Embrarad
Projeto de pesquisa que modifica
plástico amplia possibilidades
de negócio e capacitação tecnológica de empresa
irradiadora
Evanildo
da Silveira
Em 1962, enquanto
fazia irradiações para esterilização
de material cirúrgico no Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares (IPEN), então
chamado Instituto de Energia Atômica (IEA),
o físico Dirceu Martins Vizeu teve a idéia
de criar uma empresa para fazer esse tipo de trabalho.
Dezesseis anos depois, em 1978, ele fundava a
Empresa Brasileira de Radiação (Embrarad),
que começou a funcionar de fato em 1980.
Pioneira na América do Sul no uso da radiação
gama em escala comercial, hoje é uma das
maiores empresas do setor no continente, esterilizando
80 mil metros cúbicos por ano dos mais
variados materiais.
Com 3.500 metros
quadrados, construídos num terreno de cinco
hectares ao lado de uma área de preservação
ambiental no município de Cotia, a 30 quilômetros
da capital paulista, a Embrarad trabalha com raios
gama, gerados por dois irradiadores que têm
cobalto 60 como fonte. Esse isótopo do
cobalto emite raios gama ininterruptamente. Para
evitar que eles se espalhem, os irradiadores estão
confinados em duas salas, de 200 metros quadrados
cada, com paredes de concreto de um metro e meio
de espessura: 3 mil toneladas de concreto em cada
uma.
É lá
dentro delas que o material a ser esterilizado
é exposto à radiação
do cobalto 60. Cerca de mil clientes usam os serviços
da Embrarad, o que rendeu no ano passado um faturamento
de R$ 10 milhões. A empresa esteriliza
produtos médicos descartáveis —
como luvas, agulhas e seringas, material cirúrgico,
odontológico, de laboratório, e
também frascos, embalagens e fármacos.
"Além disso, usamos a radiação
para a descontaminação de cosméticos,
fitoterápicos, chás, alimentos,
especiarias, condimentos e corantes", diz
Vizeu. "A coloração de vidros,
pedras preciosas, melhoria de fibras sintéticas
e de polímeros são outros serviços
que fazemos com o uso de raios gama."
PIPE:
maior conteúdo tecnológico para
a empresa
Mas o uso industrial
de raios gama não se limita à esterilização
de materiais. Eles também podem ser usados
para modificar a estrutura de alguns deles, criando
um novo material. Foi o que a Embrarad e o IPEN,
em conjunto com a empresa petroquímica
Braskem, fizeram entre 2003 e 2005. Com financiamento
de R$ 300 mil do Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE),
da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp), os três
parceiros desenvolveram um polipropileno (PP)
com alta resistência quando fundido.
O engenheiro químico
Ademar Lugão, gerente adjunto do Centro
de Química e Meio Ambiente (CQMA) do IPEN,
que coordenou a pesquisa, explica que o polipropileno
é um dos plásticos de maior consumo
no mundo, por causa de suas propriedades excepcionais
e baixo preço de mercado. No entanto, o
PP apresenta algumas dificuldades de processamento,
pois sua viscosidade na temperatura de processo
é muito baixa. "No caso do PP fundido,
a viscosidade é muito baixa", explica
Lugão. "Dizemos que o PP apresenta
baixa resistência do fundido, tornando difícil
ou mesmo impossível a fabricação
de inúmeros produtos."
Por isso, os pesquisadores
usaram a radiação gama para modificar
a estrutura das moléculas do polipropileno.
Normalmente, elas são lineares e podem
ser pensadas como se fossem "espaguetes".
Se as forças de adesão entre as
moléculas (os "espaguetes") forem
fracas — como acontece quando o PP é
fundido —, elas escorregam com facilidade
uma em relação à outra. É
essa característica que traz a baixa viscosidade.
"O processamento para a obtenção
do produto final é sempre realizado no
estado de fusão", explica Lugão.
"É nesse estado que ele se transforma
de matéria-prima em produto. Portanto as
propriedades físicas dessa massa no estado
de fusão são fundamentais para o
processamento eficiente e livre de defeitos do
PP."
Nas máquinas
da Embrarad, o polipropileno fornecido pela Braskem
foi submetido à radiação
— com o objetivo de criar ramificações
nos "espaguetes" de PP. "Os raios
gama emaranharam as moléculas, tornando
as ligações entre elas muito mais
fortes e, portanto, aumentando a chamada viscosidade
do estado fundido", explica Lugão.
Os experimentos foram bem-sucedidos: "Nosso
trabalho ampliou as aplicações já
enormes do PP. Tornará possível
a fabricação de novos produtos,
como espumas de baixa densidade para uso na indústria
automobilística. Além disso, os
produtos que já eram feitos com o PP não
modificado poderão ser fabricados agora
com muito maior eficiência, número
de falhas muito menor e, em muitos casos, maior
produtividade."
Para a Embrarad,
o projeto de pesquisa criou a possibilidade de
um novo negócio. "A nossa intensa
participação em todas as fases da
pesquisa tornou possível para a Embrarad
o domínio do conhecimento de técnicas
industriais de manipulação da estrutura
molecular do polipropileno por meio da radiação",
diz Vizeu. O PIPE teve ainda outra importância
para a empresa: "Esse projeto consolidou
uma parceria com o grupo de polímeros do
IPEN. O conhecimento gerado agregou à Embrarad
uma competência útil, que podemos
classificar de spin-off do PIPE, haja
vista que a maioria dos produtos processados por
radiação é constituída
de polímeros. Portanto, a Embrarad é
hoje uma empresa mais capacitada a prestar um
serviço com maior conteúdo tecnológico."
A potência
da irradiação
No cotidiano da
empresa, os materiais a ser esterilizados entram
nas salas onde estão os irradiadores sobre
esteiras, em pequenos contêineres, um com
capacidade de 720 litros e outro de 250 litros,
e dão duas voltas em torno da fonte de
raios gama. Não há microorganismo
que resista. Na verdade, nenhum ser vivo sobreviveria
naquele local. "As doses de radiação
podem chegar a 20 mil Gy (grays), que é
a unidade de medida que se usa nesse caso",
explica Vizeu. "Para se ter uma idéia
de quanto isso é alto, basta comparar com
a radiação natural encontrada na
atmosfera, que é de 0,001 Gy, ou seja,
1 mGy (miligray)." Outra comparação:
a Comissão Nacional de Energia Nuclear
(CNEN), seguindo normas internacionais, estabelece
em 0,05 Gy (50 miligrays) por ano o limite a que
uma pessoa pode ficar exposta.
Apesar das altas
doses, não sobram vestígios da radiação
gama no material esterilizado nem na sala onde
ocorre a irradiação. Raios gama
nada mais são do que ondas eletromagnéticas,
assim como os raios X e a luz. As diferenças
são a freqüência e o tamanho
das ondas. Os raios gama têm a freqüência
mais alta e o menor tamanho de onda de todo o
espectro eletromagnético, com exceção
dos raios cósmicos. Daí sua capacidade
de penetrar fundo na matéria. Mas, uma
vez isolada a fonte, a radiação
desaparece. "É como a luz", explica
Vizeu. "Quando a lâmpada é desligada,
não sobram vestígios dela."
No caso da radiação
gama, no entanto, não é possível
desligar a fonte. O que é feito para que
as pessoas possam entrar na sala do irradiador
é mergulhar o cobalto 60 num poço
de água, com seis metros de profundidade.
"A densidade do concreto é 2,35 vezes
maior do que a da água", explica Vizeu.
"Então, um poço de água
de 2,35 metros de profundidade tem a mesma capacidade
de isolamento que uma parede de concreto de um
metro de espessura."
Outra prova de
que a radiação gama não deixa
vestígios no material que a recebe é
o fato de ela ser usada em alimentos, para reduzir
a quantidade de microorganismos e, com isso, aumentar
seu tempo de conservação. Em sua
mesa na Embrarad, Vizeu sempre tem um pacote de
pão de fôrma irradiado, que dura
até seis meses sem embolorar. "O tratamento
de alimentos por meio da radiação
gama é um método conhecido e aprovado
pela legislação brasileira desde
1985", diz. "No mundo, esse método
vem sendo estudado há mais de 50 anos,
inclusive por nós. Dentre os produtos pesquisados,
hoje já se pode afirmar a eficiência
do processo em diversos alimentos, especiarias
e condimentos, ervas e chás, carnes, frangos,
peixes e uma vasta variedade de frutas secas e
in natura e vegetais."
Cooperação
resulta na formação de mestres e
doutores
Embora seja uma
empresa pequena — tem 50 funcionários
— e não tenha um departamento de
pesquisa, Vizeu assegura que a Embrarad é
inovadora. "Cada produto irradiado é
fruto de um projeto específico, desenvolvido
em parceria com o cliente", explica. "Se
queremos usar a radiação para retardar
o amadurecimento de uma determinada fruta, por
exemplo, temos de verificar qual a dose ideal.
Isto é, aquela que provoca o efeito que
procuramos, sem que se altere as características
químicas e sensoriais (sabor, odor e consistência)
da fruta."
Para analisar
os produtos quanto a esses e outros aspectos,
a Embrarad tem parcerias com várias universidades,
como a de São Paulo (USP), Estadual Paulista
(Unesp), Federal de Pernambuco (UFPE) e a Unicamp,
além de institutos de pesquisa, como o
IPEN. "Essas nossas parcerias já renderam
20 dissertações de mestrado; 15
teses de doutorado desenvolveram projetos com
a Embrarad", orgulha-se Vizeu. "Além
disso, o desenvolvimento de projetos de irradiação
com os clientes sempre agrega um valor incremental
elevado aos seus produtos."