VacuoFlex
Produto de eficiência comprovada
usa deposição de filmes finos para atenuar calor:
fase industrial ja começou em setembro
Rachel
Bueno
O engenheiro civil
Antonio Sérgio Assunção Tavares
ficou intrigado quando viu um colega colocar uma
manta de alumínio embaixo do telhado da
própria casa, há cerca de cinco
anos. O colega disse-lhe que a manta era um bom
isolante térmico, mas ele não se
convenceu totalmente. "Achei aquilo meio
esquisito", conta. Para tirar a dúvida,
pegou um pedaço da manta para fazer um
teste — e, para sua surpresa, constatou
que ela de fato "funcionava muito bem".
Essa descoberta foi o ponto de partida para a
idéia que o levou a fundar a VacuoFlex:
desenvolver um filme plástico metalizado
e flexível, que pudesse ser colado sobre
lonas, tecidos, chapas de aço e outros
materiais para reduzir a passagem de radiação
solar. Qual a vantagem disso? Produzir, a baixo
custo, barracas de camping cujo interior
não se transforma em um forno, contêineres
que permitem o transporte de artigos sensíveis
a temperaturas mais altas e cortinas que ajudam
a diminuir o gasto de energia com ar-condicionado
em até 61%, só para citar alguns
exemplos. As cortinas deverão ser os primeiros
produtos cobertos com o filme a chegar ao mercado
— daqui a dois meses, na estimativa de Tavares.
A VacuoFlex já tem um equipamento adaptado
para fabricar o revestimento metalizado em escala
industrial.
Em 2002, Tavares
conseguiu instalar o negócio em uma das
primeiras vagas abertas depois da criação
da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica
da Unicamp (Incamp), no ano anterior. Ele chegou
à incubadora trazendo consigo uma experiência
anterior como empresário e inventor. Formado
pela Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo (Poli-USP) e pós-graduado
em arquitetura tropical pela Architectural Association
de Londres, foi dono da Woodcraft, que desenvolveu
e lançou o carpete de madeira. Como o produto
não havia sido patenteado, surgiram muitas
versões concorrentes e Tavares decidiu
fechar a empresa. Ele também já
teve um escritório de arquitetura e trabalhou
na Promon Engenharia.
Depois que entrou
na Incamp o engenheiro foi procurado pelo físico
Carlos Salles Lambert, funcionário do Instituto
de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp.
O físico ficou sócio da VacuoFlex
e deu toda a consultoria relacionada à
tecnologia empregada na fabricação
do filme plástico metalizado da empresa.
A tecnologia,
explica Tavares, é a de deposição
a vácuo de filmes finos — utilizada,
por exemplo, na produção de células
fotovoltaicas e instrumentos óticos. A
diferença, no caso da VacuoFlex, é
que as deposições de filmes finos
não são feitas sobre materiais rígidos,
mas sobre plástico flexível. Tavares
já pediu a patente da tecnologia adaptada,
à qual deu o nome de Radiant Control Films
(RCF, ou Filmes de Controle Radiante), e da aplicação
do produto que inventou em cortinas. Ele também
é autor de mais quatro pedidos de patente
no Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI).
Fase I
do PIPE para calcular a economia
As cortinas revestidas
com o filme plástico metalizado foram tema
de um projeto da fase I do Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE),
aprovado em 2002 pela Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). A VacuoFlex recebeu R$ 75 mil
da agência para calcular a economia de energia
elétrica gasta com o ar-condicionado proporcionada
pelo uso das cortinas. Primeiro, a empresa fez
uma simulação no computador, tendo
como base os dados sobre radiação
solar no Brasil levantados pelo Laboratório
de Energia Solar (Labsolar) da Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC). A simulação,
que contou com a ajuda de um aluno de arquitetura
da Unicamp, mostrou que a economia energética
em um andar de um edifício seria de 60%
durante um dia típico de verão.
O Instituto de
Pesquisas Tecnológicas (IPT) deveria fazer
as medições reais logo em seguida,
mas isso demorou mais de um ano e meio para acontecer.
Segundo Tavares, não havia no Brasil aparelhagem
adequada para medir a passagem de energia solar
pela cortina. Foi preciso importar equipamentos
para que o IPT construísse sua própria
bancada de testes — e, para piorar, o procedimento
foi retardado por causa de uma greve na Receita
Federal e de problemas com a empresa encarregada
da importação. Os resultados da
medição saíram neste mês
e mostraram uma economia energética de
61% em um dos andares de um prédio comercial
na cidade de São Paulo. Agora a VacuoFlex
aguarda o julgamento da segunda fase do projeto,
orçada em R$ 380 mil. O objetivo da empresa
é ajustar a produção do filme
plástico metalizado para a escala industrial,
e testá-lo em cortinas de hotéis
e escritórios em Fortaleza (CE).
A VacuoFlex costumava
recorrer a fabricantes de embalagens flexíveis
metalizadas — como pacotes de bolachas e
salgadinhos — para produzir as amostras
do filme usadas em seus testes. Segundo Tavares,
as máquinas "grandes e caras"
que confeccionam essas embalagens são as
mesmas necessárias para produzir o filme,
a vácuo. Ele conta, sem revelar o nome,
que um fabricante já está adaptando
seus equipamentos para produzir o filme, com um
metro e meio de largura, por meio de uma técnica
especial conhecida como sputtering, pulverização
catódica ou bombardeamento iônico.
Essa técnica consiste na pulverização
de íons metálicos — inclusive
de ligas — sobre o plástico, também
a vácuo. O engenheiro afirma que o filme
feito dessa maneira pode apresentar características
como resistência à abrasão
e à umidade. Nos últimos meses,
o sócio Carlos Salles Lambert concluiu
a adaptação de um equipamento para
produzir filmes com um metro de largura por sputtering.
Dificuldade
para licenciar — mas já licenciando
A demora para
ajustar o processo à escala industrial
vinha sendo um problema para a VacuoFlex licenciar
sua tecnologia. A empresa — que se graduou
em julho de 2005, mas ainda ocupa uma sala na
Incamp — ganhou este ano mais um sócio
para "dar uma força na parte comercial",
que Tavares considera "a mais difícil
para as incubadas". O sócio é
o engenheiro químico Marcos Medeiros, aposentado
pela DuPont. Ele, Tavares e Lambert são
as únicas pessoas ligadas à VacuoFlex.
Por enquanto,
a empresa fechou apenas um acordo de licenciamento:
em fevereiro do ano passado, com o Grupo Rentank.
O grupo adiantou R$ 75 mil para a VacuoFlex testar
seu filme plástico metalizado em lonas
para galpões de armazenagem e coberturas
de caminhões. Quando esses produtos chegarem
ao mercado, ela receberá royalties
de 5% sobre o preço de venda.
Tavares cita outras
empresas interessadas no filme plástico
metalizado. Uma delas é a Techno, que poderia
fabricar chapas metálicas já revestidas.
Há também a Ambev, que, de acordo
com o engenheiro, já está testando
uma lona para cobrir suas bebidas durante o transporte.
Alem disso, existem algumas empresas que querem
fabricar as cortinas.
O futuro,
dependendo também da fase II do PIPE
A parceria com
a empresa que está adaptando seus equipamentos
para a técnica de sputtering somada
à segunda fase do PIPE são os principais
requisitos para o lançamento dos vários
produtos que podem ser cobertos pelo filme plástico
metalizado. As cortinas que Tavares espera ver
no mercado daqui a dois meses deverão se
valer, no início, do filme produzido pelo
equipamento adaptado pelo sócio Lambert.
A VacuoFlex também precisará fazer
acordos com as empresas que colam o filme sobre
lonas, tecidos, chapas de aço etc, chamadas
de "convertedoras". De acordo com Tavares,
para cada tipo de material são necessárias
colas e máquinas diferentes.
Os testes feitos
até agora com produtos variados são
animadores. A Faculdades de Engenharia Civil,
Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp verificou
que as telhas de chapas de aço revestidas
com o filme metalizado proporcionam o mesmo isolamento
que as telhas térmicas equipadas com espuma
de 50 milímetros de poliuretano —
com a vantagem de que a primeira opção
é bem mais barata. A Faculdade de Engenharia
de Alimentos (FEA) comparou caixas de laranjas
cobertas por lonas convencionais e caixas cobertas
por lonas com o filme aderido a elas. Nestas,
a temperatura das frutas ficou oito graus mais
baixa. "Isso pode aumentar muito a vida útil
dos produtos", observa Tavares.
A VacuoFlex
também tem dados de experimentos feitos
por ela mesma. Em barracas de camping,
a empresa constatou uma redução
de 15 graus na temperatura radiante — que
é, segundo Tavares, a média aritmética
entre as temperaturas do ar e da lona. Em contêineres
ou caminhões-baú, a queda registrada
foi de sete graus e meio. Já o solo coberto
por uma capa com o filme metalizado ficou 14 graus
mais frio, o que permite o plantio de culturas
de clima temperado no Brasil.