis."
Desejo
antigo
O desenvolvimento
desse projeto é resultado de um desejo
antigo do sócio Carlos Carvalho de transformar
seus conhecimentos científicos em produtos
tecnológicos que beneficiem a sociedade.
O desejo surgiu durante seu doutorado na área
de química inorgânica no Instituto
de Química da USP, no início dos
anos 1990. Mas só em 2000 ele começou
a colocar em prática seu objetivo de transformar
conhecimento em produtos. Junto com dois colegas
do doutorado, fundou a Scientia Tecnologia Química,
precursora da atual STQ, para desenvolver uma
nova maneira de controlar os fungos e bactérias
que proliferam nos sistemas de ar-condicionado.
Para isso, a empresa
pediu seu primeiro PIPE — cuja aprovação
foi fundamental. "Na época, fizemos
uma avaliação cuidadosa dos nossos
conhecimentos e do potencial de possíveis
produtos no mercado. Decidimos nos concentrar
no desenvolvimento de uma solução
eficaz e com efeito duradouro para o combate a
bactérias e fungos em sistemas centrais
de condicionamento de ar", conta Carvalho.
"Encaminhamos um projeto ao PIPE e ele foi
aprovado."
A empresa recebeu
R$ 312.271,72 e US$ 4 mil para tocar o projeto
"Desenvolvimento de um dispositivo químico
de liberação controlada de princípios
bioativos para tratamento microbiológico
do ar interior em ambientes climatizados".
"Esse dinheiro, além de possibilitar
a criação da empresa, garantiu verba
para a compra de equipamentos para o laboratório
e a remuneração de assessorias de
negócios, além de permitir a nossa
instalação no Cietec", conta
Carvalho. Cietec é o Centro Incubador de
Empresas Tecnológicas, que fica no Instituto
de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen),
localizado no campus da USP.
Sociedade
desfeita
Pouco depois de
sua criação, no entanto, a sociedade
foi desfeita e dos antigos sócios apenas
Carlos ficou na empresa. Embora tenha trocado
de nome, ela ainda continua instalada no Cietec.
Foi quando se juntaram a ele Vânia, farmacêutica,
e Mariângela. Esta última foi contratada
pela empresa, em 2002, graças ao Programa
de Fixação de Doutores (Profix),
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq).
Antes disso, Mariângela
fez pós-doutoramento no Laboratório
de Química Biológica do Instituto
de Química da Unicamp e trabalhou como
pesquisadora no Instituto Agronômico de
Campinas, com um projeto do Programa Jovens Pesquisadores
da Fapesp. Foi quando realizou as pesquisas com
compostos com ciclodextrinas para encapsulamento
de hormônios vegetais, com o objetivo de
aumentar, com pulverizações desse
produto, a massa e as sementes de várias
espécies de planta.
Depois de concluído
o projeto do anti-hipertensivo, as atividades
de pesquisa e desenvolvimento da STQ vão
continuar focadas no desenvolvimento de novas
formulações de substâncias
ativas conhecidas. "O objetivo é obter
produtos mais competitivos e otimizados quando
comparados às formulações
originais já colocadas no mercado",
diz Mariângela. "Os resultados esperados
são maior estabilidade química dos
princípios ativos protegidos na nanocavidade
das ciclodextrinas, melhor biodisponibilidade
e tolerabilidade maximizada e, como conseqüência,
aumento da adesão do paciente aos tratamentos."