Publicado em 13 de novembro 2006




Aflord
Associação faz parceria com núcleo de biotecnologia da UMC
para melhoramento genético de orquídea nativa da Serra do Mar

Evanildo da Silveira

Pode-se dizer que a Associação dos Floricultores da Região da Via Dutra (Aflord) tem suas raízes mais remotas do outro lado do mundo, mais precisamente em Yamagata, cidade do interior do Japão onde nasceu seu fundador, Katsuya Araki. Empreendedor por natureza, Araki desde criança alimentou o sonho de morar em outro país. Em 1961, desembarcou no Brasil, trazendo na bagagem um diploma do curso de Colonização da Universidade de Agronomia de Tóquio e a experiência de um estágio na Califórnia, nos Estados Unidos. Em 1981, ele fundou a Aflord, que hoje tem 76 associados.

São pequenos e médios produtores de flores, todos de origem japonesa, instalados ao longo da rodovia Presidente Dutra, nos municípios de Taubaté, São José dos Campos, Jacareí, Guararema, Santa Isabel, Mogi das Cruzes, Arujá, Itaquaquecetuba e Guarulhos. "Nós cultivamos mais de 360 variedades, 85% das quais de orquídeas", diz Luiz Kei, responsável pela área de marketing, porta-voz da associação e também produtor de orquídeas. "Produzimos também begônias, kalanchoe (também conhecida como flor-da-fortuna ou flor-do-papai), crisântemos, antúrios, lisiantos e rosas. São plantas de vaso, flores de corte, folhagens, árvores e arbustos e forração para jardins."

A Aflord dá apoio e suporte técnico aos associados, colocando à disposição deles agrônomos especializados na produção de flores; e oferece ainda a seus associados fertilizantes, produzidos por ela própria, e um laboratório de análises de pragas e doenças. Pertencer à associação também permite aos produtores ter acesso a novas tecnologias, pois a Aflord mantém contato com empresas de desenvolvimento de novos produtos, técnicas e equipamentos na área do cultivo de flores.

Em 2001, a direção achou que estava na hora de dar um salto de qualidade. Também no mundo das flores, falou em salto de qualidade, falou em pesquisa e desenvolvimento.

O projeto de pesquisa

A associação decidiu que seria vantajoso fazer o melhoramento genético da orquídea Oncidium flexuosum, nativa da Mata Atlântica e também conhecida como chuva-de-ouro. Para isso, juntou-se ao Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e solicitou um financiamento à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), dentro do programa PIPE, que apóia as pequenas empresas (e também os pequenos produtores) interessadas em inovar para crescer. A escolha dessa espécie não foi ao acaso. O agrônomo Hiroshi Ikuta, da UMC, coordenador do projeto aprovado, explica que ela foi escolhida por ser uma flor rústica e resistente, que se originou na região litorânea da Mata Atlântica e depois subiu a serra e ali se estabeleceu também. Nesse processo de dispersão, a Oncidium se dividiu em dois subgrupos, cuja principal diferença hoje é a época em que florescem. "Com a do litoral isso ocorre entre abril e agosto e com a da serra, em novembro e dezembro", conta Ikuta. "Isso se deve ao frio, que atrapalha o florescimento. Por isso, as que vivem na região serrana florescem no verão, quando ali o clima é mais ameno."

O que os produtores queriam, no entanto, era ter uma alternativa para a entressafra, entre setembro e outubro. Então Ikuta resolveu cruzar os dois grupos para ver se conseguia um híbrido que florescesse nesses dois meses. Deu certo. Com uma vantagem a mais. "A planta resultante do cruzamento artificial é mais vigorosa e se adapta bem ao clima da região de Mogi das Cruzes, onde fica a maioria dos produtores", diz Ikuta. Optou-se pelo cruzamento artificial porque a Oncidium se reproduz por polinização entre duas plantas, feita por insetos, principalmente abelhas. Como os dois subgrupos vivem em regiões diferentes, dificilmente eles cruzam naturalmente.

O projeto da Aflord recebeu do PIPE, no total, R$ 156.471,09 entre 2002 e 2004, para o desenvolvimento das novas variedades. O projeto está em andamento. "Também procuramos entender como ocorre a transmissão das características genéticas importantes para a qualidade do produto", explica a engenheira agrônoma Marta Yabase, responsável na Aflord pelo acompanhamento do projeto. "Entre elas, estão o vigor das plantas, hastes florais longas e firmes, cachos de flor volumosos e com boa durabilidade pós-colheita, plantas produtivas e com florescimento durante o ano todo." Marta conta que, até 2002, os produtores e técnicos da Aflord realizavam seus próprios cruzamentos para incrementar a produção comercial, obtendo alguns materiais interessantes e outros ruins, como num jogo de azar. "Ou de sorte", acrescenta. Outro benefício: a aproximação entre a associação e o pesquisador Ikuta, da UMC. "Ele vê na cultura de orquídeas uma importante alternativa para os produtores, cujas propriedades estão localizadas em regiões de proteção ambiental e de mananciais da Mata Atlântica", diz ela. O banco de informações permitirá, espera, que não seja mais necessário adquirir cultivares desenvolvidos no exterior.

Ensaios no campo

Os melhores cruzamentos obtidos até agora estão sendo divididos entre os produtores interessados, a fim de observar a adaptação à região e ao sistema de cultivo. Um deles é Takemi Tanaka, que cultiva orquídeas numa área de mil metros quadrados, em Mogi das Cruzes. Ele receberá cerca de cem mudas da Oncidium híbrida, que floresce em setembro e outubro. "Nessa época nossa produção cai muito", diz Tanaka. "Precisamos de uma alternativa para complementar a produção na entressafra. Vamos experimentar para ver se esse híbrido é uma boa opção."

Os testes de Tanaka ajudarão os pesquisadores a definir os melhores híbridos. Os cruzamentos que se mostrarem superiores nos testes em campo podem ser repetidos e dar origem à produção de mudas em escala comercial por meio de semeadura in vitro. "Caso haja uma planta individual excepcional, esta poderá ser multiplicada por micropropagação no laboratório da Aflord", explica Marta. "As melhores plantas estão sendo mantidas para prosseguir o programa de melhoramento, que envolve o cruzamento entre plantas selecionadas."

O mercado de flores

Hoje, a produção média anual dos associados da Aflord é de 100 mil maços de orquídeas de corte, que são vendidas em buquês, e 1,5 milhão de vasos. Cada maço, que contém cerca de 15 galhos com 20 flores, é vendido por algo entre R$ 5 e R$ 20. A caixa com seis vasos custa entre R$ 60 e R$ 150. Para o consumidor final, no entanto, esse preço é até três vezes mais caro.

Esse comércio é uma pequena parte do mercado brasileiro de flores, que movimenta anualmente um valor entre US$ 750 milhões e US$ 800 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor). São mais de 4 mil produtores, cultivando uma área de cerca de 6 mil hectares anualmente, em 304 municípios brasileiros em 12 pólos de produção, a maior parte no Estado de São Paulo. Em termos globais, estima-se que a atividade responda pela geração de mais de 110 mil empregos, dos quais 45 mil (40,9%) na produção, 8 mil (7,3%) na distribuição, 53 mil (48,2%) no comércio varejistas e 4 mil (3,6%) em outras funções, principalmente nos segmentos de apoio.

A floricultura brasileira é pequena, se comparada ao mercado mundial, que é de US$ 48 bilhões anuais e gera um fluxo no comércio internacional da ordem de US$ 9 bilhões anualmente. Esse mercado está hoje concentrado em países como Holanda, Colômbia, Itália, Dinamarca, Bélgica, Quênia, Zimbábue, Costa Rica, Equador, Austrália, Malásia, Tailândia, Israel, EUA (Havaí). A participação do Brasil nesse mercado é de apenas 0,22%. No ano passado, as exportações brasileiras de flores e plantas somaram US$ 25,75 milhões, o que representou crescimento de 9,58% sobre os resultados do ano anterior.

Por isso, o projeto de melhoramento genético da Oncidium também é importante para o Brasil. Até agora, segundo a Aflord, os estudos mais aprofundados com relação à fisiologia do desenvolvimento e do florescimento do gênero Oncidium foram realizados fora do país. Marta vê com otimismo o futuro do projeto e os resultados que poderão vir a ser alcançados. "Considerando a grande variabilidade genética das espécies de Oncidium nativas da Serra do Mar que tivemos oportunidade de conhecer, o potencial do projeto é enorme", diz. "Várias delas só eram conhecidas entre colecionadores e praticamente não eram estudadas. Agora, a partir de nossas pesquisas, elas poderão dar origem a novos híbridos para fins comerciais, adaptados às condições de clima, que causem baixo impacto ao ambiente e realmente sejam alternativas viáveis aos pequenos produtores de flores."