Enalta
Inovações Tecnológicas
Monitor de produtividade desenvolvido
por empresa de São Carlos pode levar cana-de-açúcar
a entrar na era da cultura de precisão Rachel
Bueno
Em 2004, durante
um seminário acadêmico em Piracicaba
(SP), a Enalta Inovações Tecnológicas
soube que o engenheiro agrônomo Domingos
Guilherme Cerri desenvolvia um monitor de produtividade
específico para cana-de-açúcar
como parte de sua tese de doutorado na Faculdade
de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp.
Como o projeto se encaixava perfeitamente em seu
negócio, a empresa de São Carlos,
no interior paulista, decidiu investir na transformação
do protótipo universitário em produto
comercial. Para isso, licenciou da Unicamp a patente
do monitor; e pediu um financiamento à
Fapesp dentro do PIPE, o programa que apóia
as pequenas empresas interessadas em inovar. Dois
anos depois, a Enalta comemora a venda dos dois
primeiros monitores para uma multinacional que
atua nos setores de alimentos, nutrição
animal e fertilizantes, entre outros; a multinacional,
por sua vez, contratou com a Usina da Pedra, da
região de Ribeirão Preto, nordeste
do Estado, a instalação dos monitores
em duas (de 18) máquinas colhedoras de
cana. Com os novos equipamentos, a usina espera
ter mais subsídios para melhorar a produtividade
dos 37 mil hectares plantados que explora.
Para o doutor
Cerri, que coordena o PIPE do monitor, o desafio
tecnológico foi unir eletrônica,
mecânica, programação de software
e a parte agronômica num só projeto.
Para o orientador de seu doutorado, Paulo Graziano
Magalhães, diretor da Feagri, o sistema
marca a possibilidade da entrada da cultura da
cana na era da agricultura de precisão
— ou seja, daqui para frente os produtores
dispõem de uma ferramenta para gerenciar
a produção da maneira mais adequada
para cada ponto da área plantada, levando
em considerando as variações existentes
na fertilidade do solo.
O novo monitor
da Enalta analisa a produtividade das áreas
em que a cana é colhida mecanicamente por
meio de sensores que alimentam um software.
Os sensores medem dados como o peso da cana que
a esteira da colhedora joga no transbordo (veículo
de transporte da cana até a usina) e a
velocidade de deslocamento da máquina.
Com esses dados, e mais as informações
sobre a posição geográfica
obtidas por meio de um GPS, o software
gera um mapa de produtividade, a partir do qual
é possível, por exemplo, identificar
a melhor variedade de cana para determinado trecho
da fazenda e corrigir a quantidade de fertilizante
ou de água no solo.
O custo de cada
monitor foi de R$ 30 mil. Nesse preço,
estão incluídos o treinamento de
funcionários e a instalação.
De acordo com Cleber Manzoni, dono da Enalta,
esse será o preço médio de
venda do produto. Os fabricantes de colhedoras
pagarão um pouco menos, por comprarem em
quantidade. O empresário diz que há
dois fabricantes interessados no sistema, mas
não revela seus nomes. Contudo, ele adianta
que em 2007 espera faturar entre R$ 450 mil e
R$ 500 mil com a instalação de 15
monitores em máquinas já em operação
nas usinas. Para 2008, prevê que as vendas
dos aparelhos cheguem a R$ 1,5 milhão.
Se essa expectativa se confirmar, será
um grande salto para a Enalta: em 2005, a empresa
faturou ao todo R$ 1 milhão; em 2006, deverá
faturar R$ 1,6 milhão. Ou seja: a entrada
dos monitores no mercado representará,
para 2007, um aumento de 30% na receita desta
pequena que inova.
PIPE faz
parte do modelo de negócios
Trabalhar junto
com universidades com o apoio da Fapesp para desenvolver
produtos inovadores é o modelo de negócios
da Enalta. O projeto do monitor foi o terceiro
da empresa financiado pelo PIPE. Manzoni explica
que os recursos do PIPE são utilizados
para pagar testes, equipamentos, deslocamento
para o campo e mão-de-obra qualificada.
Segundo ele, a empresa procura contratar os pesquisadores
que recebem bolsas do programa após o término
dos projetos, pois eles já estão
treinados. "É um esforço muito
grande para adaptar os protótipos das universidades",
afirma.
Para a empresa,
o esforço vale a pena: um quarto projeto
PIPE começou recentemente. Em fase I —
para estudar a viabilidade —, o novo projeto,
intitulado "Sistema de precisão para
aplicação localizada de calcário
a taxa variada", é uma parceria com
pesquisadores da Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz da Universidade de São
Paulo (Esalq-USP). A Enalta também tem
parcerias de pesquisa com o Laboratório
de Automação Agrícola da
Escola Politécnica (Poli) da USP, com a
Embrapa Instrumentação Agropecuária
e com a Faculdade de Ciências Agronômicas
da Universidade Estadual Paulista (FCA-Unesp).
O PIPE
do monitor
Para desenvolver
o monitor, a Enalta recebeu R$ 313,248 mil da
Fapesp. O projeto foi aprovado no início
de 2005 diretamente para a fase II do PIPE —
isto é, sem estudo de viabilidade prévio
— e terminará em fevereiro de 2007.
Segundo Manzoni, a empresa investiu também
recursos próprios — cerca de R$ 40
mil por ano — na área de engenharia,
para melhorar o protótipo do sistema.
O empresário
diz que o produto já está pronto
para gerar os mapas de produtividade, mas ainda
precisa de ajustes na função de
pesagem da cana em tempo real. A Enalta fará
esses ajustes na entressafra, que começa
em dezembro, e espera concluí-los até
abril, quando tem início a nova safra.
A Usina São Martinho, de Pradópolis
(SP), cederá uma colhedora de mudas de
cana à empresa para o trabalho de melhoramento
do sistema de pesagem. O gerente da Divisão
Agrícola da Usina da Pedra, Sergio Luiz
Selegato, informa que os dois monitores adquiridos
pela multinacional também serão
usados na entressafra durante a colheita das mudas
para o plantio.
No contrato de
licenciamento da patente do sistema, negociado
com a Agência de Inovação
da Unicamp (Inova), ficou acertado que a Enalta
pagará royalties para a universidade
durante dez anos. O valor dos royalties
varia de acordo com a quantidade de sistemas que
forem vendidos: até quatro unidades, equivale
a 10% da venda; entre cinco e dez unidades, a
7%; de 11 a 50 unidades, a porcentagem cai para
5%; acima de 51 unidades, para 3%. No fim do ano
será feito o primeiro balanço entre
os parceiros. Se nenhum outro monitor for vendido
até lá, a Unicamp receberá
R$ 6 mil. Nesse caso, a universidade e a Feagri
ficarão, cada uma, com um terço
do montante, ou R$ 2 mil; os R$ 2 mil restantes
serão divididos entre os autores da patente.
Pelo contrato, a Enalta também se comprometeu
a pagar R$ 32 mil à Unicamp, em 18 parcelas,
para custar a parte do desenvolvimento feita na
universidade.
Agricultura
de precisão chega à cultura da cana
A chegada do monitor
ao mercado abre caminho para o emprego da agricultura
de precisão no cultivo da cana-de-açúcar
no Brasil, afirma o professor Paulo Graziano,
que orientou Domingos Cerri. Graziano diz que
essa técnica ainda não é
aplicada em escala comercial no País, embora
existam muitos estudos teóricos sobre o
assunto e algumas tentativas de grupos de pesquisa
que trabalham com a cana colhida manualmente.
Segundo ele, a tecnologia de produção
da cana é bastante atrasada se comparada
à de cereais como o milho, o trigo e a
soja. "A colheita da soja é 100% mecanizada;
a da cana, 35%. A tendência é aumentar
a mecanização, mas o processo ainda
é lento."
O baixo índice
de mecanização é uma das
barreiras para a expansão da área
plantada — movimento que tem sido estimulado
pelo crescimento da procura por combustíveis
alternativos. "Não podemos pensar
em mão-de-obra para fazer a colheita dessa
área de expansão", enfatiza
o professor. Ele calcula que o Brasil, maior produtor
de cana do mundo, tenha hoje em torno de 5,4 milhões
de hectares plantados. A cana é a terceira
maior cultura do País, atrás apenas
da soja e do milho.
Além de
aumentar a mecanização no campo,
Graziano diz ser necessário aprimorar as
máquinas que fazem a colheita. "Apesar
de as colhedoras sofrerem alguma alteração
todos os anos, seu conceito ainda é antigo",
afirma. Como exemplo, ele conta que as colhedoras
de cana conseguem colher somente uma fileira plantada
por vez, enquanto as de soja colhem várias
linhas ao mesmo tempo. Outro problema diz respeito
ao fato de o açúcar se concentrar
junto ao pé da cana, obrigando que o corte
seja feito o mais rente possível da terra.
"Como a máquina não tem um
bom equipamento para seguir esse perfil, ela às
vezes leva solo para usina, o que é prejudicial",
observa. "Além do mais, temos perdas
que chegam a 10% da colheita."
As dificuldades
não param por aí. Graziano lembra
que é preciso encontrar um meio de aproveitar
a palha da cana, que hoje é deixada no
campo, e de melhorar as espécies para que
produzam mais etanol. "Todos os melhoramentos
genéticos e estudos feitos em cima da cana
até hoje foram para que ela produzisse
mais açúcar", comenta. "Este
é o cenário que estamos vivendo.
Precisamos investir em novas tecnologias."
Mais pesquisa,
mais PIPE e mais uma empresa que inova!
A Feagri está
fazendo sua parte — nas próximas
semanas, realizará os testes finais com
um sistema que desenvolveu para ajudar a reduzir
o custo operacional das colhedoras, o Sistema
Transbordo-Colhedora (STC). O transbordo, explica
o professor, é composto por duas carretas
puxadas por um trator. "Se a máquina
parar e ele continuar, não há como
dar marcha ré; é preciso fazer uma
volta, o que atrasa a colheita", diz. Por
isso é importante que o transbordo e a
colhedora andem sempre paralelos, em sincronia.
O problema, continua Graziano, é que hoje
esse controle "é feito visualmente
e por meio de buzinadas". O STC é
bem mais confiável: seus sensores detectam
o posicionamento do transbordo; se a colhedora
for avançar, parar ou se o veículo
já estiver totalmente carregado, um sistema
de comunicação lhe transmite a informação
eletronicamente. A idéia é que o
produto seja comercializado pela Agricef, empresa
que Domingos Cerri abriu na Incubadora de Empresas
de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp).
A dupla Feagri
e Agricef deverá participar do próximo
PIPE da Enalta juntamente com a Poli-USP, o CTC
e a Embrapa Instrumentação Agropecuária.
O pedido de financiamento já foi encaminhado
à Fapesp, direto para a segunda fase do
programa. O objetivo dos parceiros é desenvolver
um sistema de gerenciamento global da colheita,
do qual fará parte o monitor de produtividade.
Esse sistema transmitirá para o escritório
da usina todas as informações relacionadas
aos transbordos, colhedoras e demais máquinas
no campo. O escritório poderá programar
melhor a fila de descarregamento na usina, pois
saberá o volume de cana que cada máquina
está colhendo e quanto cada transbordo
está trazendo para a moagem. O sistema
também será de grande utilidade
no caso de quebra da colhedora. Quando isso acontece,
conta o professor, a colheita pára, mas
a usina, sem saber, continua mandando transbordos
para serem carregados. "Quando a máquina
parar, o operador já vai saber o porquê,
e essa informação irá via
wi-fi direto para a central da usina."
Cleber Manzoni, dono da Enalta, está confiante
no sucesso do projeto: "O corte, o carregamento
e o transporte da cana representam 40% dos custos
de produção nas usinas", observa.
A pequena Agricef
é quem vai fornecer a parte mecânica
do monitor de produtividade para a Enalta. A empresa
incubada também está desenvolvendo
uma nova tecnologia para produção
de cana com recursos do PIPE. Trata-se de um "auxílio
mecânico" para a colheita manual —
ou seja, uma máquina que realiza as etapas
mais pesadas da atividade no lugar do trabalhador.
O projeto está sendo conduzido em parceria
com a Feagri. A primeira fase terminou em setembro
e a segunda deverá começar assim
que a Fapesp aprovar o relatório do que
foi feito até agora. A empresa já
construiu o mecanismo de tração,
a frente de alimentação da máquina,
a unidade que vai tirar a palha da cana e a carreta
de transporte. Para a próxima etapa ficarão
a montagem e os testes do protótipo. De
acordo com o engenheiro agrônomo Efraim
Albrecht, coordenador do projeto e sócio
de Cerri na empresa, o auxílio mecânico
melhora as condições de trabalho
do cortador de cana, aumenta a produção
por trabalhador, não substitui totalmente
a mão-de-obra e tem a vantagem de poder
ser usado em terrenos declivosos, ao contrário
das colhedoras convencionais.