Tecam Laboratórios
Empresa bem-sucedida em análises
laboratoriais de produtos espera definição sobre
rotulagem de OGMs para crescer mais
Davi
Molinari
Janete Moura,
Cynthia Bomfim e Regina Sawaia Sáfadi freqüentaram
na mesma época as aulas do curso de graduação
em Biologia no Instituto de Biociências
da Universidade de São Paulo (USP). Quando
se formaram, em 1982, cada uma escolheu especializar-se
em uma área: Janete fez seu doutorado em
genética; Cynthia, em biologia celular;
e Regina Sawaia, em ecologia. A diversidade de
escolhas — elas não sabiam —
acabou por ajudar as amigas quando, em 1992, resolveram
unir suas competências para fundar o Tecam
Laboratórios. As três jovens empresárias
detectaram uma oportunidade concreta, que a sinergia
de suas especialidades permitia aproveitar: uma
mudança na legislação introduziu
a exigência de que os testes de segurança
dos defensivos agrícolas — para saber,
por exemplo, seu grau de toxicidade — passassem
a ser feitos aqui no Brasil. As fábricas
de defensivos se tornaram os primeiros clientes
do Tecam; mas não os únicos: a empresa
entra agora em seu 15º ano de vida com faturamento
de R$ 2,7 milhões e carteira de mil clientes.
O começo
Uma técnica
para avaliação da toxicidade consiste
em expor organismos aquáticos (como algas,
crustáceos e peixes) e mamíferos
(como ratos e coelhos) aos defensivos agrícolas.
Entre outros testes, é preciso comprovar
se o produto químico traz risco de mutagenicidade
— ou seja, de causar mutação
genética nos organismos em contato com
o defensivo. Como o Tecam já tinha know-how
para analisar contaminação
de organismos aquáticos, não foi
difícil analisar a qualidade da própria
água. Por isso, passou também a
atender distribuidoras que precisavam certificar
a potabilidade da água que vendiam. Esse
serviço, o Tecam presta até hoje.
Por extensão, a empresa também passou
a prestar serviço na análise físico-química
de alimentos industrializados, dando informações,
por exemplo, para a rotulagem nutricional, com
a quantificação e detecção
de vitaminas, colesteróis, açúcares
etc.
Mas... E o PIPE?
A trajetória
bem-sucedida teve sua prova de fogo quando chegaram
ao mercado produtos contendo organismos geneticamente
modificados (OGMs). As biólogas do Tecam
perceberam que ali nascia um novo nicho de negócios.
"Não foi uma decisão simples,
pois havia muita incerteza sobre a postura que
o Brasil adotaria em relação aos
transgênicos, já que no mundo dois
cenários se desenrolavam: a Europa exigia
a rotulagem dos alimentos contendo transgênicos
e os EUA, não", explica Janete sentada
à mesa de seu escritório, uma sala
sem divisórias de onde ela pode interagir
com todas as mesas da Diretoria.
Para ganhar a
capacidade de detectar a presença ou não
de OGMs em um produto e assim disputar esse novo
mercado, o Tecam teria de assumir o risco de investir
na montagem de um laboratório de biologia
molecular, sem saber — naquele momento —
quais seriam as regras do negócio. Em 1999,
quando planejou o Laboratório de Biologia
Molecular, o Tecam não tinha sede própria.
À medida que a empresa crescia, mais uma
casa de aluguel era agregada às instalações.
Em 2000, seus 15 funcionários atuavam numa
seqüência de três casas no bairro
da Lapa. A arquitetura definitivamente não
era a desejada pelas sócias.
O problema central para a empresa, naquele momento,
era o custo elevado dos equipamentos necessários
para realizar a tarefa. O principal deles, uma
"máquina de PCR", peça
fundamental em laboratórios de biologia
molecular. PCR é a sigla, em inglês,
para Polymerase Chain Reaction —
ou, em português, Reação em
Cadeia da Polimerase. Esse processo permite fabricar
moléculas de DNA em quantidade grande a
partir de fragmentos de moléculas de DNA
— quer dizer, a partir de quantidades pequenas
de DNA. Genes são feitos de DNA. A descoberta
desse processo foi tão importante para
as tecnologias da engenharia genética que
deu o Prêmio Nobel de Química a seu
inventor — o bioquímico norte-americano
Kary Mullins —; a máquina de PCR
faz o processo de reações encadeadas
inventado por ele acontecer automaticamente.
E o que isso tem
a ver com o mercado que as empresárias
do Tecam almejavam, o de rotulagem de transgênicos?
É que a quantidade de DNA de material transgênico
presente em cada amostra de alimento é
pequena. Sem aumentar essa quantidade, não
é possível analisar as características
do produto necessárias para definir os
dados para a rotulagem. Por isso é que
Janete, Cynthia e Regina precisavam da máquina
de PCR. Preço: US$ 100 mil. Naquela época,
em janeiro de 1999, a cotação do
dólar passou de R$ 1,20 para R$ 2. Não
dava para a empresa bancar o investimento, com
sete anos de vida e faturamento anual perto dos
R$ 300 mil. O que elas fizeram então? Pediram
o dinheiro ao PIPE, é claro. "Na época
não tínhamos sequer noção
de como montar um plano de negócios",
afirma a sócia Regina Sáfadi.
Para aprender a lidar com administração
do negócio e captar recursos novos, Janete
participava de todas as reuniões que pudessem
ajudar neste sentido. Um encontro promovido pela
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) entre
pequenos empresários e investidores foi
o estopim para que as sócias decidissem
buscar ajuda no PIPE. As pesquisadoras recearam
que uma eventual injeção de capital
de risco na empresa poderia lhe tirar a autonomia
— sócios capitalistas têm como
objetivo principal a remuneração
do dinheiro empregado no negócio. "O
caminho do PIPE nos pareceu melhor", conta
Regina. Para montar o laboratório, o Tecam
apresentou, em 1999, o projeto PIPE e conseguiu
que a Fapesp investisse US$ 105 mil e R$ 73,1
mil. Recursos necessários para comprar
a máquina de PCR, um espectrofotômetro
de raios UV visível, uma capela de fluxo
laminado, duas geladeiras, dois freezers,
um moedor, uma centrífuga e três
mini-centrífugas.
Durante a implantação do laboratório,
outra ocorrência não prevista ameaçou
os propósitos do Tecam: os órgãos
internacionais de segurança biológica,
especialmente da Europa, não mais se satisfaziam
apenas com a informação sobre a
presença ou não de OGMs em alimentos
— passaram a exigir também a informação
sobre a quantidade deles presente nas amostras.
A Europa exige rotulagem para produtos com mais
de 1% de material transgênico; o Japão,
por exemplo, só exige rótulo quando
o índice for de 5%. A mudança impôs
uma nova necessidade para a empresa: um equipamento
de PCR mais sofisticado do que o previsto no projeto
de pesquisa aprovado pela Fapesp — antes
mesmo de ele ter chegado. Para saber a quantidade
de transgênicos em um determinado alimento
é preciso usar a técnica do PCR
em tempo real — a mesma usada na área
médica para quantificar a carga viral de
uma amostra de sangue. "Felizmente, para
o sucesso do projeto, a Fapesp concordou com as
alterações propostas", explica
Janete.
Mas as moças
não ficaram só no PIPE — o
total investido para o desenvolvimento do serviço
de detecção de OGMs foi de R$ 450
mil, dos quais um terço eram recursos próprios.
O Tecam tornou-se a primeira empresa nacional
a ostentar o certificado da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa)
para atuar em análises de detecção
de OGMs em alimentos. É credenciada pelos
Ministérios de Saúde e da Agricultura,
e certificada pela Comissão Técnica
Nacional de Biossegurança (CTNBio), do
Ministério da Ciência e Tecnologia
(MCT). Sem este documento, o Tecam não
trabalharia com OGMs. Esse pioneirismo deu credibilidade
ao laboratório.
Hoje em dia...
Hoje em dia, sete
anos depois do primeiro PIPE, trabalham no Tecam
56 funcionários, sendo 40% com formação
superior. Em 2002, a empresa se mudou para um
prédio de quatro andares e mil metros quadrados
no bairro da Vila Romana, na Zona Oeste de capital
de São Paulo. O prédio foi projetado
com a finalidade de abrigar cinco laboratórios
diferentes. São dois blocos de concreto
ligados por pontes metálicas. No último
andar, a Diretoria fica no bloco da frente. No
bloco de trás estão os Laboratórios
de Biologia Molecular e de Ecotoxicologia. São
duas salas independentes que não se comunicam
diretamente. O acesso é feito por um corredor
lateral, onde ficam disponíveis os paramentos
que os pesquisadores colocam antes de entrar.
É condição importante para
não contaminar o local. Enquanto o Laboratório
de Biologia Molecular abriga as máquinas
de PCR convencional e em tempo real, o Laboratório
de Ecotoxicologia guarda aquários com algas
e com uma espécie de peixe comum na costa
brasileira, o paulistinha, entre outros equipamentos.
Os laboratórios de análises físico-químicas,
microbiológicas, microscópicas ficam
no andar térreo para facilitar o acesso
de entrada de amostras. Há, ainda, o Laboratório
de Análises Toxicológicas sediado
numa área de 20 mil metros quadrados em
São Roque, interior do Estado, onde ratos
e cobaias são usados em ensaios.
Dos mil clientes
da empresa, apenas 20 são usuários
dos serviços de detecção
de OGMs. A maioria é formada por empresas
exportadoras de soja para Europa, China e Japão,
que precisam se proteger contra a comercialização
involuntária de grãos transgênicos.
Janete acredita que o perfil da clientela deverá
mudar assim que a comercialização
e rotulagem de transgênicos no Brasil forem
definidas. Atualmente, uma lei determina a identificação
na embalagem de alimentos para o consumo humano
quanto à presença OGMs, mas uma
disputa entre lobbies de empresários,
políticos e ambientalistas adia a regulamentação.
O Tecam espera este mercado se abrir para poder
ocupar intensivamente o Laboratório de
Biologia Molecular, que, podendo fazer até
200 análises por mês, tem uma capacidade
ociosa de 50%. "Enquanto o mercado doméstico
ainda não se desenvolveu por falta de regulamentação
da lei, o mercado exportador é dominado
pelos laboratórios estrangeiros",
explica Janete.
Hoje existem seis laboratórios no País
aptos a qualificar e detectar OGMs em alimentos;
quatro são estrangeiros. O Tecam tem o
quarto posto em volume de análise neste
sofisticado mercado. Para ficar à frente
da concorrência, o Tecam monitora as novas
exigências da vigilância sanitária.
"A gente tem de se antecipar às mudanças,
como foi no caso dos transgênicos",
conta Janete. A eficiência da empresa, que
consegue elaborar um resultado de amostra em quatro
dias, ainda não foi suficiente para que
ela galgasse posições nesse ranking.
"Existe uma relação muito forte
entre os laboratórios estrangeiros e as
empresas estrangeiras que comercializam grãos.
Geralmente, as matrizes das empresas de comércio
exterior já têm contratos de longo
prazo com as matrizes dos laboratórios,
especialmente os europeus", afirma Regina.
O Tecam aposta
na credibilidade e na eficiência da empresa
para quebrar "essa espécie de monopólio
ou conluio" que existe no setor. Não
há como proteger a técnica uma vez
que ela não pode ser patenteada. Além
da análise de OGMs já constar na
literatura científica, ela deve obedecer
a regras e padrões internacionais coordenados
pela União Internacional de Química
Pura e Aplicada (Iupac, na sigla em inglês).
"Nossa perspectiva nos próximos dez
anos é construir uma credibilidade que
possa nos garantir acesso ao mercado internacional.
Já temos recebido consultas de empresas
estrangeiras que querem registrar seus produtos
aqui no Brasil", afirma Regina.