Sun
Quartz
Com recursos do PIPE e do
MCT, a mais nova filha da parceria Unicamp-Telebrás
tem tecnologia própria na área de fibras óticas
Rachel
Bueno
A pequena Sun
Quartz, que tem pouco mais de três anos
de vida, graduou-se em julho na Incubadora de
Empresas de Base Tecnológica da Unicamp
(Incamp). O endereço da empresa, no entanto,
nunca foi o da incubadora — era, e ainda
é, o do Laboratório Ciclo Integrado
de Quartzo da Faculdade de Engenharia Mecânica
(LIQC-FEM) da universidade. O professor Carlos
Kenichi Suzuki, da FEM, coordena o laboratório
e também é um dos três sócios
da empresa. No LIQC foi desenvolvida a tecnologia
que é o patrimônio básico
da Sun Quartz: a fabricação de fibras
óticas pelo processo de deposição
axial na fase de vapor (VAD, sigla em inglês).
Somando o conhecimento acumulado pelo trabalho
no laboratório a mais pesquisa financiada
com recursos vindos do Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE),
da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp), a Sun
Quartz desenvolveu uma fibra ótica especial
processada pela tecnologia VAD. Embora o produto
esteja pronto para o mercado, a prioridade da
empresa não é começar já
a comercialização. No momento, os
sócios estão mais interessados em
pesquisar e desenvolver fibras óticas para
sensoriamento e lentes de alta resolução,
outros dois produtos de ponta.
Mercado
A Sun Quartz decidiu
concentrar seus esforços em produtos altamente
tecnológicos por acreditar que, dessa forma,
poderá tirar o melhor proveito do fato
de ser uma empresa pequena. O engenheiro químico
Robinson Luiz Braga, outro dos sócios,
lembra que as fibras óticas especiais têm
muito mais valor agregado do que as fibras comuns,
usadas para telecomunicações, hoje
vistas como commodities. Estas, observa
ele, só dão lucro quando produzidas
em larga escala, o que já é feito
por várias companhias no mundo. "Isso
sai do foco de uma empresa pequena", comenta.
Por outro lado, a pequena tem condições
de criar fibras específicas para diferentes
tipos de aplicações — uma
tarefa complicada para quem produz milhões
de quilômetros de fibras comuns.
A fibra que a
Sun Quartz desenvolveu no projeto financiado pelo
PIPE é dopada com érbio. Isso significa
que os pesquisadores da empresa colocaram átomos
do elemento químico érbio em uma
fibra ótica comum, que é feita de
sílica — quer dizer, vidro. A presença
dos átomos de érbio muda as propriedades
da fibra comum. No caso, o que interessa é
a propriedade que as fibras dopadas com érbio
têm de amplificar sinais de luz. Nas redes
óticas, a informação é
transmitida pela luz que percorre a fibra. À
medida que caminha por dentro de quilômetros
de fibra, o sinal de luz vai perdendo força
— sofrendo atenuação, como
dizem os especialistas. Segundo Suzuki, costuma-se
emendar uma fibra amplificadora depois de 40 quilômetros
de fibra comum, em média. Outra aplicação
possível para a fibra da Sun Quartz é
em fiber lasers — ou lasers
à base de fibra ótica. O mercado
para esse tipo de laser, diz o professor,
tem crescido cerca de 35% por ano, contra 9% de
crescimento da indústria de laser como
um todo.
A empresa concluiu
a fase II de seu projeto no PIPE no final de maio
de 2006 após dois anos de trabalho, durante
os quais recebeu R$ 307,627 mil e US$ 12,7 mil
— para importação de equipamentos
— da Fapesp. "Já tínhamos
a tecnologia VAD, mas o PIPE foi fundamental para
desenvolvermos o produto", destaca Suzuki.
"Se não existissem os recursos oriundos
dos órgãos de fomento, realmente
ficaria inviável", completa Robinson,
que tem 20 anos de trabalho com fibras óticas
no currículo. "Mas, mais do que os
recursos, o que falta mesmo é uma política
industrial para o setor", acrescenta ele.
"Os esforços e estratégias
são particulares de cada empresa. O País
perde oportunidade justamente por não ter
diretrizes políticas para apoiar de forma
mais estruturada o funcionamento dessas empresas."
Apesar de pronta,
a fibra amplificadora da Sun Quartz ainda não
está no mercado. "A fibra amplificadora
em si não é um produto final, ela
precisa de um sistema para ser utilizada",
explica Rita Jacon, técnica de nível
universitário da FEM já aposentada,
que completa o quadro de sócios da empresa.
O professor Suzuki completa: "É possível
fazer um sistema e colocá-lo dentro de
uma caixa, mas essa caixa precisa ser integrada
a outro sistema maior. A dificuldade no Brasil
é que não existem outras empresas
que consigam integrar tudo isso."
Tecnologia
No final da década
de 1970, o governo federal brasileiro —
na época, sob o domínio dos militares
— decidiu modernizar as telecomunicações.
Ou seja: implantar no País a tecnologia
das comunicações óticas.
O fundamental do desenvolvimento tecnológico
necessário foi realizado por meio da parceria
Unicamp-Telebrás (Inovação
publicou depoimentos
de vários dos participantes, na série
40 anos de Unicamp). Na época, a tecnologia
para a fabricação de fibras óticas
escolhida foi a de deposição de
vapor químico modificado (MCVD), criada
nos Estados Unidos pelos laboratórios Bell
e pela Corning. Essa tecnologia foi transferida
pela Telebrás para a empresa Xtal, de Campinas
(SP).
No começo
dos anos 1980, quando voltou ao Brasil depois
de concluir seu doutorado no Japão, o professor
Suzuki foi convidado a entrar no projeto Unicamp-Telebrás
por um de seus principais articuladores, José
Ellis Ripper. A ele coube a missão de desenvolver
tubos de sílica no País —
a fabricação de fibras óticas
por meio da tecnologia MCVD depende do uso desses
tubos, a partir dos quais são feitos o
núcleo e a casca das fibras.
Esse objetivo,
no entanto, não foi alcançado até
o final do projeto. A sílica, matéria-prima
do vidro, deriva do quartzo, mineral cuja maior
reserva mundial encontra-se no Brasil. Apesar
disso, o País não possui até
hoje nenhuma indústria que produza esses
tubos — eles têm de ser importados.
"O dado que tenho é de que o custo
desses tubos era da ordem de 70% do custo da fibra",
diz Suzuki, ao listar as vantagens da tecnologia
VAD, desenvolvida no Japão, país
com o qual o professor ainda mantém fortes
ligações acadêmicas. Quando
a Telebrás interessou-se pela tecnologia
VAD, que evitaria a importação dos
tubos de sílica, não conseguiu comprá-la.
Nanopartículas
de sílica e seis patentes
Na tecnologia
VAD, nanopartículas de sílica geradas
dentro de uma câmara especial aderem a um
bastão de sílica em rotação,
dando origem a uma pré-forma. Essa pré-forma
é depois esticada em uma torre de puxamento
até atingir a espessura da fibra ótica.
Durante o processo de fabricação
da pré-forma é possível controlar
uma série de propriedades — temperatura,
homogeneidade, dopagem — para adequar a
futura fibra a uma determinada aplicação.
"É uma tecnologia muito versátil",
salienta Suzuki.
Em 1995, o grupo
do professor começou a pesquisar a tecnologia
VAD na Unicamp. "O que fizemos foi desenvolvê-la
a duras custas, catando grãos", diz
ele. Na empreitada, que incluiu a montagem dos
equipamentos necessários para a utilização
da tecnologia, os pesquisadores contaram com a
ajuda da XTal — na época, Robinson
era o responsável pelo contato dessa empresa
com a universidade — e de consultores japoneses.
Suzuki tinha um bom relacionamento com o Japão
porque, além de ter se doutorado lá,
havia comandado dois projetos na Unicamp em cooperação
com órgãos do governo daquele país:
um "para tentar entender melhor os recursos
do quartzo brasileiro" e outro para desenvolver
a sílica vítrea.
O desenvolvimento
da tecnologia VAD e de seus equipamentos foi concluído
em 2005, dez anos depois de seu início.
De 1998 a 2003, o desenvolvimento encaixou-se
em um projeto do Programa de Apoio ao Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (PADCT)
da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
O projeto recebeu US$ 1 milhão, sendo que
uma porcentagem desse valor veio do Banco Mundial.
Ao todo, o desenvolvimento gerou seis pedidos
de patentes. "Hoje podemos falar que temos
o domínio completo dessa tecnologia, para
fazer a fibra ótica e qualquer outro tipo
de material", diz o professor, orgulhoso.
A Sun Quartz usufruiu
a infra-estrutura do LIQC enquanto esteve incubada
— segundo Suzuki, foi uma incubação
de "forma virtual", porque a empresa
não ocupou nenhum dos módulos disponíveis
na Incamp. Agora, graduada e ainda sem sede própria,
a Sun Quartz pretende estabelecer um contrato
de utilização do laboratório
com a Unicamp. "Se no futuro próximo
houver demanda por produto, teremos condições
de entrar no circuito e aí pensaremos em
montar uma certa infra-estrutura", diz o
professor. "Sem uma demanda muito bem definida,
não há motivo para fazermos esse
investimento." O laboratório da universidade
tem todos os equipamentos — caros —
necessários para a produção
das pré-formas e o controle de qualidade
das fibras; o puxamento, que é uma etapa
mais rotineira, precisa ser feito em outro lugar,
pois requer uma torre alta.
Futuros
produtos
A proximidade
entre a Sun Quartz e a Unicamp poderá render
um novo produto para a empresa fabricar no futuro.
No começo deste ano, a universidade fechou
um acordo de pesquisa cooperativa com a japonesa
Nikon. De acordo com Suzuki, essa companhia, muito
conhecida por suas câmeras fotográficas,
lidera a produção de equipamentos
para imprimir chips: é responsável
por 50% das máquinas vendidas em todo o
mundo, as quais custam cerca de US$ 20 milhões
cada uma. Com a parceria, a Nikon espera desenvolver
lentes capazes de aumentar a resolução
espacial da impressão das linhas dos chips.
As lentes terão de trabalhar com um comprimento
de onda inferior ao ultravioleta, usado atualmente.
"Esse material não existe hoje com
tanta perfeição", comenta o
professor.
A propriedade
intelectual resultante da pesquisa conjunta será
dividida, meio a meio, entre a Unicamp e a Nikon.
A Sun Quartz está acompanhando todo o trabalho
de perto — o que a coloca em vantagem em
relação a outras empresas para ser
a fabricante das lentes. "A Unicamp é
um órgão de treinamento de recursos
humanos, de pesquisa, mas não de transformação
de tecnologia em produto", explica Suzuki.
"Se tiver de industrializar, há a
empresa para isso, com pessoal treinado, com recursos",
completa Robinson.
A própria
Sun Quartz já foi procurada por uma empresa
norte-americana — cujo nome é mantido
em sigilo —, interessada em estabelecer
uma parceria de pesquisa. "Fomos sondados
e vamos fazer os primeiros testes para avaliar
a viabilidade de termos um contrato ou não",
diz Robinson. O objetivo da cooperação,
se ela vier a existir, será a obtenção
de guias de ondas planárias para fibras
usadas como sensores. Para explicar o que é
isso, o engenheiro compara essas fibras especiais
com as fibras comuns, para telecomunicações:
"O grande desafio do desenvolvimento tecnológico
das fibras para telecomunicações
foi ter um nível de perda de sinal muito
baixo. No caso das fibras sensoras, o desafio
é ter uma propriedade de guiamento ótico
que conferira as características de sensoriamento
à fibra — por exemplo, uma modulação
do sinal luminoso em resposta a uma variação
de temperatura ou pressão."
Os sensores à
base de fibras óticas podem ser usados
pela indústria de segurança, em
dutos de petróleo, em pedágios etc.
Ao contrário dos sensores comuns, eles
ficam escondidos dentro das estruturas: em uma
parede, sob o piso ou sob uma estrada. "O
espectro de aplicações é
vastíssimo", comenta Suzuki. Ele ressalta,
contudo, que a Sun Quartz não tem interesse
em cuidar da parte de serviços, de instalação
desses sensores. "Poderia haver uma outra
empresa para colocar os desenvolvimentos de fibras
especiais no mercado. Não temos tempo,
pessoal nem disposição para fazer
isso."
Equipe
A equipe da Sun
Quartz é formada pelos três sócios
mais um doutor em engenharia mecânica, um
graduado em química, um técnico
em mecânica e três alunos do curso
de mecatrônica da Unicamp. Suzuki e dois
dos alunos são os únicos que não
recebem bolsas do Programa de Recursos Humanos
para Atividades Estratégicas (RHAE) do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq). Os dois alunos as
recebiam até agosto, mas agora são
bolsistas da Fapesp.
Em relação
aos planos para o futuro, Suzuki diz que está
deixando tudo nas mãos dos outros dois
sócios, já que é docente
em tempo integral na Unicamp. "Minha função
é muito mais de sócio fundador:
ver as interfaces em termos nacionais e internacionais,
fazer projetos, captar recursos, orientar",
avalia. A Sun Quartz ainda não tem metas
definidas para o início das vendas. Rita
Jacon conclui: "Talvez continuemos sem comercializar
nada até que apareça uma oportunidade
de negócio que dê para sobrevivermos
no mercado. A idéia é continuar
desenvolvendo."