Passados
quatro meses da publicação da
primeira reportagem sobre a Tramppo Recicla
Lâmpadas em PIPE — Pequenas
que Inovam, a empresa continua aguardando
a licença ambiental definitiva de que
necessita para colocar sua máquina de
desmontar lâmpadas fluorescentes em operação.
A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São
Paulo autorizou em maio a elaboração
do relatório sobre o impacto ambiental
que o uso do equipamento poderia causar. O processo
está agora novamente com a Companhia
de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb),
que já enviou engenheiros à sede
da empresa para verificar todas as condições
de operação. Elaine Menegon, sócia-diretora
da Tramppo, acredita que a licença definitiva
sairá até julho.
A inovação
tecnológica resultante do projeto financiado
pelo PIPE permite à máquina retirar
os contaminantes do interior das lâmpadas
fluorescentes — inclusive o mercúrio
— sem gerar efluentes. Justamente por
causa do mercúrio, a Cetesb só
pôde dar andamento ao processo da Tramppo
depois de submetê-lo à análise
da Secretaria do Meio Ambiente, que é
o órgão responsável por
autorizar a emissão de licenças
para empresas que lidam com o elemento químico.
A espera pela licença ambiental já
dura mais de um semestre. Nesse período,
a Tramppo operou em escala limitada, porém
suficiente para que empresas como Amplicabos,
Eletroplastic e Vega Engenharia, entre outras,
pudessem descartar parte de suas lâmpadas
fluorescentes com segurança. A Tramppo
também aproveitou o intervalo para produzir
mais uma máquina de reciclar lâmpadas,
atualmente em fase de testes num dos fornecedores
da empresa. "Nós já estamos
desenvolvendo a terceira máquina, que
está em fase de projeto. Estamos buscando
máquinas cada vez menores e mais seguras",
afirma a engenheira eletrônica Elaine.
Mas o idealizador de todo o projeto,
o tecnólogo em processos químicos
Gilvan Xavier, deixou a empresa. Em abril, Gilvan
conversou com a reportagem e disse ter saído
da Tramppo em busca de projetos que ainda não
poderia divulgar. Além de Elaine Menegon,
a empresa ficou com os sócios Robson
Nery, engenheiro mecatrônico, e Rogério
Kumagai Nakazone, arquiteto.
A empresa
não descarta a possibilidade de buscar
capital de risco para inaugurar as unidades
de coletas de lâmpadas. "Estamos
muito confiantes", afirma Elaine. "Este
mês vamos terminar os relatórios
da Fase II do PIPE. Estamos documentando tudo
direitinho para também poder pleitear
junto à Fapesp um novo projeto ou até
a Fase III, caso venha a ser aberta."
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Tramppo
Recicla Lâmpadas
Empresa desenvolve equipamento
que evita poluição de lâmpada fluorescente; mercado
depende da difusão da idéia de reciclar
Davi
Molinari
Em setembro de
2006, o Hospital Albert Einstein tinha um problema:
encontrar destino para mais de 7 mil lâmpadas
fluorescentes queimadas, acumuladas em seus depósitos
em um dos prédios anexos ao complexo hospitalar
no bairro do Morumbi, na zona sul da capital paulista.
Providenciar "descarte apropriado" para
produtos poluentes faz parte das tarefas de Neilar
Cardoso Guilherme, o técnico ambiental
que cuida da área de resíduos do
hospital. Os materiais que se formam dentro de
lâmpadas fluorescentes quando se queimam
são tóxicos; por isso, a empresa
que quiser obter o Certificado Ambiental de Destinação
de Resíduos Industriais (CADRI), emitido
pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental
(Cetesb), no caso do Estado de São Paulo,
e que atesta o cumprimento das leis federal e
estadual de responsabilidade de destinação
de resíduos industriais, não pode
simplesmente jogá-las no lixo depois de
usadas. Também quem tem a certificação
ISO 14.000, como o Einstein, têm a obrigação
de evitar que os produtos tóxicos contidos
nas lâmpadas se espalhem.
O que fez 7 mil
lâmpadas se acumularem no depósito,
conta Neilar, foi a dificuldade em localizar uma
empresa que se encarregasse do serviço.
Até que conheceu a Tramppo, uma pequena
que inova incubada no Centro Incubador de Empresas
Tecnológicas (Cietec) e financiada pelo Programa
PIPE da Fapesp. Por R$ 0,50 a lâmpada, a
empresa providenciou a retirada, e garantiu que
o manuseio não agrediria o meio ambiente.
"Encontramos a empresa pela Internet",
lembra-se Neilar. Agora, já se acumulam
novamente 1,2 mil lâmpadas queimadas no
depósito. Quando o número chegar
a 2 mil, o técnico vai chamar a Tramppo
novamente.
Mercúrio
e Minamata
Entre os materiais
contidos em uma lâmpada fluorescente, o
mais famoso é o mercúrio; mas há
outros quase 40 elementos químicos presentes
— como chumbo, silício, bário,
zinco, tungstênio e argônio, com diferentes
graus de toxicidade. O mercúrio preocupa
especialmente pelo fato de se acumular no corpo
humano: uma vez absorvido, não pode ser
eliminado. O acúmulo de mercúrio
afeta o sistema nervoso e o cérebro, causa
dormência nos membros, fraquezas musculares,
deficiências visuais, dificuldades de fala,
paralisia, deformidades e pode levar à
morte. O envenenamento provocado pela acumulação
de mercúrio chama-se Mal de Minamata —
por ter sido detectada nessa cidade japonesa,
em 1965. Minamata fica na ilha de Kyushu. O mercúrio
lançado na Baía de Minamata por
uma fábrica de fertilizantes contaminou
os peixes da área, base da alimentação
dos moradores da cidade. Mais de 900 pessoas morreram
ali.
A tecnologia
da Tramppo
"Nós
desenvolvemos uma tecnologia que retira o mercúrio
presente nas lâmpadas de modo simples e
barato, sem gerar novos resíduos",
afirma Gilvan Xavier, o tecnólogo em processos
químicos de Jundiaí que fundou a
Tramppo em 1986. Na época, Gilvan era representante
comercial de produtos e equipamentos industriais.
O negócio da empresa foi, primeiro, iluminação
industrial. Voltou-se para a reciclagem de lâmpadas
de mercúrio só em 2002. Para isso,
a empresa se incubou no Cietec, na Cidade Universitária
da Universidade de São Paulo (USP), a maior incubadora
de empresa de bases tecnológicas do País.
Gilvan percebeu que havia um nicho para uma empresa
recicladora de lâmpadas fluorescentes, mas
não sabia que tecnologia usar. Ali encontrou
uma parceira: a bioquímica e professora
aposentada da USP Atsuko Kumagai Nakazone. Ela
coordenou o projeto de pesquisa apresentado pela
empresa ao programa de apoio à inovação
da Fapesp, em 2003.
Pelo método convencional de descarte, utilizado
pelas concorrentes da Tramppo, as lâmpadas
usadas são quebradas em meio líquido.
Nele ficam o mercúrio e outros elementos
tóxicos; o que gera a necessidade de esse
líquido ser tratado antes de ser, ele mesmo,
descartado. Atsuko e Gilvan se propuseram a pesquisar
um sistema a vácuo para criar um equipamento
que quebrasse a lâmpada a seco e aproveitasse
todas as suas partes: o vidro, o contato elétrico
de alumínio e latão, o filamento
de tungstênio e o mercúrio.
Gilvan explica
os detalhes. Quando a lâmpada está
ativa, diz, o mercúrio dentro dela permanece
em estado gasoso. Quando a lâmpada se queima,
no entanto, o mercúrio, ao entrar em contato
com o oxigênio, vira um sal e se junta ao
pó que reveste o interior do tubo de vidro
e dá cor branca às lâmpadas
fluorescentes. O desafio da Tramppo estava, portanto,
em separar o mercúrio misturado a esse
pó. O financiamento aprovado pelo PIPE,
de R$ 431,6 mil, previu o desenvolvimento e a
construção do equipamento para o
desmonte da lâmpada e a separação
do mercúrio. Já em funcionamento
no subsolo do prédio do Cietec, na Cidade
Universitária de São Paulo, o equipamento
é constituído de três partes:
um sistema de corte da "cabeça"
de lâmpada; uma espécie de forno
elétrico, que recebe o pó; e um
triturador de vidro.
O processo começa
com o corte de uma das pontas da lâmpada,
por uma lâmina. A pressão no sistema,
nessa fase, é positiva — quer dizer,
a pressão é maior fora do que dentro
da lâmpada. Por isso, os detritos não
saem de dentro dela. A lâmina corta a outra
ponta da lâmpada e um êmbolo é
introduzido dentro do tubo de vidro. Nessa fase,
a pressão torna-se negativa — ou
seja, é menor fora do tubo de vidro do
que dentro dele. Dentro do tubo, além do
pó misturado ao mercúrio, há
também gás argônio. A diferença
de pressão, além de puxar o argônio
e qualquer resíduo do mercúrio em
estado gasoso para fora do tubo de vidro, facilita
a passagem do êmbolo, que empurra todo o
pó em direção a um coletor
de borracha ligado a um forno elétrico.
Submetido ao calor do forno, o mercúrio
misturado ao pó evapora e dessa forma é
separado dele. Do forno, o mercúrio gasoso
é levado para um condensador. O objetivo
agora é fazer o mercúrio passar
do estado de vapor para o estado líquido
— do jeito que costumamos ver nos termômetros
—; como líquido, é recolhido
em um recipiente abaixo do forno. O vidro, por
sua vez, livre do pó poluente, é
triturado e armazenado.
Em outubro de
2005, o equipamento deu à Tramppo o prêmio
New Venture Brasil, que a Fundação
Getúlio Vargas concede a empresas que,
ao inovar, desenvolvem atividade econômica,
social e ambiental sustentável.
O mercado da Tramppo
Para se viabilizar
economicamente, a empresa depende de a reciclagem
de lâmpadas ganhar a mesma popularidade
no País que a reciclagem de latinhas de
alumínio. "A reciclagem de latinhas
de alumínio virou um sistema bem-sucedido
quando a indústria passou a comprar as
latinhas da coleta organizada para usá-las
como matéria prima. A partir daí,
houve geração de renda para os catadores,
economia para a indústria e ganhos ambientais",
avalia Gilvan. O Brasil é hoje líder
mundial de reciclagem de latas de alumínio.
A situação é bem diferente
quando se trata das 100 milhões de lâmpadas
fluorescentes produzidas por ano: quase metade
é trocada anualmente; mas das 50 milhões
descartadas, apenas 6% chegam às empresas
recicladoras; e só 8% encontram destinação
em aterros sanitários apropriados para
receber resíduos com contaminantes tóxicos.
Ou seja, 43 milhões de lâmpadas são
jogadas fora de maneira prejudicial ao ambiente
e à saúde pública. "Nosso
foco é o ambiente", pensa Gilvan,
"mas temos consciência de que precisamos
gerar lucro para manter nossa atividade e que
para isso temos de estimular o engajamento da
sociedade, como ocorreu com o alumínio",
completa. "
A lucratividade
da Tramppo depende, então, de a empresa
conseguir fornecer mercúrio e vidro reciclados
para os próprios fabricantes de lâmpadas.
A dificuldade, no momento, é conseguir
volume de reciclagem de lâmpadas capaz de
atender aos fabricantes. Segundo Gilvan, os fabricantes
ainda não confiam que a Tramppo entregue
a matéria-prima na quantidade que necessitam,
e com estabilidade. Para traçar uma estratégia
de entrada no mercado, Gilvan buscou se associar
com outros interessados no empreendimento. O primeiro
sócio foi o filho da professora Atsuko,
coordenadora do projeto. Rogério Kumagai
Nakazone, apesar de formado em arquitetura, gostou
da proposta da empresa. Em 2005, num dos encontros
matinais que o Cietec promove, os Cafés
Tecnológicos, Gilvan conheceu seus outros
dois sócios: Robson Nery, engenheiro mecatrônico,
e Elaine Menegon, engenheira eletrônica.
"Eles queriam investir no setor de produção
de lâmpadas, mas quando conheceram a Tramppo
aprovaram o projeto de reciclagem. Com a entrada
dos novos sócios, a Tramppo se capitalizou
para aumentar o volume de captação
de lâmpadas queimadas. "Estamos usando
o sistema do leiteiro", brinca Gilvan: desde
novembro de 2006 a empresa passou a vender lâmpadas
fluorescentes; quando vende, recolhe as queimadas
— um método diferente do atendimento
feito ao Hospital Albert Einstein. "É
como os leiteiros faziam com os litros de leite:
deixamos os cheios e pegamos os vazios".
Sair do laboratório para entrar
no business
Para sair do laboratório e entrar no business,
diz Elaine, a sócia engenheira eletrônica,
a Tramppo deve ganhar escala. Gilvan calcula que
o retorno financeiro começará a
existir quando o volume reciclado chegar a 600
mil lâmpadas por mês. Hoje a empresa,
apesar de ter capacidade para trabalhar com 120
mil lâmpadas por mês, está
limitada a reciclar mensalmente apenas 15 mil,
por falta de licença ambiental para operar
em escala industrial. Quando tiver escala, o custo
de desmontar cada lâmpada — atualmente,
de R$ 0,20 — poderá cair. A empresa
planeja ter cinco máquinas de reciclagem
espalhadas em pontos estratégicos da Grande
São Paulo. "Para ser viável,
o negócio tem de ter um tripé: postos
de arrecadação espalhados em grandes
áreas industriais e comerciais, um único
centro de venda de matéria-prima e o envolvimento
dos fabricantes", afirmou. Ou seja, facilitar
a coleta e concentrar a venda de matéria-prima
para ganhar poder de barganha. Uma tarefa nada
fácil para uma empresa que, além
dos recursos do PIPE, já investiu R$ 350
mil de capital dos sócios, R$ 100 mil em
bolsas de estudo financiados pelo Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
e ainda não viu o faturamento rodar no
azul.
Embargo ambiental
A Tramppo corre
contra o tempo para obter sua própria licença
ambiental para operar industrialmente com material
tóxico. A empresa trabalha, há seis
meses, em ritmo experimental em obediência
às limitações da licença
prévia e de instalação fornecida
pelo governo paulista. Não há prazo
para a emissão da licença definitiva
de operação. "Por operar com
mercúrio, a lei manda que o processo seja
remetido à Secretaria do Meio Ambiente,
que vai determinar ou não a necessidade
de um Relatório de Impacto Ambiental",
afirma Maria Lucia Nardi, gerente da agência
ambiental de Pinheiros, responsável pelo
processo da Tramppo. Enquanto a licença
não sai, a empresa não pode receber
as lâmpadas que a Petrobras, Infraero, USP
e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
querem lhe destinar. "Para mim é um
paradoxo ter um projeto ambientalmente sustentável,
uma tecnologia limpa, o apoio da Fapesp e do Cietec
e ser tratado pela Cetesb como uma fábrica
qualquer, sem nenhuma vantagem por ser a favor
do ambiente", reclama Gilvan Xavier.