Publicado em 24 de janeiro 2007




Proteogenética (ex-Hormogen Biotecnologia)
Parceria com empresa grande fracassa, mas pequena que inova
não esmorece: mudou de nome e agora quer fazer outros produtos

Evanildo da Silveira

Depois de trabalhar durante mais de 20 anos na produção e caracterização do hormônio de crescimento humano (hGH, na sigla em inglês de Human Growth Hormone), retirado da glândula hipófise de cadáveres, o químico Paolo Bartolini, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), resolveu, em 1988, dar um passo mais ousado em suas pesquisas. Ele começou a estudar e tentar produzir o mesmo hormônio por meio da tecnologia do DNA recombinante – quer dizer, , a chamada engenharia genética, usando a bactéria Escherichia coli. Em 1994, ele já havia dominado todo o processo de produção do hGH por meio desse microorganismo. Decidiu então criar, com outros seis pesquisadores do Centro de Biotecnologia do Ipen, a empresa Hormogen Biotecnologia, para produzir o hormônio de crescimento em escala piloto.

Isso só foi possível graças ao Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre 1998 e 2001, a Hormogen recebeu cerca de R$ 350 mil desse programa, para o projeto "Otimização dos Rendimentos de Expressão Bacteriana, Fermentação e Purificação de Hormônio de Crescimento Humano Recombinante". "Com esse dinheiro, nós compramos principalmente reagentes e equipamentos", conta Bartolini, que é italiano, mas está radicado no Brasil desde 1975. "Apenas um biorreator — um fermentador onde se reproduzem as bactérias modificadas geneticamente para produzir o hGH — custou US$ 113 mil"

Após a produção piloto, a Hormogen testou seu hormônio de crescimento em camundongos, cachorros e seres humanos — para verificar se o produto causa um mal e se é eficaz. Quando tudo ficou pronto e o medicamento poderia chegar ao mercado, a Hormogen se abrigou, em 2002, na incubadora do Ipen, o Centro de Incubação de Empresas Tecnológicas (CIETEC).

Passo à frente, passo atrás

Nesse mesmo ano, uma empresa grande do setor, a Biolab Farmacêutica, propôs um negócio que pareceu muito interessante aos sócios da Hormogen: comprar 75% de suas ações, por um preço simbólico de US$ 100 mil. Os outros 25% das ações ficaram com três dos sete sócios fundadores, entre os quais Bartolini. Pelo acordo entre as empresas, a Biolab ficaria responsável por todos os investimentos necessários para tornar a Hormogen operacional e capaz de produzir o hormônio em escala comercial. Estimou-se na época que esse valor seria de US$ 2 milhões, que começariam a ser investidos a partir de 2003.
Naquele momento, as expectativas da Biolab quanto ao retorno do investimento eram altas. O hGH é o quinto em volume de vendas mundiais entre os medicamentos de engenharia genética. A empresa previa que o produto da Hormogen conquistaria 20% do mercado brasileiro em um ano. Além disso, ele também seria exportado para alguns dos 17 países da América Latina, nos quais a Biolab tinha parcerias com distribuidores. Nada disso aconteceu, no entanto. Os investimentos previstos não foram realizados, o hGH não saiu da prateleira do laboratório e em abril de 2006 a Biolab devolveu o controle da Hormogen para os sócios pesquisadores do Ipen. A única exigência da empresa foi que a Hormogen trocasse de nome. Agora, a empresa dos pesquisadores do Ipen chama-se Proteogenética.

As razões da Biolab e as razões da Hormogen

Segundo o diretor técnico e científico da Biolab, Dante Alario Junior, isso ocorreu porque não foi possível transformar e otimizar o processo fermentativo de bancada do laboratório para a escala industrial. "Contratamos inclusive consultoria internacional, mas os resultados não foram satisfatórios", conta Alario Junior. "Outro problema foi a enorme dificuldade de relacionamento com os pesquisadores, o que nos levou a interromper o projeto."

Bartolini rebate. Para ele, talvez tenha faltado à Biolab arriscar um pouco mais. "Eles fizeram uma parceria com a gente para produzir o hGH e nunca produziram", diz. "Nós achávamos que a empresa estivesse superinteressada em fabricá-lo, mas na verdade ela nunca investiu na montagem de uma fábrica". Quanto à questão da escala de produção, Bartolini diz que isso devia ser resolvido pela Biolab. "Nossa parte, no laboratório, nós fizemos", assegura. "Para produzir em escala industrial, o que nós, pesquisadores, poderíamos fazer? Para isso seria necessário montar uma planta industrial."

Com o negócio entre as duas empresas desfeito, o Brasil continua tendo de importar todo o hormônio de crescimento de que necessita, ou seja, cerca de 1,2 milhão de frascos por ano. Prescrito principalmente para crianças que sofrem de nanismo, doença caracterizada pela deficiência no crescimento que atinge cerca de 10 mil brasileiros, o hGH feito por bactérias geneticamente modificadas só é produzido em quatro países: Dinamarca, Estados Unidos, Itália e Suécia. O Brasil seria o quinto, se a Biolab tivesse levado o negócio adiante.

Pequena insistente

De qualquer forma, o País ainda poderá vir a produzir o hormônio de crescimento. A Proteogenética domina essa tecnologia e não desistiu de colocar no mercado o hGH. Seus sócios já estão em negociação com outras empresas para isso. São poucas no mundo capazes de produzir o hormônio de crescimento usando bactérias geneticamente modificadas. Até a década de 1970, a extração do hormônio da glândula hipófise de cadáveres de seres humanos era a única maneira de obtê-lo.

A partir de 1979, no entanto, ele passou a ser produzido com uma nova tecnologia, desenvolvida nos Estados Unidos. Ela emprega a bactéria E. coli, na qual é inserido o gene humano responsável pela produção do hGH no organismo das pessoas. Essas bactérias são clonadas e multiplicadas num fermentador. Além de dominar essa tecnologia, a Proteogenética tem o fermentador industrial comprado com o dinheiro do PIPE, com capacidade de produzir 700 mil frascos de hormônio por ano, o que representa mais da metade do consumo nacional.

Do ponto de vista industrial, por enquanto Bartolini diz que saiu da experiência com a Biolab decepcionado. "O produto estava pronto para ir para as prateleiras das farmácias e isso não ocorreu", lamenta. "Agora, esperamos fazer acordo ou parcerias com alguma outra empresa para produzi-lo em escala comercial." De qualquer forma, mesmo não tendo atingido o objetivo principal, o acordo com a Biolab rendeu frutos para o grupo de pesquisadores do Ipen que fundou a Hormogen. "De 2002 a 2005, a empresa nos pagou R$ 100 mil por ano", explica Bartolini. "Esse dinheiro ajudou a aumentar nossa produtividade científica e a financiar pesquisas com outros hormônios."

Entre esses outros hormônios estão a prolactina (hPRL), que ajuda no controle da lactação, a tirotrofina (hTSH), que controla a tireóide, e a foliculotrofina (hFSH), que está relacionada à fertilidade. "Alguns desses têm um valor agregado muito maior do que o hormônio de crescimento", diz Bartolini. "É o caso da foliculotrofina, que custa US$ 700 o miligrama. Mais de 20 vezes o valor do hormônio de crescimento, que é vendido a US$ 30 o miligrama."

E a Biolab não desistiu da biotecnologia

Com o fracasso da tentativa de produzir comercialmente o hGH feito por bactérias geneticamente modificadas, a Biolab está por enquanto fora desse mercado. "No momento a Biolab não possui qualquer outro projeto de produtos biotecnológicos", explica Alario Junior. "Mas como temos sempre em mente nos prepararmos para um futuro próximo, e com certeza ele passará pela área biotecnológica, continuamos atentos em relação a projetos com bom potencial para receber investimentos da Biolab."

O que é certo é que não será com os pesquisadores da Proteogenética. "Com esses pesquisadores a Biolab desistiu definitivamente de qualquer projeto de desenvolvimento industrial", garante Alario Junior. "Com outros pesquisadores estamos abertos para conversar. Isto porque continua sendo uma necessidade para o Brasil, que não produz esse produto."

De acordo com ele, a produção de hormônio de crescimento no Brasil é viável. "Desde que seja feito um estudo mais profundo em face às novas condições hoje vigentes no mercado mundial", ressalva Alario Junior. "Nesses últimos anos vários novos produtores internacionais entraram nesse mercado e ele tornou-se muito mais competitivo. O fator produtividade tornou-se, portanto, ainda mais crítico e deve ser analisado com muito cuidado antes de se iniciar um novo projeto."