Proteogenética
(ex-Hormogen Biotecnologia)
Parceria com empresa grande
fracassa, mas pequena que inova
não esmorece: mudou de nome e agora quer fazer outros
produtos
Evanildo
da Silveira
Depois de trabalhar
durante mais de 20 anos na produção
e caracterização do hormônio
de crescimento humano (hGH, na sigla em inglês
de Human Growth Hormone), retirado da
glândula hipófise de cadáveres,
o químico Paolo Bartolini, do Instituto
de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen),
resolveu, em 1988, dar um passo mais ousado em
suas pesquisas. Ele começou a estudar e
tentar produzir o mesmo hormônio por meio
da tecnologia do DNA recombinante – quer
dizer, , a chamada engenharia genética,
usando a bactéria Escherichia coli.
Em 1994, ele já havia dominado todo o processo
de produção do hGH por meio desse
microorganismo. Decidiu então criar, com
outros seis pesquisadores do Centro de Biotecnologia
do Ipen, a empresa Hormogen Biotecnologia, para
produzir o hormônio de crescimento em escala
piloto.
Isso só
foi possível graças ao Programa
Inovação Tecnológica em Pequenas
Empresas (PIPE), da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). Entre 1998 e 2001, a Hormogen
recebeu cerca de R$ 350 mil desse programa, para
o projeto "Otimização dos Rendimentos
de Expressão Bacteriana, Fermentação
e Purificação de Hormônio
de Crescimento Humano Recombinante". "Com
esse dinheiro, nós compramos principalmente
reagentes e equipamentos", conta Bartolini,
que é italiano, mas está radicado
no Brasil desde 1975. "Apenas um biorreator
— um fermentador onde se reproduzem as bactérias
modificadas geneticamente para produzir o hGH
— custou US$ 113 mil"
Após a
produção piloto, a Hormogen testou
seu hormônio de crescimento em camundongos,
cachorros e seres humanos — para verificar
se o produto causa um mal e se é eficaz.
Quando tudo ficou pronto e o medicamento poderia
chegar ao mercado, a Hormogen se abrigou, em 2002,
na incubadora do Ipen, o Centro de Incubação
de Empresas Tecnológicas (CIETEC).
Passo
à frente, passo atrás
Nesse mesmo ano,
uma empresa grande do setor, a Biolab Farmacêutica,
propôs um negócio que pareceu muito
interessante aos sócios da Hormogen: comprar
75% de suas ações, por um preço
simbólico de US$ 100 mil. Os outros 25%
das ações ficaram com três
dos sete sócios fundadores, entre os quais
Bartolini. Pelo acordo entre as empresas, a Biolab
ficaria responsável por todos os investimentos
necessários para tornar a Hormogen operacional
e capaz de produzir o hormônio em escala
comercial. Estimou-se na época que esse
valor seria de US$ 2 milhões, que começariam
a ser investidos a partir de 2003.
Naquele momento, as expectativas da Biolab quanto
ao retorno do investimento eram altas. O hGH é
o quinto em volume de vendas mundiais entre os
medicamentos de engenharia genética. A
empresa previa que o produto da Hormogen conquistaria
20% do mercado brasileiro em um ano. Além
disso, ele também seria exportado para
alguns dos 17 países da América
Latina, nos quais a Biolab tinha parcerias com
distribuidores. Nada disso aconteceu, no entanto.
Os investimentos previstos não foram realizados,
o hGH não saiu da prateleira do laboratório
e em abril de 2006 a Biolab devolveu o controle
da Hormogen para os sócios pesquisadores
do Ipen. A única exigência da empresa
foi que a Hormogen trocasse de nome. Agora, a
empresa dos pesquisadores do Ipen chama-se Proteogenética.
As razões
da Biolab e as razões da Hormogen
Segundo o diretor
técnico e científico da Biolab,
Dante Alario Junior, isso ocorreu porque não
foi possível transformar e otimizar o processo
fermentativo de bancada do laboratório
para a escala industrial. "Contratamos inclusive
consultoria internacional, mas os resultados não
foram satisfatórios", conta Alario
Junior. "Outro problema foi a enorme dificuldade
de relacionamento com os pesquisadores, o que
nos levou a interromper o projeto."
Bartolini rebate.
Para ele, talvez tenha faltado à Biolab
arriscar um pouco mais. "Eles fizeram uma
parceria com a gente para produzir o hGH e nunca
produziram", diz. "Nós achávamos
que a empresa estivesse superinteressada em fabricá-lo,
mas na verdade ela nunca investiu na montagem
de uma fábrica". Quanto à questão
da escala de produção, Bartolini
diz que isso devia ser resolvido pela Biolab.
"Nossa parte, no laboratório, nós
fizemos", assegura. "Para produzir em
escala industrial, o que nós, pesquisadores,
poderíamos fazer? Para isso seria necessário
montar uma planta industrial."
Com o negócio
entre as duas empresas desfeito, o Brasil continua
tendo de importar todo o hormônio de crescimento
de que necessita, ou seja, cerca de 1,2 milhão
de frascos por ano. Prescrito principalmente para
crianças que sofrem de nanismo, doença
caracterizada pela deficiência no crescimento
que atinge cerca de 10 mil brasileiros, o hGH
feito por bactérias geneticamente modificadas
só é produzido em quatro países:
Dinamarca, Estados Unidos, Itália e Suécia.
O Brasil seria o quinto, se a Biolab tivesse levado
o negócio adiante.
Pequena
insistente
De qualquer forma,
o País ainda poderá vir a produzir
o hormônio de crescimento. A Proteogenética
domina essa tecnologia e não desistiu de
colocar no mercado o hGH. Seus sócios já
estão em negociação com outras
empresas para isso. São poucas no mundo
capazes de produzir o hormônio de crescimento
usando bactérias geneticamente modificadas.
Até a década de 1970, a extração
do hormônio da glândula hipófise
de cadáveres de seres humanos era a única
maneira de obtê-lo.
A partir de 1979,
no entanto, ele passou a ser produzido com uma
nova tecnologia, desenvolvida nos Estados Unidos.
Ela emprega a bactéria E. coli,
na qual é inserido o gene humano responsável
pela produção do hGH no organismo
das pessoas. Essas bactérias são
clonadas e multiplicadas num fermentador. Além
de dominar essa tecnologia, a Proteogenética
tem o fermentador industrial comprado com o dinheiro
do PIPE, com capacidade de produzir 700 mil frascos
de hormônio por ano, o que representa mais
da metade do consumo nacional.
Do ponto de vista
industrial, por enquanto Bartolini diz que saiu
da experiência com a Biolab decepcionado.
"O produto estava pronto para ir para as
prateleiras das farmácias e isso não
ocorreu", lamenta. "Agora, esperamos
fazer acordo ou parcerias com alguma outra empresa
para produzi-lo em escala comercial." De
qualquer forma, mesmo não tendo atingido
o objetivo principal, o acordo com a Biolab rendeu
frutos para o grupo de pesquisadores do Ipen que
fundou a Hormogen. "De 2002 a 2005, a empresa
nos pagou R$ 100 mil por ano", explica Bartolini.
"Esse dinheiro ajudou a aumentar nossa produtividade
científica e a financiar pesquisas com
outros hormônios."
Entre esses outros
hormônios estão a prolactina (hPRL),
que ajuda no controle da lactação,
a tirotrofina (hTSH), que controla a tireóide,
e a foliculotrofina (hFSH), que está relacionada
à fertilidade. "Alguns desses têm
um valor agregado muito maior do que o hormônio
de crescimento", diz Bartolini. "É
o caso da foliculotrofina, que custa US$ 700 o
miligrama. Mais de 20 vezes o valor do hormônio
de crescimento, que é vendido a US$ 30
o miligrama."
E a Biolab
não desistiu da biotecnologia
Com o fracasso
da tentativa de produzir comercialmente o hGH
feito por bactérias geneticamente modificadas,
a Biolab está por enquanto fora desse mercado.
"No momento a Biolab não possui qualquer
outro projeto de produtos biotecnológicos",
explica Alario Junior. "Mas como temos sempre
em mente nos prepararmos para um futuro próximo,
e com certeza ele passará pela área
biotecnológica, continuamos atentos em
relação a projetos com bom potencial
para receber investimentos da Biolab."
O que é
certo é que não será com
os pesquisadores da Proteogenética. "Com
esses pesquisadores a Biolab desistiu definitivamente
de qualquer projeto de desenvolvimento industrial",
garante Alario Junior. "Com outros pesquisadores
estamos abertos para conversar. Isto porque continua
sendo uma necessidade para o Brasil, que não
produz esse produto."
De acordo com
ele, a produção de hormônio
de crescimento no Brasil é viável.
"Desde que seja feito um estudo mais profundo
em face às novas condições
hoje vigentes no mercado mundial", ressalva
Alario Junior. "Nesses últimos anos
vários novos produtores internacionais
entraram nesse mercado e ele tornou-se muito mais
competitivo. O fator produtividade tornou-se,
portanto, ainda mais crítico e deve ser
analisado com muito cuidado antes de se iniciar
um novo projeto."