HyTron
Tecnologia em Hidrogênio
Empresa nasce para desenvolver
e fabricar equipamento que extrai hidrogênio de
etanol e gás; tecnologia é estratégica para o País
Janaína
Simões
Nasceu no Laboratório
de Hidrogênio do Instituto de Física
da Unicamp uma empresa que aposta no uso do etanol
e do gás natural como fontes de hidrogênio
para alimentar as células a combustível
do futuro. A HyTron, apoiada pelo PIPE da Fapesp,
foi fundada em março de 2005 por um grupo
de 12 pesquisadores, parte deles ainda muito jovem,
recém-graduados ou concluindo o mestrado
ou doutorado. O objetivo da empresa é desenvolver
e fabricar reformadores de etanol e de gás
natural. Reformador é o equipamento que
"reforma" o etanol ou o gás natural
do ponto de vista químico para extrair
hidrogênio. Uma série de reações
ocorre dentro do reformador para quebrar as moléculas
do combustível e separar, dentre elas,
as moléculas de hidrogênio.
Células
a combustível, que usam hidrogênio
como combustível, são pouco poluentes,
já estão sendo testadas pelas grandes
companhias para mover automóveis, podem
ser usadas em lugares onde não há
energia elétrica, mas ainda apresentam
uma desvantagem: o alto custo de sua produção.
Buscar tecnologias
para obtenção de hidrogênio
a partir de etanol é estratégico
para o Brasil. Em todo o mundo, há grandes
investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D)
para tornar as células a combustível
viáveis – pelo fato de gerarem energia
limpa, há esperanças de que possam
ser uma fonte significativa de energia no futuro,
especialmente para eliminar a poluição
causada por automóveis e caminhões.
O etanol já se firma como combustível
alternativo no presente; se puder também
vir a ser usado como fonte de abastecimento para
a energia do futuro, então a perspectiva
de mercado para a produção brasileira
ganhará em longevidade e relevância.
"O álcool é o biocombustível
mais importante hoje, mas temos de pensar em longo
prazo, em tecnologias que possam ser mais baratas
e mais interessantes para o mercado, como é
o caso das células a combustível
e da futura era do hidrogênio", afirma
a engenheira agrônoma Heloisa
Burnquist, pesquisadora do
Departamento de Economia, Administração
e Sociologia da Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São
Paulo (USP). "Podemos pensar em eras tecnológicas
e temos atualmente uma posição privilegiada
em relação ao etanol. Precisamos
continuar pensando em maneiras de inserir mais
vantagens a esses potenciais e novas tecnologias",
completa.
Protótipos
A pequena empresa
está incubada na Companhia de Desenvolvimento
do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas
(Ciatec) e escolheu como foco os pequenos consumidores.
Até agora, a empresa chegou a três
protótipos, dois de etanol e um de gás
natural. Um dos reformadores de etanol foi encomendado
pelo Instituto Técnico Aeroespacial da
Espanha, para quem deverá ser entregue
em janeiro de 2007. O outro, também utilizando
etanol, é desenvolvido em parceria com
o Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes). O
que usa gás natural conta com a participação
da CPFL.
A encomenda do
Instituto Técnico Aeroespacial da Espanha
aconteceu porque o Laboratório de Hidrogênio
da Unicamp mantém contato com o Laboratório
de Energias Renováveis dessa instituição
desde 1992. Com o projeto Vega, um carro movido
a hidrogênio que foi desenvolvido no laboratório
da Unicamp, houve um trabalho conjunto com o laboratório
espanhol sobre armazenamento de hidrogênio.
A HyTron não pode revelar o que os espanhóis
querem fazer com o reformador que compraram do
Brasil, pois o instituto lida com pesquisas da
área de militar, o que envolve a segurança
nacional.
A empresa incubada
utiliza equipamentos do Laboratório de
Hidrogênio da Unicamp para fazer os testes
diários dos protótipos dos reformadores.
Para as atividades de pesquisa, além do
apoio do programa PIPE da Fapesp, recebeu também
financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos
(Finep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq);
e das empresas associadas ao projeto – um
total de R$ 400 mil até dezembro de 2006.
Do Pipe Fase 1, com o projeto "Desenvolvimento
e otimização de unidade integrada
de reforma de etanol para produção
de hidrogênio" aprovado pela Fapesp,
a empresa conseguiu um investimento de R$ 45.479,30.
Como funciona
o reformador
O funcionamento
dos reformadores de etanol e gás natural
é semelhante, apesar dos combustíveis
diferentes. No dia em que Inovação
visitou o laboratório, a
HyTron testava o reformador de etanol encomendado
pelos espanhóis. O nome "reformador"
refere-se à operação básica
que ele realiza, a reação química
de reforma. O engenheiro elétrico da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM) João Carlos
Camargo, sócio-fundador da HyTron, explica
os processos que ocorrem no reformador enquanto
mostra o equipamento em testes no laboratório.
Camargo é mestre e doutor em planejamento
de sistemas energéticos.
O coração
do reformador é o reator de reforma, onde
uma mistura composta por 50% de água e
50% de etanol é aquecida até cerca
de 700°C. A elevada temperatura quebra as
moléculas do etanol; os catalisadores aceleram
o processo. Nessa fase, é produzido um
gás de síntese, formado principalmente
por hidrogênio, monóxido e dióxido
de carbono. Esse gás vai para uma seqüência
de reatores menores, de onde será extraído
mais hidrogênio até que só
fique o dióxido de carbono, que será
eliminado para a atmosfera. O hidrogênio
produzido pelo reformador é aplicado diretamente
à célula a combustível, tendo
apenas um pequeno reservatório a baixa
pressão entre ambos.
O etanol usado
atualmente pela HyTron nos testes tem sido doado
pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). "Estamos
produzindo reformadores para abastecer células
a combustível que geram cinco quilowatts
de potência e requerem cinco metros cúbicos
de hidrogênio por hora. Para produzir essa
quantidade de hidrogênio, precisamos de
três a quatro litros de etanol por hora",
diz. A empresa pretende chegar a reformadores
para células a combustível de cem
quilowatts de potência. O reformador de
etanol é movido a etanol; e o reformador
de gás natural é movido a gás
natural.
Uma parte do etanol
ou do gás em processo de reforma é
queimada para fornecer a energia para o próprio
processo. João Carlos explica que a reação
de reforma é endotérmica, ou seja,
consome calor para ocorrer. "A quantidade
utilizada para fornecer calor à reação
esta em torno de 16% a 20% da energia disponível
no etanol ou no gás", continua. "Grosso
modo, poderíamos dizer que 80% da energia
do combustível fica disponível para
produção de hidrogênio",
completa o empresário.
Fazê-las
pequenas
"O desafio
dessas máquinas é fazê-las
pequenas. Em grandes refinarias já temos
equipamentos como esses, mas de grande porte",
conta. A HyTron pretende produzir equipamentos
menores para o governo e para as empresas de energia.
Seus protótipos têm 1,9 metro de
altura, 60 centímetros de largura e 1,2
metro de profundidade. "Nos Estados Unidos,
as empresas estão testando protótipos
nas casas de consumidores", completa. Além
dos EUA, Japão e Alemanha estão
em estágio avançado na tecnologia
dos reformadores. "As empresas do setor elétrico
no Brasil estão interessadas nessas máquinas
por causa de um novo nicho de mercado, o da geração
distribuída, que vem crescendo em outros
países e, espera-se, crescerá aqui
também", acrescenta. No sistema de
geração distribuída, gás
natural e resíduos de combustível
são utilizados para gerar energia elétrica
próximo ao local de consumo. No modelo,
as distribuidoras de energia vendem ou alugam
pequenos geradores para os consumidores.
A empresa tem
mais um ano para continuar incubada. Por isso,
trabalha no seu plano de negócios, onde
definirá, com números, o seu mercado
potencial, quanto de investimento é necessário
para os reformadores saírem da fase de
protótipo, potenciais investidores, onde
ficará a fábrica, quanto produzirá
etc. Uma das idéias é instalar a
HyTron dentro do parque
tecnológico de Campinas,
que está sendo organizado. Camargo diz
ser muito difícil ainda conseguir recursos
para a pesquisa.
O preço
do produto final ainda não está
estimado. Para fazer um protótipo que produz
em torno de dez metros cúbicos por hora
de hidrogênio, os custos estão atualmente
em torno de R$ 250 mil, segundo Camargo.
Os desafios
"O Brasil
não tem um desenvolvimento básico
nessa área em componentes vitais. Precisamos
importar catalisadores e alguns tipos de materiais
de que precisamos para operar em altas temperaturas,
como os aços especiais, componentes periféricos",
enumera. A burocracia com importação
de insumos atrasa o cronograma de testes. A HyTron
busca nacionalizar ao máximo sua tecnologia.
"Quase 90% da nossa tecnologia é brasileira,
muitas das soluções nós mesmos
desenvolvemos para nacionalizar o maior número
de elementos possível", comenta. Mas
há insumos, como os catalisadores, que
a empresa não tem como desenvolver internamente;
ela é obrigada a importar.
Outro ponto crítico
é tornar a empresa viável, economicamente,
depois de sair da incubação. "O
desafio é viabilizar esse sistema para
competir, no futuro, com o diesel. Precisaremos
investir para termos ganho de escala", afirma.
Uma política de compras governamentais
poderia ajudar a empresa, como ocorre nos Estados
Unidos. "Lá, o governo compra justamente
para que a empresa tenha esse ganho de escala
na produção e possa continuar depois
no mercado", destaca.
Tecnologia
estratégica e mercado nascente
Para se tornarem
realmente viável, do ponto de vista comercial,
os reformadores de etanol dependem da evolução
e do aumento da demanda de células a combustível.
Isso não inviabiliza o negócio da
HyTron no curto prazo? "Não, porque,
primeiro, acreditamos que a tecnologia das células
a combustível veio para ficar. Segundo,
temos possibilidades de utilizar os reformadores
de etanol e gás natural para extrair outros
insumos, como o ácido acético e
o monóxido de carbono, com aplicações
no setor químico", responde Antônio
José Marin Neto, físico, pesquisador
e sócio da HyTron.