Bioware
Empresa desenvolve tecnologias
para produzir bioóleo a
partir de resíduos; produto tem aplicação na indústria
química
Rachel
Bueno
A Bioware se graduou
na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica
da Unicamp (Incamp) em junho de 2005 e desenvolve
tecnologias para aproveitar resíduos orgânicos
como fonte de energia. A principal aposta da Bioware
é o bioóleo, produto obtido a partir
de diversos resíduos — entre eles,
a palha da cana-de-açúcar —
e que pode ser usado como insumo na indústria
química, como combustível em alguns
tipos de sistemas de geração e máquinas
térmicas e como substituto do fenol petroquímico
em resinas fenólicas, entre outras aplicações.
O bioóleo foi tema da tese de doutorado
que José Dilcio Rocha, um dos dois sócios
da empresa, defendeu na Faculdade de Engenharia
Mecânica (FEM) da Unicamp em 1997. Em seguida,
ele fez pós-doutorado no Laboratório
Nacional de Energia Renovável dos Estados
Unidos.
A Bioware monta
plantas-piloto para desenvolver suas tecnologias.
Além do bioóleo, a empresa sabe
fabricar, entre outros produtos, pequenos tijolinhos
feitos de resíduos como a serragem, que
podem ser queimados no lugar do carvão.
Os maiores chamam-se briquetes e os menores, pellets.
Para cada tecnologia, os sócios querem
oferecer aos clientes um pacote completo, que
inclui processo de produção, projeto
para utilizá-lo em escala industrial, cálculos
do investimento a ser feito, equipamentos necessários
— fabricados por companhias parceiras —,
consultoria e todos os serviços. Por isso,
as plantas-piloto são uma importante vitrine.
Até agora,
as vendas da Bioware têm sido de serviços
menores, mas os sócios estão confiantes:
esperam faturar entre R$ 250 mil e R$ 300 mil
em 2006, e acreditam que atingirão a meta.
Os clientes potenciais são pequenas e médias
empresas e prefeituras interessadas em aproveitar
algum tipo de resíduo na geração
de energia. Durante sua permanência na Incamp,
a Bioware recebeu dinheiro de agências de
fomento, mas não teve faturamento.
As agências
são a maior fonte de recursos para a Bioware
agregar pessoal. Segundo o engenheiro químico
Juan Miguel Mesa Pérez, o outro sócio
da empresa e também doutor pela Unicamp,
os financiamentos que elas concedem têm
a vantagem de ser a fundo perdido — e "em
quantidade quase igual à do investimento
que alguém faria e cobraria o retorno no
curto prazo".
A maioria dos
15 profissionais ligados à Bioware recebe
bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq)
— de fomento tecnológico ou do Programa
de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas
(RHAE). A empresa conta ainda com a colaboração
de um doutor, remunerado pelo Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe)
da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp), e de três
alunos de pós-graduação da
Unicamp. Dois deles fazem mestrado em planejamento
energético e o outro está no doutorado
da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri).
O doutor remunerado
pelo Pipe participa de um projeto da segunda fase
do programa, cujo valor gira em torno de R$ 320
mil. O projeto é sobre o processo de briquetagem
e torrefação de resíduos.
Isso significa formar briquetes por meio da compactação
de resíduos como a serragem, e em seguida
tratá-los termicamente para que fiquem
torrados. A vantagem dos briquetes em relação
ao carvão está no aproveitamento
de resíduos como matéria-prima,
o que evita o corte de árvores.
A Bioware aguarda
o julgamento de mais dois projetos dentro Pipe,
um para a fase I e outro para a fase II. O da
fase II pretende melhorar o processo de produção
do bioóleo e ampliar a planta-piloto, hoje
capaz de processar 200 quilos de resíduos
por hora. O bioóleo resulta da condensação
do vapor gerado pelo aquecimento dos resíduos.
Juan Pérez explica que o produto possui
uma série de compostos e, como o petróleo,
precisa ser refinado. A empresa quer, com o projeto,
colocar os equipamentos necessários na
planta-piloto para transformar parte do bioóleo
em um combustível similar ao biodiesel.
A planta-piloto
de bioóleo entrou em funcionamento em 1999.
Operou em uma usina de cana-de-açúcar
em Piracicaba (SP), mas atualmente está
desmontada. Os sócios planejam instalá-la
em Nova Odessa, na Região Metropolitana
de Campinas, ou em alguma usina. Para as usinas
seria interessante ter uma planta industrial de
bioóleo, pois a palha da cana, normalmente
descartada, poderia ser aproveitada. Dilcio calcula
que uma planta capaz de processar uma tonelada
por hora custaria R$ 2 milhões.
Ainda em relação
ao bioóleo, a Bioware espera a aprovação
da segunda fase de um projeto financiado pelo
Ministério de Minas e Energia para melhorar
o trabalho da planta-piloto, acumular horas de
operação, ampliá-la para
produzir aditivo de petróleo e biodiesel
de biomassa, realizar testes de mercado etc. Na
primeira fase, o valor do financiamento foi de
aproximadamente R$ 400 mil. A segunda fase foi
orçada em cerca de R$ 700 mil.
Em 1998, antes
da formação da Bioware, a Unicamp
requereu a patente intitulada "Bioóleo
para emprego como fonte de insumos para a indústria
química e método para sua obtenção".
De autoria do próprio Dilcio e do professor
Carlos Alberto Luengo, do Instituto de Física
Gleb Wataghin (IFGW), a patente faz parte do portfolio
da Agência de Inovação da
Unicamp (Inova). A empresa vai solicitar a patente
para outras aplicações do produto.
O Pipe fase I
que ainda aguarda julgamento não tem relação
com energia renovável. O objetivo da empresa
é montar uma planta-piloto de alginato,
polímero natural feito de algas marinhas
que pode servir para estampar tecidos, estabilizar
sorvetes e espessar xampus, além de ter
aplicações em áreas como
odontologia, vernizes e tintas etc. "Já
temos experiência com essa tecnologia, mas
com algas que não são brasileiras",
revela Pérez. Durante seu mestrado na Universidade
de Oriente, em Cuba, ele desenvolveu uma tecnologia
para obter alginato de sódio a partir de
algas pardas. Com o projeto, a Bioware pretende
adaptá-la para as algas encontradas no
Brasil
A Bioware também
conhece a tecnologia para fabricação
de pellets. Tijolinhos menores que os briquetes,
eles são igualmente feitos de resíduos
e geram energia quando são queimados. "Estamos
fazendo um projeto para um cliente produzir mil
toneladas de pellets por dia", conta Dilcio,
que calcula o custo da planta em R$ 10 milhões.
Ele diz que o destino da produção
seria o mercado externo, já que os pellets
são bastante usados para aquecer casas
nos países frios, mas não têm
demanda no Brasil.
A empresa é
parceira da Unicamp no projeto "Gaseificação
de Biomassa", coordenado pelo Núcleo
Interdisciplinar de Planejamento Energético
(Nipe). Em andamento desde dezembro de 2005, o
projeto terá dois anos de duração
e conta com recursos da Petrobras e da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep). A gaseificação
de biomassa, explica Dilcio, é um processo
parecido com o que dá origem ao bioóleo,
mas o produto final é um gás, queimado
em motor para gerar energia. "O Nipe tem
sido um órgão da universidade que
está muito sensível à transformação
da tecnologia em aplicações de mercado
— ou seja, o que nós fazemos",
diz ele.
Por conta de trabalhos
como esse, os sócios da Bioware dividem-se
entre o escritório da empresa, no distrito
de Barão Geraldo, em Campinas — onde
fica também o campus da Unicamp
— e o Laboratório de Combustíveis
Renováveis, no IFGW. Na opinião
de Dilcio, as empresas que nascem em incubadoras
"estão condenadas, no bom sentido",
a ter uma ligação com sua instituição
de origem. Para ele, esse vínculo "é
saudável" e ajuda a manter a empresa
inovando.
A Unicamp não
é a única parceira acadêmica
da Bioware. Em abril, a empresa iniciou uma parceria
com a Universidade do Oeste de Ontário
(University of Western Ontario) e a empresa RTI,
incubada na Universidade de Waterloo, ambas no
Canadá. A Bioware mantém outra parceria
internacional com um grupo da Universidade de
Zaragoza, na Espanha.
Na Austrália,
a Bioware tem contatos com as Universidades Monash
e de Melbourne e com a empresa pública
Csiro. Por se parecer com Brasil em termos de
biomassa, Dilcio vê grandes chances de cooperação
com o país. "Talvez o que tenha atrasado
um pouco seja o fato de a Austrália não
ser um signatário do Protocolo de Kyoto",
observa. Aqui no Brasil, a Bioware vai testar
o bioóleo em turbinas a gás junto
com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica
(ITA), em São José dos Campos (SP).
Nos cálculos
dos sócios, a Bioware já participou
de mais ou menos 40 eventos no Brasil e no exterior,
entre feiras, congressos e workshops.
As participações costumam render
artigos de divulgação da empresa
e de suas tecnologias. Artigos científicos
em revistas de impacto mundial são cinco,
segundo Pérez. "Temos plantado muito",
completa Dilcio. "Nosso networking
é fantástico, só falta transformá-lo
em tangíveis. Mas estamos animados e não
pretendemos fechar a empresa no curto prazo. As
pessoas dizem que estamos no caminho certo."
Especificamente
para a Bioware, Dilcio acredita que o período
de incubação poderia ter sido mais
longo que os três anos permitidos pela Incamp.
"Quando começamos a empresa, éramos
100% pesquisadores", diz, lembrando que a
transformação de um acadêmico
em empresário é "profunda,
gradual e individual". Administrar uma empresa,
com as dificuldades inerentes a essa tarefa —
manejar fluxo de caixa, lidar com funcionários
e colaboradores, chegar aos resultados e faturamento
esperados —, é muito diferente, segundo
ele, de administrar projetos de pesquisa na universidade.
"Hoje, depois
do tempo na incubadora e de um tempo fora dela,
evoluímos bastante e temos uma consciência
e formação de empresários
que são inegáveis, e que não
tínhamos anteriormente", destaca.
"Costumo dizer que fizemos um MBA na prática
— ou na marra." Os sócios afirmam
que a saída da Incamp foi tranqüila,
pois já sabiam a quem recorrer —
ou seja, às pessoas que os ajudaram dentro
da incubadora, com a diferença de que,
fora dela, teriam de pagar pelos serviços.