Cientistas Associados Desenvolvimento Tecnológico
Empresa de São Carlos recebe
o sexto financiamento da Fapesp; agora, área de
concentração é robôs móveis de pequeno porte
Evanildo
da Silveira
Para colocar em
prática uma idéia que não
interessava à empresa em que trabalhava
na época, o doutor em computação
e matemática computacional Antonio Valerio
Netto resolveu criar uma empresa. Para isso enviou
um projeto ao Programa de Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE),
da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp). Foi aprovado.
Nascia assim, em maio de 2003, a Cientistas Associados
Desenvolvimento Tecnológico Ltda., formada
por cientistas para o desenvolvimento e integração
de soluções tecnológicas
baseadas em hardware e software.
Três anos
e meio depois, a pequena empresa incubada na Fundação
Parque de Tecnologia (ParqTec), de São
Carlos, acaba de ter seu sexto projeto aprovado
pela Fapesp. "É o terceiro na área
de robótica", conta Valerio Netto.
"Ele prevê o desenvolvimento de uma
plataforma universal — onde vários robôs
diferentes poderão ser montados — e de
módulos específicos para aplicações
em robôs móveis nas áreas
de educação e entretenimento".
O pedido de financiamento foi feito em fevereiro
do ano passado diretamente para a Fase II do PIPE,
para que o projeto se iniciasse em março
de 2007, o que de fato deve ocorrer. Ele se estenderá
até 2009. Foram liberados R$ 672.369,70,
dos quais R$ 330.626,50 para investimento direto
no projeto e R$ 341.743,20 para bolsa-trabalho,
isto é, para pagamento do pessoal envolvido
no desenvolvimento da plataforma.
Plataforma
universal
O coordenador
do projeto, Osvaldo Hugo Bertone, explica que
equipamento é essa plataforma universal:
“o coração e o cérebro
do robô, como se fosse a CPU de um computador”,
diz. “Hoje você compra uma CPU, mas
não tem um computador. Precisa de monitor,
teclado, mouse, caixas de som, microfone,
câmera, impressora e outros acessórios.
Você monta seu computador do jeito que quiser.
O mesmo se fará com a plataforma. O comprador
monta seu robô, com braços, pernas
ou rodas, sensores, câmeras, som e outros
equipamentos que desejar.”
O formato e as
dimensões da plataforma ainda não
estão definidos. Mas Bertone diz que a
idéia é que ela tenha um tamanho
aproximado de 30 centímetros de largura,
30 centímetros de comprimento por 50 centímetros
de altura e pese entre 10 e 15 quilos. "Deverá
ser uma caixa, que será colocada dentro
de um robô, que, por sua vez, poderá
ter qualquer forma", explica. As aplicações
para esses robôs móveis são
muitas. Como eles podem ser programados como um
computador, servem para educação
na área de informática e computação.
Os alunos podem aprender a programá-los,
por exemplo.
Além dessa,
há várias outras aplicações.
"Na área médica, por exemplo,
eles poderão ser usados em cirurgias, por
meio de comandos à distância dados
por um cirurgião especializado", diz
Bertone. "Na área de segurança,
poderão fazer rondas, evitando que o vigia
corra risco de vida. Além disso, como é
possível instalar nos robôs uma câmera
e um software de processamento de imagem,
uma alternativa de uso será empregá-los
na educação de trânsito para
crianças, detectando as infrações.
Também servem para programas de reciclagem
de lixo, selecionando o material a ser reaproveitado
por cor, forma ou tamanho."
Mercado
em expansão e sofisticação
Com tantas aplicações
não é de surpreender que, dentre
as áreas de robótica, os robôs
móveis de pequeno porte estejam com o mercado
em franca expansão. "Segundo previsões
do World Robotic Report 2005, da International
Federation of Robotics (IFR), o mercado nos próximos
anos terá um crescimento de cerca de 21,31%
ao ano”, explica Valerio Netto, que além
de fundador da Cientistas Associados é
gerente da Divisão de Tecnologia da empresa.
“Com isso, ocupará o primeiro lugar
em número de equipamentos vendidos, com
21,45% do total de robôs de serviços."
De acordo com
ele, as plataformas móveis mais sofisticadas
possuem dispositivos como sensores de infravermelho
e a laser e visão computacional.
"Foi nesse contexto, que surgiu o nosso projeto
de criar uma plataforma universal para um robô
móvel que possua uma "arquitetura
aberta", possibilitando que o usuário
desenvolva, ele mesmo, uma nova aplicação",
diz Valerio Netto. "Além dessa plataforma
móvel aberta, o projeto visa a desenvolver
três kits a serem usados com tal
estrutura: sistema de visão embarcado,
braços mecânicos e software
de comunicação para tele-operação,
que permite programar o robô pela internet.”
Esses kits
dão continuidade aos produtos desenvolvidos
em projetos anteriores pela empresa. "Já
criamos três modelos de robô: o Sci-soccer,
usado em jogos de futebol de robôs; o RoboGol,
comandado por joystick e empregado na
área de entretenimento; e o Curumim, usado
em educação e pesquisa, com módulo
de transmissão de imagem analógica,
pinça mecânica com caneta e ambiente
integrado de programação."
Valerio Netto
garante que sistemas com esse grau de sofisticação,
flexibilidade e abrangência não existem
na América Latina. Além disso, a
possibilidade de se utilizar a internet
para tele-operação, isto é
para controlar e programar o robô à
distância, possibilitará uma série
de subprojetos a serem desenvolvidos em outras
oportunidades, em áreas como tele-robótica
e tele-medicina. "A interface remota via
internet também possibilita que
o robô preparado para a educação
seja utilizado no ensino à distância,
em escolas que não dispõem de recursos
para construírem um laboratório
de robótica", diz. "Estas escolas
podem adquirir apenas o software e utilizar
pela internet os robôs disponíveis
no Laboratório de Robótica à
Distância, que poderá estar localizado
em um dos estabelecimentos de ensino."
O primeiro
PIPE
Todos esses produtos
e a própria existência da empresa
só foram possíveis graças
aos financiamentos do PIPE. Desde que foi fundada,
a Cientistas Associados já recebeu R$ 2,564
milhões da Fapesp por meio desse programa.
Nesse valor não está computado o
dinheiro do projeto da plataforma, que só
começará a ser repassado no mês
que vem. O financiamento mais importante foi o
primeiro, porque foi o que deu origem à
empresa. Foram R$ 60 mil para o projeto "Sistema
interativo para treinamento na área de
segurança", que está com sua
segunda fase em análise pela Fapesp.
A idéia
do projeto surgiu quando Valerio Netto trabalhava
na T-Systems, empresa do grupo Deutche Telekom.
"Apareceu uma oportunidade de negócio
que não estava entre os que a empresa praticava”,
conta ele. "Tratava-se de desenvolver um
sistema de treinamento de segurança. Conversei
com meu gerente na época e ele comentou
que a empresa não tinha interesse, mas
seu eu quisesse poderia ir atrás da solução.
O desejo de realizar inovação foi
mais alto e eu deixei a multinacional. Então
enviei o projeto para a Fapesp, que o aprovou.”
O objetivo dele
é desenvolver um sistema de multimídia
interativa de treinamento na área de segurança.
Foi idealizado um sistema que pudesse “transportar”
os profissionais de empresas e corporações
públicas de segurança para uma realidade
mais próxima do cotidiano de trabalho,
permitindo que eles tenham um treinamento e uma
formação mais adequada para desempenhar
suas funções de forma mais segura
e eficaz.
Para Valerio Netto,
os sistemas de treinamento na área de segurança
utilizados atualmente não permitem muita
interatividade. "Os profissionais são
colocados em situações nas quais
os alvos são fixos e imóveis, não
transmitindo a sensação de realidade
com a qual o profissional irá realmente
se defrontar no momento em que estiver prestando
seus serviços", diz. "Por isso,
o projeto tem por objetivo gerar uma evolução
nesses dispositivos de treinamento na área
de segurança, levando interatividade aos
possíveis usuários."
Para gerar essa
interatividade, o sistema irá exibir, em
um anteparo de metal, um filme especial com situações
reais do cotidiano, tais como assaltos, seqüestros,
invasões, entre outras, utilizando personagens
em tamanho real. Por meio das imagens e dos sons
emitidos, o filme produzirá uma sensação
de presença física no ambiente no
momento em que a situação está
ocorrendo. “Nesse momento, com uma arma
real carregada com projéteis de silicone
ou óleo de mamona, o usuário terá
que tomar decisões, tais como o momento
exato de sacar a arma e atirar”, explica
Valerio Netto. “Sua ação gerará
uma reação do filme de acordo com
o resultado do disparo. Isto é, após
efetuar o disparo, o sistema será responsável
por definir qual a nova seqüência de
imagens a ser mostrada na tela, dependendo da
ação tomada pelo usuário.”
Por causa desse
projeto, Valerio Netto costuma dizer que a Cientistas
Associados nasceu do PIPE. A empresa hoje é
composta por 25 colaboradores, sendo seis doutores,
sete mestres, dez graduados e dois técnicos.
A previsão de faturamento em serviços
para o ano de 2007 é de R$ 500 mil. A empresa
também busca recursos em outras agências
de fomento: "Com relação aos
investimentos de projeto de fomento para o ano
de 2007 teremos em torno de R$ 1 milhão,
vindos do PIPE (4 projetos em Fase II) e do Programa
de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas
em Apoio à Inovação Tecnológica
(RHAE-Inovação) do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq)", informa Valerio.
Para aproveitar
bem esses financiamentos, ele diz que a empresa
tem como filosofia gerar uma oportunidade ímpar,
que é permitir que jovens cientistas possam
atuar em um ambiente empresarial competitivo.
"Para a Cientistas Associados é de
extrema importância gerar credibilidade
e apresentar resultados da sua competência
junto à sociedade brasileira, pois, dessa
forma, ratifica-se a presença de cientistas
no meio empresarial", diz. "No País,
existem poucas iniciativas empreendedoras nessa
área, e dessa forma é importante
unir esforços para apresentar o cientista
como categoria profissional de elevada competência
e importância para o crescimento sustentável
do Brasil."