Torr
Microssistemas Integrados de Pressão
Empresa concentrada em desenvolvimento
de produto teve sucesso,
mas se esqueceu da concorrência e das normas
sanitárias; e agora?
Davi
Molinari
Com forte sotaque castelhano, o pesquisador e
professor Edgar Charry Rodriguez, veterano engenheiro
elétrico, doutorado pela Universidade de
São Paulo (USP) em 1974, explica como dominou
o processo de produção de um dispositivo
indispensável nas salas de cirurgia para
monitorar a pressão arterial do paciente
— especialmente se a cirurgia é cardíaca.
O dispositivo transforma os sinais da pressão
arterial vindos do sistema circulatório
em sinais eletrônicos que podem ser acompanhados
por um monitor. Pela capacidade de traduzir os
sinais, o aparelho recebe o nome de transdutor
descartável para pressão sanguínea.
O aparelho lembra uma sonda intravenosa, um tubo
de silicone com entrada para medicamento; mas
é muito mais que isso. Um líquido
desce pelo tubo até o paciente; é
o meio pelo qual o sinal da pressão arterial
trafega (por isso, o transdutor é chamado
de hidrostático), até chegar a um
sensor de silício. Dele saem fios e cabos
que levam o sinal até os monitores de vídeo.
Com o transdutor
em mãos, o professor Charry começa
a desmontá-lo para exibir todos os seus
componentes. O coração do transdutor
é o sensor de pressão de silício
— um chip de um centímetro
quadrado, sensível às pressões
sistólica e diastólica que se originam
do batimento cardíaco. Ele fica dentro
de uma cápsula interna, protegido por um
gel do líquido que percorre a sonda. Essa
cápsula, por sua vez, fica dentro de outra
cápsula, externa, de onde saem os fios
e os tubos plásticos. Por fim, tudo está
assentado sobre uma plataforma que serve de suporte
para os resistores e para a conexão elétrica.
Os transdutores
usados atualmente no Brasil são importados.
Em 2001, a Torr Microssistemas Integrados de Pressão
propôs à Fapesp desenvolver o primeiro
similar montado no País, dentro do programa
que apóia a pesquisa na pequena empresa.
Para dominar os parâmetros de montagem e
calibrar todos os componentes do transdutor, a
Torr levou cinco anos. Charry envolveu no projeto
a dedicação de uma equipe formada
por dois engenheiros elétricos, Roberto
Gouvêa e Jaime Lassu, e uma engenheira eletrônica,
Carla Andrade. O investimento do PIPE foi de R$
155 mil, usados na compra de equipamentos —
microscópio ótico, calibrador de
pressão, voltímetros — e no
desenvolvimento de uma máquina automática
de enchimento a vácuo de gel.
Experiência
científica e tecnológica
O projeto cumpriu
seu objetivo principal, descrito como "encapsulamento
completo" do transdutor, de acordo com as
normas internacionais para equipamento cirúrgico
de monitoramento de pressão arterial. A
tecnologia em que o produto se fundamenta existe
há 20 anos: é a tecnologia MEMS
(Micro Electro Mechanical System), da
sigla em inglês para a expressão
microssistemas eletromecânicos. "Os
sensores de pressão de silício são
os principais produtos originados desta tecnologia",
afirma Charry. O Currículo Lattes do pesquisador
mostra sua experiência em microeletrônica
— por exemplo, publicou 13 artigos em periódicos
científicos e 62 trabalhos completos em
anais de congressos. Faz parte do Laboratório
de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica
(Poli) da USP. O currículo também
mostra que Charry tem interesse em pesquisa tecnológica
— há cinco referências a desenvolvimento
de processos e produtos. Não por acaso,
cinco dissertações de mestrado e
uma tese de doutorado sob sua orientação
trataram do tema sensor de pressão. Ao
lado do engenheiro Jacobus Swart e de Joel Pereira
de Souza, criou o primeiro circuito brasileiro
de memória — conhecido hoje na computação
como memória RAM. Com 3 mil transistores,
armazenava 2 mil bytes de informação.
O dono da Torr
é colombiano; graduou-se lá engenheiro
elétrico, em 1962. Fez seu mestrado no
México; chegou ao Brasil para se doutorar,
em 1971, e aqui se radicou. Lastima que o País
tenha "perdido o bonde da microeletrônica"
e que não tenha mais pernas para entrar
numa indústria cujos produtos desabam de
preço e a escala cresce continuamente.
"Houve época em que pensamos ser possível
produzir o chip do transdutor aqui. Mas
o investimento inicial é tão alto
que é melhor fazer como a China que importa
de Cingapura ou de outros países 85% dos
chips de que precisa em sua indústria
eletrônica”, afirma.
Vicissitudes
Mas mesmo com
todo o cabedal do pesquisador, a Torr pode não
lograr sucesso de mercado com seu produto. A empresa
não suplantou aspectos legais e burocráticos
para vender e comercializar produtos usados em
salas de cirurgia. A pequena sala no Centro Incubador
de Empresas Tecnológicas (Cietec) pode
montar até 12 mil transdutores por ano.
Mas dificilmente passaria pelas normas da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). O transdutor, por se tratar de produto
para cirurgia, exige uma porção
de certificações referentes à
assepsia do modo de produção. "Ficamos
tanto tempo enfiados na pesquisa que descuidamos
do mercado e de todos os aspectos que circundam
o lançamento de um produto cirúrgico",
lamenta Roberto Gouvêa. "Depois que
dominamos o processo de montagem, descobrimos
que uma grande empresa do setor médico
estava prestes a lançar o transdutor montado
no Brasil", afirma.
De fato, a Braile
Biomédica, de São José do
Rio Preto, interior de São Paulo, prepara-se
para lançar em janeiro seu transdutor hidrostático
de pressão arterial descartável.
A empresa patenteou uma das peças internas
— de conexão — de seu aparelho.
"Não posso dar detalhes de produção
e preço, pois o processo de transferência
da pesquisa para a produção e comercialização
é confidencial. Mas o produto já
foi aprovado em todas as instâncias e está
sendo testado por centros cirúrgicos parceiros.
Estamos acertando os últimos detalhes,
como a questão de embalagem", disse
o engenheiro Ricardo Barbosa, do Laboratório
de Pesquisa da Empresa, a PIPE —
Pequenas que Inovam. Na conversa,
Ricardo contou que ajudou a desenvolver o dispositivo.
O mercado brasileiro consome, atualmente, 300
mil transdutores descartáveis por ano.
Existem outras três empresas que importam
e comercializam o produto a um preço médio
de US$ 90 cada. A Braile, fundada pelo cirurgião
cardíaco Domingo Braile, é a única
empresa brasileira do segmento de aparelhos para
cirurgia cardíaca com tecnologia 100% nacional.
Há 30 anos, a Braile produz desde bomba
e máquina para fazer circular o sangue
fora do corpo do paciente até próteses
biológicas de válvulas de coração
e marca-passos. A empresa de São José
do Rio Preto exporta 15% de sua produção
para 30 países.
É com esta empresa nacional que os acadêmicos
da Torr terão de concorrer para vender
seu transdutor. "O mercado para transdutores
está saturado. O mais vantajoso agora para
quem quer entrar neste segmento é juntar
forças", avalia Barbosa, da Braile,
ao saber da situação da Torr.
Mas a pesquisa
não foi em vão. Além de desenvolver
um método automatizado para colocar gel
no chip, os pesquisadores da Torr cresceram
em conhecimento sobre sensores de pressão
— que pode ser usado em qualquer outra área
industrial. "O PIPE foi muito bom, mas acho
que a Fapesp poderia acrescentar ao projeto uma
auditoria especializada na área de negócios,
de mercado, para que o pesquisador não
fosse surpreendido neste aspecto", finaliza
Charry Rodriguez.