Publicado em 15 de fevereiro 2007






Cientistas Associados Desenvolvimento Tecnológico

Empresa de São Carlos recebe o sexto financiamento da Fapesp; agora, área de concentração é robôs móveis de pequeno porte

Evanildo da Silveira

Para colocar em prática uma idéia que não interessava à empresa em que trabalhava na época, o doutor em computação e matemática computacional Antonio Valerio Netto resolveu criar uma empresa. Para isso enviou um projeto ao Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Foi aprovado. Nascia assim, em maio de 2003, a Cientistas Associados Desenvolvimento Tecnológico Ltda., formada por cientistas para o desenvolvimento e integração de soluções tecnológicas baseadas em hardware e software.

Três anos e meio depois, a pequena empresa incubada na Fundação Parque de Tecnologia (ParqTec), de São Carlos, acaba de ter seu sexto projeto aprovado pela Fapesp. "É o terceiro na área de robótica", conta Valerio Netto. "Ele prevê o desenvolvimento de uma plataforma universal — onde vários robôs diferentes poderão ser montados — e de módulos específicos para aplicações em robôs móveis nas áreas de educação e entretenimento". O pedido de financiamento foi feito em fevereiro do ano passado diretamente para a Fase II do PIPE, para que o projeto se iniciasse em março de 2007, o que de fato deve ocorrer. Ele se estenderá até 2009. Foram liberados R$ 672.369,70, dos quais R$ 330.626,50 para investimento direto no projeto e R$ 341.743,20 para bolsa-trabalho, isto é, para pagamento do pessoal envolvido no desenvolvimento da plataforma.

Plataforma universal

O coordenador do projeto, Osvaldo Hugo Bertone, explica que equipamento é essa plataforma universal: “o coração e o cérebro do robô, como se fosse a CPU de um computador”, diz. “Hoje você compra uma CPU, mas não tem um computador. Precisa de monitor, teclado, mouse, caixas de som, microfone, câmera, impressora e outros acessórios. Você monta seu computador do jeito que quiser. O mesmo se fará com a plataforma. O comprador monta seu robô, com braços, pernas ou rodas, sensores, câmeras, som e outros equipamentos que desejar.”

O formato e as dimensões da plataforma ainda não estão definidos. Mas Bertone diz que a idéia é que ela tenha um tamanho aproximado de 30 centímetros de largura, 30 centímetros de comprimento por 50 centímetros de altura e pese entre 10 e 15 quilos. "Deverá ser uma caixa, que será colocada dentro de um robô, que, por sua vez, poderá ter qualquer forma", explica. As aplicações para esses robôs móveis são muitas. Como eles podem ser programados como um computador, servem para educação na área de informática e computação. Os alunos podem aprender a programá-los, por exemplo.

Além dessa, há várias outras aplicações. "Na área médica, por exemplo, eles poderão ser usados em cirurgias, por meio de comandos à distância dados por um cirurgião especializado", diz Bertone. "Na área de segurança, poderão fazer rondas, evitando que o vigia corra risco de vida. Além disso, como é possível instalar nos robôs uma câmera e um software de processamento de imagem, uma alternativa de uso será empregá-los na educação de trânsito para crianças, detectando as infrações. Também servem para programas de reciclagem de lixo, selecionando o material a ser reaproveitado por cor, forma ou tamanho."

Mercado em expansão e sofisticação

Com tantas aplicações não é de surpreender que, dentre as áreas de robótica, os robôs móveis de pequeno porte estejam com o mercado em franca expansão. "Segundo previsões do World Robotic Report 2005, da International Federation of Robotics (IFR), o mercado nos próximos anos terá um crescimento de cerca de 21,31% ao ano”, explica Valerio Netto, que além de fundador da Cientistas Associados é gerente da Divisão de Tecnologia da empresa. “Com isso, ocupará o primeiro lugar em número de equipamentos vendidos, com 21,45% do total de robôs de serviços."

De acordo com ele, as plataformas móveis mais sofisticadas possuem dispositivos como sensores de infravermelho e a laser e visão computacional. "Foi nesse contexto, que surgiu o nosso projeto de criar uma plataforma universal para um robô móvel que possua uma "arquitetura aberta", possibilitando que o usuário desenvolva, ele mesmo, uma nova aplicação", diz Valerio Netto. "Além dessa plataforma móvel aberta, o projeto visa a desenvolver três kits a serem usados com tal estrutura: sistema de visão embarcado, braços mecânicos e software de comunicação para tele-operação, que permite programar o robô pela internet.”

Esses kits dão continuidade aos produtos desenvolvidos em projetos anteriores pela empresa. "Já criamos três modelos de robô: o Sci-soccer, usado em jogos de futebol de robôs; o RoboGol, comandado por joystick e empregado na área de entretenimento; e o Curumim, usado em educação e pesquisa, com módulo de transmissão de imagem analógica, pinça mecânica com caneta e ambiente integrado de programação."

Valerio Netto garante que sistemas com esse grau de sofisticação, flexibilidade e abrangência não existem na América Latina. Além disso, a possibilidade de se utilizar a internet para tele-operação, isto é para controlar e programar o robô à distância, possibilitará uma série de subprojetos a serem desenvolvidos em outras oportunidades, em áreas como tele-robótica e tele-medicina. "A interface remota via internet também possibilita que o robô preparado para a educação seja utilizado no ensino à distância, em escolas que não dispõem de recursos para construírem um laboratório de robótica", diz. "Estas escolas podem adquirir apenas o software e utilizar pela internet os robôs disponíveis no Laboratório de Robótica à Distância, que poderá estar localizado em um dos estabelecimentos de ensino."

O primeiro PIPE

Todos esses produtos e a própria existência da empresa só foram possíveis graças aos financiamentos do PIPE. Desde que foi fundada, a Cientistas Associados já recebeu R$ 2,564 milhões da Fapesp por meio desse programa. Nesse valor não está computado o dinheiro do projeto da plataforma, que só começará a ser repassado no mês que vem. O financiamento mais importante foi o primeiro, porque foi o que deu origem à empresa. Foram R$ 60 mil para o projeto "Sistema interativo para treinamento na área de segurança", que está com sua segunda fase em análise pela Fapesp.

A idéia do projeto surgiu quando Valerio Netto trabalhava na T-Systems, empresa do grupo Deutche Telekom. "Apareceu uma oportunidade de negócio que não estava entre os que a empresa praticava”, conta ele. "Tratava-se de desenvolver um sistema de treinamento de segurança. Conversei com meu gerente na época e ele comentou que a empresa não tinha interesse, mas seu eu quisesse poderia ir atrás da solução. O desejo de realizar inovação foi mais alto e eu deixei a multinacional. Então enviei o projeto para a Fapesp, que o aprovou.”

O objetivo dele é desenvolver um sistema de multimídia interativa de treinamento na área de segurança. Foi idealizado um sistema que pudesse “transportar” os profissionais de empresas e corporações públicas de segurança para uma realidade mais próxima do cotidiano de trabalho, permitindo que eles tenham um treinamento e uma formação mais adequada para desempenhar suas funções de forma mais segura e eficaz.

Para Valerio Netto, os sistemas de treinamento na área de segurança utilizados atualmente não permitem muita interatividade. "Os profissionais são colocados em situações nas quais os alvos são fixos e imóveis, não transmitindo a sensação de realidade com a qual o profissional irá realmente se defrontar no momento em que estiver prestando seus serviços", diz. "Por isso, o projeto tem por objetivo gerar uma evolução nesses dispositivos de treinamento na área de segurança, levando interatividade aos possíveis usuários."

Para gerar essa interatividade, o sistema irá exibir, em um anteparo de metal, um filme especial com situações reais do cotidiano, tais como assaltos, seqüestros, invasões, entre outras, utilizando personagens em tamanho real. Por meio das imagens e dos sons emitidos, o filme produzirá uma sensação de presença física no ambiente no momento em que a situação está ocorrendo. “Nesse momento, com uma arma real carregada com projéteis de silicone ou óleo de mamona, o usuário terá que tomar decisões, tais como o momento exato de sacar a arma e atirar”, explica Valerio Netto. “Sua ação gerará uma reação do filme de acordo com o resultado do disparo. Isto é, após efetuar o disparo, o sistema será responsável por definir qual a nova seqüência de imagens a ser mostrada na tela, dependendo da ação tomada pelo usuário.”

Por causa desse projeto, Valerio Netto costuma dizer que a Cientistas Associados nasceu do PIPE. A empresa hoje é composta por 25 colaboradores, sendo seis doutores, sete mestres, dez graduados e dois técnicos. A previsão de faturamento em serviços para o ano de 2007 é de R$ 500 mil. A empresa também busca recursos em outras agências de fomento: "Com relação aos investimentos de projeto de fomento para o ano de 2007 teremos em torno de R$ 1 milhão, vindos do PIPE (4 projetos em Fase II) e do Programa de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas em Apoio à Inovação Tecnológica (RHAE-Inovação) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)", informa Valerio.

Para aproveitar bem esses financiamentos, ele diz que a empresa tem como filosofia gerar uma oportunidade ímpar, que é permitir que jovens cientistas possam atuar em um ambiente empresarial competitivo. "Para a Cientistas Associados é de extrema importância gerar credibilidade e apresentar resultados da sua competência junto à sociedade brasileira, pois, dessa forma, ratifica-se a presença de cientistas no meio empresarial", diz. "No País, existem poucas iniciativas empreendedoras nessa área, e dessa forma é importante unir esforços para apresentar o cientista como categoria profissional de elevada competência e importância para o crescimento sustentável do Brasil."