Globalmag
Precisão na medida e atendimento
por encomenda levam empresa de aparelhos magnéticos,
com dois PIPEs, a crescer 30% ao ano Davi
Molinari
O tecnólogo
mecânico Marcelo Shiroma Lancarotte ainda
estava no início do seu doutorado em engenharia
elétrica pela Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo (Poli-USP),
em 2000, quando vislumbrou a possibilidade de
colocar em prática uma idéia que
sempre o acompanhou: montar uma empresa para desenvolver
um pequeno aparelho capaz de medir a corrente
elétrica de fios sem a necessidade de desencapá-los.
Como toda corrente elétrica produz um campo
magnético, é possível determinar
a intensidade da corrente por meio da medida da
intensidade do campo magnético.
Marcelo apresentou
a idéia a dois amigos, futuros sócios
na Globalmag. A física Marília Emura,
doutora em materiais magnéticos pelo Instituto
de Física da USP, e o engenheiro eletrônico
Carlos Shiniti Muranaka, doutorado em 1993 em
engenharia elétrica pela Universidade de
Tohoku, em Sandai, no Japão, entusiasmaram-se
com o projeto. Os três pesquisadores passaram
a se reunir com certa regularidade na lanchonete
da Faculdade de Economia e Administração
da USP. Dali saíram decididos a procurar
o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas
(Cietec), do Instituto de Pesquisas Energéticas
e Nucleares (Ipen). "O Cietec nos ajudou
bastante, principalmente em todo o trâmite
para a abertura da empresa, pois não tínhamos
nenhuma experiência administrativa",
afirma Marília.
Em abril de 2001,
a Globalmag começou a operar, para produzir
instrumentos e componentes magnéticos.
Quatro meses depois, a idéia de Marcelo
virou um projeto de pesquisa apresentado ao programa
PIPE: "Desenvolvimento de transdutores de
corrente de alta precisão com malha de
realimentação microprocessada".
Com a aprovação pelo sistema de
análise de propostas da Fapesp, a empresa
obteve um financiamento de R$ 190 mil e US$ 3,7
mil. O resultado foi um eficiente e pequeno instrumento
em forma de alicate, capaz de medir a corrente
elétrica de um fio por meio do campo magnético
gerado por ela. O alicate é chamado de
transdutor porque transforma a corrente em tensão
elétrica. Como a leitura é feita
via campo magnético, não há
contato físico com o condutor da eletricidade:
um sensor especial na ponta do alicate, em formato
de anel, envolve o fio e capta o campo magnético
produzido pela corrente elétrica (Amperes)
que é traduzido em tensão (Volts)
e apresentado em um osciloscópio —
equipamento que mostra em gráfico a variação
de tensão de um sinal elétrico num
determinado intervalo de tempo.
O alicate pode
ser aplicado na medição de correntes
de redes elétricas, motores, transformadores,
sistemas automotivos, no-breaks e baterias.
"Ter um medidor de corrente elétrica
que não interrompe o circuito nem desencapa
o fio era o sonho de todo técnico em eletrônica",
lembra Marília.
Ao contrário
do que os empresários esperavam, o alicate
de medição não empolgou o
mercado. A Globalmag consegue vender oito unidades
por ano ao preço de R$ 500 cada. "O
mercado continua a preferir os voltímetros
convencionais", diz Marcelo. O produto é
vendido basicamente para instituições
de ensino — como a Faculdade de Engenharia
Industrial (FEI), a Pontifícia Universidade
Católica (PUC) e a Universidade Santa Cecília,
de Santos. "É uma maneira de os alunos
aprenderem a lidar com a energia elétrica
sem correr riscos", explica ele, enquanto
mostra um lote de kits de medidores prontos
para serem despachados.
O legado do alicate transdutor
Marcelo avalia
que, com os atuais custos e níveis de escala,
ainda não há mercado de consumo
de massa para o alicate transdutor. Apesar de
inovador, o dispositivo pode ser substituído
em muitas aplicações por voltímetros
que custam poucos reais. "O setor de eletroeletrônicos
é muito competitivo", afirma.
Sediada num pequeno
galpão da cidade de Cotia, na Grande São
Paulo, a empresa não parou de fazer o alicate,
mas aplicou suas propriedades a outro setor: o
de siderurgia. Uma siderúrgica de Minas
Gerais (cujo nome é mantido em sigilo)
procurou a Globalmag com o desafio de monitorar
a corrente elétrica de cabos que alimentam
fornos de fusão de silício. A corrente
que percorre esses cabos pode chegar a 9 mil Amperes.
A variação da corrente, nesse caso,
deve ficar sempre num intervalo determinado; e
como o forno não podia ser desligado, surgiu
a oportunidade para os conhecimentos adquiridos
pela Globalmag com o PIPE. Para cumprir a tarefa,
a empresa usou 48 anéis flexíveis
que foram colocados ao redor dos cabos elétricos
para medir a corrente. "Foi um sucesso",
lembra Marcelo, que só produz o medidor
flexível sob demanda.
Os proprietários são os administradores
e tocadores da empresa. O capital inicial de R$
30 mil saiu do bolso deles mesmos, que até
hoje não têm funcionários.
Carlos e Marcelo cuidam da produção,
enquanto Marília prioriza a administração
e a representação comercial de uma
empresa estrangeira, a LakeShore — segundo
ela, líder mundial de sensores de baixa
temperatura e instrumentação magnética.
"Fomos indicados por um amigo à LakeShore,
que nos convidou a ser seus representantes exclusivos
no Brasil", explica Marcelo. Todos os componentes
usados na produção são terceirizados.
Precisão
Indiretamente, a pesquisa para o desenvolvimento
dos transdutores permitiu à Globalmag acumular
conhecimento para dar confiabilidade a outros
instrumentos que produz. Antes de desenvolver
o alicate transdutor, a Globalmag havia lançado
o Tmag, um transdutor e medidor de campo magnético
de baixo preço, usado por pequenas empresas
para verificar defeitos em imãs de alto-falantes.
"Naquela época, o dólar estava
a R$ 3. As empresas não conseguiam importar
similares estrangeiros. Então, colocamos
no mercado um produto alternativo de excelente
relação custo/benefício",
lembra Marcelo. Hoje, o Tmag — primeiro
produto da empresa — perdeu competitividade
e foi substituído por medidores mais modernos,
com display digital para leitura.
Grandezas magnéticas
são medidas por aparelhos que se convencionou
chamar de gaussímetros (Gauss é
a medida da grandeza magnética). A empresa
produz oito tipos de gaussímetros para
três aplicações diferentes:
"Uma série de instrumentos serve para
tirar medida de imãs; outra verifica se
há resíduo de magnetização;
por fim, fazemos também instrumentos usados
em ensaios com partículas magnéticas",
diz Carlos. A empresa também produz fluxímetros
(do inglês fluximeter), aparelhos
recomendados para tomar medidas do fluxo do nível
de magnetização em processos industriais.
"As indústrias precisam monitorar
a ocorrência de magnetização,
pois às vezes, durante o processo produtivo,
alguns equipamentos acabam ganhando ou perdendo
campo magnético, o que pode prejudicar
a produção", explica Marcelo.
O atual foco de pesquisa e desenvolvimento dos
sócios da empresa são os magnetizadores
— geradores de pulso magnético desenvolvidos
para produzir produtos magnéticos em série.
Eles já fabricam magnetizadores sob encomenda.
Em 2006, os empresários voltaram ao PIPE:
a Fapesp aprovou mais um financiamento, de R$
18 mil, para que a empresa desenvolva um processo
de produção de magnetizadores.
Vendas
A precisão
nas medidas magnéticas e a "flexibilidade"
da linha de produção da Globalmag
atraem clientes como Márcio Ferreira Lopes,
sócio-proprietário da Imag, indústria
de produtos eletrônicos de Ribeirão
Pires, região do ABC paulista. "Eles
são bons fornecedores de equipamentos que
não podem ser encontrados prontos nas prateleiras
das lojas", afirma Lopes, que já comprou
dez aparelhos da Globalmag e pretende continuar
encomendando novos dispositivos que atendam a
demandas específicas de sua fábrica.
Para ele, a vantagem competitiva da Globalmag
está na produção e venda
de produtos "sob medida". "O mercado
de equipamentos prontos para esse segmento já
está saturado, tem quatro fornecedores
brasileiros e 300 fabricantes chineses",
avalia Lopes.
A Globalmag não
tem patentes, mas é uma marca registrada.
Os sensores e medidores de campo magnético
dificilmente são patenteados, pois seu
funcionamento já é de domínio
público. A proteção contra
cópia e pirataria está na redução
dos custos e na constante inovação
dos aparelhos. Os principais concorrentes da Globalmag
são estrangeiros. Os custos de importação
e de desembaraço aduaneiro dão certa
proteção aos produtos da empresa.
"Um gaussímetro importado chega por
um preço em torno de US$ 1 mil; nós
conseguimos vender pela metade desse preço",
diz Marcelo. Em 2006, a empresa contabiliza a
venda de 70 gaussímetros, 20 fluxímetros,
três magnetizadores e oito alicates transdutores,
o que deve lhe permitir faturar algo em torno
de R$ 300 mil. A empresa cresce a uma taxa de
30% ao ano; e 90% dos pedidos chegam pela Internet.
"Nós percebemos que os clientes nos
encontram depois que fazem buscas na Internet
e por isso decidimos anunciar no Google, o que
tem dado bons resultados", conta Marília.
A Globalmag aproveita
as encomendas sob medida, mas tem planos para
ser uma marca conhecida. "Nós queremos
penetrar no mercado com nosso próprio nome:
Globalmag, que não existiria se não
fosse a confiança que a Fapesp depositou
em nossas idéias", finaliza Marcelo.