Publicado em 24 de janeiro 2007
Atualizado em 25 de junho 2007



Passados quatro meses da publicação da primeira reportagem sobre a Tramppo Recicla Lâmpadas em PIPE — Pequenas que Inovam, a empresa continua aguardando a licença ambiental definitiva de que necessita para colocar sua máquina de desmontar lâmpadas fluorescentes em operação. A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo autorizou em maio a elaboração do relatório sobre o impacto ambiental que o uso do equipamento poderia causar. O processo está agora novamente com a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), que já enviou engenheiros à sede da empresa para verificar todas as condições de operação. Elaine Menegon, sócia-diretora da Tramppo, acredita que a licença definitiva sairá até julho.

A inovação tecnológica resultante do projeto financiado pelo PIPE permite à máquina retirar os contaminantes do interior das lâmpadas fluorescentes — inclusive o mercúrio — sem gerar efluentes. Justamente por causa do mercúrio, a Cetesb só pôde dar andamento ao processo da Tramppo depois de submetê-lo à análise da Secretaria do Meio Ambiente, que é o órgão responsável por autorizar a emissão de licenças para empresas que lidam com o elemento químico. A espera pela licença ambiental já dura mais de um semestre. Nesse período, a Tramppo operou em escala limitada, porém suficiente para que empresas como Amplicabos, Eletroplastic e Vega Engenharia, entre outras, pudessem descartar parte de suas lâmpadas fluorescentes com segurança. A Tramppo também aproveitou o intervalo para produzir mais uma máquina de reciclar lâmpadas, atualmente em fase de testes num dos fornecedores da empresa. "Nós já estamos desenvolvendo a terceira máquina, que está em fase de projeto. Estamos buscando máquinas cada vez menores e mais seguras", afirma a engenheira eletrônica Elaine. Mas o idealizador de todo o projeto, o tecnólogo em processos químicos Gilvan Xavier, deixou a empresa. Em abril, Gilvan conversou com a reportagem e disse ter saído da Tramppo em busca de projetos que ainda não poderia divulgar. Além de Elaine Menegon, a empresa ficou com os sócios Robson Nery, engenheiro mecatrônico, e Rogério Kumagai Nakazone, arquiteto.

A empresa não descarta a possibilidade de buscar capital de risco para inaugurar as unidades de coletas de lâmpadas. "Estamos muito confiantes", afirma Elaine. "Este mês vamos terminar os relatórios da Fase II do PIPE. Estamos documentando tudo direitinho para também poder pleitear junto à Fapesp um novo projeto ou até a Fase III, caso venha a ser aberta."

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Tramppo Recicla Lâmpadas
Empresa desenvolve equipamento que evita poluição de lâmpada fluorescente; mercado depende da difusão da idéia de reciclar

Davi Molinari

Em setembro de 2006, o Hospital Albert Einstein tinha um problema: encontrar destino para mais de 7 mil lâmpadas fluorescentes queimadas, acumuladas em seus depósitos em um dos prédios anexos ao complexo hospitalar no bairro do Morumbi, na zona sul da capital paulista. Providenciar "descarte apropriado" para produtos poluentes faz parte das tarefas de Neilar Cardoso Guilherme, o técnico ambiental que cuida da área de resíduos do hospital. Os materiais que se formam dentro de lâmpadas fluorescentes quando se queimam são tóxicos; por isso, a empresa que quiser obter o Certificado Ambiental de Destinação de Resíduos Industriais (CADRI), emitido pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), no caso do Estado de São Paulo, e que atesta o cumprimento das leis federal e estadual de responsabilidade de destinação de resíduos industriais, não pode simplesmente jogá-las no lixo depois de usadas. Também quem tem a certificação ISO 14.000, como o Einstein, têm a obrigação de evitar que os produtos tóxicos contidos nas lâmpadas se espalhem.

O que fez 7 mil lâmpadas se acumularem no depósito, conta Neilar, foi a dificuldade em localizar uma empresa que se encarregasse do serviço. Até que conheceu a Tramppo, uma pequena que inova incubada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) e financiada pelo Programa PIPE da Fapesp. Por R$ 0,50 a lâmpada, a empresa providenciou a retirada, e garantiu que o manuseio não agrediria o meio ambiente. "Encontramos a empresa pela Internet", lembra-se Neilar. Agora, já se acumulam novamente 1,2 mil lâmpadas queimadas no depósito. Quando o número chegar a 2 mil, o técnico vai chamar a Tramppo novamente.

Mercúrio e Minamata

Entre os materiais contidos em uma lâmpada fluorescente, o mais famoso é o mercúrio; mas há outros quase 40 elementos químicos presentes — como chumbo, silício, bário, zinco, tungstênio e argônio, com diferentes graus de toxicidade. O mercúrio preocupa especialmente pelo fato de se acumular no corpo humano: uma vez absorvido, não pode ser eliminado. O acúmulo de mercúrio afeta o sistema nervoso e o cérebro, causa dormência nos membros, fraquezas musculares, deficiências visuais, dificuldades de fala, paralisia, deformidades e pode levar à morte. O envenenamento provocado pela acumulação de mercúrio chama-se Mal de Minamata — por ter sido detectada nessa cidade japonesa, em 1965. Minamata fica na ilha de Kyushu. O mercúrio lançado na Baía de Minamata por uma fábrica de fertilizantes contaminou os peixes da área, base da alimentação dos moradores da cidade. Mais de 900 pessoas morreram ali.

A tecnologia da Tramppo

"Nós desenvolvemos uma tecnologia que retira o mercúrio presente nas lâmpadas de modo simples e barato, sem gerar novos resíduos", afirma Gilvan Xavier, o tecnólogo em processos químicos de Jundiaí que fundou a Tramppo em 1986. Na época, Gilvan era representante comercial de produtos e equipamentos industriais. O negócio da empresa foi, primeiro, iluminação industrial. Voltou-se para a reciclagem de lâmpadas de mercúrio só em 2002. Para isso, a empresa se incubou no Cietec, na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP), a maior incubadora de empresa de bases tecnológicas do País. Gilvan percebeu que havia um nicho para uma empresa recicladora de lâmpadas fluorescentes, mas não sabia que tecnologia usar. Ali encontrou uma parceira: a bioquímica e professora aposentada da USP Atsuko Kumagai Nakazone. Ela coordenou o projeto de pesquisa apresentado pela empresa ao programa de apoio à inovação da Fapesp, em 2003.

Pelo método convencional de descarte, utilizado pelas concorrentes da Tramppo, as lâmpadas usadas são quebradas em meio líquido. Nele ficam o mercúrio e outros elementos tóxicos; o que gera a necessidade de esse líquido ser tratado antes de ser, ele mesmo, descartado. Atsuko e Gilvan se propuseram a pesquisar um sistema a vácuo para criar um equipamento que quebrasse a lâmpada a seco e aproveitasse todas as suas partes: o vidro, o contato elétrico de alumínio e latão, o filamento de tungstênio e o mercúrio.

Gilvan explica os detalhes. Quando a lâmpada está ativa, diz, o mercúrio dentro dela permanece em estado gasoso. Quando a lâmpada se queima, no entanto, o mercúrio, ao entrar em contato com o oxigênio, vira um sal e se junta ao pó que reveste o interior do tubo de vidro e dá cor branca às lâmpadas fluorescentes. O desafio da Tramppo estava, portanto, em separar o mercúrio misturado a esse pó. O financiamento aprovado pelo PIPE, de R$ 431,6 mil, previu o desenvolvimento e a construção do equipamento para o desmonte da lâmpada e a separação do mercúrio. Já em funcionamento no subsolo do prédio do Cietec, na Cidade Universitária de São Paulo, o equipamento é constituído de três partes: um sistema de corte da "cabeça" de lâmpada; uma espécie de forno elétrico, que recebe o pó; e um triturador de vidro.

O processo começa com o corte de uma das pontas da lâmpada, por uma lâmina. A pressão no sistema, nessa fase, é positiva — quer dizer, a pressão é maior fora do que dentro da lâmpada. Por isso, os detritos não saem de dentro dela. A lâmina corta a outra ponta da lâmpada e um êmbolo é introduzido dentro do tubo de vidro. Nessa fase, a pressão torna-se negativa — ou seja, é menor fora do tubo de vidro do que dentro dele. Dentro do tubo, além do pó misturado ao mercúrio, há também gás argônio. A diferença de pressão, além de puxar o argônio e qualquer resíduo do mercúrio em estado gasoso para fora do tubo de vidro, facilita a passagem do êmbolo, que empurra todo o pó em direção a um coletor de borracha ligado a um forno elétrico. Submetido ao calor do forno, o mercúrio misturado ao pó evapora e dessa forma é separado dele. Do forno, o mercúrio gasoso é levado para um condensador. O objetivo agora é fazer o mercúrio passar do estado de vapor para o estado líquido — do jeito que costumamos ver nos termômetros —; como líquido, é recolhido em um recipiente abaixo do forno. O vidro, por sua vez, livre do pó poluente, é triturado e armazenado.

Em outubro de 2005, o equipamento deu à Tramppo o prêmio New Venture Brasil, que a Fundação Getúlio Vargas concede a empresas que, ao inovar, desenvolvem atividade econômica, social e ambiental sustentável.


O mercado da Tramppo

Para se viabilizar economicamente, a empresa depende de a reciclagem de lâmpadas ganhar a mesma popularidade no País que a reciclagem de latinhas de alumínio. "A reciclagem de latinhas de alumínio virou um sistema bem-sucedido quando a indústria passou a comprar as latinhas da coleta organizada para usá-las como matéria prima. A partir daí, houve geração de renda para os catadores, economia para a indústria e ganhos ambientais", avalia Gilvan. O Brasil é hoje líder mundial de reciclagem de latas de alumínio. A situação é bem diferente quando se trata das 100 milhões de lâmpadas fluorescentes produzidas por ano: quase metade é trocada anualmente; mas das 50 milhões descartadas, apenas 6% chegam às empresas recicladoras; e só 8% encontram destinação em aterros sanitários apropriados para receber resíduos com contaminantes tóxicos. Ou seja, 43 milhões de lâmpadas são jogadas fora de maneira prejudicial ao ambiente e à saúde pública. "Nosso foco é o ambiente", pensa Gilvan, "mas temos consciência de que precisamos gerar lucro para manter nossa atividade e que para isso temos de estimular o engajamento da sociedade, como ocorreu com o alumínio", completa. "

A lucratividade da Tramppo depende, então, de a empresa conseguir fornecer mercúrio e vidro reciclados para os próprios fabricantes de lâmpadas. A dificuldade, no momento, é conseguir volume de reciclagem de lâmpadas capaz de atender aos fabricantes. Segundo Gilvan, os fabricantes ainda não confiam que a Tramppo entregue a matéria-prima na quantidade que necessitam, e com estabilidade. Para traçar uma estratégia de entrada no mercado, Gilvan buscou se associar com outros interessados no empreendimento. O primeiro sócio foi o filho da professora Atsuko, coordenadora do projeto. Rogério Kumagai Nakazone, apesar de formado em arquitetura, gostou da proposta da empresa. Em 2005, num dos encontros matinais que o Cietec promove, os Cafés Tecnológicos, Gilvan conheceu seus outros dois sócios: Robson Nery, engenheiro mecatrônico, e Elaine Menegon, engenheira eletrônica. "Eles queriam investir no setor de produção de lâmpadas, mas quando conheceram a Tramppo aprovaram o projeto de reciclagem. Com a entrada dos novos sócios, a Tramppo se capitalizou para aumentar o volume de captação de lâmpadas queimadas. "Estamos usando o sistema do leiteiro", brinca Gilvan: desde novembro de 2006 a empresa passou a vender lâmpadas fluorescentes; quando vende, recolhe as queimadas — um método diferente do atendimento feito ao Hospital Albert Einstein. "É como os leiteiros faziam com os litros de leite: deixamos os cheios e pegamos os vazios".


Sair do laboratório para entrar no business

Para sair do laboratório e entrar no business, diz Elaine, a sócia engenheira eletrônica, a Tramppo deve ganhar escala. Gilvan calcula que o retorno financeiro começará a existir quando o volume reciclado chegar a 600 mil lâmpadas por mês. Hoje a empresa, apesar de ter capacidade para trabalhar com 120 mil lâmpadas por mês, está limitada a reciclar mensalmente apenas 15 mil, por falta de licença ambiental para operar em escala industrial. Quando tiver escala, o custo de desmontar cada lâmpada — atualmente, de R$ 0,20 — poderá cair. A empresa planeja ter cinco máquinas de reciclagem espalhadas em pontos estratégicos da Grande São Paulo. "Para ser viável, o negócio tem de ter um tripé: postos de arrecadação espalhados em grandes áreas industriais e comerciais, um único centro de venda de matéria-prima e o envolvimento dos fabricantes", afirmou. Ou seja, facilitar a coleta e concentrar a venda de matéria-prima para ganhar poder de barganha. Uma tarefa nada fácil para uma empresa que, além dos recursos do PIPE, já investiu R$ 350 mil de capital dos sócios, R$ 100 mil em bolsas de estudo financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ainda não viu o faturamento rodar no azul.


Embargo ambiental

A Tramppo corre contra o tempo para obter sua própria licença ambiental para operar industrialmente com material tóxico. A empresa trabalha, há seis meses, em ritmo experimental em obediência às limitações da licença prévia e de instalação fornecida pelo governo paulista. Não há prazo para a emissão da licença definitiva de operação. "Por operar com mercúrio, a lei manda que o processo seja remetido à Secretaria do Meio Ambiente, que vai determinar ou não a necessidade de um Relatório de Impacto Ambiental", afirma Maria Lucia Nardi, gerente da agência ambiental de Pinheiros, responsável pelo processo da Tramppo. Enquanto a licença não sai, a empresa não pode receber as lâmpadas que a Petrobras, Infraero, USP e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) querem lhe destinar. "Para mim é um paradoxo ter um projeto ambientalmente sustentável, uma tecnologia limpa, o apoio da Fapesp e do Cietec e ser tratado pela Cetesb como uma fábrica qualquer, sem nenhuma vantagem por ser a favor do ambiente", reclama Gilvan Xavier.