Publicado em 13 de novembro 2006




Torr Microssistemas Integrados de Pressão
Empresa concentrada em desenvolvimento de produto teve sucesso,
mas se esqueceu da concorrência e das normas sanitárias; e agora?

Davi Molinari

Com forte sotaque castelhano, o pesquisador e professor Edgar Charry Rodriguez, veterano engenheiro elétrico, doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) em 1974, explica como dominou o processo de produção de um dispositivo indispensável nas salas de cirurgia para monitorar a pressão arterial do paciente — especialmente se a cirurgia é cardíaca. O dispositivo transforma os sinais da pressão arterial vindos do sistema circulatório em sinais eletrônicos que podem ser acompanhados por um monitor. Pela capacidade de traduzir os sinais, o aparelho recebe o nome de transdutor descartável para pressão sanguínea. O aparelho lembra uma sonda intravenosa, um tubo de silicone com entrada para medicamento; mas é muito mais que isso. Um líquido desce pelo tubo até o paciente; é o meio pelo qual o sinal da pressão arterial trafega (por isso, o transdutor é chamado de hidrostático), até chegar a um sensor de silício. Dele saem fios e cabos que levam o sinal até os monitores de vídeo.

Com o transdutor em mãos, o professor Charry começa a desmontá-lo para exibir todos os seus componentes. O coração do transdutor é o sensor de pressão de silício — um chip de um centímetro quadrado, sensível às pressões sistólica e diastólica que se originam do batimento cardíaco. Ele fica dentro de uma cápsula interna, protegido por um gel do líquido que percorre a sonda. Essa cápsula, por sua vez, fica dentro de outra cápsula, externa, de onde saem os fios e os tubos plásticos. Por fim, tudo está assentado sobre uma plataforma que serve de suporte para os resistores e para a conexão elétrica.

Os transdutores usados atualmente no Brasil são importados. Em 2001, a Torr Microssistemas Integrados de Pressão propôs à Fapesp desenvolver o primeiro similar montado no País, dentro do programa que apóia a pesquisa na pequena empresa. Para dominar os parâmetros de montagem e calibrar todos os componentes do transdutor, a Torr levou cinco anos. Charry envolveu no projeto a dedicação de uma equipe formada por dois engenheiros elétricos, Roberto Gouvêa e Jaime Lassu, e uma engenheira eletrônica, Carla Andrade. O investimento do PIPE foi de R$ 155 mil, usados na compra de equipamentos — microscópio ótico, calibrador de pressão, voltímetros — e no desenvolvimento de uma máquina automática de enchimento a vácuo de gel.

Experiência científica e tecnológica

O projeto cumpriu seu objetivo principal, descrito como "encapsulamento completo" do transdutor, de acordo com as normas internacionais para equipamento cirúrgico de monitoramento de pressão arterial. A tecnologia em que o produto se fundamenta existe há 20 anos: é a tecnologia MEMS (Micro Electro Mechanical System), da sigla em inglês para a expressão microssistemas eletromecânicos. "Os sensores de pressão de silício são os principais produtos originados desta tecnologia", afirma Charry. O Currículo Lattes do pesquisador mostra sua experiência em microeletrônica — por exemplo, publicou 13 artigos em periódicos científicos e 62 trabalhos completos em anais de congressos. Faz parte do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica (Poli) da USP. O currículo também mostra que Charry tem interesse em pesquisa tecnológica — há cinco referências a desenvolvimento de processos e produtos. Não por acaso, cinco dissertações de mestrado e uma tese de doutorado sob sua orientação trataram do tema sensor de pressão. Ao lado do engenheiro Jacobus Swart e de Joel Pereira de Souza, criou o primeiro circuito brasileiro de memória — conhecido hoje na computação como memória RAM. Com 3 mil transistores, armazenava 2 mil bytes de informação.

O dono da Torr é colombiano; graduou-se lá engenheiro elétrico, em 1962. Fez seu mestrado no México; chegou ao Brasil para se doutorar, em 1971, e aqui se radicou. Lastima que o País tenha "perdido o bonde da microeletrônica" e que não tenha mais pernas para entrar numa indústria cujos produtos desabam de preço e a escala cresce continuamente. "Houve época em que pensamos ser possível produzir o chip do transdutor aqui. Mas o investimento inicial é tão alto que é melhor fazer como a China que importa de Cingapura ou de outros países 85% dos chips de que precisa em sua indústria eletrônica”, afirma.

Vicissitudes

Mas mesmo com todo o cabedal do pesquisador, a Torr pode não lograr sucesso de mercado com seu produto. A empresa não suplantou aspectos legais e burocráticos para vender e comercializar produtos usados em salas de cirurgia. A pequena sala no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) pode montar até 12 mil transdutores por ano. Mas dificilmente passaria pelas normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O transdutor, por se tratar de produto para cirurgia, exige uma porção de certificações referentes à assepsia do modo de produção. "Ficamos tanto tempo enfiados na pesquisa que descuidamos do mercado e de todos os aspectos que circundam o lançamento de um produto cirúrgico", lamenta Roberto Gouvêa. "Depois que dominamos o processo de montagem, descobrimos que uma grande empresa do setor médico estava prestes a lançar o transdutor montado no Brasil", afirma.

De fato, a Braile Biomédica, de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, prepara-se para lançar em janeiro seu transdutor hidrostático de pressão arterial descartável. A empresa patenteou uma das peças internas — de conexão — de seu aparelho. "Não posso dar detalhes de produção e preço, pois o processo de transferência da pesquisa para a produção e comercialização é confidencial. Mas o produto já foi aprovado em todas as instâncias e está sendo testado por centros cirúrgicos parceiros. Estamos acertando os últimos detalhes, como a questão de embalagem", disse o engenheiro Ricardo Barbosa, do Laboratório de Pesquisa da Empresa, a PIPE — Pequenas que Inovam. Na conversa, Ricardo contou que ajudou a desenvolver o dispositivo.

O mercado brasileiro consome, atualmente, 300 mil transdutores descartáveis por ano. Existem outras três empresas que importam e comercializam o produto a um preço médio de US$ 90 cada. A Braile, fundada pelo cirurgião cardíaco Domingo Braile, é a única empresa brasileira do segmento de aparelhos para cirurgia cardíaca com tecnologia 100% nacional. Há 30 anos, a Braile produz desde bomba e máquina para fazer circular o sangue fora do corpo do paciente até próteses biológicas de válvulas de coração e marca-passos. A empresa de São José do Rio Preto exporta 15% de sua produção para 30 países.

É com esta empresa nacional que os acadêmicos da Torr terão de concorrer para vender seu transdutor. "O mercado para transdutores está saturado. O mais vantajoso agora para quem quer entrar neste segmento é juntar forças", avalia Barbosa, da Braile, ao saber da situação da Torr.

Mas a pesquisa não foi em vão. Além de desenvolver um método automatizado para colocar gel no chip, os pesquisadores da Torr cresceram em conhecimento sobre sensores de pressão — que pode ser usado em qualquer outra área industrial. "O PIPE foi muito bom, mas acho que a Fapesp poderia acrescentar ao projeto uma auditoria especializada na área de negócios, de mercado, para que o pesquisador não fosse surpreendido neste aspecto", finaliza Charry Rodriguez.