Publicado em 30 de outubro 2006





VacuoFlex
Produto de eficiência comprovada usa deposição de filmes finos para atenuar calor: fase industrial ja começou em setembro

Rachel Bueno

O engenheiro civil Antonio Sérgio Assunção Tavares ficou intrigado quando viu um colega colocar uma manta de alumínio embaixo do telhado da própria casa, há cerca de cinco anos. O colega disse-lhe que a manta era um bom isolante térmico, mas ele não se convenceu totalmente. "Achei aquilo meio esquisito", conta. Para tirar a dúvida, pegou um pedaço da manta para fazer um teste — e, para sua surpresa, constatou que ela de fato "funcionava muito bem". Essa descoberta foi o ponto de partida para a idéia que o levou a fundar a VacuoFlex: desenvolver um filme plástico metalizado e flexível, que pudesse ser colado sobre lonas, tecidos, chapas de aço e outros materiais para reduzir a passagem de radiação solar. Qual a vantagem disso? Produzir, a baixo custo, barracas de camping cujo interior não se transforma em um forno, contêineres que permitem o transporte de artigos sensíveis a temperaturas mais altas e cortinas que ajudam a diminuir o gasto de energia com ar-condicionado em até 61%, só para citar alguns exemplos. As cortinas deverão ser os primeiros produtos cobertos com o filme a chegar ao mercado — daqui a dois meses, na estimativa de Tavares. A VacuoFlex já tem um equipamento adaptado para fabricar o revestimento metalizado em escala industrial.

Em 2002, Tavares conseguiu instalar o negócio em uma das primeiras vagas abertas depois da criação da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp), no ano anterior. Ele chegou à incubadora trazendo consigo uma experiência anterior como empresário e inventor. Formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e pós-graduado em arquitetura tropical pela Architectural Association de Londres, foi dono da Woodcraft, que desenvolveu e lançou o carpete de madeira. Como o produto não havia sido patenteado, surgiram muitas versões concorrentes e Tavares decidiu fechar a empresa. Ele também já teve um escritório de arquitetura e trabalhou na Promon Engenharia.

Depois que entrou na Incamp o engenheiro foi procurado pelo físico Carlos Salles Lambert, funcionário do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp. O físico ficou sócio da VacuoFlex e deu toda a consultoria relacionada à tecnologia empregada na fabricação do filme plástico metalizado da empresa.

A tecnologia, explica Tavares, é a de deposição a vácuo de filmes finos — utilizada, por exemplo, na produção de células fotovoltaicas e instrumentos óticos. A diferença, no caso da VacuoFlex, é que as deposições de filmes finos não são feitas sobre materiais rígidos, mas sobre plástico flexível. Tavares já pediu a patente da tecnologia adaptada, à qual deu o nome de Radiant Control Films (RCF, ou Filmes de Controle Radiante), e da aplicação do produto que inventou em cortinas. Ele também é autor de mais quatro pedidos de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Fase I do PIPE para calcular a economia

As cortinas revestidas com o filme plástico metalizado foram tema de um projeto da fase I do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), aprovado em 2002 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A VacuoFlex recebeu R$ 75 mil da agência para calcular a economia de energia elétrica gasta com o ar-condicionado proporcionada pelo uso das cortinas. Primeiro, a empresa fez uma simulação no computador, tendo como base os dados sobre radiação solar no Brasil levantados pelo Laboratório de Energia Solar (Labsolar) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A simulação, que contou com a ajuda de um aluno de arquitetura da Unicamp, mostrou que a economia energética em um andar de um edifício seria de 60% durante um dia típico de verão.

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) deveria fazer as medições reais logo em seguida, mas isso demorou mais de um ano e meio para acontecer. Segundo Tavares, não havia no Brasil aparelhagem adequada para medir a passagem de energia solar pela cortina. Foi preciso importar equipamentos para que o IPT construísse sua própria bancada de testes — e, para piorar, o procedimento foi retardado por causa de uma greve na Receita Federal e de problemas com a empresa encarregada da importação. Os resultados da medição saíram neste mês e mostraram uma economia energética de 61% em um dos andares de um prédio comercial na cidade de São Paulo. Agora a VacuoFlex aguarda o julgamento da segunda fase do projeto, orçada em R$ 380 mil. O objetivo da empresa é ajustar a produção do filme plástico metalizado para a escala industrial, e testá-lo em cortinas de hotéis e escritórios em Fortaleza (CE).

A VacuoFlex costumava recorrer a fabricantes de embalagens flexíveis metalizadas — como pacotes de bolachas e salgadinhos — para produzir as amostras do filme usadas em seus testes. Segundo Tavares, as máquinas "grandes e caras" que confeccionam essas embalagens são as mesmas necessárias para produzir o filme, a vácuo. Ele conta, sem revelar o nome, que um fabricante já está adaptando seus equipamentos para produzir o filme, com um metro e meio de largura, por meio de uma técnica especial conhecida como sputtering, pulverização catódica ou bombardeamento iônico. Essa técnica consiste na pulverização de íons metálicos — inclusive de ligas — sobre o plástico, também a vácuo. O engenheiro afirma que o filme feito dessa maneira pode apresentar características como resistência à abrasão e à umidade. Nos últimos meses, o sócio Carlos Salles Lambert concluiu a adaptação de um equipamento para produzir filmes com um metro de largura por sputtering.

Dificuldade para licenciar — mas já licenciando

A demora para ajustar o processo à escala industrial vinha sendo um problema para a VacuoFlex licenciar sua tecnologia. A empresa — que se graduou em julho de 2005, mas ainda ocupa uma sala na Incamp — ganhou este ano mais um sócio para "dar uma força na parte comercial", que Tavares considera "a mais difícil para as incubadas". O sócio é o engenheiro químico Marcos Medeiros, aposentado pela DuPont. Ele, Tavares e Lambert são as únicas pessoas ligadas à VacuoFlex.

Por enquanto, a empresa fechou apenas um acordo de licenciamento: em fevereiro do ano passado, com o Grupo Rentank. O grupo adiantou R$ 75 mil para a VacuoFlex testar seu filme plástico metalizado em lonas para galpões de armazenagem e coberturas de caminhões. Quando esses produtos chegarem ao mercado, ela receberá royalties de 5% sobre o preço de venda.

Tavares cita outras empresas interessadas no filme plástico metalizado. Uma delas é a Techno, que poderia fabricar chapas metálicas já revestidas. Há também a Ambev, que, de acordo com o engenheiro, já está testando uma lona para cobrir suas bebidas durante o transporte. Alem disso, existem algumas empresas que querem fabricar as cortinas.

O futuro, dependendo também da fase II do PIPE

A parceria com a empresa que está adaptando seus equipamentos para a técnica de sputtering somada à segunda fase do PIPE são os principais requisitos para o lançamento dos vários produtos que podem ser cobertos pelo filme plástico metalizado. As cortinas que Tavares espera ver no mercado daqui a dois meses deverão se valer, no início, do filme produzido pelo equipamento adaptado pelo sócio Lambert. A VacuoFlex também precisará fazer acordos com as empresas que colam o filme sobre lonas, tecidos, chapas de aço etc, chamadas de "convertedoras". De acordo com Tavares, para cada tipo de material são necessárias colas e máquinas diferentes.

Os testes feitos até agora com produtos variados são animadores. A Faculdades de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp verificou que as telhas de chapas de aço revestidas com o filme metalizado proporcionam o mesmo isolamento que as telhas térmicas equipadas com espuma de 50 milímetros de poliuretano — com a vantagem de que a primeira opção é bem mais barata. A Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) comparou caixas de laranjas cobertas por lonas convencionais e caixas cobertas por lonas com o filme aderido a elas. Nestas, a temperatura das frutas ficou oito graus mais baixa. "Isso pode aumentar muito a vida útil dos produtos", observa Tavares.

A VacuoFlex também tem dados de experimentos feitos por ela mesma. Em barracas de camping, a empresa constatou uma redução de 15 graus na temperatura radiante — que é, segundo Tavares, a média aritmética entre as temperaturas do ar e da lona. Em contêineres ou caminhões-baú, a queda registrada foi de sete graus e meio. Já o solo coberto por uma capa com o filme metalizado ficou 14 graus mais frio, o que permite o plantio de culturas de clima temperado no Brasil.