Publicado em 11 de dezembro 2006




Globalmag
Precisão na medida e atendimento por encomenda levam empresa de aparelhos magnéticos, com dois PIPEs, a crescer 30% ao ano

Davi Molinari

O tecnólogo mecânico Marcelo Shiroma Lancarotte ainda estava no início do seu doutorado em engenharia elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), em 2000, quando vislumbrou a possibilidade de colocar em prática uma idéia que sempre o acompanhou: montar uma empresa para desenvolver um pequeno aparelho capaz de medir a corrente elétrica de fios sem a necessidade de desencapá-los. Como toda corrente elétrica produz um campo magnético, é possível determinar a intensidade da corrente por meio da medida da intensidade do campo magnético.

Marcelo apresentou a idéia a dois amigos, futuros sócios na Globalmag. A física Marília Emura, doutora em materiais magnéticos pelo Instituto de Física da USP, e o engenheiro eletrônico Carlos Shiniti Muranaka, doutorado em 1993 em engenharia elétrica pela Universidade de Tohoku, em Sandai, no Japão, entusiasmaram-se com o projeto. Os três pesquisadores passaram a se reunir com certa regularidade na lanchonete da Faculdade de Economia e Administração da USP. Dali saíram decididos a procurar o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). "O Cietec nos ajudou bastante, principalmente em todo o trâmite para a abertura da empresa, pois não tínhamos nenhuma experiência administrativa", afirma Marília.

Em abril de 2001, a Globalmag começou a operar, para produzir instrumentos e componentes magnéticos. Quatro meses depois, a idéia de Marcelo virou um projeto de pesquisa apresentado ao programa PIPE: "Desenvolvimento de transdutores de corrente de alta precisão com malha de realimentação microprocessada". Com a aprovação pelo sistema de análise de propostas da Fapesp, a empresa obteve um financiamento de R$ 190 mil e US$ 3,7 mil. O resultado foi um eficiente e pequeno instrumento em forma de alicate, capaz de medir a corrente elétrica de um fio por meio do campo magnético gerado por ela. O alicate é chamado de transdutor porque transforma a corrente em tensão elétrica. Como a leitura é feita via campo magnético, não há contato físico com o condutor da eletricidade: um sensor especial na ponta do alicate, em formato de anel, envolve o fio e capta o campo magnético produzido pela corrente elétrica (Amperes) que é traduzido em tensão (Volts) e apresentado em um osciloscópio — equipamento que mostra em gráfico a variação de tensão de um sinal elétrico num determinado intervalo de tempo.

O alicate pode ser aplicado na medição de correntes de redes elétricas, motores, transformadores, sistemas automotivos, no-breaks e baterias. "Ter um medidor de corrente elétrica que não interrompe o circuito nem desencapa o fio era o sonho de todo técnico em eletrônica", lembra Marília.

Ao contrário do que os empresários esperavam, o alicate de medição não empolgou o mercado. A Globalmag consegue vender oito unidades por ano ao preço de R$ 500 cada. "O mercado continua a preferir os voltímetros convencionais", diz Marcelo. O produto é vendido basicamente para instituições de ensino — como a Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), a Pontifícia Universidade Católica (PUC) e a Universidade Santa Cecília, de Santos. "É uma maneira de os alunos aprenderem a lidar com a energia elétrica sem correr riscos", explica ele, enquanto mostra um lote de kits de medidores prontos para serem despachados.

O legado do alicate transdutor

Marcelo avalia que, com os atuais custos e níveis de escala, ainda não há mercado de consumo de massa para o alicate transdutor. Apesar de inovador, o dispositivo pode ser substituído em muitas aplicações por voltímetros que custam poucos reais. "O setor de eletroeletrônicos é muito competitivo", afirma.

Sediada num pequeno galpão da cidade de Cotia, na Grande São Paulo, a empresa não parou de fazer o alicate, mas aplicou suas propriedades a outro setor: o de siderurgia. Uma siderúrgica de Minas Gerais (cujo nome é mantido em sigilo) procurou a Globalmag com o desafio de monitorar a corrente elétrica de cabos que alimentam fornos de fusão de silício. A corrente que percorre esses cabos pode chegar a 9 mil Amperes. A variação da corrente, nesse caso, deve ficar sempre num intervalo determinado; e como o forno não podia ser desligado, surgiu a oportunidade para os conhecimentos adquiridos pela Globalmag com o PIPE. Para cumprir a tarefa, a empresa usou 48 anéis flexíveis que foram colocados ao redor dos cabos elétricos para medir a corrente. "Foi um sucesso", lembra Marcelo, que só produz o medidor flexível sob demanda.

Os proprietários são os administradores e tocadores da empresa. O capital inicial de R$ 30 mil saiu do bolso deles mesmos, que até hoje não têm funcionários. Carlos e Marcelo cuidam da produção, enquanto Marília prioriza a administração e a representação comercial de uma empresa estrangeira, a LakeShore — segundo ela, líder mundial de sensores de baixa temperatura e instrumentação magnética. "Fomos indicados por um amigo à LakeShore, que nos convidou a ser seus representantes exclusivos no Brasil", explica Marcelo. Todos os componentes usados na produção são terceirizados.

Precisão

Indiretamente, a pesquisa para o desenvolvimento dos transdutores permitiu à Globalmag acumular conhecimento para dar confiabilidade a outros instrumentos que produz. Antes de desenvolver o alicate transdutor, a Globalmag havia lançado o Tmag, um transdutor e medidor de campo magnético de baixo preço, usado por pequenas empresas para verificar defeitos em imãs de alto-falantes. "Naquela época, o dólar estava a R$ 3. As empresas não conseguiam importar similares estrangeiros. Então, colocamos no mercado um produto alternativo de excelente relação custo/benefício", lembra Marcelo. Hoje, o Tmag — primeiro produto da empresa — perdeu competitividade e foi substituído por medidores mais modernos, com display digital para leitura.

Grandezas magnéticas são medidas por aparelhos que se convencionou chamar de gaussímetros (Gauss é a medida da grandeza magnética). A empresa produz oito tipos de gaussímetros para três aplicações diferentes: "Uma série de instrumentos serve para tirar medida de imãs; outra verifica se há resíduo de magnetização; por fim, fazemos também instrumentos usados em ensaios com partículas magnéticas", diz Carlos. A empresa também produz fluxímetros (do inglês fluximeter), aparelhos recomendados para tomar medidas do fluxo do nível de magnetização em processos industriais. "As indústrias precisam monitorar a ocorrência de magnetização, pois às vezes, durante o processo produtivo, alguns equipamentos acabam ganhando ou perdendo campo magnético, o que pode prejudicar a produção", explica Marcelo.

O atual foco de pesquisa e desenvolvimento dos sócios da empresa são os magnetizadores — geradores de pulso magnético desenvolvidos para produzir produtos magnéticos em série. Eles já fabricam magnetizadores sob encomenda. Em 2006, os empresários voltaram ao PIPE: a Fapesp aprovou mais um financiamento, de R$ 18 mil, para que a empresa desenvolva um processo de produção de magnetizadores.

Vendas

A precisão nas medidas magnéticas e a "flexibilidade" da linha de produção da Globalmag atraem clientes como Márcio Ferreira Lopes, sócio-proprietário da Imag, indústria de produtos eletrônicos de Ribeirão Pires, região do ABC paulista. "Eles são bons fornecedores de equipamentos que não podem ser encontrados prontos nas prateleiras das lojas", afirma Lopes, que já comprou dez aparelhos da Globalmag e pretende continuar encomendando novos dispositivos que atendam a demandas específicas de sua fábrica. Para ele, a vantagem competitiva da Globalmag está na produção e venda de produtos "sob medida". "O mercado de equipamentos prontos para esse segmento já está saturado, tem quatro fornecedores brasileiros e 300 fabricantes chineses", avalia Lopes.

A Globalmag não tem patentes, mas é uma marca registrada. Os sensores e medidores de campo magnético dificilmente são patenteados, pois seu funcionamento já é de domínio público. A proteção contra cópia e pirataria está na redução dos custos e na constante inovação dos aparelhos. Os principais concorrentes da Globalmag são estrangeiros. Os custos de importação e de desembaraço aduaneiro dão certa proteção aos produtos da empresa. "Um gaussímetro importado chega por um preço em torno de US$ 1 mil; nós conseguimos vender pela metade desse preço", diz Marcelo. Em 2006, a empresa contabiliza a venda de 70 gaussímetros, 20 fluxímetros, três magnetizadores e oito alicates transdutores, o que deve lhe permitir faturar algo em torno de R$ 300 mil. A empresa cresce a uma taxa de 30% ao ano; e 90% dos pedidos chegam pela Internet. "Nós percebemos que os clientes nos encontram depois que fazem buscas na Internet e por isso decidimos anunciar no Google, o que tem dado bons resultados", conta Marília.

A Globalmag aproveita as encomendas sob medida, mas tem planos para ser uma marca conhecida. "Nós queremos penetrar no mercado com nosso próprio nome: Globalmag, que não existiria se não fosse a confiança que a Fapesp depositou em nossas idéias", finaliza Marcelo.