Orbys
Desenvolvimento de Tecnologia de Materiais
Empresa licencia patente de
nanotecnologia da Unicamp;
ambição é disputar mercado de US$ 50 bilhões em
2020
Evanildo
da Silveira
Depois que encerrou
sua bem-sucedida carreira de executivo em grandes
empresas, em 2003, o engenheiro naval Eduardo
Figueiredo resolveu que ainda não era a
hora de parar de trabalhar. Começou a investigar
possíveis negócios na área
de tecnologia, nos quais pudesse empregar suas
economias e sua experiência. Descobriu que
a Unicamp detinha uma patente de um nanocompósito
de borracha natural e argila, que poderia ser
útil para várias indústrias,
como as de calçados, material esportivo,
papéis, brinquedos e automobilística.
Para explorar a patente, Eduardo fundou a Orbys
Desenvolvimento de Tecnologia de Materiais. Nascida
ainda em 2003, a empresa tem hoje três projetos
que podem resultar em novos materiais que incorporam
nanotecnologia — ou seja, que contêm
em sua composição partículas
de dimensões nanométricas. Um nanômetro
é a bilionésima parte do metro.
Até agora,
a empresa já investiu mais de R$ 1 milhão
em seus projetos e pesquisas, dos quais cerca
de R$ 500 mil vieram de recursos próprios.
O restante veio de financiamentos do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de
Estudos e Projetos (Finep) e do Centro Incubador
de Empresas Tecnológicas (Cietec), de São
Paulo. "Também tivemos, em 2005, apoio
do PIPE da Fapesp", conta Figueiredo. "Foram
R$ 50 mil, que usamos para a compra de equipamentos
para nosso laboratório e pagamento de ensaios."
A empresa já apresentou três novos
pedidos de financiamento para projetos de pesquisa
à Fapesp, que estão em processo
de análise. Todos eles são PIPE
fase I — quer dizer, para estudar a viabilidade
comercial do produto que poderá surgir
da pesquisa; e o valor de cada pedido é
de cerca de R$ 70 mil.
O nanocompósito
Imbrik
Atualmente a Orbys
trabalha para desenvolver produtos a partir do
nanocompósito polimérico a que deu
o nome comercial de Imbrik, uma palavra que lembra
a estrutura imbricada de suas moléculas
e a solidez e força da palavra inglesa
brick, que significa tijolo. Eduardo
conta quais são os três produtos
que estão sendo desenvolvidos a partir
do Imbrik: um adesivo para a indústria
de calçados; uma borracha sintética
para fabricar dutos de combustível dos
automóveis; e um revestimento para tornar
os vidros mais resistentes.
O adesivo é
o produto que está mais perto da comercialização.
O Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro,
Calçado e Artefatos (IBTeC), uma entidade
de direito privado sem fins lucrativos que fica
em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, já
está fazendo ensaios e testes com o novo
material. Segundo a engenheira química
Carmen Buffon, diretora técnica do IBTeC,
a pesquisa começou em 2005. "Até
agora os resultados têm sido muito promissores",
conta. Para ela, uma das vantagens do novo produto
é a possibilidade de substituir similares
importados, mais caros e demorados para chegar
ao País. "Nosso objetivo é
oferecer ao setor calçadista uma inovação
tecnológica baseada em nanotecnologia",
diz.
Uma indústria
de borracha e uma de vidro também já
testam os materiais que incorporam o Imbrik. Mas,
nesses casos, o desenvolvimento está em
fase mais precoce. De acordo com Figueiredo, os
exportadores de dutos de combustível usados
em automóveis têm interesse na incorporação
do nanocompósito à matéria-prima
convencional para manter a competitividade na
Europa. "As mangueiras fabricadas com polímeros
tradicionais não oferecem uma barreira
suficiente a gases e deixam escapar para o ambiente
vapores de combustível", conta Figueiredo.
"Estamos desenvolvendo uma borracha nitrílica,
com maior impermeabilidade a gases, que poderá
substituir o material hoje empregado na fabricação
dos dutos." No outro projeto, está
em teste um filme que torna o vidro mais resistente,
podendo assim ser usado em peças automotivas.
Licenciamento
de patente
A história
do nanocompósito começou durante
as andanças de Figueiredo em busca de novos
negócios. No começo, ele pensou
em explorar o potencial dos óleos essenciais,
substâncias aromáticas extraídas
de plantas e usadas na indústria de perfumes.
Chegou a encomendar estudos para uma empresa júnior
e para o Laboratório de Bioaromas do Centro
Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas,
Biológicas e Agrícolas da Unicamp.
Lá pelas tantas, decidiu mudar de rumo;
e decidiu buscar trabalhos de pesquisa que envolvessem
látex — pois, nos anos 1980, tivera
uma plantação de seringueiras para
a produção de borracha, no interior
de São Paulo.
Assim encontrou
Fernando Galembeck, professor titular e pesquisador
do Instituto de Química da Unicamp. Também
é coordenador do Instituto do Milênio
de Materiais Complexos, do CNPq. O grupo de pesquisa
que dirige no Instituto de Química detém
patentes sobre um processo de obtenção
de pigmentos a partir de nanopartículas
— que resultaram no produto Biphor
—; de fabricação de materiais
para despoluição de gases de escapamento;
e várias outras no campo da nanotecnologia.
A patente licenciada para a Orbys é a PI0301193-3,
depositada em 2003 pela Unicamp no Instituto Nacional
da Propriedade Industrial (INPI), com o título
"Produção de nanocompósitos
de termoplásticos ou elastômeros
com argilas intercaladas ou esfoliadas, a partir
de látexes". Depois de alguns meses
de negociação, a Orbys e a Agência
de Inovação da Unicamp (Inova) assinaram,
em dezembro de 2004, o contrato de licenciamento,
pelo qual a empresa adquiriu os direitos de exploração
comercial da patente. A partir de março
de 2007, a Orbys passará a pagar royalties
para a Unicamp. Vinculado ao contrato de licenciamento,
há um convênio de cooperação
técnica celebrado entre a Unicamp e a Orbys,
e coordenado pelo pesquisador Galembeck, para
o desenvolvimento dos produtos. Por força
do contrato, nenhuma das duas partes revela os
valores do negócio.
Segundo Rosana
Di Giorgio, diretora de Propriedade Intelectual
e Desenvolvimento de Parcerias da Inova, a agência
já assinou cerca de 150 contratos de transferência
de tecnologia com empresas e instituições
diversas. Destes, apenas três rendem royalties
para a Unicamp, mas em valores ainda pequenos.
"Demora um certo tempo para uma tecnologia
desenvolvida numa pesquisa ou numa tese ser transformada
em produto comercial", explica. "Depois
que os contratos já assinados começarem
a render, será como uma bola de neve."
Se as expectativas
de Eduardo Figueiredo se cumprirem, Orbys, Unicamp
e o inventor Galembeck ganharão bastante
dinheiro. Segundo o empresário, o mercado
global da classe de produtos nanotecnológicos
em que se enquadra o Imbrik vem crescendo à
taxa de 29% ao ano e deverá atingir US$
50 bilhões em 2020. As metas de sua empresa
de participação nesse mercado são
ambiciosas. "Em 2011, o mercado já
deverá ser de US$ 3,6 bilhões",
informa Figueiredo. "Nós pretendemos
participar com 0,5% desse total." Do mercado
brasileiro, que deverá ser de 3% do mundial
em 2011, a Orbys quer abocanhar 10%.
Melhores
propriedades
Nanocompósitos
poliméricos são materiais formados
pela combinação de um matriz polímero
— plástico ou borracha, por exemplo
— com um composto inorgânico (sintético
ou natural) que possua ao menos uma dimensão
nanométrica. Essa combinação
de materiais visa a melhorar as propriedades mecânicas,
químicas e acústicas, de resistência
à radiação, de condutividade
ou isolamento elétrico do polímero
convencional.
No caso do Imbrik,
o composto inorgânico usado é a argila.
A tecnologia que a Orbys licenciou permite a obtenção
de nanocompósitos a partir de uma variedade
de polímeros na forma de látex —
como borracha natural, nitrílica ou de
estireno-butadieno, acetato de polivinila (PVA),
poliestireno, acrílicos (acrilatos de metila
e de etila) e acrilonitrila-butadieno-estireno
(ABS).
Segundo Figueiredo,
o segredo da tecnologia da Orbys está no
esfoliamento da argila, ou seja, na transformação
de seus minúsculos grãos em folha
ou lâminas. "Ao se juntar simplesmente
o látex com a argila o que se obtém
é apenas uma mistura, sem nenhuma propriedade
especial", explica Figueiredo. "Mas
quando se junta ao polímero a argila esfoliada,
obtém-se um nanocompósito polimérico
com características muito superiores às
do polímero puro."
As lâminas
de argila funcionam como um reforço estrutural,
que se une fortemente à superfície
do látex polimérico. A água
presente no látex é eliminada; e
as partículas podem então se aproximar
umas das outras. Com isso, o material adquire
propriedades mecânicas novas — entre
as quais resistência elevada a esforço
— e possibilidade de reciclagem. Há
outros ganhos, garante Figueiredo: maior impermeabilidade
a gases, aumento da resistência à
ação de solventes, ácidos
ou álcalis, à oxidação
e à degradação por radiação,
além de maior estabilidade térmica
e resistência à fadiga e ao fogo.
Isso ocorre porque os materiais criados com a
tecnologia Orbys adquirem a propriedade da argila
de tornar as superfícies mais perfeitas
e menos porosas.
O nanocompósito polimérico possui
várias formas de apresentação:
emulsão, mantas, pellets, filmes
e fios. "Outras qualidades são ser
biodegradável, atóxico, agradável
aos sentidos", diz o dono da Orbys. "Raramente
um mesmo material apresenta todas essas propriedade
positivas juntas." Por isso, há muitas
alternativas de aplicações: na fabricação
de adesivos, principalmente colas à base
de água; para embalagens resistentes, ideais
para alimentos; em solas e entressolas de calçados;
em artigos esportivos, como bolas que tenham de
reter a pressão interna do ar; elastômeros
para a saúde, brinquedos e autopeças.
Neste último caso, devido à resistência
térmica, química e mecânica,
o nanocompósito polimérico pode
ser usado na produção de peças
para áreas do motor que atingem altas temperaturas.