Publicado em 05 de março de 2007






Conceito Tecnologia

Empresa emprega tecnologia desenvolvida em automação predial para transmitir voz; sistema dá alternativa à central telefônica

Davi Molinari

Foi durante uma palestra no 10º Congresso Nacional de Automação Industrial, em maio de 2002, em São Paulo, que o físico Miguel dos Santos Alves Filho tornou pública parte de um ousado projeto. Para uma platéia formada basicamente por engenheiros e técnicos, Miguel apresentou a tecnologia LonWorks e sua intenção de usá-la em sistema de telefonia. Na Europa, essa tecnologia é padrão para automação predial e permite, por exemplo, controlar portas e portões automáticos, aparelhos de ar-condicionado, qualidade do ar, aquecedor, interruptores de lâmpadas, torneiras, câmeras de segurança. A sigla LonWorks vem da expressão local operating networks — operação local de rede de trabalho. "Naquela palestra, o pessoal ficou surpreso em conhecer a tecnologia e mais ainda com a possibilidade de integrá-la à rede de telefonia", lembra o engenheiro Paulo Roberto Cardinali. Paulo é da Conceito Tecnologia — a empresa que, um ano antes da palestra de Miguel, acolheu a idéia do físico e transformou-a num projeto de pesquisa apresentado à Fapesp (e aprovado) dentro do programa de financiamento para pequenas empresas inovadoras.

Hoje, sentado à mesa da sede da Conceito Tecnologia, um modesto sobrado de esquina no bairro Jabaquara, Zona Sul de São Paulo, Miguel dos Santos mal contém o entusiasmo quando começa a explicar o que é a Telefonia Modular Inteligente Distribuída (TMID) – nome que deu à sua idéia de usar voz sobre a plataforma desenvolvida para automação predial. A ambiciosa concepção de telefonia do físico poderá tornar obsoleto o convencional PABX e também pôr em xeque o próprio conceito de centrais telefônicas. "Hoje, a voz é transmitida por um par de fios desde o aparelho telefônico até uma central. Na central acontece o enlace — a voz é destinada para o número chamado. O que nós desenvolvemos, usando a LonWorks, permite que o enlace seja feito de aparelho para aparelho, sem passar pela central", explica Miguel. Por isso, o projeto ganhou o apelido de PABX Inteligente. Mas não se limita à substituição dos aparelhos de PABX. A proposta é mais ampla: prevê a criação de um Sistema Distribuído de Comutação Telefônica Privada (SDCTP). "Já existem experiências e dispositivos de comando de voz para a automação, mas nada da magnitude que propomos", afirma Miguel. Por isso, a empresa e o pesquisador já depositaram três pedidos de patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI): um para assegurar a prioridade sobre a tecnologia de voz sobre Lon, batizada de VoLon (Voice over Lon); e outros dois que se relacionam ao SDCTP.

Interoperabilidade

Mas se a telefonia instalada nos prédios funciona razoavelmente bem no mundo todo, por que substituí-la por outro padrão? Para responder a essa questão, Miguel tira de uma das gavetas de sua mesa um livro de mais de 600 páginas já bem surrado de tanto uso. É a "bíblia" da tecnologia LonWorks. A ilustração da capa dá uma pista da resposta: um infograma estilizado mostra uma rede que opera serviços díspares como o acionamento de lâmpadas, câmaras de segurança ou do controle de um portão automático. A vantagem é a "interoperabilidade", explica a engenheira de computação recém-formada Gabriela Werner Ceschini, que começou sua carreira na Conceito como estagiária. Interoperabilidade é o conceito da tecnologia LonWorks que designa sua capacidade de integrar a monitoração e o controle de equipamentos diferentes na mesma plataforma, usando qualquer rede disponível — com fio ou sem fio. Isso é possível porque cada módulo de controle de equipamento da rede LonWorks tem um microcontrolador que pode ser programado para receber sinais de máquinas, de telefones com ou sem fio, de outros chips e aplicativos. "São como neurônios que possuem autonomia e que se ligam formando uma rede inteligente e flexível", afirma Miguel dos Santos.

Redes de automação são cada vez mais freqüentes em novas edificações; e outras tecnologias de integração existem — mas nenhuma com a flexibilidade da Lon, segundo a Conceito. O modelo SDCTP proposto pela empresa para os novos prédios prevê uma única rede para tudo, inclusive telefonia. Ao contrário do que acontece na telefonia privada atual, que precisa convergir maços de pares de fios até uma central de PABX, o SDCTP interage entre si por meio dos módulos. A modularidade também é uma vantagem para a transição do modelo convencional para outro. Como a Conceito programou os módulos da TMID para receber sinais analógicos ou digitais, o interessado não precisa trocar o PABX de uma vez só — a cada necessidade de ampliação de ramais, o usuário pode instalar módulos que fazem eles próprios o trabalho da central.

Centralizado? Não! Distribuído!

A obsessão de Miguel dos Santos por estabelecer padrões de operação em rede distribuída começou quando trabalhou na automatização das balanças da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), entre 1991 e 1997. O desafio proposto a ele foi o de instalar, nas 26 balanças por onde passavam caminhões com destino ao Porto de Santos, um controlador lógico programável que gerasse um relatório com o peso e a identificação do veículo. O caminho óbvio — centralizado — seria o controlador ler os sensores das balanças e depois transmitir o sinal para um computador central, que processaria as informações. Mas Miguel não queria centralizar o processamento. Queria que os dados fossem processados de maneira distribuída. Foi quando o databook da LonWorks lhe caiu nas mãos. A certeza de que poderia implantar a tecnologia na Codesp virou sua dissertação de mestrado: Aplicação de Redes de Controle Distribuído em Processo de Pesagem Automatizado e Informatizado. "A balança 25 foi nosso protótipo LonWorks; a partir dela, fomos levando a tecnologia para outras. Infelizmente, em 1999 as balanças já foram desativadas pela Codesp, que reformou o porto e mudou o terminal de carga", lamenta Miguel, ao recordar que a tecnologia caiu como uma luva para a integração de balanças de marcas e formas de operação diferentes.

O estudo com a balança permitiu que o físico entendesse como aprimorar o uso da LonWorks. Uma barra formada por módulos exercia a função de comunicação entre as balanças. Se a barra comunicava dados, porque não comunicar qualquer coisa, inclusive a voz? Aí estava a semente do projeto apresentado à Fapesp. Miguel soube do programa PIPE por meio de Cesar Aguiar, cônsul da Ilha de Chipre em São Paulo — o amigo conhecia a inventividade do físico e também a vontade da Fapesp de apoiar projetos de pesquisa inovativa em pequenas empresas. Foi o estopim de uma longa jornada de projetos, pesquisas e produtos.

PIPE

No começo, Miguel foi cético em relação ao projeto PIPE, a ponto de telefonar para outro amigo: o já falecido professor Francisco Romeu Landi, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), na época diretor-presidente da Fapesp. "Professor Landi, este tal de PIPE funciona?", lembra-se de lhe ter perguntado. "Ele me respondeu: 'Claro que sim, Miguel, é só fazer o projeto'". O mestre em engenharia elétrica pôs-se a detalhar todo o seu vislumbre. Descreveu como poderia encapsular a voz, criar os módulos do sistema, traduzir a banda da telefonia para o sistema Lon, fazer o enlace, a recepção e a espera da chamada. Mas para sua surpresa, o primeiro projeto foi rejeitado. "Pensei: 'Ou estou completamente enganado ou houve alguma falha de entendimento provocada pela minha comunicação'", lembra Miguel. Durante dois meses ele sequer voltou a olhar para o projeto. Antes que vencesse o prazo final para recorrer da rejeição, compreendeu onde havia errado. "Estava focado na automação, quando deveria estar focado em tecnologia de informação." Da segunda vez, os assessores da Fapesp recomendaram a aprovação do projeto, em fase I – aquela em que a empresa e o pesquisador estudam a viabilidade técnica e comercial do que se propõem a fazer.

Para começar, Miguel recebeu R$ 75 mil. Com esses recursos, visitou a TAC, empresa com sede na Suécia especialista em produtos LonWorks. Um convênio entre a TAC e o Laboratório de Automação Agrícola da Poli permitiu o envio de 115 itens de diversos equipamentos da empresa. Nesse laboratório, e sob a orientação de seu coordenador, o engenheiro eletrônico Carlos Eduardo Cugnasca, Miguel realizou a pesquisa para sua tese de doutorado, defendida em 2004. A tese caminhou junto com o projeto apresentado ao PIPE: seu objetivo foi desenvolver sistemas de automação predial com tecnologia de informação para prédios inteligentes. Um dos pontos da tese de doutorado: Telefonia Modular Inteligente Distribuída. Explica Cugnasca a PIPE –Pequenas que Inovam: "A ambição do projeto de Miguel era convergir voz de telefonia em rede de automação; a voz sobre Lon criou uma situação nova, em que se usa a rede de automação para ligar o ar-condicionado e para falar".

Comprovada a viabilidade, a Conceito partiu para o pedido de financiamento para a fase II, de desenvolvimento do projeto. A empresa recebeu R$ 130 mil. "Ainda não estamos 100% prontos para o mercado, mas nossa atividade gerou subprodutos que já estão sendo comercializados", conta Miguel. Dentre esses subprodutos, ele destaca módulos de espera telefônica e o gravador telefônico digital LogPhone, lançado em janeiro. Embora não tenha feito nenhuma divulgação, a Conceito já vendeu 200 aparelhos. O gravador contém a tecnologia LonWorks e permite a gravação digital das conversas telefônicas e o gerenciamento de chamadas. O call center da Plaza Imóveis, uma corretora de São Paulo, foi o primeiro a adotar o LogPhone. "Para nós, é ótimo: o sistema permite a gravação criptografada em bancos de dados distribuídos, acompanhada de relatório com hora e duração da chamada", afirma Martin Siu, responsável pela Tecnologia de Informação da empresa, que tem 40 corretores e comprou 50 LogPhones.

O condomínio Shopping Ibirapuera é outro cliente da Conceito a se beneficiar das pesquisas desenvolvidas no âmbito do projeto PIPE da Fapesp. "Estamos instalando a tecnologia LonWorks no prédio, principalmente, para aproveitar a rede instalada e dar soluções de segurança predial e patrimonial", afirma Miguel. PIPE — Pequenas que Inovam não conseguiu falar com a administração do Shopping Ibirapuera, embora tenha tentado; mas, de acordo com Miguel, o shopping está credenciado para ser um dos primeiros usuários da tecnologia TMID. A implantação do sistema ali suscitou um novo projeto, que foi aprovado em julho de 2006 direto para a fase II do PIPE. A Fapesp destinou R$ 350 mil para o desenvolvimento de dispositivos (middlewere e gatekeeper) que permitam convergir e interagir voz e dados da LonWorks sobre a linha tronco de voz e dados da telefonia: um cabo chamado E1 que recebe e leva o sinal da companhia telefônica no interior dos prédios.

Efeito Multiplicador

A cada dia, observa Miguel, cresce o número de casas com automação integrada. "O PIPE nos permitiu trazer para o Brasil empresas que atuam com este conceito", afirma. Além da TAC, a Conceito já tem contato com a PureChoice, que a convidou para representar seus produtos no Brasil. Um deles é uma espécie de nariz eletrônico, baseado na tecnologia LonWorks, que integra módulos de sensores para gases, temperatura e umidade para controlar a qualidade do ar dos interiores.

Esse ambiente futurista ainda está distante do local de trabalho de Miguel. Ladeada por uma bancada de testes, sua mesa divide espaço com uma estante e outra mesa de escritório. Sobre toda a mobília, há placas com chips e circuitos expostos ao trabalho de checagem dos seis engenheiros e quatro técnicos engenheiros da empresa — que tem, ao todo, 20 funcionários. Mal há espaço para abrigar as centenas de dispositivos e acessórios de telefonia que estão à venda. Devido ao projeto VoLon, a Conceito se prepara para mudar o foco de seu negócio: de automação para telefonia. Do faturamento anual de R$ 1,5 milhão, apenas 30% vêm hoje de automação pura. A perspectiva é cada vez mais se integrar à tecnologia da informação e à telefonia. "Nós vamos montar nosso negócio pelas beiradas, fornecendo uma alternativa mais barata e eficiente que os atuais PABXs", espera Miguel.