Publicado em 30 de outubro 2006





Enalta Inovações Tecnológicas
Monitor de produtividade desenvolvido por empresa de São Carlos pode levar cana-de-açúcar a entrar na era da cultura de precisão

Rachel Bueno

Em 2004, durante um seminário acadêmico em Piracicaba (SP), a Enalta Inovações Tecnológicas soube que o engenheiro agrônomo Domingos Guilherme Cerri desenvolvia um monitor de produtividade específico para cana-de-açúcar como parte de sua tese de doutorado na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp. Como o projeto se encaixava perfeitamente em seu negócio, a empresa de São Carlos, no interior paulista, decidiu investir na transformação do protótipo universitário em produto comercial. Para isso, licenciou da Unicamp a patente do monitor; e pediu um financiamento à Fapesp dentro do PIPE, o programa que apóia as pequenas empresas interessadas em inovar. Dois anos depois, a Enalta comemora a venda dos dois primeiros monitores para uma multinacional que atua nos setores de alimentos, nutrição animal e fertilizantes, entre outros; a multinacional, por sua vez, contratou com a Usina da Pedra, da região de Ribeirão Preto, nordeste do Estado, a instalação dos monitores em duas (de 18) máquinas colhedoras de cana. Com os novos equipamentos, a usina espera ter mais subsídios para melhorar a produtividade dos 37 mil hectares plantados que explora.

Para o doutor Cerri, que coordena o PIPE do monitor, o desafio tecnológico foi unir eletrônica, mecânica, programação de software e a parte agronômica num só projeto. Para o orientador de seu doutorado, Paulo Graziano Magalhães, diretor da Feagri, o sistema marca a possibilidade da entrada da cultura da cana na era da agricultura de precisão — ou seja, daqui para frente os produtores dispõem de uma ferramenta para gerenciar a produção da maneira mais adequada para cada ponto da área plantada, levando em considerando as variações existentes na fertilidade do solo.

O novo monitor da Enalta analisa a produtividade das áreas em que a cana é colhida mecanicamente por meio de sensores que alimentam um software. Os sensores medem dados como o peso da cana que a esteira da colhedora joga no transbordo (veículo de transporte da cana até a usina) e a velocidade de deslocamento da máquina. Com esses dados, e mais as informações sobre a posição geográfica obtidas por meio de um GPS, o software gera um mapa de produtividade, a partir do qual é possível, por exemplo, identificar a melhor variedade de cana para determinado trecho da fazenda e corrigir a quantidade de fertilizante ou de água no solo.

O custo de cada monitor foi de R$ 30 mil. Nesse preço, estão incluídos o treinamento de funcionários e a instalação. De acordo com Cleber Manzoni, dono da Enalta, esse será o preço médio de venda do produto. Os fabricantes de colhedoras pagarão um pouco menos, por comprarem em quantidade. O empresário diz que há dois fabricantes interessados no sistema, mas não revela seus nomes. Contudo, ele adianta que em 2007 espera faturar entre R$ 450 mil e R$ 500 mil com a instalação de 15 monitores em máquinas já em operação nas usinas. Para 2008, prevê que as vendas dos aparelhos cheguem a R$ 1,5 milhão. Se essa expectativa se confirmar, será um grande salto para a Enalta: em 2005, a empresa faturou ao todo R$ 1 milhão; em 2006, deverá faturar R$ 1,6 milhão. Ou seja: a entrada dos monitores no mercado representará, para 2007, um aumento de 30% na receita desta pequena que inova.

PIPE faz parte do modelo de negócios

Trabalhar junto com universidades com o apoio da Fapesp para desenvolver produtos inovadores é o modelo de negócios da Enalta. O projeto do monitor foi o terceiro da empresa financiado pelo PIPE. Manzoni explica que os recursos do PIPE são utilizados para pagar testes, equipamentos, deslocamento para o campo e mão-de-obra qualificada. Segundo ele, a empresa procura contratar os pesquisadores que recebem bolsas do programa após o término dos projetos, pois eles já estão treinados. "É um esforço muito grande para adaptar os protótipos das universidades", afirma.

Para a empresa, o esforço vale a pena: um quarto projeto PIPE começou recentemente. Em fase I — para estudar a viabilidade —, o novo projeto, intitulado "Sistema de precisão para aplicação localizada de calcário a taxa variada", é uma parceria com pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). A Enalta também tem parcerias de pesquisa com o Laboratório de Automação Agrícola da Escola Politécnica (Poli) da USP, com a Embrapa Instrumentação Agropecuária e com a Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (FCA-Unesp).

O PIPE do monitor

Para desenvolver o monitor, a Enalta recebeu R$ 313,248 mil da Fapesp. O projeto foi aprovado no início de 2005 diretamente para a fase II do PIPE — isto é, sem estudo de viabilidade prévio — e terminará em fevereiro de 2007. Segundo Manzoni, a empresa investiu também recursos próprios — cerca de R$ 40 mil por ano — na área de engenharia, para melhorar o protótipo do sistema.

O empresário diz que o produto já está pronto para gerar os mapas de produtividade, mas ainda precisa de ajustes na função de pesagem da cana em tempo real. A Enalta fará esses ajustes na entressafra, que começa em dezembro, e espera concluí-los até abril, quando tem início a nova safra. A Usina São Martinho, de Pradópolis (SP), cederá uma colhedora de mudas de cana à empresa para o trabalho de melhoramento do sistema de pesagem. O gerente da Divisão Agrícola da Usina da Pedra, Sergio Luiz Selegato, informa que os dois monitores adquiridos pela multinacional também serão usados na entressafra durante a colheita das mudas para o plantio.

No contrato de licenciamento da patente do sistema, negociado com a Agência de Inovação da Unicamp (Inova), ficou acertado que a Enalta pagará royalties para a universidade durante dez anos. O valor dos royalties varia de acordo com a quantidade de sistemas que forem vendidos: até quatro unidades, equivale a 10% da venda; entre cinco e dez unidades, a 7%; de 11 a 50 unidades, a porcentagem cai para 5%; acima de 51 unidades, para 3%. No fim do ano será feito o primeiro balanço entre os parceiros. Se nenhum outro monitor for vendido até lá, a Unicamp receberá R$ 6 mil. Nesse caso, a universidade e a Feagri ficarão, cada uma, com um terço do montante, ou R$ 2 mil; os R$ 2 mil restantes serão divididos entre os autores da patente. Pelo contrato, a Enalta também se comprometeu a pagar R$ 32 mil à Unicamp, em 18 parcelas, para custar a parte do desenvolvimento feita na universidade.

Agricultura de precisão chega à cultura da cana

A chegada do monitor ao mercado abre caminho para o emprego da agricultura de precisão no cultivo da cana-de-açúcar no Brasil, afirma o professor Paulo Graziano, que orientou Domingos Cerri. Graziano diz que essa técnica ainda não é aplicada em escala comercial no País, embora existam muitos estudos teóricos sobre o assunto e algumas tentativas de grupos de pesquisa que trabalham com a cana colhida manualmente. Segundo ele, a tecnologia de produção da cana é bastante atrasada se comparada à de cereais como o milho, o trigo e a soja. "A colheita da soja é 100% mecanizada; a da cana, 35%. A tendência é aumentar a mecanização, mas o processo ainda é lento."

O baixo índice de mecanização é uma das barreiras para a expansão da área plantada — movimento que tem sido estimulado pelo crescimento da procura por combustíveis alternativos. "Não podemos pensar em mão-de-obra para fazer a colheita dessa área de expansão", enfatiza o professor. Ele calcula que o Brasil, maior produtor de cana do mundo, tenha hoje em torno de 5,4 milhões de hectares plantados. A cana é a terceira maior cultura do País, atrás apenas da soja e do milho.

Além de aumentar a mecanização no campo, Graziano diz ser necessário aprimorar as máquinas que fazem a colheita. "Apesar de as colhedoras sofrerem alguma alteração todos os anos, seu conceito ainda é antigo", afirma. Como exemplo, ele conta que as colhedoras de cana conseguem colher somente uma fileira plantada por vez, enquanto as de soja colhem várias linhas ao mesmo tempo. Outro problema diz respeito ao fato de o açúcar se concentrar junto ao pé da cana, obrigando que o corte seja feito o mais rente possível da terra. "Como a máquina não tem um bom equipamento para seguir esse perfil, ela às vezes leva solo para usina, o que é prejudicial", observa. "Além do mais, temos perdas que chegam a 10% da colheita."

As dificuldades não param por aí. Graziano lembra que é preciso encontrar um meio de aproveitar a palha da cana, que hoje é deixada no campo, e de melhorar as espécies para que produzam mais etanol. "Todos os melhoramentos genéticos e estudos feitos em cima da cana até hoje foram para que ela produzisse mais açúcar", comenta. "Este é o cenário que estamos vivendo. Precisamos investir em novas tecnologias."

Mais pesquisa, mais PIPE e mais uma empresa que inova!

A Feagri está fazendo sua parte — nas próximas semanas, realizará os testes finais com um sistema que desenvolveu para ajudar a reduzir o custo operacional das colhedoras, o Sistema Transbordo-Colhedora (STC). O transbordo, explica o professor, é composto por duas carretas puxadas por um trator. "Se a máquina parar e ele continuar, não há como dar marcha ré; é preciso fazer uma volta, o que atrasa a colheita", diz. Por isso é importante que o transbordo e a colhedora andem sempre paralelos, em sincronia. O problema, continua Graziano, é que hoje esse controle "é feito visualmente e por meio de buzinadas". O STC é bem mais confiável: seus sensores detectam o posicionamento do transbordo; se a colhedora for avançar, parar ou se o veículo já estiver totalmente carregado, um sistema de comunicação lhe transmite a informação eletronicamente. A idéia é que o produto seja comercializado pela Agricef, empresa que Domingos Cerri abriu na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp).

A dupla Feagri e Agricef deverá participar do próximo PIPE da Enalta juntamente com a Poli-USP, o CTC e a Embrapa Instrumentação Agropecuária. O pedido de financiamento já foi encaminhado à Fapesp, direto para a segunda fase do programa. O objetivo dos parceiros é desenvolver um sistema de gerenciamento global da colheita, do qual fará parte o monitor de produtividade. Esse sistema transmitirá para o escritório da usina todas as informações relacionadas aos transbordos, colhedoras e demais máquinas no campo. O escritório poderá programar melhor a fila de descarregamento na usina, pois saberá o volume de cana que cada máquina está colhendo e quanto cada transbordo está trazendo para a moagem. O sistema também será de grande utilidade no caso de quebra da colhedora. Quando isso acontece, conta o professor, a colheita pára, mas a usina, sem saber, continua mandando transbordos para serem carregados. "Quando a máquina parar, o operador já vai saber o porquê, e essa informação irá via wi-fi direto para a central da usina." Cleber Manzoni, dono da Enalta, está confiante no sucesso do projeto: "O corte, o carregamento e o transporte da cana representam 40% dos custos de produção nas usinas", observa.

A pequena Agricef é quem vai fornecer a parte mecânica do monitor de produtividade para a Enalta. A empresa incubada também está desenvolvendo uma nova tecnologia para produção de cana com recursos do PIPE. Trata-se de um "auxílio mecânico" para a colheita manual — ou seja, uma máquina que realiza as etapas mais pesadas da atividade no lugar do trabalhador. O projeto está sendo conduzido em parceria com a Feagri. A primeira fase terminou em setembro e a segunda deverá começar assim que a Fapesp aprovar o relatório do que foi feito até agora. A empresa já construiu o mecanismo de tração, a frente de alimentação da máquina, a unidade que vai tirar a palha da cana e a carreta de transporte. Para a próxima etapa ficarão a montagem e os testes do protótipo. De acordo com o engenheiro agrônomo Efraim Albrecht, coordenador do projeto e sócio de Cerri na empresa, o auxílio mecânico melhora as condições de trabalho do cortador de cana, aumenta a produção por trabalhador, não substitui totalmente a mão-de-obra e tem a vantagem de poder ser usado em terrenos declivosos, ao contrário das colhedoras convencionais.