Conceito Tecnologia
Empresa emprega tecnologia
desenvolvida em automação predial para transmitir
voz; sistema dá alternativa à central telefônica
Davi
Molinari
Foi durante uma
palestra no 10º Congresso Nacional de Automação
Industrial, em maio de 2002, em São Paulo,
que o físico Miguel dos Santos Alves Filho
tornou pública parte de um ousado projeto.
Para uma platéia formada basicamente por
engenheiros e técnicos, Miguel apresentou
a tecnologia LonWorks e sua intenção
de usá-la em sistema de telefonia. Na Europa,
essa tecnologia é padrão para automação
predial e permite, por exemplo, controlar portas
e portões automáticos, aparelhos
de ar-condicionado, qualidade do ar, aquecedor,
interruptores de lâmpadas, torneiras, câmeras
de segurança. A sigla LonWorks vem da expressão
local operating networks — operação
local de rede de trabalho. "Naquela palestra,
o pessoal ficou surpreso em conhecer a tecnologia
e mais ainda com a possibilidade de integrá-la
à rede de telefonia", lembra o engenheiro
Paulo Roberto Cardinali. Paulo é da Conceito
Tecnologia — a empresa que, um ano antes
da palestra de Miguel, acolheu a idéia
do físico e transformou-a num projeto de
pesquisa apresentado à Fapesp (e aprovado)
dentro do programa de financiamento para pequenas
empresas inovadoras.
Hoje, sentado
à mesa da sede da Conceito Tecnologia,
um modesto sobrado de esquina no bairro Jabaquara,
Zona Sul de São Paulo, Miguel dos Santos
mal contém o entusiasmo quando começa
a explicar o que é a Telefonia Modular
Inteligente Distribuída (TMID) –
nome que deu à sua idéia de usar
voz sobre a plataforma desenvolvida para automação
predial. A ambiciosa concepção de
telefonia do físico poderá tornar
obsoleto o convencional PABX e também pôr
em xeque o próprio conceito de centrais
telefônicas. "Hoje, a voz é
transmitida por um par de fios desde o aparelho
telefônico até uma central. Na central
acontece o enlace — a voz é destinada
para o número chamado. O que nós
desenvolvemos, usando a LonWorks, permite que
o enlace seja feito de aparelho para aparelho,
sem passar pela central", explica Miguel.
Por isso, o projeto ganhou o apelido de PABX Inteligente.
Mas não se limita à substituição
dos aparelhos de PABX. A proposta é mais
ampla: prevê a criação de
um Sistema Distribuído de Comutação
Telefônica Privada (SDCTP). "Já
existem experiências e dispositivos de comando
de voz para a automação, mas nada
da magnitude que propomos", afirma Miguel.
Por isso, a empresa e o pesquisador já
depositaram três pedidos de patentes no
Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI):
um para assegurar a prioridade sobre a tecnologia
de voz sobre Lon, batizada de VoLon (Voice
over Lon); e outros dois que se relacionam
ao SDCTP.
Interoperabilidade
Mas se a telefonia
instalada nos prédios funciona razoavelmente
bem no mundo todo, por que substituí-la
por outro padrão? Para responder a essa
questão, Miguel tira de uma das gavetas
de sua mesa um livro de mais de 600 páginas
já bem surrado de tanto uso. É a
"bíblia" da tecnologia LonWorks.
A ilustração da capa dá uma
pista da resposta: um infograma estilizado mostra
uma rede que opera serviços díspares
como o acionamento de lâmpadas, câmaras
de segurança ou do controle de um portão
automático. A vantagem é a "interoperabilidade",
explica a engenheira de computação
recém-formada Gabriela Werner Ceschini,
que começou sua carreira na Conceito como
estagiária. Interoperabilidade é
o conceito da tecnologia LonWorks que designa
sua capacidade de integrar a monitoração
e o controle de equipamentos diferentes na mesma
plataforma, usando qualquer rede disponível
— com fio ou sem fio. Isso é possível
porque cada módulo de controle de equipamento
da rede LonWorks tem um microcontrolador que pode
ser programado para receber sinais de máquinas,
de telefones com ou sem fio, de outros chips
e aplicativos. "São como neurônios
que possuem autonomia e que se ligam formando
uma rede inteligente e flexível",
afirma Miguel dos Santos.
Redes de automação
são cada vez mais freqüentes em novas
edificações; e outras tecnologias
de integração existem — mas
nenhuma com a flexibilidade da Lon, segundo a
Conceito. O modelo SDCTP proposto pela empresa
para os novos prédios prevê uma única
rede para tudo, inclusive telefonia. Ao contrário
do que acontece na telefonia privada atual, que
precisa convergir maços de pares de fios
até uma central de PABX, o SDCTP interage
entre si por meio dos módulos. A modularidade
também é uma vantagem para a transição
do modelo convencional para outro. Como a Conceito
programou os módulos da TMID para receber
sinais analógicos ou digitais, o interessado
não precisa trocar o PABX de uma vez só
— a cada necessidade de ampliação
de ramais, o usuário pode instalar módulos
que fazem eles próprios o trabalho da central.
Centralizado?
Não! Distribuído!
A obsessão
de Miguel dos Santos por estabelecer padrões
de operação em rede distribuída
começou quando trabalhou na automatização
das balanças da Companhia Docas do Estado
de São Paulo (Codesp), entre 1991 e 1997.
O desafio proposto a ele foi o de instalar, nas
26 balanças por onde passavam caminhões
com destino ao Porto de Santos, um controlador
lógico programável que gerasse um
relatório com o peso e a identificação
do veículo. O caminho óbvio —
centralizado — seria o controlador ler os
sensores das balanças e depois transmitir
o sinal para um computador central, que processaria
as informações. Mas Miguel não
queria centralizar o processamento. Queria que
os dados fossem processados de maneira distribuída.
Foi quando o databook da LonWorks lhe
caiu nas mãos. A certeza de que poderia
implantar a tecnologia na Codesp virou sua dissertação
de mestrado: Aplicação de Redes
de Controle Distribuído em Processo de
Pesagem Automatizado e Informatizado. "A
balança 25 foi nosso protótipo LonWorks;
a partir dela, fomos levando a tecnologia para
outras. Infelizmente, em 1999 as balanças
já foram desativadas pela Codesp, que reformou
o porto e mudou o terminal de carga", lamenta
Miguel, ao recordar que a tecnologia caiu como
uma luva para a integração de balanças
de marcas e formas de operação diferentes.
O estudo com
a balança permitiu que o físico
entendesse como aprimorar o uso da LonWorks. Uma
barra formada por módulos exercia a função
de comunicação entre as balanças.
Se a barra comunicava dados, porque não
comunicar qualquer coisa, inclusive a voz? Aí
estava a semente do projeto apresentado à
Fapesp. Miguel soube do programa PIPE por meio
de Cesar Aguiar, cônsul da Ilha de Chipre
em São Paulo — o amigo conhecia a
inventividade do físico e também
a vontade da Fapesp de apoiar projetos de pesquisa
inovativa em pequenas empresas. Foi o estopim
de uma longa jornada de projetos, pesquisas e
produtos.
PIPE
No começo,
Miguel foi cético em relação
ao projeto PIPE, a ponto de telefonar para outro
amigo: o já falecido professor Francisco
Romeu Landi, da Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo (Poli-USP), na época
diretor-presidente da Fapesp. "Professor
Landi, este tal de PIPE funciona?", lembra-se
de lhe ter perguntado. "Ele me respondeu:
'Claro que sim, Miguel, é só fazer
o projeto'". O mestre em engenharia elétrica
pôs-se a detalhar todo o seu vislumbre.
Descreveu como poderia encapsular a voz, criar
os módulos do sistema, traduzir a banda
da telefonia para o sistema Lon, fazer o enlace,
a recepção e a espera da chamada.
Mas para sua surpresa, o primeiro projeto foi
rejeitado. "Pensei: 'Ou estou completamente
enganado ou houve alguma falha de entendimento
provocada pela minha comunicação'",
lembra Miguel. Durante dois meses ele sequer voltou
a olhar para o projeto. Antes que vencesse o prazo
final para recorrer da rejeição,
compreendeu onde havia errado. "Estava focado
na automação, quando deveria estar
focado em tecnologia de informação."
Da segunda vez, os assessores da Fapesp recomendaram
a aprovação do projeto, em fase
I – aquela em que a empresa e o pesquisador
estudam a viabilidade técnica e comercial
do que se propõem a fazer.
Para começar,
Miguel recebeu R$ 75 mil. Com esses recursos,
visitou a TAC, empresa com sede na Suécia
especialista em produtos LonWorks. Um convênio
entre a TAC e o Laboratório de Automação
Agrícola da Poli permitiu o envio de 115
itens de diversos equipamentos da empresa. Nesse
laboratório, e sob a orientação
de seu coordenador, o engenheiro eletrônico
Carlos Eduardo Cugnasca, Miguel realizou a pesquisa
para sua tese de doutorado, defendida em 2004.
A tese caminhou junto com o projeto apresentado
ao PIPE: seu objetivo foi desenvolver sistemas
de automação predial com tecnologia
de informação para prédios
inteligentes. Um dos pontos da tese de doutorado:
Telefonia Modular Inteligente Distribuída.
Explica Cugnasca a PIPE –Pequenas
que Inovam: "A ambição
do projeto de Miguel era convergir voz de telefonia
em rede de automação; a voz sobre
Lon criou uma situação nova, em
que se usa a rede de automação para
ligar o ar-condicionado e para falar".
Comprovada a viabilidade,
a Conceito partiu para o pedido de financiamento
para a fase II, de desenvolvimento do projeto.
A empresa recebeu R$ 130 mil. "Ainda não
estamos 100% prontos para o mercado, mas nossa
atividade gerou subprodutos que já estão
sendo comercializados", conta Miguel. Dentre
esses subprodutos, ele destaca módulos
de espera telefônica e o gravador telefônico
digital LogPhone, lançado em janeiro. Embora
não tenha feito nenhuma divulgação,
a Conceito já vendeu 200 aparelhos. O gravador
contém a tecnologia LonWorks e permite
a gravação digital das conversas
telefônicas e o gerenciamento de chamadas.
O call center da Plaza Imóveis,
uma corretora de São Paulo, foi o primeiro
a adotar o LogPhone. "Para nós, é
ótimo: o sistema permite a gravação
criptografada em bancos de dados distribuídos,
acompanhada de relatório com hora e duração
da chamada", afirma Martin Siu, responsável
pela Tecnologia de Informação da
empresa, que tem 40 corretores e comprou 50 LogPhones.
O condomínio Shopping Ibirapuera é
outro cliente da Conceito a se beneficiar das
pesquisas desenvolvidas no âmbito do projeto
PIPE da Fapesp. "Estamos instalando a tecnologia
LonWorks no prédio, principalmente, para
aproveitar a rede instalada e dar soluções
de segurança predial e patrimonial",
afirma Miguel. PIPE — Pequenas
que Inovam não conseguiu
falar com a administração do Shopping
Ibirapuera, embora tenha tentado; mas, de acordo
com Miguel, o shopping está credenciado
para ser um dos primeiros usuários da tecnologia
TMID. A implantação do sistema ali
suscitou um novo projeto, que foi aprovado em
julho de 2006 direto para a fase II do PIPE. A
Fapesp destinou R$ 350 mil para o desenvolvimento
de dispositivos (middlewere e gatekeeper)
que permitam convergir e interagir voz e dados
da LonWorks sobre a linha tronco de voz e dados
da telefonia: um cabo chamado E1 que recebe e
leva o sinal da companhia telefônica no
interior dos prédios.
Efeito
Multiplicador
A cada dia, observa
Miguel, cresce o número de casas com automação
integrada. "O PIPE nos permitiu trazer para
o Brasil empresas que atuam com este conceito",
afirma. Além da TAC, a Conceito já
tem contato com a PureChoice, que a convidou para
representar seus produtos no Brasil. Um deles
é uma espécie de nariz eletrônico,
baseado na tecnologia LonWorks, que integra módulos
de sensores para gases, temperatura e umidade
para controlar a qualidade do ar dos interiores.
Esse ambiente
futurista ainda está distante do local
de trabalho de Miguel. Ladeada por uma bancada
de testes, sua mesa divide espaço com uma
estante e outra mesa de escritório. Sobre
toda a mobília, há placas com chips
e circuitos expostos ao trabalho de checagem dos
seis engenheiros e quatro técnicos engenheiros
da empresa — que tem, ao todo, 20 funcionários.
Mal há espaço para abrigar as centenas
de dispositivos e acessórios de telefonia
que estão à venda. Devido ao projeto
VoLon, a Conceito se prepara para mudar o foco
de seu negócio: de automação
para telefonia. Do faturamento anual de R$ 1,5
milhão, apenas 30% vêm hoje de automação
pura. A perspectiva é cada vez mais se
integrar à tecnologia da informação
e à telefonia. "Nós vamos montar
nosso negócio pelas beiradas, fornecendo
uma alternativa mais barata e eficiente que os
atuais PABXs", espera Miguel.