Aflord
Associação faz
parceria com núcleo de biotecnologia da UMC
para melhoramento genético de orquídea
nativa da Serra do Mar
Evanildo
da Silveira
Pode-se dizer
que a Associação dos Floricultores
da Região da Via Dutra (Aflord) tem suas
raízes mais remotas do outro lado do mundo,
mais precisamente em Yamagata, cidade do interior
do Japão onde nasceu seu fundador, Katsuya
Araki. Empreendedor por natureza, Araki desde
criança alimentou o sonho de morar em outro
país. Em 1961, desembarcou no Brasil, trazendo
na bagagem um diploma do curso de Colonização
da Universidade de Agronomia de Tóquio
e a experiência de um estágio na
Califórnia, nos Estados Unidos. Em 1981,
ele fundou a Aflord, que hoje tem 76 associados.
São pequenos
e médios produtores de flores, todos de
origem japonesa, instalados ao longo da rodovia
Presidente Dutra, nos municípios de Taubaté,
São José dos Campos, Jacareí,
Guararema, Santa Isabel, Mogi das Cruzes, Arujá,
Itaquaquecetuba e Guarulhos. "Nós
cultivamos mais de 360 variedades, 85% das quais
de orquídeas", diz Luiz Kei, responsável
pela área de marketing, porta-voz
da associação e também produtor
de orquídeas. "Produzimos também
begônias, kalanchoe (também conhecida
como flor-da-fortuna ou flor-do-papai), crisântemos,
antúrios, lisiantos e rosas. São
plantas de vaso, flores de corte, folhagens, árvores
e arbustos e forração para jardins."
A Aflord dá
apoio e suporte técnico aos associados,
colocando à disposição deles
agrônomos especializados na produção
de flores; e oferece ainda a seus associados fertilizantes,
produzidos por ela própria, e um laboratório
de análises de pragas e doenças.
Pertencer à associação também
permite aos produtores ter acesso a novas tecnologias,
pois a Aflord mantém contato com empresas
de desenvolvimento de novos produtos, técnicas
e equipamentos na área do cultivo de flores.
Em 2001, a direção
achou que estava na hora de dar um salto de qualidade.
Também no mundo das flores, falou em salto
de qualidade, falou em pesquisa e desenvolvimento.
O projeto de pesquisa
A associação
decidiu que seria vantajoso fazer o melhoramento
genético da orquídea Oncidium
flexuosum, nativa da Mata Atlântica
e também conhecida como chuva-de-ouro.
Para isso, juntou-se ao Núcleo Integrado
de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes
(UMC) e solicitou um financiamento à Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp), dentro do programa PIPE, que apóia
as pequenas empresas (e também os pequenos
produtores) interessadas em inovar para crescer.
A escolha dessa espécie não foi
ao acaso. O agrônomo Hiroshi Ikuta, da UMC,
coordenador do projeto aprovado, explica que ela
foi escolhida por ser uma flor rústica
e resistente, que se originou na região
litorânea da Mata Atlântica e depois
subiu a serra e ali se estabeleceu também.
Nesse processo de dispersão, a Oncidium
se dividiu em dois subgrupos, cuja principal diferença
hoje é a época em que florescem.
"Com a do litoral isso ocorre entre abril
e agosto e com a da serra, em novembro e dezembro",
conta Ikuta. "Isso se deve ao frio, que atrapalha
o florescimento. Por isso, as que vivem na região
serrana florescem no verão, quando ali
o clima é mais ameno."
O que os produtores
queriam, no entanto, era ter uma alternativa para
a entressafra, entre setembro e outubro. Então
Ikuta resolveu cruzar os dois grupos para ver
se conseguia um híbrido que florescesse
nesses dois meses. Deu certo. Com uma vantagem
a mais. "A planta resultante do cruzamento
artificial é mais vigorosa e se adapta
bem ao clima da região de Mogi das Cruzes,
onde fica a maioria dos produtores", diz
Ikuta. Optou-se pelo cruzamento artificial porque
a Oncidium se reproduz por polinização
entre duas plantas, feita por insetos, principalmente
abelhas. Como os dois subgrupos vivem em regiões
diferentes, dificilmente eles cruzam naturalmente.
O projeto da Aflord recebeu do PIPE, no total,
R$ 156.471,09 entre 2002 e 2004, para o desenvolvimento
das novas variedades. O projeto está em
andamento. "Também procuramos entender
como ocorre a transmissão das características
genéticas importantes para a qualidade
do produto", explica a engenheira agrônoma
Marta Yabase, responsável na Aflord pelo
acompanhamento do projeto. "Entre elas, estão
o vigor das plantas, hastes florais longas e firmes,
cachos de flor volumosos e com boa durabilidade
pós-colheita, plantas produtivas e com
florescimento durante o ano todo." Marta
conta que, até 2002, os produtores e técnicos
da Aflord realizavam seus próprios cruzamentos
para incrementar a produção comercial,
obtendo alguns materiais interessantes e outros
ruins, como num jogo de azar. "Ou de sorte",
acrescenta. Outro benefício: a aproximação
entre a associação e o pesquisador
Ikuta, da UMC. "Ele vê na cultura de
orquídeas uma importante alternativa para
os produtores, cujas propriedades estão
localizadas em regiões de proteção
ambiental e de mananciais da Mata Atlântica",
diz ela. O banco de informações
permitirá, espera, que não seja
mais necessário adquirir cultivares desenvolvidos
no exterior.
Ensaios no campo
Os melhores cruzamentos obtidos até agora
estão sendo divididos entre os produtores
interessados, a fim de observar a adaptação
à região e ao sistema de cultivo.
Um deles é Takemi Tanaka, que cultiva orquídeas
numa área de mil metros quadrados, em Mogi
das Cruzes. Ele receberá cerca de cem mudas
da Oncidium híbrida, que floresce
em setembro e outubro. "Nessa época
nossa produção cai muito",
diz Tanaka. "Precisamos de uma alternativa
para complementar a produção na
entressafra. Vamos experimentar para ver se esse
híbrido é uma boa opção."
Os testes de Tanaka
ajudarão os pesquisadores a definir os
melhores híbridos. Os cruzamentos que se
mostrarem superiores nos testes em campo podem
ser repetidos e dar origem à produção
de mudas em escala comercial por meio de semeadura
in vitro. "Caso haja uma planta
individual excepcional, esta poderá ser
multiplicada por micropropagação
no laboratório da Aflord", explica
Marta. "As melhores plantas estão
sendo mantidas para prosseguir o programa de melhoramento,
que envolve o cruzamento entre plantas selecionadas."
O mercado
de flores
Hoje, a produção
média anual dos associados da Aflord é
de 100 mil maços de orquídeas de
corte, que são vendidas em buquês,
e 1,5 milhão de vasos. Cada maço,
que contém cerca de 15 galhos com 20 flores,
é vendido por algo entre R$ 5 e R$ 20.
A caixa com seis vasos custa entre R$ 60 e R$
150. Para o consumidor final, no entanto, esse
preço é até três vezes
mais caro.
Esse comércio
é uma pequena parte do mercado brasileiro
de flores, que movimenta anualmente um valor entre
US$ 750 milhões e US$ 800 milhões,
segundo dados do Instituto Brasileiro de Floricultura
(Ibraflor). São mais de 4 mil produtores,
cultivando uma área de cerca de 6 mil hectares
anualmente, em 304 municípios brasileiros
em 12 pólos de produção,
a maior parte no Estado de São Paulo. Em
termos globais, estima-se que a atividade responda
pela geração de mais de 110 mil
empregos, dos quais 45 mil (40,9%) na produção,
8 mil (7,3%) na distribuição, 53
mil (48,2%) no comércio varejistas e 4
mil (3,6%) em outras funções, principalmente
nos segmentos de apoio.
A floricultura
brasileira é pequena, se comparada ao mercado
mundial, que é de US$ 48 bilhões
anuais e gera um fluxo no comércio internacional
da ordem de US$ 9 bilhões anualmente. Esse
mercado está hoje concentrado em países
como Holanda, Colômbia, Itália, Dinamarca,
Bélgica, Quênia, Zimbábue,
Costa Rica, Equador, Austrália, Malásia,
Tailândia, Israel, EUA (Havaí). A
participação do Brasil nesse mercado
é de apenas 0,22%. No ano passado, as exportações
brasileiras de flores e plantas somaram US$ 25,75
milhões, o que representou crescimento
de 9,58% sobre os resultados do ano anterior.
Por isso, o projeto
de melhoramento genético da Oncidium
também é importante para o Brasil.
Até agora, segundo a Aflord, os estudos
mais aprofundados com relação à
fisiologia do desenvolvimento e do florescimento
do gênero Oncidium foram realizados
fora do país. Marta vê com otimismo
o futuro do projeto e os resultados que poderão
vir a ser alcançados. "Considerando
a grande variabilidade genética das espécies
de Oncidium nativas da Serra do Mar que
tivemos oportunidade de conhecer, o potencial
do projeto é enorme", diz. "Várias
delas só eram conhecidas entre colecionadores
e praticamente não eram estudadas. Agora,
a partir de nossas pesquisas, elas poderão
dar origem a novos híbridos para fins comerciais,
adaptados às condições de
clima, que causem baixo impacto ao ambiente e
realmente sejam alternativas viáveis aos
pequenos produtores de flores."